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Sessão Plenária V: Inteligência Artificial e Agricultura

No dia 9 de maio, a Academia Brasileira de Ciências (ABC) recebeu, na Sessão Plenária V da Reunião Magna 2024, no Museu do Amanhã, a engenheira agrícola Gleyce Figueiredo, o cientista da computação Gilberto Câmara e o físico Silvio Crestana para um debate sobre aplicações de inteligência artificial e outras tecnologias na agricultura brasileira.

IA aplicada ao monitoramento de sistemas agrários integrados

A agricultura moderna enfrenta um duplo desafio no século 21. É preciso aumentar a produção de alimentos e, ao mesmo tempo, minimizar os impactos ambientais em meio à crise climática. Nesse cenário, a professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pesquisadora em gestão agrícola Gleyce Figueiredo defende que sistemas integrados entre plantio, pecuária e floresta são fundamentais. “A integração diminui a pressão por novas áreas, melhora a ciclagem de nutrientes no solo e recupera áreas degradadas”, resumiu.

No Brasil são cerca de 17 milhões de hectares de áreas integradas, 83% apenas entre lavoura e pecuária. Desde 2010 o país tem o Plano Agricultura de Baixo Carbono (Plano ABC) que prevê um acréscimo de 9 milhões de hectares de sistemas integrados até 2030. Cumprir essa meta requer monitoramento contínuo para identificar se a ciclagem das áreas está sendo cumprida. É aí que entra o trabalho da palestrante com sensoriamento por satélite. “Sensores em satélites estão evoluindo muito, tanto públicos quanto privados. Não é qualquer satélite que serve para isso, precisamos de uma boa resolução visual para identificar a integração e também uma boa resolução temporal. A pergunta é: quanto tempo vai demorar pro sensor passar novamente por aquela área?”

Outro problema para o monitoramento é a cobertura de nuvens. Para resolver isso, existem alguns satélites que contam também com a prospecção por radar, que permite perpassar essa barreira. A situação comum em que os pesquisadores se encontram é a coleta de dados por vários equipamentos diferentes, cada qual com suas forças e fraquezas. Para condensar tudo isso e analisar um volume cada vez maior de dados, sistemas de inteligência artificial já começaram a ser usados.

“Alguns trabalhos usam dados com alta resolução espacial mas baixa temporal, e vice-versa. Outros perceberam que era possível juntar isso com mapas já prontos, como os do MapBiomas. Em 2022, eu e meu grupo aplicamos algoritimos de deep learning para fundir imagens de sensores diferentes extraindo o melhor de cada em imagem, tempo e espectro. O mais difícil é fazer o sistema compreender a dinâmica temporal do campo”, explicou Figueiredo.

Para o futuro, a palestrante avalia que será importante também juntar dados coletados em terra, fortalecendo a metodologia com as características físicas de cada bioma para poder expandir cada vez mais o monitoramento. “Para expandir é preciso entender se o modelo é transferível. Será que o que eu faço pro Mato Grosso é aplicável para São Paulo, por exemplo? São perguntas que precisamos nos fazer”, concluiu.

A tradição brasileira em monitoramento por satélite

Gilberto Câmara é cientista da computação especializado em geoinformática, reconhecido internacionalmente pela defesa de sistemas gratuitos de acesso a dados geoespaciais e por promover um monitoramento muito eficiente da Amazônia quando foi diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), entre 2005 e 2012. Ele destacou que o Brasil precisa se orgulhar de ser referência no uso de dados via satélite. “O satélite enxerga onde e quando teve desmatamento, e, aliado aos dados do cadastro rural de propriedades, quem desmatou. Até o Papa já usou os dados do Inpe”, brincou.

Os dados brasileiros são utilizados, por exemplo, pela Convenção de Clima da ONU para definir o financiamento de países que atuam para reduzir o desmatamento pelos programas REDD e REDD+. O Brasil também possui uma legislação bastante avançada na área. O Decreto 6666 de 2008 obriga a disseminação e o compartilhamento de dados espaciais. “Ter uma lei que deixe isso explícito é crucial, vários países não tem”, avaliou o palestrante.

A importância dessa obrigação se dá porque dados geoespaciais podem revelar muita coisa, inclusive fracassos que governos queiram esconder. Em outras palavras, geomonitoramento aberto é política de Estado e não de governo. Câmara conta que em 2004, quando tomou a decisão de abrir os dados do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (PRODES), enfrentou resistências dentro do governo. Hoje, o sistema é um dos mais transparentes e consolidados no monitoramento ambiental brasileiro.

Mas os dados de satélite não substituem a análise dos pesquisadores e o Brasil tem bastante expertise na área. “Sempre trago o exemplo de um mapa da cobertura vegetal global elaborado em 2020 pela Agência Espacial Europeia. O mapa não diferenciava entre áreas de pastagens e o cerrado brasileiro, classificando tudo como ‘grassland’. Esse é um exemplo forte de que não há modelo que capture as especificidades de cada lugar. Ninguém vai resolver nosso problema por nós”, alertou Câmara.

Para o futuro, o palestrante defende plataformas cada vez mais abertas para governos, empresas, academia e o terceiro setor. Atualmente, está em desenvolvimento o Brazil Data Cube, que promete cumprir essa função, fornecendo dados integrados e prontos para análise de forma aberta. “Além da consolidação dos softwares, é preciso uma consolidação institucional. É diferente de criar um software específico para uma análise e para publicar um artigo. Éeum sistema colaborativo que permita a usuários diferentes adicionarem seus próprios algoritmos e contribuições”, finalizou.

Não há crescimento em agropecuária sem ciência

A agropecuária é responsável por mais de 20% do PIB brasileiro, garantindo um saldo positivo na balança comercial do país. O setor cresceu muito nas últimas décadas, refletindo investimentos públicos robustos em pesquisa que fizeram do país um líder científico no setor. “A contradição é que, enquanto os valores do agro e do PIB crescem, os investimentos em ciência diminuem ano após ano”, apontou Silvio Crestana, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

O palestrante alertou que a tendência contínua de crescimento no agro, constante por 30 anos, estagnou em 2016. Desde então, flutuações nas safras tem afetado a produtividade no campo e isso se reflete no preço da cesta básica. Em parte, essa estagnação se deve aos novos desafios climáticos, fator novo na equação, e enfrentá-los vai demandar inovações que só podem ser desenvolvidas com ciência. “Quando falamos em estresses térmicos não falamos apenas de temperatura, mas de umidade, de ventos e de radiação. Estresses hídricos e biológicos nós aprendemos a lidar, mas os térmicos ainda sabemos muito pouco o que fazer”, alertou.

A agricultura contemporânea é digital e cada vez mais orientada por dados. A coleta de informações robusta vai desde características biogeofísicas até análises de mercado. Para lidar com um volume crescente de dados, sistemas de inteligência artificial são fundamentais, mas fazê-los chegar nos agricultores não é uma tarefa trivial. “Não se faz mais agricultura apenas pela intuição”, resumiu Crestana.

