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Saiba tudo sobre a Reunião Magna e Sessão Solene da ABC 2024

MATÉRIAS REUNIÃO MAGNA 2024


 

Conferências Magnas

Sessão Solene da ABC e CNPq 2024: parte 1
Sessão Solene da ABC e CNPq 2024: parte 2


Cientista brasileira é uma das cinco pesquisadoras a vencerem o Prêmio Internacional L’Oréal -Unesco Para Mulheres na Ciência

São Paulo, 14 de maio de 2024 – A Fundação L’Oréal em parceria com a UNESCO têm o orgulho de revelar os nomes das cinco vencedoras do Prêmio Internacional L’Oréal-UNESCO Para Mulheres na Ciência 2024. No dia 28 de maio, a sede da UNESCO em Paris receberá as cientistas que serão homenageadas pelos seus projetos pioneiros nas áreas das ciências da vida e do ambiente e, em particular, pela sua importante contribuição para enfrentar os desafios globais de saúde pública, que vão do câncer às doenças infecciosas, como a malária e a poliomielite, e doenças crônicas como obesidade, diabetes e epilepsia.

Todos os anos, o prêmio internacional L’Oréal-UNESCO Para Mulheres na Ciência homenageia uma mulher de cada continente, isto é, África e Estados Árabes; Ásia e Pacífico; Europa; América Latina e Caribe; e América do Norte. Este ano, a brasileira Alicia Kowaltowski será uma das cientistas homenageadas, representando a América Latina e Caribe, pelo seu projeto que contribui para a saúde pública, através do estudo da biologia das mitocôndrias.

As laureadas desta 26ª edição foram selecionadas entre 350 candidatos em todo o mundo pela Professora Brigitte L. Kieffer, Diretora de Pesquisa do Instituto de Pesquisa Inserm, membro da Academia Francesa de Ciências e ex-vencedora do programa Para Mulheres na Ciência.

Por meio dos seus projetos, as ganhadoras demonstram que a ciência precisa mais do que nunca das mulheres para enfrentar, por exemplo, os grandes desafios de saúde pública, num cenário em que os casos de câncer poderão aumentar em 77% até 2050, a obesidade irá afetar 1 em cada 8 pessoas em todo o mundo, além dos mais de 249 milhões de casos de infecção por malária. (Fonte: Organização Mundial da Saúde)

AS LAUREADAS DE 2024 – PRÊMIO INTERNACIONAL PARA MULHERES NA CIÊNCIA

 

LAUREADA PELA AMÉRICA LATINA E CARIBE

A professora de Bioquímica Alicia Kowaltowski, da Universidade de São Paulo (USP) no Brasil [e membro titular da Academia Brasileira de Ciências – ABC], receberá o prêmio por sua contribuição fundamental para a biologia das mitocôndrias, que são “a principal fonte de energia das células, atuando como suas baterias”. O seu trabalho tem sido fundamental para a compreensão das implicações do metabolismo energético no que diz respeito a doenças crônicas, incluindo a obesidade, a diabetes e o envelhecimento.

LAUREADA PELA ÁFRICA E OS ESTADOS ÁRABES

A professora Rose Leke, ex-chefe do Departamento de Doenças Infecciosas e Imunologia da Faculdade de Medicina e Ciências Biomédicas e ex-Diretora do Centro de Biotecnologia da Universidade de Yaoundé, em Camarões, será homenageada pela sua dedicada liderança e seus esforços para melhorar os resultados da malária associada à gravidez, apoiar a erradicação da poliomielite e aprimorar a imunização na África.  Além de buscar meios para que jovens cientistas possam alavancar suas carreiras. A influência nacional, regional e global da Dra. Leke teve um impacto profundo na saúde pública no seu país natal, Camarões, e em toda a África. Suas realizações a posicionam como um modelo, educadora líder e defensora de jovens cientistas.

LAUREADA PELA AMÉRICA DO NORTE

A professora Nada Jabado, do departamento de pediatria e genética humana no Canadá, será homenageada por revolucionar a compreensão dos defeitos genéticos responsáveis pelos tumores cerebrais pediátricos agressivos. A descoberta das primeiras mutações de histonas em doenças humanas, conhecidas como onco histonas, desencadeou uma mudança fundamental na esfera da investigação do câncer. Por meio da sua investigação inovadora e liderança eficaz no estabelecimento de uma rede colaborativa global, ela remodelou a abordagem médica ao câncer pediátrico, avançando tanto nas capacidades de diagnóstico como nos tratamentos clínicos para pacientes jovens.

