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Impacto do Acesso Aberto na Ciência Brasileira: Uma Análise Crítica

Pesquisadores brasileiros têm se engajado ativamente no movimento de acesso aberto (“Open Access“), mas será que isso está realmente ampliando o alcance global de suas publicações?

Segundo um artigo recente publicado nos Anais da Academia Brasileira de Ciências (AABC), o cenário é complexo e desafiador. A pesquisa revela que, embora autores brasileiros publiquem mais artigos em acesso aberto do que seus colegas globais, especialmente em periódicos do Sul Global, isso não necessariamente se traduz em maior impacto ou mais citações.

O estudo, liderado pelos pesquisadores Connie McManus (UnB, titular ABC), Claudia Figueiredo (UFRJ, ex-afiliada ABC 2015-2019), Brenno da Silveira Neto (UnB, ex-afiliado ABC 2014-2018) e Abilio Baeta Neves (UFRGS e PUC-RS, colaborador ABC), realizou uma análise abrangente dos artigos científicos publicados pelos 267.823 doutores formados no Brasil no período de 2005 a 2021, em todas as áreas do conhecimento. A pesquisa se debruçou sobre as bases de dados da Web of Science e Scopus entre os anos de 2013 e 2022. O foco foi mapear a visibilidade internacional das publicações, avaliando a acessibilidade dos periódicos e utilizando indicadores-chave de qualidade científica para comparar tendências globais. Como parâmetro de qualidade foram utilizados a porcentagem de documentos citados, o fator de impacto do periódico (JIF) e o Category Normalised Citation Index (CNCI) de cada artigo. O JIF mede a média de citações recebidas por artigos em um jornal específico em um ano, enquanto o CNCI ajusta as métricas de citação pela área de pesquisa, comparando as citações de um artigo com a média de sua categoria.

Os resultados mostraram que, para autores brasileiros, a escolha pelo acesso aberto não melhorou significativamente o número de citações (%DocCited, ver figura abaixo) ou o impacto de suas pesquisas. Enquanto o acesso aberto se correlaciona com a qualidade para autores globais, no caso brasileiro, não houve impacto significativo. Um ponto importante abordado no estudo é a influência positivas das colaborações internacionais, especialmente com a indústria, no impacto dos artigos. Isso destaca a importância de fortalecer as redes de colaboração e buscar parcerias que transcendam fronteiras nacionais.

Além disso, a escolha de publicar em revistas do Norte Global está intimamente ligada à área de estudos. Temáticas de interesse nacional ou do Sul Global, em algumas ocasiões, podem ganhar mais destaque se divulgadas em periódicos do Sul, variando bastante conforme a área de pesquisa. Esta é uma reflexão importante sobre como a escolha do periódico deve considerar a relevância e o público-alvo do estudo.

Importante ponderar que periódicos de grande impacto, como Nature e Science, adotam políticas de acesso aberto obrigatórias, o que implica em taxas elevadas de publicação. Enquanto revistas predatórias ou de baixa qualidade podem cobrar cerca de mil dólares por publicação em acesso aberto, periódicos com rigorosa política editorial como Nature e Science cobram em torno de 5 a 10 mil dólares. Essa realidade apresenta um desafio significativo para pesquisadores de países com recursos limitados, como o Brasil. É crucial, portanto, que os investimentos para publicações em acesso aberto sejam direcionados de maneira estratégica, e não dispersos em publicações de pouca visibilidade.

A pesquisa conclui que a atual política de acesso aberto não tem alcançado o objetivo de melhorar o impacto da ciência brasileira. Isso sinaliza a necessidade de reavaliar as estratégias de publicação e políticas públicas científicas no Brasil, considerando não apenas o acesso aberto, mas também a qualidade e a visibilidade global das pesquisas.

Este estudo é crucial para compreender a dinâmica do acesso aberto na ciência brasileira e seu papel na comunidade científica global. Ele destaca a necessidade de uma política de publicação mais robusta que equilibre acesso, qualidade e visibilidade internacional, garantindo que os investimentos em pesquisa retornem em termos de maior alcance e reconhecimento global.