O palestrante frisa que tecnologia nenhuma vai substituir o agricultor e que, para que essa transferência ocorra, alguns desafios precisam ser superados. Entre eles estão a baixa conectividade do campo, questões de privacidade de dados – fundamental para que muitos agricultores sintam-se seguros em adotar novas ferramentas – e a falta de suporte técnico especializado. Mas talvez o fator mais fundamental seja o preço, tecnologias de ponta ainda tem custos impeditivos, sobretudo para o pequeno e médio proprietário.

Todos esses desafios impõe riscos. Por exemplo, hubs de tecnologia e inovação estão concentrados nas regiões Sul e Sudeste. Quanto mais avançamos na fronteira agrícola, nas regiões Centro-Oeste e Norte, menos tecnológica a agricultura. “A desigualdade no acesso à tecnologia arrisca aumentar o abismo entre agricultores tecnificados e não-tecnificados. Seria fundamental fixar cientistas nessas regiões, isso é difícil e requer políticas públicas robustas. Nós temos dois agros, aquele organizado na forma de empresas e cooperativas, e aquele completamente desorganizado e que não usa as melhores práticas agrícolas”, avaliou Crestana.

Outro perigo é a perda de ocupação numa agricultura cada vez mais automatizada, com muitos agricultores tendo poucos horizontes de requalificação. O impulso pelas IA pode gerar também uma dependência do país em Big Techs estrangeiras, criando problemas de soberania para um dos setores mais importantes da economia brasileira. “Lembrando as palavras do querido professor Sérgio Mascarenhas, ‘só temos um caminho para o progresso: educação, ciência e humanismo’. Sem humanismo teremos tecnologias super-avançadas mas o resultado para nós não será bom”, concluiu.

Assista à sessão plenária a partir dos 33 minutos:

Acadêmico é o 3º brasileiro a ser eleito para a Royal Society do Reino Unido

A Royal Society do Reino Unido, uma das mais importantes associações honoríficas de ciência do mundo, anunciou no dia 16 de maio seus novos membros. Dentre eles está um brasileiro, o epidemiologista Cesar Gomes Victora, membro titular da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e professor emérito na Universidade Federal de Pelotas (UFPel).

Victora é referência internacional em saúde infantil, com uma vasta produção científica sobre a importância da amamentação exclusiva para reduzir drasticamente a mortalidade de bebês. Também desenvolveu os modelos de curva de crescimento infantil que hoje guiam profissionais de saúde em mais de 140 países. Victora é ex-presidente da Associação Epidemiológica Internacional (IEA) e atua como consultor de órgãos internacionais como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

Em 1982, foi um dos criadores das Coortes de Nascimento de Pelotas, junto com o pesquisador Fernando Barros. Uma coorte de nascimento é uma metodologia de estudo que acompanha o crescimento de um grupo de pessoas desde o início de suas vidas, possibilitando comparações de valor inestimável. A coorte de Pelotas segue ativa mais de 40 anos depois e é até hoje a maior da América Latina.

Entrar para a Royal Society não é a primeira distinção que o Acadêmico recebe. Membro titular da Academia Brasileira de Ciências (ABC) desde 2006, Victora é detentor do Prêmio Álvaro Alberto e grau Comendador e Grão-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico. Para esta última ele foi escolhido em 2021, mas recusou recebê-la das mãos de um governo negacionista em saúde, vindo a aceitá-la apenas em 2023. Hoje com 72 anos, o cientista olha para trás com orgulho de sua ciência ter se transformado em políticas públicas para saúde no mundo inteiro.

A notícia de sua nomeação vem num período terrível, porém. Seu estado, o Rio Grande do Sul, enfrenta a maior tragédia climática da história do país e Victora acredita que os estudos nas coortes precisarão levar em conta essa dimensão quando a vida voltar ao normal. Sobre esse e outros assuntos ele conversou numa entrevista exclusiva para a ABC, que pode ser conferida abaixo:

O membro titular da ABC Cesar Victora durante a Reunião Magna ABC de 2016

Como foi para o senhor receber essa nomeação?

Sendo bem sincero, eu nunca sonhei em ser Fellow da Royal Society. Eu fiz meu doutorado em Epidemiologia em Londres nos anos 80 e a Royal Society era o nível máximo, nunca pensei em atingir. Fiquei muito contente quando recebi a notícia. Sou apenas o terceiro brasileiro a entrar, o primeiro foi Dom Pedro II e depois foi o Carlos Nobre (risos). Mas há muitos cientistas brasileiros com condições, isso reflete um pouco a importância da ciência brasileira, como conseguimos crescer apesar de todos os problemas, sobretudo no governo anterior. Mas apesar de tudo isso, nós conseguimos colocar a nossa ciência num patamar que não é o mesmo de quando comecei a trabalhar.

O senhor é um dos criadores das coortes de Pelotas, uma iniciativa fundamental que consegue resultados de longuíssimo prazo. No mundo em desenvolvimento são poucas as coortes com mais de vinte anos. Como explicar o sucesso de Pelotas?

Realmente, a maioria das coortes de longo prazo estão em países europeus, principalmente na Inglaterra e nos países escandinavos. No caso deles, ajuda muito o fato de terem informações muito boas em saúde, então conseguem acessar os dados nos sistemas existentes. No Brasil até possuímos boas informações para fatores como mortalidade e nascimento, por exemplo, mas ainda coletamos os dados manualmente, buscando as pessoas, chamando para exames, etc.

Logo que começamos, em 1982, eu fui atrás de outras coortes em países de renda média e baixa e encontrei apenas cinco, a nossa no Brasil e na África do Sul, Guatemala, Filipinas e Índia. Então tive a ideia de criar um consórcio para juntar os dados de todas elas. Os resultados são muito interessantes porque são muito parecidos.

Um fator que ajuda é Pelotas não ser uma cidade muito grande, tem cerca de 300 mil habitantes, isso facilita localizar as pessoas. Acho que numa cidade como Rio, São Paulo ou a própria Porto Alegre seria muito mais difícil. Então o segredo é muita persistência e muito trabalho, mas a cidade ajuda também.

Como fazer com que as pessoas voltem?

No começo a gente conseguia encontrar muita gente. Com dois anos de idade achamos mais de 90%. Hoje, aos 40 anos, nós achamos 52%, o que é bastante razoável, são 3 mil pessoas.

Quando as pessoas se mudam de Pelotas, mas continuam no estado do Rio Grande do Sul, damos a passagem de ônibus. Geralmente elas gostam, porque aproveitam para visitar Pelotas. Quando estão fora do estado é mais complicado, já chegamos a mandar equipe para Santa Catarina, onde tem muitos gaúchos. Elas gostam de participar, é raríssimo alguém se recusar. Existe um certo orgulho de fazer parte da coorte.