Figura 3 do artigo. Autores brasileiros publicam mais em acesso aberto, sobretudo em journals do Sul Global. a-b) Publicações de acesso aberto e fechado no Norte e Sul Global por autores brasileiros (a) ou internacionais (b). c-d) Porcentagem de periódicos de acesso aberto onde publicam autores brasileiros (c) ou mundiais (d) no Sul ou Norte Global. e-f) Média do Fator de Impacto de Periódicos (JIF) de artigos de acesso aberto ou fechado publicados por autores brasileiros (e) ou mundiais (f) em periódicos do Norte e do Sul Global (a linha pontilhada representa o que se espera de um JIF adequado). g-h) Porcentagem de documentos citados (%DocCited) publicados por autores brasileiros (g) ou mundiais (h) em periódicos abertos ou fechados do Norte e Sul Global. i-j) Média do Category Normalised Citation Index (CNCI) de artigos de acesso aberto ou fechado publicados por autores brasileiros (i) ou mundiais (j) em periódicos do Norte e Sul Global (a linha pontilhada representa o que se espera de um CNCI adequado)

IA e a mutação no trabalho

Virgilio Almeida e Francisco Gaetani

O transbordamento das discussões sobre Inteligência Artificial (IA) para todas as áreas da vida econômica e social trouxe à tona com mais força ainda um dos temas mais importantes e mais sensíveis do processo de transformação digital: o trabalho. A pergunta que surge é qual (e como o) trabalho será afetado: o das pessoas, o das máquinas, o dos algoritmos, todos juntos e misturados? É uma questão sensível pela simples razão de que a remuneração das pessoas é uma função do seu trabalho, seu meio de vida. O saldo do balanço quantitativo da expressão schumpeteriana “destruição criadora” é ainda indeterminado. O senso comum sugere que em um primeiro momento a extinção de postos de trabalhos aparentemente supera a criação de novas ocupações. Mas estudos recentes indicam que regiões e setores que mais crescem e que geram novos postos de trabalho são os mais intensivos em tecnologia.

Talvez seja o momento de recordar um dispositivo constitucional esquecido pela torrente de assuntos que disputam nossa atenção cotidiana, que fala de forma simples, porém clara, que é preciso cuidar do impacto da tecnologia sobre o trabalho. Está lá no artigo sétimo: “São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, (…) XXVII – proteção em face da automação, na forma da lei”. O mundo era outro em 1988 e viria a mudar intensamente com episódios como a Queda do Muro de Berlim em 1989, os eventos de 11 de setembro de 2001, a crise financeira global de 2007/2008, o advento do smartphone, as redes sociais, a pandemia de covid-19 e a guerra na Ucrânia, dentre outros. A redação presente na Constituição de 1988 parece quase singela à luz da realidade de hoje. Como fazer frente à marcha da história?

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Leia o artigo completo no Valor Econômico.

 

Vencedoras do Prêmio Marta Vannucci são anunciadas

O Prêmio Marta Vannucci para Mulheres na Ciência do Oceano divulgou suas vencedoras no dia 8 de junho. O prêmio busca destacar e reconhecer o trabalho de mulheres que atuam na produção de conhecimento sobre o mar no Brasil e para o fortalecimento da participação de mulheres na ciência, inspirado na trajetória e pioneirismo da bióloga Marta Vannucci (1921 – 2021), membra da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e pioneira nos estudos oceanográficos brasileiros. A ABC é parceira da premiação e sua presidente, Helena Nader, integra o júri.

A vencedora da categoria Jovem Cientista é Marina Nasri Sissini: bióloga, mestra em Biologia de Fungos, Algas e Plantas, doutora em Ecologia, pós-doutoranda na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e atualmente responsável técnica do projeto Arquipélagos Oceânicos, do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). A vencedora da categoria Cientista Inspiração Sênior é Zelinda Nery Leão (UFBA): naturalista, mestra em Geociências e doutora em Geologia Marinha. Seus estudos serviram de base para a criação de diversas unidades de conservação em áreas recifais no Brasil.

Idealizado pela Cátedra Unesco para Sustentabilidade do Oceano, ligada ao Instituto Oceanográfico e Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, pela Liga das Mulheres pelo Oceano e pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) o prêmio incentiva a equidade de gênero no avanço de uma ciência justa, equilibrada, criativa e produtiva.