É impressionante como tem poucas coortes assim no Brasil, imaginando o tamanho do país e o que precisaria para ser representativo…

No Brasil tem outras coortes em Ribeirão Preto e São Luiz do Maranhão, com as quais temos consórcios para fazer estudos juntos.

Mas Pelotas é interessante porque é uma cidade pobre num estado rico. É uma região que sempre teve uma mortalidade muito alta. Por ser uma cidade pobre num estado rico o IDH é bem na média do país. Também tem uma população negra muito grande, tem a diversidade étnica do Brasil, então é bem representativa.

Como a tragédia das enchentes no RS afeta os trabalhos nas coortes?

Não temos nem como medir isso ainda. Estamos acompanhando, mas há prejuízos consideráveis. As pessoas vem para o nosso centro fazer exames médicos, avaliar doenças crônicas como obesidade e hipertensão, avaliar saúde mental, tudo isso foi muito afetado. Os profissionais contratados para fazer os exames da coorte provavelmente terão contratos suspensos, vamos tentar aguentar o máximo possível. Mas atrapalha em tudo e teremos que retomar depois.

Quando voltar todo mundo para casa e retomarmos o trabalho vamos ter que incorporar novas doenças. As pessoas vão ter diarreia, leptospirose, hepatite, todas essas doenças transmitidas pela água, vamos ter que pensar em como incorporar isso na coorte. No momento nossa coorte mais jovem tem nove anos e temos planos para fazer outra em 2026, espero que até lá os efeitos da enchente já tenham passado. Mas, infelizmente, temo que essa possa não ser a última enchente…

Além de guiar políticas internacionais, seu trabalho também resultou numa mudança de comportamento das pessoas, passou-se a valorizar mais a amamentação. Você enxerga isso acontecendo hoje? É algo espalhado por todos os grupos sociais ou está concentrada mais entre quem tem acesso informação?

Acho que não está concentrado não, é o que mostram os últimos resultados do Enani (Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil). Essa é uma ideia que eu tenho na cabeça, uma hipótese que eu criei, que eu chamo de “equidade inversa”. Isso quer dizer que quando surge um medicamento ou um tratamento, quem adota inicialmente são os ricos, mas depois se espalha pela sociedade, piora a desigualdade no começo e depois equilibra.

A amamentação exclusiva não existia, essa é a minha maior contribuição. E não foi pela coorte, pois não tinha tamanho suficiente. Foi através de um estudo em Pelotas e Porto Alegre, o primeiro a mostrar que a amamentação exclusiva reduzia muito a mortalidade. Depois vieram outros estudos corroborando, o que levou a Organização Mundial da Saúde e a Unicef a mudar as recomendações globais. Só depois disso que o Brasil alterou também.

Você vê impactos na amamentação nesse momento de tragédia no RS?

Acho que não vai ter um grande impacto, não. Um problema que sempre surge em tragédias como essa é que a primeira coisa que se doa é leite em pó. Com toda a boa intenção do mundo, eu sei, mas há um fluxo grande de leite em pó que pode levar ao desmame. Mas não acho que há esse perigo agora, a amamentação já está reconhecida o suficiente para isso não ocorrer.

Uma transformação grande entre a década de 80 e hoje foi que antes existia um problema grande de subnutrição e hoje existe um problema de obesidade. Como você vê a evolução desse problema nas últimas décadas?

Uma coisa interessante que descobrimos quando juntamos os dados internacionais foi o que se tornou o conceito dos mil dias – desde a concepção até o segundo aniversário. Observamos que o ganho de peso nesse período é fundamental para a formação da criança. Mas depois disso o problema praticamente se inverte.

Não é que a criança não precise ser bem-nutrida depois dos dois anos, mas depois dessa faixa se ela ganha muito peso ela corre o risco de se tornar uma criança obesa e depois um adulto obeso. O que observamos é que os dois primeiros anos são chave. Esse novo conhecimento guiou políticas públicas a investir mais na primeira infância, onde o impacto é mais sentido.

Pensando historicamente, me parece curioso como era comum substituir o leite materno no passado. A amamentação é algo tão natural, por que estávamos fazendo tão diferente?

Eu tenho algumas ideias. Acho que a indústria do leite processado, as grandes multinacionais, começaram a promover seus produtos como sendo modernos. A partir dos anos 60, o moderno não era amamentar, isso era coisa de pobre. Então quem tinha dinheiro preferia leite em pó. Isso é um exemplo do que chamamos determinantes comerciais da saúde, como o grande poder econômico piora a saúde para aumentar lucros.

O que aconteceu foi uma grande propaganda do leite em pó que levou a isso. Outro problema foram os ultraprocessados, o leite em pó é o primeiro ultraprocessado que a criança toma na vida, um produto cheio de aditivos. Também os pediatras recomendavam dar água, dar chá, pois achavam que o leite materno não era suficiente, e de preferência já com o leite em pó também.

Outro tema em que você já atuou foi na questão do parto, da quantidade de cesarianas feitas hoje. Está nessa mesma lógica?

Está na mesma lógica sim. Essa de que algo medicalizado e altamente tecnológico, seria melhor que o natural. Obviamente que há muitos casos em que cesariana é necessária e salva vidas. Há lugares onde o nível de cesarianas é muito baixo, então morrem muitas crianças e muitas mães. Mas no Brasil isso está desequilibrado, apesar de ter melhorado.

Há um diferencial social importante também, 90% das mulheres de alta escolaridade fazem cesariana. Mas mesmo nos mais pobres gira em torno de 35%. Ou seja, está alto em todos os setores.

Nós trabalhamos junto com antropólogos que mostram que muitas pessoas mais pobres acham que cesariana é melhor porque os ricos estão fazendo, então deve ser bom. É um exemplo da importância da multidisciplinaridade. Eu lutei muito contra esse excesso de cesarianas no Brasil, mas não consegui grandes sucessos. A vida é assim, há coisas em que temos mais sucesso que em outras.

Você ainda é um pesquisador ativo, quais suas próximas áreas de investigação no futuro?

Eu estou com 72 anos. Já não estou diretamente ligado às coortes, trabalho com alguns dados, mas não muitos. Ajudei a formar uma série de pessoas que assumiram esse trabalho. A maior parte do que ainda faço é em relação às desigualdades socioeconômicas e étnicas em países em desenvolvimento.

Criamos aqui em Pelotas o Centro Internacional de Equidade em Saúde, onde recebemos estudos e dados de todo o mundo. No momento estamos trabalhando muito com crianças zero dose, ou seja, crianças que nunca receberam nenhuma vacina. São crianças de lugares mais remotos e mais pobres ou são de grupos com menos acesso à saúde. Mais de 10% das crianças do mundo estão nessa situação.

Trabalhamos de perto com as Nações Unidas junto a Aliança Global de Vacinação (Gavi) para identificar essas crianças e mudar um pouco esse cenário. Comecei a trabalhar mais com outros lugares que não o Brasil, até porque os problemas nesses outros lugares são maiores. Os dois lugares mais complicados no mundo ainda são partes da África Subsaariana e do sul da Ásia.

Esses lugares ainda não tem uma boa cobertura vacinal de covid-19, como está a situação?

A covid foi complicada, teve uma série de problemas no acesso às vacinas. Os países ricos compraram tudo muito rapidamente, foi mal distribuído. Felizmente a covid hoje em dia é uma doença diferente de 2020, porque essa é a tendência. Não é bom para o vírus matar seu hospedeiro, então numa epidemia inicialmente a virulência é super alta e depois se torna menos letal.

Mesmo em populações não vacinadas?

Mesmo nessas populações. O vírus mudou porque se ele matar as pessoas rapidamente ele não se dissemina. É por isso por exemplo que o ebola não consegue se expandir tanto. Mas a questão da desigualdade em vacinas continua, e se agrava com o fenômeno novo das fake news e dos antivax. Isso é novo, no Brasil não existia, mas dados internacionais mostram que isso está acontecendo também em outros países de renda média.

Isso é uma pena, num país com uma tradição tão grande em vacinas como o Brasil…

Mas está acontecendo, sobretudo nas classes médias e altas, não penetrou muito nos mais pobres. Lembra do que falei da “equidade invertida”? Ela funciona para coisas boas e coisas ruins, como o exagero nas cesariana e os antivax, essas ideias chegam nos ricos antes dos pobres. 

E você vê uma evolução nas vacinas em geral nos países pobres?

Acho que evoluiu sim. Claro que a covid atrapalhou, e por dois motivos: porque os sistemas de saúde colapsaram e pelos antivax que desacreditaram as vacinas de modo  geral. Mas a tendência é de melhora. A aliança internacional para vacinas investiu muito nesses países, mas a cobertura ainda é abaixo do que gostaríamos. 

Estou trabalhando agora como consultor para eles, fazendo análise dos dados. Por exemplo, se você encontra uma criança não-vacinada, os irmãos provavelmente também não são vacinados. A partir daí você procura essas outras crianças também. O Centro de Equidade em Saúde de Pelotas é o maior centro do mundo sobre desigualdades em saúde materno-infantil. Temos bancos de dados com milhões de crianças.

Sempre que estou fazendo uma pesquisa, penso em como ela pode se tornar uma política. Meu objetivo não é só publicar numa revista de ponta, mas ter também um impacto na saúde global. Me orgulho muito que isso tenha acontecido.

Fiocruz promoverá debate sobre os desafios do CNPq

No dia 28 de maio (terça-feira), o Núcleo de Estudos Avançados do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) promove o debate ‘Desafios do CNPq no processo de reconstrução do País’. O palestrante da sessão é o presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o Acadêmico Ricardo Galvão.

A atividade conta com a participação de seis debatedores: o pesquisador emérito da Fiocruz e Acadêmico, Samuel Goldenberg; a presidente da Abrasco, Rosana Onocko-Campos; a professora titular da Universidade de São Paulo (USP) e Acadêmica, Marie-Anne Van Sluys; a pesquisadora do IOC e Acadêmica, Patricia Torres Bozza; a professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e Acadêmica, Thaiane Moreira de Oliveira; e o presidente da Associação Nacional de Pós-graduandos (ANPG), Vinícius Soares.

A coordenação é do Acadêmico Renato Cordeiro

A sessão, que homenageia os 124 anos do Instituto, será transmitida ao vivo pelo canal do IOC no Youtube a partir das 14h.

Sobre o Núcleo

O Núcleo de Estudos Avançados visa promover debates acadêmicos sobre temas interdisciplinares no campo da ciência, da política e da filosofia, envolvendo a comunidade científica intra e extramuros.

 

Sessão Plenária III: Especulando sobre o Futuro com a IA

No dia 8 de maio, a Reunião Magna 2024 da Academia Brasileira de Ciências (ABC) convidou o advogado Carlos Affonso Souza, o ecólogo Fabio Scarano e a socióloga Elisa Reis, para compor a Sessão Plenária III, um debate especulativo sobre o futuro de nosso planeta e da sociedade com a inteligência artificial.

Como o Direito vem legislando sobre as tecnologias digitais?

Continuando as discussões sobre regulamentação das tecnologias digitais – tema de uma sessão plenária no dia anterior – o jurista Carlos Affonso Souza, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS Rio) e professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), traçou um panorama de trinta anos da experiência legislativa global com a internet.

As discussões começaram nos EUA dos anos 90, onde o advento da rede mundial foi acompanhado de otimismo e expectativas por uma nova era de liberdade de expressão irrestrita. Nessa época, movimentos progressistas advogavam por uma “Declaração de Independência da Internet”, defendendo que o Estado não deveria ter qualquer tipo de inserção neste novo espaço.

“Em 1996, o Congresso americano elaborou o Communications Decency Act, que obrigava as plataformas digitais a criarem filtros para que menores não pudessem acessar conteúdo adulto. Entretanto, a lei impunha obrigações impossíveis de serem implementadas e foi considerada inconstitucional pela Suprema Corte. Sobrou apenas a seção 230, que isentava as plataformas de responsabilidade sobre as postagens de usuários. De certa maneira, essa ampla imunidade fez com que os EUA dominassem o mercado digital nas décadas seguintes”, explicou o palestrante.

A partir dos anos 2000, surge a ideia da “Web Colaborativa”, onde o foco passa a estar cada vez mais no usuário como produtor de conteúdo. No Brasil, esse movimento demorou a ser compreendido pelas autoridades. Uma série de decisões judiciais acabaram resultando na derrubada de plataformas inteiras. Em 2006, quando um vídeo íntimo de uma celebridade viralizou no Youtube, o site foi proibido de atuar no país durante dias. “Começou-se a perceber que as soluções estavam desproporcionais, afetando centenas de outros atores que nada tinham a ver com o mal-feito”, contou Souza.

A ideia de que a regulamentação precisava equilibrar a liberdade coletiva com os direitos individuais começou a ganhar força. Em 2013, após anos de debates e consultas públicas online, o Brasil aprovou o Marco Civil da Internet. “Foi um texto muito original para a época, elogiado inclusive pelo “pai” da Internet, Tim Berners-Lee, e inspirou regulações na Itália e depois na França”, contou.

Outro marco legal foi a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), de 2018. A lei veio na esteira do escândalo da Cambridge Analytica, empresa ligada a um professor da Universidade de Cambridge que comercializou dados de usuários do Facebook para guiar a campanha presidencial de Donald Trump, nos EUA, em 2016. “De certa forma nunca nos recuperamos desse escândalo, que aumentou a desconfiança mútua entre academia e setor privado. Hoje, grandes empresas fecham o acesso aos seus dados ou colocam preços impeditivos, o que dificulta muito a pesquisa”, explicou o palestrante.