A entrega será durante a São Paulo Ocean Week deste ano, que ocorre entre os dias 18 a 22 de setembro.

Presidente do CNPq participa de debate sobre o presente e o futuro do órgão

No dia 28 de maio, o Núcleo de Estudos Avançados do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) recebeu o presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o membro titular da ABC Ricardo Galvão, para uma conversa sobre “Os Desafios do CNPq no processo de reconstrução do País”. A coordenação do debate ficou por conta do também Acadêmico Renato Cordeiro.

Participaram do encontro a presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), Rosana Onocko-Campos, o presidente da Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG), Vinicius Soares, e os Acadêmicos Samuel Goldenberg (Fiocruz), Patricia Bozza (Fiocruz), Marie-Anne Van Sluys (USP) e Thaiane Oliveira (UFF).

Ricardo Galvão, presidente do CNPq e membro titular da ABC

Transparência

Durante a primeira parte, Galvão teve a oportunidade de apresentar os pontos que considera mais importantes de seu mandato. Escolhido no início de 2023 para o cargo, o Acadêmico afirmou que sua primeira dificuldade foi a falta de dados sobre o que o CNPq financiava. Por isso, considera um êxito a criação dos painéis sobre chamadas para bolsas de produtividade, currículos Lattes e alocação dos recursos para bolsas e projetos, além do mapa do fomento de CT&I nacional.

Bolsas e projetos

Sobre as bolsas de pesquisa, Galvão lembra que o tão esperado reajuste conquistado em abril de 2023 só foi possível graças às verbas da PEC da Transição, que permitiu ao governo um aporte adicional de R$ 145 bilhões no orçamento federal daquele ano. Para o CNPq isso significou mais R$ 430 milhões em bolsas e R$ 150 milhões em projetos.

Apesar da excepcionalidade, o presidente do CNPq garantiu o pagamento integral das bolsas nos próximos anos, mas alertou para a necessidade de incremento nos recursos do órgão. “O orçamento para 2025 já está sendo discutido e, se a comunidade cientifica não se movimentar pelo CNPq, ficaremos numa situação difícil. As bolsas estão garantidas, o problema é o fomento”, frisou.

Esse cenário é desafiador já que a visão de Galvão para o CNPq é de foco em fomento. Segundo ele, a missão original do órgão é o financiamento de projetos, mas outras demandas foram acumuladas com o passar das décadas. “Não queremos mexer nas diversas modalidades de bolsa, mas precisamos de mais orçamento para projetos. Sem isso, todo o sistema nacional de CT&I fica vulnerável”, argumentou.

Respondendo a uma crítica frequente sobre a diminuição no número de bolsas disponíveis, Galvão argumentou que alguns cursos tradicionais podem ter notado um recuo, mas que isso se deve a uma tentativa de atender também a cursos emergentes, muitos dos quais estão tendo acesso a bolsas pela primeira vez.

Chamada Universal

Um dos pontos que causou mais preocupação entre os debatedores foi a incerteza sobre a Chamada Universal do CNPq. De acordo com Galvão, os recursos atuais não lhe permitem garantir sua realização em 2024. Considerado o edital mais básico para o financiamento científico brasileiro, a chamada de 2023 pôde atender a apenas um quarto das solicitações, refletindo uma demanda represada graças à sua não realização em 2022.

Desde 2005, as verbas utilizadas na Chamada Universal eram provenientes do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), o que, para o Acadêmico, ia contra sua missão de financiamento a projetos direcionados. Isso mudou em 2023, quando a chamada voltou a ser paga com verbas próprias do CNPq, o que a deixa ainda mais dependente da disponibilidade orçamentária do órgão.

Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCT)

Os Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCT) são grandes redes temáticas de pesquisa que foram fundamentais para a consolidação de diversas áreas da ciência brasileira. Mas apesar de sua centralidade, os INCT passam por uma indefinição. Grande parte deles estarão vigentes apenas até novembro, e sua renovação passa pela realização de um novo edital.