Atualmente, Souza acredita que o país peca por não atualizar as legislações, já que a internet evoluiu muito nesse período. Ainda assim, considera que tanto o Marco Civil quanto a LGPD devem servir de exemplo para um marco regulatório em inteligência artificial. “O Marco Civil foi uma lei principiológica, nunca objetivou ser uma lei final. Muitos temas novos não foram abarcados, é preciso um novo olhar. Minha preocupação com as IA é o Congresso criar uma lei e achar que está tudo resolvido. Se tem uma lição que aprendemos é que a tecnologia traz desafios progressivos, o desenho regulatório de IA precisará de calibragem periódica”.

A inteligência natural da biotecnosfera

Fabio Scarano é professor de Ecologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), curador do Museu do Amanhã e titular da Catédra Unesco de Alfabetização em Futuros, uma parceria entre o Museu do Amanhã e a UFRJ. A Cátedra trabalha com ensino, pesquisa e extensão a partir das perspectivas de um grupo diverso de saberes e pessoas, promovendo educação socioambiental e pensando formas criativas de buscar um futuro sustentável para além das perspectivas limitadas do presente.

O palestrante iniciou sua fala analisando etimologicamente a palavra “inteligência”. “Temos o costume de associá-la a humanos, o que é uma confusão entre inteligência e racionalidade. A palavra vem do latim e junta os termos intus, ‘entre’, e legere, que significa ‘escolher’ ou ‘ler’. Inteligência, portanto, é discernir, saber escolher a melhor alternativa. É uma propriedade de todos os seres vivos”.

Para ele, a inteligência artificial (IA) se insere no que chama de “biotecnosfera”, a soma da matéria biológica com a matéria transformada pela ação humana. Ele lembra que se somarmos o peso de tudo que o homem construiu no planeta ultrapassamos o peso de toda a biomassa. Nesse cenário, Scarano ecoa a ideia do célebre filósofo Bertrand Russel que, na primeira metade do século 20, já defendia que possuíamos o suficiente para sustentar uma jornada de trabalho de seis horas diárias. “Mas o que temos feito é justamente o contrário, cada vez mais transformamos a natureza e as próprias pessoas em commodities”, criticou.

Em referência a outros grandes pensadores, o professor lembrou da visão positiva que o teólogo francês Teilhard de Chardin tinha sobre o rádio, o qual unia a todos numa consciência única universal. Também evocou o geógrafo Milton Santos para lembrar que há um intervalo de tempo entre o surgimento de ferramentas técnicas e sua incorporação no dia-a-dia. “Diante de tudo isso, o que falta para que de fato incorporemos essas tecnologias, de forma a termos mais tempo livre e nos unirmos definitivamente enquanto humanos?”, indagou. “Está tudo ao nosso alcance.”

Nesse cenário, a IA surge como mais uma dessas ferramentas que podem transformar nossas vidas. Entretanto, o mundo está cada vez mais fraturado e não parecemos saber consertar. “Talvez a IA possa ser uma camada a mais, uma ferramenta para que todas as inteligências do planeta se conectem e se permitam transcender essa estranha fase que vivemos. A essência da tecnologia é fazer o bem, é melhorar a nossa vida”, avaliou.

Scarano lembrou que a antecipação e a prevenção são características fundamentais da espécie humana que não estão sendo exercitadas no presente. “Cada vez mais olhamos para as tragédias com distância, como se nunca fosse acontecer com a gente. É o caso da crise climática, foi o caso do coronavírus. Precisamos regenerar nossa conexão com o mundo”, finalizou.

Uma visão social sobre IA

Elisa Reis é socióloga e atual coordenadora do Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre Desigualdade na Universidade Federal do Rio de Janeiro (NIED-UFRJ), onde também é professora no Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia. Ao lado de Virgilio Almeida, foi uma das idealizadores do tema da Reunião Magna de 2024. Sua palestra começou lembrando que inovações tecnológicas sempre foram recebidas com perplexidade ao longo da história. “Paul Berger, ‘pai’ da engenharia genética, temeu tanto seus usos que liderou um movimento por sua regulação”, exemplificou.

Com a inteligência artificial estamos vendo movimentos parecidos. Enquanto ocupava a posição de Alta-Comissária da ONU para Direitos Humanos, a ex-presidente chilena Michelle Bachelet chegou a pedir uma moratória no comércio e desenvolvimento de IA até que a humanidade compreendesse melhor seus riscos. No campo oposto, o cientista-chefe em IA da gigante de tecnologia Meta e vencedor do Prêmio Turing, Yann LeCun, defende que a regulação prematura pode matar a tecnologia ainda no berço. “Nós da comunidade cientifica precisamos fazer um balanço entre riscos e oportunidades. A ciência tem o compromisso de minimizar os primeiros e maximizar os segundos. Mas não é só papel nosso, é também da política e da moral”, sumarizou Reis.

Para ela, ter máquinas mais inteligentes do que nós é, ao mesmo tempo, assustador e emocionante. “Quando afirmamos que as máquinas permanecerão sob nosso controle, precisamos nos perguntar: ‘nós quem?’. Pensamos sempre nos ganhos para a humanidade, mas quais os objetivos imediatos de quem de fato tem o controle. A IA vem evoluindo de forma muito mais veloz que outras inovações do passado, demandando recursos crescentes. Ao mesmo tempo, o espaço dos estados nacionais é cada vez mais restrito”.

Ainda assim, a experiência recente mostra que as nações mais poderosas ainda conseguem manter as rédeas da inovação, como mostra a crescente queda de braço entre EUA e China sobre o TikTok. Para Elisa Reis, todos nós hoje vivemos numa dupla dinâmica: convivemos num espaço global possibilitado pelas redes mas ainda somos cidadãos de Estados-Nação nos moldes tradicionais. “Sempre é preciso lembrar que grande parte das pessoas vivem uma cidadania de segunda classe e ainda estão afastadas das revoluções da comunicação. No Brasil, isso significa que, mesmo que logremos nos inserir nessa tecnologia, arriscamos produzir um apartheid cultural ainda mais profundo que já temos”, alertou.

“Há muitos motivos para alarme. Nossos jovens não estão sendo preparados para um futuro de IA, mesmo nas melhores universidades do país. A grande maioria chega ao ensino superior sem a motivação e o arcabouço necessário para fazer as perguntas que levem ao desenvolvimento. O elitismo é tão naturalizado entre nós que nos privamos de recursos valiosos para avançar. Ao desperdiçar talentos renunciamos à inteligência coletiva do nosso país”, completou a palestrante.

A Acadêmica defende que o futuro da IA começa hoje, definindo metas básicas de avanço social e utilizando-a nesse sentido. A tecnologia pode ser chave para uma gestão pública mais veloz e transparente, com políticas sociais mais efetivas e focalizadas. Mas para que isso se concretize é preciso investir em capacitação. “Eu vejo a IA do futuro como um instrumento que pode agravar ou romper padrões excludentes, compete a nós fazer dela algo positivo”.