Galvão garantiu que nunca cogitou acabar com o programa, mas que os INCTs oriundos do edital de 2014 terão de passar por uma nova avaliação e concorrer pela renovação. A verba para isso já existe – R$ 200 milhões oriundos do FNDCT – e a expectativa é de um novo edital em agosto. O Acadêmico também ventilou a possibilidade de extensão no prazo de execução dos recursos por três meses após novembro, mas sem aportes adicionais.

Interação com o setor privado

Respondendo a um questionamento de Renato Cordeiro sobre a indisposição do setor privado brasileiro para investir em pesquisa, Galvão se mostrou otimista. Ele afirmou que está em curso o Programa de Mestrado e Doutorado Acadêmico na Indústria (MAI/DAI), com investimento de R$ 76 milhões para que alunos desenvolvam projetos através de parcerias entre universidade e empresa. “Formamos 22 mil doutores todos os anos, enquanto a taxa de reposição na academia gira em torno dos 10 mil. Esses outros 12 mil precisam ir para o setor privado. Bolsa não fixa talentos, precisamos de mais posições permanentes”, analisou.

No Brasil, a maior parte dos doutores ainda está alocada no ensino superior, ao contrário da maioria das nações desenvolvidas. Por isso, Galvão defende o projeto de neoindustrialização do país, que deve ser feito com base em inovação para absorver esse contingente. “Acredito que as coisas estão mudando, muitos empresários já perceberam que não sobreviverão na economia do conhecimento se não forem disruptivos”.

Critérios de avaliação para bolsas e projetos

Em dezembro de 2023, o CNPq se viu em meio a uma polêmica quando uma pesquisadora teve sua aplicação para bolsa de produtividade negada por, segundo o parecer ad hoc, suas gestações terem ‘atrapalhado’ a realização de pós-doutorado no exterior. Após a repercussão do caso, o órgão desautorizou o parecer e estipulou que todos as análises deveriam estender em dois anos o prazo de avaliação em caso de gravidez ou adoção. Ricardo Galvão afirmou que essa recomendação já existia, mas que cabia aos comitês de assessoramento implementarem, o que se tornou obrigatório depois do episódio.

Outro ponto destacado foi a eliminação de algoritmos e critérios quantitativos para a exclusão de solicitantes antes da análise do mérito científico. Barreiras referentes a necessidade de ser bolsista de produtividade também foram derrubadas. “Se um bolsista de produtividade ainda tem preferência em editais, é um duplo benefício. Ele já ganha a bolsa, essa barreira adicional não se justifica”, avaliou Galvão.

Ciência Aberta: conquista ou ameaça?

Está em curso nos países desenvolvidos, sobretudo na Europa, uma transição para o acesso aberto de publicações científicas. Movimentos como o Plano S, que reúne financiadoras de ciência do continente, têm pressionado cada vez mais para que seus pesquisadores publiquem sem custos para o leitor. A consequência é que as grandes editoras científicas, como Springer e The Lancet, estão aumentando os preços para publicar em suas revistas, os chamados Article Processing Costs (APC).

Países de renda média, como o Brasil, estão sofrendo os piores impactos dessa transição. Grandes revistas, como a Nature, já estão com APCs que giram em torno dos €10 mil, ou seja, mais de R$55 mil. A pesquisadora Thaiane Oliveira, afiliada da ABC, afirmou que o impulso ao acesso aberto está excluindo a América Latina, que, paradoxalmente, é berço de iniciativas pioneiras de acesso aberto, como a SciELO. “Pouco falamos sobre o fortalecimento dessa infraestrutura”, cobrou.

Ricardo Galvão deixou claro que essas transformações ameaçam a ciência nacional, mas que é inconcebível para o CNPq assumir funções de repositório de dados e artigos. “Ciência aberta não é só sobre publicações em revistas, é sobre capacidade computacional e de curadoria de dados. Na Europa, as próprias universidades criam seus repositórios com apoio das agências. Precisamos avançar essa discussão no Brasil”, sugeriu.

Galvão também opinou que a mudança no modelo do Periódicos Capes deve representar um custo muito maior para o Brasil. “No modelo atual a Capes gasta cerca de 5 milhões de reais por ano para termos acesso aos artigos. Só o novo convênio com a Springer para subsidiar os APCs nessas revistas deverá custar R$ 17 milhões em 2029. Quem realmente está pagando pela ciência aberta?”, indagou.

Assista ao debate completo:

‘Brasil precisa recuperar protagonismo no âmbito climático’, diz Paulo Artaxo

O mundo enfrenta uma realidade assustadora à medida que a crise climática ganha destaque, amplificando emergências globais e ameaçando desfazer décadas de progresso em saúde pública. O ano de 2023 foi confirmado como o período mais quente nos registros de dados de temperatura global desde 1850, segundo o Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus, implementado pela Comissão Europeia. As reverberações desse calor se expressam das mais diversas formas, incluindo a exacerbação da insegurança alimentar, o aumento da frequência e intensidade de eventos climáticos extremos, além da proliferação de doenças sensíveis ao clima.

Por mais que existam iniciativas importantes como o Acordo de Paris, que propõe a meta de limitar o aumento da temperatura média global para 1,5 °C, há fortes indícios que que esses “combinados”, só existentes no mundo das ideias, não terão efetividade. Inclusive, é provável que atinjamos 2,7 °C até o final do século XXI e cheguemos a casa dos 2°C já em 2050, o que acarretaria em um aumento de 370% nas mortes relacionadas ao calor, de acordo com projeções divulgadas pelo periódico científico The Lancet. 

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Leia a matéria completa na Veja.

Seis pontos-chave onde a biodiversidade pode mitigar a crise climática

Proteger o planeta das mudanças climáticas exigirá um compromisso conjunto entre tomadores de decisão, empresas e sociedade civil, não apenas na escala nacional, mas também de coalizões emergentes e modelos de governança em todos os níveis. Nesse sentido, um time de renomados especialistas em biodiversidade, mudanças climáticas e sociobiodiversidade publicou um novo artigo no periódico norte-americano BioScience onde listam seis pontos-chave que contribuem significativamente para mitigar as mudanças climáticas:

  1. Conservar estoques e sumidouros de carbono

Esqueça a ideia de que é preciso plantar árvores para estocar carbono! O princípio não está totalmente errado, mas o modo como esse plantio é feito pode aumentar as emissões. A substituição equivocada da vegetação nativa por plantações de árvores exóticas, como Pinus ou Eucalyptus, pode gerar efeito contrário, emitindo mais carbono do que estocando.

Isso porque grande parte do carbono é armazenada no solo e não nas árvores. O solo preservado de uma pastagem atua como um sumidouro de carbono, mas quando a vegetação é removida ou substituída pela plantação homogênea de espécies, o sumidouro de carbono pode se tornar uma fonte.

Por isso, a proteção dos estoques de carbono nativos nos ecossistemas deve ser a primeira prioridade, e não o plantio indiscriminado de florestas de monocultura. Isso contribui significativamente não só para o sequestro de carbono, mas também para a manutenção da biodiversidade nativa.

  1. Restaurar adequadamente áreas degradadas

Quando a restauração é a prioridade, a maneira como ela é feita tem consequências importantes. Muitos países se comprometeram a restaurar terras degradadas, em somas que totalizam milhões de hectares até 2030. Mas a restauração exige muito mais do que plantar árvores e cobrir a terra nua com qualquer tipo de vegetação.

Em geral, os projetos de restauração têm usado um padrão para todos os tipos de ecossistemas, com pouca diversidade de espécies e sem sequer conhecer a vegetação vizinha ao local onde a restauração é realizada. Estamos criando novos ecossistemas que não atendem a um dos objetivos mais importantes da restauração: aumentar a conectividade ambiental.

Ao introduzirmos um número limitado de espécies não nativas em uma determinada região, podemos, inadvertidamente, destruir a funcionalidade ecológica do ambiente, e isso refletir na capacidade de fornecer nascentes de água, manter polinizadores para agricultura, controlar a umidade e o clima e influenciar o regime de chuvas. Somente a restauração com um conjunto diversificado de espécies nativas pode promover mais rapidamente a conectividade ambiental e restaurar os benefícios que os ecossistemas podem proporcionar aos seres humanos.