Assista a sessão a partir dos 26 minutos:

Sessão Plenária I: Inteligência Artificial e Regulação

No dia 7 de maio, durante a primeira Sessão Plenária da Reunião Magna 2024, a Academia Brasileira de Ciências (ABC) convidou a advogada Tainá Junquilho, o comunicólogo Ricardo Fabrino e o cientista político Fernando Filgueiras, para um debate sobre regulação digital com ênfase nos novos desafios postos pelas IA.

Inteligência Artificial e Democracia

Doutor em Comunicação e professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Ricardo Fabrino alertou sobre como os algoritmos já mudaram a forma como nos locomovemos, trabalhamos e até mesmo buscamos relações amorosas. No âmbito institucional, essas ferramentas já se inseriram nos sistemas de saúde, segurança pública, judiciário e podem otimizar os demais serviços públicos. “Temos uma possibilidade de tornar as instituições públicas mais rápidas, capazes de cruzar um número muito maior de dados de forma muito mais efetiva”, analisou.

Mas essas mudanças não chegam sem riscos. Na comunicação em particular, os algoritmos das redes sociais revolucionaram a forma como conversamos, principalmente sobre política, de uma forma que comprometeu seriamente o debate público. “Além de tornar a desinformação cada vez mais complexa e colaborar para deslegitimar as instituições, o que as redes têm feito é uma ‘perfilização’, ou seja, dividir as pessoas em nichos e bolhas, enfraquecendo a experiência comum que nos une enquanto cidadãos”, explicou Fabrino.

Outro risco é o fortalecimento das desigualdades. Algoritmos de IA trabalham com dados, cuja disponibilidade e fornecimento reflete as disparidades entre nós. Nesse cenário, sistemas que não são capazes de fazer uma avaliação ética tendem a reproduzir a desigualdade. “Há muitos vieses nos dados que alimentam os modelos. Corremos o risco de criar um futuro que é apenas a repetição do passado presente nos dados. Um exemplo de riscos é o uso dessas tecnologias pela polícia”, avaliou o palestrante.

Segundo ele, já há quem pense que a participação popular na gestão pública vai se tornar obsoleta, o que fortalece um ideal tecnocrático perigoso. “Há uma crença na gestão pública de que talvez o movimento em direção à IA torne a política desnecessária. Nesse sentido, surge mais um desafio à democracia”.

Por tudo isso, Ricardo Fabrino nos convida a uma reflexão simples: “Como democratizar a IA?”. Ele lembra que a História está repleta de instituições cuja origem não era democrática mas que foram democratizadas ao longo dos anos, e nada impede que o mesmo ocorra com a IA. “O desafio é entender como fazer isso para uma tecnologia que não parece plenamente controlável e compreensível, atravessada por interesses econômicos gigantescos e cujos impactos se dão em cascata na sociedade”, argumentou.

Para ele, a comunidade científica não pode furtar-se de discutir o tema, e algumas linhas gerais precisarão ser seguidas. “É papel da ciência pensar regulação. Para isso, é fundamental pensar numa participação popular em escala supra-nacional, tendo em vista as assimetrias internacionais no acesso à essas tecnologias. É preciso promover a pluralidade e enfraquecer as bolhas. Também precisamos pensar seriamente em responsabilização e em proteção das liberdades fundamentais”.

Desafios epistêmicos e jurídicos

Professor de ciência política na Universidade Federal de Goiás (UFG), Fernando Filgueiras entende a IA como uma tecnologia que não muda apenas a forma como fazemos as coisas, mas a própria forma como produzimos conhecimento e ciência. “Pela maneira como a inteligência humana – individual e coletiva – e a IA interagem, cada vez mais surgem novas formas de resolver problemas e realizar tarefas. Chamo isso de ‘transinteligência’, uma interação que continuamente está gerando resultados inovadores e impensáveis. Por isso a própria regulação precisará ser disruptiva”, avaliou.

Em sua visão, todas as abordagens regulatórias pensadas até agora esbarraram em limitações. “A ideia de autorregulação é a mesma coisa que não regular. Mas mesmo a regulação voltada para riscos, como da União Européia, a regulação do mercado de IA, dos EUA, ou regulações ainda mais rígidas de controle estatal, todas estas entendem a IA como um produto qualquer, o que é um erro. É preciso entendê-la como agente”.

Nesse sentido, Filgueiras é contra uma regulação universal para todas as aplicações da IA. “O uso de IA na saúde tem desafios muito particulares quando comparados ao uso em governos, ou no campo da física, por exemplo. Uma regulação única não será capaz de prever todos os efeitos não intencionais. O principal desafio é entender como a IA impacta na construção de conhecimento. Não é algo trivial”.

O palestrante defende que qualquer solução deverá ser desenvolvida coletivamente. “Precisamos pensar em mecanismos de co-regulação, estabelecendo um diálogo constante entre os atores envolvidos. Não deve ser uma regulação propriamente estatal, a partir de uma burocracia centralizada. É preciso um processo em que estado e os vários setores se reúnam, definam uma agenda regulatória e a apliquem. Dessa forma compartilham a responsabilidade, o que é fundamental para fortalecer os mecanismos democráticos”, defendeu.

PL 2338: Construindo consensos?

A advogada e pesquisadora Tainá Junquilho, vice-líder do Laboratório de Governança e Regulação da Inteligência Artificial do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), afirmou que a regulação hoje já é um consenso. “Visões utópicas que defendiam que IA – bem como as demais tecnologias digitais – não deveria ser regulada não se sustentam mais. Hoje já temos riscos concretos e comprovados, mas também não podemos ceder a discursos apocalípticos. Precisamos sair desses extremos e pensar de forma responsável que valores queremos promover em IA. Não é mais ‘se’, mas ‘como’ regular”.

Junquilho fez um apanhado sobre como as discussões legislativas evoluíram no país, mas afirmou que grande parte do esforço se tornou obsoleto com o advento das IA generativas em 2022. “Novos desafios surgiram e precisou-se repensar a regulação, realizar novos debates, novas audiências públicas para embasar novas propostas. O projeto anterior foi transformado no Projeto de Lei 2338/2023, que é mais pormenorizado”, explicou.

O projeto tem inspiração no AI Act da União Européia, que aborda o tema a partir dos riscos, definindo três classes: riscos excessivos, que são vedados, altos e moderados, os quais são permitidos desde que respeitadas certas pré-condições e aos quais se atribuem responsabilizações, caso os riscos se concretizem, independentemente da análise de culpa.

São considerados riscos excessivos o uso de IA para influenciar de forma prejudicial o comportamento de pessoas com relação à sua própria segurança e da sociedade, e também o uso por parte de governos para ranquear ou classificar cidadãos com base em comportamento e personalidade. “Dessa forma, o uso de IA para influenciar no debate público e atacar a democracia será considerado risco excessivo e estará vedado”, avaliou Junquilho.