  1. Conservar fauna e flora locais de maneira integrada

Os animais selvagens têm papel fundamental nas soluções naturais para as mudanças climáticas. Diferentemente dos animais da pecuária, responsáveis por grande parte da emissão de gases de efeito estufa, os animais selvagens sequestram carbono. Ao se alimentarem de grandes massas de material orgânico, os animais ingerem e fixam carbono em seus corpos, mais especificamente, 6,5 bilhão de toneladas por ano, ou 6,5 PgC (pentagramas de carbono)

A fauna selvagem influencia o regime de incêndios e o microclima, a polinização da agricultura, a dispersão e propagação de plantas; aumenta a complexidade das cadeias alimentares, a heterogeneidade dos habitats e os estoques de carbono. São parte essencial para adaptação às mudanças climáticas. Por isso, a conservação das florestas deve ser integrada à conservação de sua fauna, para que possamos atingir nossas metas globais para evitar o aumento da temperatura além do ideal para a sobrevivência dos seres humanos.

  1. Trocar a expansão de áreas agrícolas pelo aumento de produtividade

Apesar da importância da agricultura para a subsistência humana, a expansão de áreas agrícolas está entre os principais fatores de fragmentação e perda de biodiversidade, de degradação do solo, desmatamento e emissões de carbono, gerando impactos de grandes proporções. A perda de florestas está afetando desproporcionalmente a biodiversidade em paisagens de todo o mundo.

Um melhor gerenciamento da terra em áreas de agricultura, pecuária e silvicultura poderia sequestrar mais de 13,7 bilhão de toneladas de carbono por ano. As áreas de plantações existentes no mundo são suficientes para a subsistência da população humana e não há necessidade de devastar novas áreas naturais para o cultivo. A desigualdade alimentar resulta de escolhas inadequadas de uso da terra, da concentração econômica e de barreiras de distribuição impostas por guerras e desastres naturais.

Pedimos aos formuladores de políticas públicas que não aprovem projetos de lei que permitam a descaracterização de áreas de proteção e a expansão de áreas agrícolas. Só assim, será possível desacelerar a perda de ecossistemas terrestres e aquáticos em todo o mundo.

  1. Incorporar a biodiversidade aos modelos de negócios

As soluções para as crises conjuntas do clima e da biodiversidade podem estar, em parte, no setor privado. Décadas de experiência ajudaram os governos e as empresas a entenderem como incorporar as mudanças climáticas em seus modelos de negócios. Mas os incentivos econômicos para a conservação da sociobiodiversidade estão muito atrasados.

Uma análise da Fortune Global 500 mostrou que 83% das empresas têm metas relacionadas ao clima, principalmente no setor de transportes; enquanto apenas 51% das empresas reconhecem a perda de biodiversidade como preocupação, e apenas 5% estabeleceram metas quantificadas para esse tema.

As empresas e as instituições financeiras precisam definir a sustentabilidade com mais precisão em termos de conservação da biodiversidade, e é preciso oferecer incentivos para isso. O Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF) está no caminho certo ao alocar recursos essenciais para a Convenção sobre Diversidade Biológica (CBD). Da mesma forma, o setor privado pode aumentar o seu Impacto Líquido Positivo (NPI) – meta de gestão corporativa de biodiversidade.

  1. Unir as COPs de Biodiversidade e Clima

Para atingir emissões líquidas zero propostas pela Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP), é necessário alinhar políticas e ações entre setores e escalas. Em 2021, o primeiro relatório conjunto produzido pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e pela Plataforma Intergovernamental de Políticas Científicas sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) concluiu que o mundo deve enfrentar as mudanças climáticas e a perda de biodiversidade em conjunto para que ambas as questões sejam tratadas com sucesso.

Nesse sentido, a integração das conferências ambientais aumentaria as sinergias entre os acordos ambientais multilaterais e as instituições internacionais. Isso promoveria a colaboração entre especialistas em tópicos relacionados, alinhando métodos e modelos e levando a uma melhor avaliação das compensações e interações entre diferentes tipos de impactos e políticas ambientais.

Em comum, todos os pontos-chave destacam o protagonismo da natureza para reverter as ações humanas, desde que contribuamos para isso.