Já os riscos altos englobam o uso de IA para seleção de candidatos à uma vaga de emprego ou universidades, por exemplo, bem como avaliações de acesso à crédito, serviços públicos ou tratamentos de saúde. Alguns setores, porém, estão excluídos do PL 2338/2023, como aplicações em defesa nacional e segurança pública. “Dessa forma, debates cruciais como o uso de armas autônomas e o reconhecimento facial pela polícia ficam de fora”, lamentou a palestrante.

Um dos pontos mais quentes e cruciais para a legislação é a definição de uma autoridade regulatória. Uma vez que a tecnologia é muito dinâmica, a análise de riscos estará sempre sujeita a reavaliações, que não poderão esperar novos projetos de lei. A palestrante afirma que a necessidade de um sistema nacional de regulação e governança em IA é consenso, mas que as partes divergem no desenho institucional final. Por exemplo, essa autoridade será um órgão novo ou a adaptação de algo já existente?

Em outros pontos importantes, a proposta de lei aborda aspectos fundamentais para a ciência. “São criados incentivos ao fomento de pesquisas em IA e à criação de bases de dados públicas e robustas, além de incentivos à realização de consultas públicas entre os diversos setores que são impactados pela tecnologia”, concluiu Junquilho.

Assista a sessão a partir dos 40 minutos:

Karen Strier: tecnologias de IA podem contribuir com a conservação das espécies

No dia 9 de maio, durante a última tarde de sua Reunião Magna 2024, a Academia Brasileira de Ciências (ABC) teve o prazer de receber a primatóloga Karen Strier, professora da Universidade de Wisconsin, EUA, e autoridade global sobre os macacos muriqui, da mata atlântica brasileira. Por conta de seu campo de estudo, a palestrante tem uma relação muito próxima com o Brasil e com a ABC. Strier também é co-presidente da Rede Interamericana de Academias de Ciências (Ianas), ao lado de Helena Nader.

Os muriquis são os maiores primatas do Novo Mundo, podendo chegar a 70 centímetros de altura, com o mesmo tamanho de cauda. Atualmente existem duas espécies, os muriqui-do-sul (Brachyteles arachnoides), que habitam os estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná; e os muriqui-do-norte (Brachyteles hypoxanthus), que se espalham por Minas Gerais, Bahia e Espírito Santo. Estes últimos são considerados os primatas em maior risco de extinção do mundo. “São espécies em alto risco porque moram na mata atlântica, onde sobrou apenas 12% de área conservada. Mas estudá-los me ensinou muito sobre resistência e resiliência, por isso sou muito otimista quanto ao futuro deles”, avaliou a palestrante.

Segundo ela, atualmente existem cerca de 15 populações desses primatas na natureza, mas a maior parte delas é muito pequena, com dezenas de indivíduos, e por isso têm pouca viabilidade de sobrevivência a longo prazo sem intervenção humana. Mas também existem entre duas a quatro populações viáveis, com centenas de macacos, e uma delas se tornou o ponto focal dos estudos de campo da pesquisadora. “Essa população está num fragmento de floresta conservada em Caratinga, Minas Gerais, onde o proprietário, o senhor Feliciano Abdala, decidiu criar um santuário de primatas. Essa é uma história que vale a pena ser contada, pois mostra o impacto que uma pessoa sozinha consegue ter”.

Uma família de muriquis-do-norte (Foto: Marcos Amend)

É lá que Karen Strier e sua equipe trabalham monitorando os animais, sempre da forma menos invasiva possível. A utilização de tags e outros aparelhos físicos de identificação foi preterida pelo monitoramento por câmeras e pela análise de fezes, fazendo com que os cientistas não precisem tocar nos animais. Esse bom relacionamento se reflete no comportamento e a maioria dos muriquis é curiosa e não tem medo de humanos. “Acabamos por nos apegar a eles, reconhecê-los como indivíduos que não são nossas cobaias, damos até nomes”, conta a pesquisadora.

Mas esse comportamento dócil também reflete a própria natureza dos muriquis, que diferentemente de outros primatas, são menos territorialistas e possessivos. Ao contrário de outros macacos, os machos não são expulsos do bando quando se tornam adultos e também não há disputas por fêmeas, com cada macaco possuindo vários parceiros. Raramente se observam brigas ou agressões entre eles. “A National Geographic certa vez os chamou de ‘macacos hippies’”, brincou Strier.

A análise contínua e não-invasiva foi o que permitiu que o grupo de Strier descrevesse esses comportamentos atípicos dos muriquis, bem como definir que a gestação dura sete meses e que os filhotes levam nove anos até chegar a idade reprodutiva. Análises genéticas posteriores possibilitaram confirmar o que já se pensava a muito tempo: os muriquis do norte e do sul constituem duas espécies distintas.

“Acho que a contribuição cientifica mais importante dos muriquis é a identificação de quais características de seu comportamento são flexíveis. Eles são muito flexíveis ecologicamente, nas dietas, na forma de socializar. Ao mesmo tempo, eles são vulneráveis a certas mudanças em seu habitat. Por exemplo, quando a população cresce demais o fragmento de floresta se torna pequeno, e observamos macacos descendo das árvores para comer restos de frutas. Observar isso é de partir o coração”, contou.

Por conta dessa fragmentação, Strier defende a importância dos corredores ecológicos conectando diferentes fragmentos, o que ajuda na proteção e na diversificação genética da população, algo fundamental para a sobrevivência a longo prazo. Além disso, avalia que as novas tecnologias de inteligência artificial – tema principal da reunião deste ano – podem dar contribuições fundamentais à conservação, sobretudo para lidar com o alto número de dados e regiões focais num país tão extenso quanto o Brasil.

Mas sobretudo, conservar espécies nativas tem a ver com vontade política. Por isso, cientistas que trabalham nessa área precisam ser ativos no debate público mais do que qualquer outro, para que suas demandas não caiam no esquecimento. “É um trabalho sobre resiliência, persistência, otimismo e esperança. Mas também sobre a responsabilidade que precisamos ter para com estes animais”, concluiu.

Margaret Martonosi: desenvolvimento de IA requer pegada de carbono acoplada

No dia 8 de maio, como parte de sua Reunião Magna 2024, a Academia Brasileira de Ciências teve a honra de receber no Museu do Amanhã a cientista da computação Margaret Martonosi, professora da Universidade de Princeton, EUA, para falar sobre inteligência artificial – tema da reunião deste ano – do ponto de vista dos computadores e chips. Martonosi é especialista em arquitetura de computadores, com ênfase em eficiência energética, tema central para o desenvolvimento de IA.  De 2020 até 2023, Martonosi foi diretora da área de Ciências da Computação, Informação e Engenharia da National Science Foundation, principal órgão federal de fomento à ciência nos EUA.

A palestrante iniciou lembrando que em 1950, quando os computadores ainda eram máquinas gigantescas com pouca capacidade de processamento, o pai da computação moderna, Alan Turing publicou um artigo em que ponderava: “Podem as máquinas pensar?” Mais de sete décadas depois, essa pergunta continua mais atual do que nunca com a evolução das IA.

Martonosi comparou os diversos elementos, ou camadas, que compunham os computadores de 1950 e hoje em dia.  Esses elementos vão desde os transistores, na camada inferior, até as linguagens de programação e os algoritmos nas camadas superiores. Todas essas partes trabalham juntas para a máquina funcionar. “Cada vez mais vemos camadas intermediárias nesse bolo sendo substituídos por sistemas otimizados para aplicativos e o mesmo pode ocorrer para sistemas de IA. Talvez daqui a uma ou duas décadas a arquitetura computacional predominante seja outra”, observou.

Margaret Martonosi durante a Reunião Magna 2024 (Foto: Marcos André Pinto)

Entre os desafios do desenvolvimento de hardware moderno está aumentar a eficiência energética. Num mundo que exige cada vez mais sustentabilidade, conservar energia é fundamental. Para se ter uma ideia, a maior parte das operações realizadas na internet hoje em dia depende de grandes datacenters que podem chegar a uma demanda energética de 100 megawatts, suficiente para abastecer uma cidade com 60 mil domicílios. “A boa notícia é que a capacidade computacional dos datacenters está aumentando de forma muito mais rápida do que a demanda energética. De 2010 a 2018, a primeira aumentou em 550% enquanto a segunda apenas 6%”, contou a palestrante.

Mas desde 2018 a computação, e em especial a inteligência artificial, evoluiu bastante, elevando o custo energético. “Em especial, a pegada de carbono acoplada, isto é, a demanda energética envolvida desde a manufatura até o descarte dos equipamentos, é ainda maior que a demanda operacional. Precisamos pensar em ferramentas que quantifiquem melhor e ajudem engenheiros a colocar essa pegada de carbono na equação quando desenvolvem sistemas”, alertou Martonosi.

Um exemplo de evolução no hardware é o descrito pela “Lei de Moore”. Em 1965 o engenheiro Gordon Moore observou que o número de transistores – um tipo de semicondutor – em um chip dobrava a cada dois ou três anos. Longe de ser uma lei universal, a “Lei de Moore” acabou se mantendo verdadeira por muito mais tempo que seu próprio autor acreditou que seria. Mas, de acordo com a palestrante, isso começou a mudar nas últimas duas décadas. “Podemos continuar empilhando transistores, mas não ganhamos mais a mesma performance. Começamos a atingir limites energéticos ou mesmo físicos”, analisou. “Chips hoje em dia estão ficando tão quentes quanto lâmpadas, é algo que precisamos que considerar”, completou.

Outro desafio referente a IA tem a ver com a própria sociedade. Muitos analistas observam com preocupação a capacidade que essa tecnologia tem de criar abismos sociais ainda maiores. Para a palestrante, mitigar isso passa por um letramento em IA para todas as idades – “do jardim de infância aos cabelos brancos”. Ela acredita também que quanto mais inclusivo se tornar o corpo profissional em IA, problemas como vieses de dado diminuirão naturalmente. “Inclusão não é necessária apenas para quem se beneficia diretamente. Conseguimos melhores soluções de engenharia e pesquisa quando temos uma diversidade de mentes trabalhando. Isso é particularmente verdadeiro para IA, que depende de bancos de dados ainda muito concentrados em conteúdo de alguns países”.

Assista a palestra a partir de 2h40m:

Ranveer Chandra: agricultura de precisão feita com smartphones

Desenvolver uma agricultura mais produtiva e de menos impacto ambiental é um dos grandes desafios do século 21. Como parte do último dia da Reunião Magna 2024, a Academia Brasileira de Ciências teve a honra de receber no Museu do Amanhã o diretor de Pesquisa para a Indústria e Chief Technology Officer (CTO) de agricultura e alimentos da Microsoft, Ranveer Chandra. Ele compartilhou algumas das experiências da empresa no desenvolvimento de soluções para o setor nos EUA, no Brasil e na Índia.

Chandra lembrou que a agricultura do futuro é a de precisão. Mas mesmo que esse conceito tenha sido introduzido há 40 anos, ele ainda não decolou. Os motivos para isso giram em torno de custos proibitivos e dificuldades de inserção dessas tecnologias entre os fazendeiros. “Nossa meta é a democratização no acesso a soluções baseados em big data e inteligência artificial de forma que qualquer agricultor possa utilizar”, disse.

Ranveer Chandra, CTO em AgriFood da Microsoft

Mas para isso, existem alguns desafios. O maior deles é o da conectividade no campo. A maior parte das propriedades rurais possui sinal de internet nas casas, mas isso não é necessariamente verdade para todo o resto. O problema é que para se ter um acompanhamento continuado da produção agrícola é preciso a coleta de informações justamente onde o sinal é escasso. “Estamos trabalhando para levar sinal de wi-fi através de sinais de televisão, mais precisamente de frequências vagas que não possuem um canal associado. Também estamos tentando métodos similares para fazer isso por satélite, sem precisar de antenas”, contou Chandra.

Diminuir a dependência de infraestruturas nas fazendas é importante, pois um dos gargalos é o custo de equipamentos necessários à agricultura de precisão. Cada vez mais fica claro que o ideal é que os agricultores possam fazer a maior parte das medições utilizando seus próprios celulares. Chandra vem trabalhando numa forma de possibilitar medições de umidade do solo através de smartphones, e mostrou-se esperançoso de que a tecnologia permita um dia também medições de taxas de carbono.

Outras inovações apresentadas são o uso de chatbots, ou seja, sistemas de IA generativa de texto, como verdadeiros “assistentes agrícolas”. Essas plataformas podem utilizar os dados da fazenda para definir pontos ótimos para instalação de sensores, detectar pragas e doenças, ajudar o fazendeiro a navegar em questões de regulação e até mesmo guiar a manutenção de tratores. “Como experimento, fizemos nossas plataformas realizarem exames de agências reguladoras da agricultura nos três países, e elas tiveram notas suficientes para a aprovação. São tecnologias que não substituem o agrônomo, mas podem servir como uma segunda opinião”, contou Chandra.

Como resultados iniciais, Chandra apresentou a visão de alguns fazendeiros que colaboram com a empresa na utilização e testagem dessas soluções. Em um caso de sucesso, uma propriedade rural nos EUA pôde diminuir o uso de agrotóxicos em 38%. Esse é um exemplo de como tecnologias disruptivas podem contribuir para reduzir custos e gerar uma produção mais sustentável.

Assista a palestra a partir de 2h55m:

Confira a galeria de fotos da Reunião Magna 2024:

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