O desastre da aprendizagem da matemática no Brasil

Mozart Neves Ramos

Confira a coluna de Mozart Ramos, ex-reitor da UFPE, que esteve recentemente em debate sobre o tema na ABC:

A Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) me convidaram recentemente para falar sobre o futuro da universidade no Brasil. Na oportunidade, comecei dizendo que só vamos alcançar um futuro promissor para o ensino superior em nosso país quando formos capazes de resolver o problema da qualidade da nossa educação básica. Isso implica, entre outras coisas, que as universidades precisarão colocar este nível educacional na sua apertada agenda de prioridades.

Nossos jovens estão ingressando no ensino superior com muitos déficits de aprendizagens que impactam fortemente a própria qualidade do ensino nas universidades. Basta ver os atuais índices de reprovação e de abandono. Dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) mostram que de cada 100 ingressantes no ensino superior, 59 desistem. Outro dado preocupante desta mesma fonte: dos que ingressam nos cursos de Pedagogia, 50% não alcançam sequer 450 pontos no Enem. O que isso significa? Que esses estudantes não receberiam o certificado de conclusão do ensino médio com tal pontuação, mas mesmo assim estão entrando na universidade. E eles supostamente serão os futuros professores de nossas crianças.

Outro exemplo alarmante: de cada 100 concluintes do ensino médio, apenas 7 aprenderam o que seria esperado em matemática, de acordo com os resultados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) de 2021. Um desastre que virou rotina nos últimos 20 anos, já que não se vê uma ação concreta e estruturante para reverter esse quadro.

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Leia a coluna completa no Jornal do Commercio.

Diálogo com ganhadores do Prêmio Nobel, um relato de Carmino de Souza

Confira o relato do professor titular da Unicamp Carmino de Souza, ex-secretário de saúde do Estado de São Paulo, sobre os Diálogos Nobel Brasil, organizado pela ABC:

Carmino Antonio de Souza | Foto: Léo Ramos Chaves/Revista Pesquisa FAPESP

No último dia 17 de abril, como professor da Unicamp, membro do Conselho Superior (CS) da Fapesp e a convite da Profa. Helena B. Nader, Presidente de Academia Brasileira de Ciências (ABC) e também membro do CS da FAPESP, participei do Nobel Prize Dialogue São Paulo – FIESP, na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo.

A Academia Brasileira de Ciências (ABC) e o Nobel Prize Outreach, em parceria com a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), organizaram pela primeira vez na América Latina uma edição presencial do Nobel Prize Dialogue com foco em ciência. Este evento fez parte de um conjunto de reuniões que ocorreram no Rio de Janeiro e São Paulo, com atividades também da Universidade de São Paulo (USP).

O evento teve como tema “Criando nosso Futuro Juntos com a Ciência”. O encontro contou com três laureados com o Prêmio Nobel: Serge Haroche (Nobel de Física em 2012), May-Britt Moser (Nobel de Medicina em 2014) e David MacMillan (Nobel de Química em 2021). Ainda, participaram Erika Lanner (Nobel Prize Museum), Anna D’Addio (Global Education Monitoring Report, Unesco), Karen B. Strier (IANAS), Esper Kallás (Instituto Butantan), Silvia Massruhá (Embrapa), Pedro Wongtschowski (FIESP), entre outros.

Tal iniciativa reuniu lideranças empresariais e governamentais, tomadores de decisão, setor acadêmico, agências de apoio à pesquisa e imprensa, para debater o impacto da ciência no nosso futuro e abordar o valor da ciência para a sociedade, como a ciência movimenta a economia e como a sociedade influencia o progresso da ciência.

À medida que aumenta a nossa consciência da dimensão dos desafios globais prementes, precisamos considerar a melhor forma de nos preparar, bem como às futuras gerações, para aproveitar as oportunidades que a ciência oferece para a construção de um mundo melhor. O século 21 é conhecido como o “Século do Conhecimento e das Habilidades”. Como apresentado no convite, a ciência é um insumo essencial para a inovação, com amplos impactos no crescimento econômico e no desenvolvimento de uma nação. A economia de hoje depende diretamente das evidências derivadas da ciência.

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Leia a coluna completa no portal Hora Campinas.

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