LAUREADA PELA ÁSIA E PACÍFICO

A professora Nieng Yan da Escola de Ciências da Vida em Tsinghua, receberá o prêmio por descobrir a estrutura atômica de múltiplas proteínas da membrana. Sua pesquisa excepcional informou vários distúrbios, como epilepsia e arritmia, e orientou o tratamento da síndrome dolorosa. Como uma autoridade líder em seu campo, a Dra. Yan inspira mulheres cientistas em todo o mundo e é uma forte defensora da igualdade de gênero na pesquisa e na educação científica.

LAUREADA PELA EUROPA

A professora Geneviève Almouzni, diretora de Pesquisa do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS) do Instituto Curie na França, será homenageada por suas contribuições inspiradoras para o entendimento de como o DNA é empacotado com proteínas dentro do núcleo da célula. O seu trabalho pioneiro em epigenética aprofundou a compreensão de como a identidade celular é determinada durante o desenvolvimento normal e interrompida pelo cancro.

26 ANOS EMPODERANDO MULHERES NA CIÊNCIA

Hoje, as mulheres representam apenas 33,3% de todos os pesquisadores do mundo, segundo dados da UNESCO. Além disso, ainda existem outras barreiras – apenas um quarto dos cargos de liderança científica são ocupados por mulheres na Europa e apenas 7,5% dos Prêmios Nobel da ciência foram atribuídos a mulheres desde a sua criação.

Durante 26 anos, a Fundação L’Oréal em parceria com a UNESCO tem trabalhado em conjunto para promover a igualdade de gênero na ciência por meio do prêmio internacional Para Mulheres na Ciência e dos programas para jovens talentos que abrangem mais de 140 países, destacando as mulheres cientistas e contribuindo para quebrar o teto de vidro na ciência.

Desde a sua criação, o programa L’Oréal–UNESCO Para Mulheres na Ciência homenageou mais de 4400 mulheres pela excelência da sua investigação, incluindo 132 laureadas com prêmios internacionais e mais de 4000 jovens pesquisadoras.

ENTRE AS LAUREADAS, 7 RECEBERAM O PRÊMIO NOBEL DE CIÊNCIA

Alexandra Palt, Diretora Executiva da Fundação L’Oréal, afirma que um futuro sustentável para a humanidade depende de uma igualdade real entre homens e mulheres. “Infelizmente, este ainda não é o caso hoje na ciência, embora o mundo enfrente desafios sem precedentes. O programa L’Oréal-UNESCO Para Mulheres na Ciência garante que esta questão permaneça no centro do debate há 26 anos. Em particular, procuramos elevar o perfil das pesquisas conduzidas por muitas cientistas excepcionais e inspirar a próxima geração de mulheres pesquisadoras. Essa premiação internacional proporciona avanços significativos para a saúde da humanidade e encoraja-nos a continuar a luta,” afirma.

Para Lidia Brito, Diretora Geral Adjunta de Ciências Naturais da UNESCO, empoderar as mulheres na ciência é uma questão de equidade e pragmatismo. “As mulheres representam metade da população e será necessária toda a engenhosidade humana para enfrentar os desafios assustadores que enfrentamos, sejam eles a degradação ambiental, as perturbações climáticas e da biodiversidade, as pandemias, o fosso tecnológico ou a pobreza persistente. É encorajador ver um número crescente de mulheres entre os Prémios Nobel da ciência. Desde 1901, 25 mulheres receberam esta distinção, entre elas 15 (60%) desde a criação do programa L’Oréal-UNESCO Para Mulheres na Ciência em 1998. Seis destas 15 mulheres já haviam recebido o prêmio L’Oréal – Prêmio Internacional UNESCO Para Mulheres na Ciência antes de receber o Prêmio Nobel”, conclui.

Sobre o Grupo L’Oréal 

O Grupo L’Oréal se dedica à beleza há 115 anos. Com seu portfólio internacional único de 37 marcas diversas e complementares, o Grupo gerou vendas no valor de 41.18 bilhões de euros em 2023 e conta com mais de 90 mil colaboradores em todo o mundo. Como líder mundial em beleza, a empresa está presente em todas as redes de distribuição: mercados, lojas de departamento, farmácias e drogarias, cabeleireiros, varejo de viagens, varejo de marca e e-commerce. Pesquisa & Inovação, e uma equipe de pesquisa dedicada de 4.000 pessoas, estão no centro da estratégia da L’Oréal, trabalhando para atender as aspirações de beleza em todo o mundo. Reforçando seu compromisso de sustentabilidade, a L’Oréal anunciou o programa L’Oréal Para o Futuro e estabeleceu metas ambiciosas de desenvolvimento sustentável em todo o Grupo para 2030, visando capacitar seu ecossistema para uma sociedade mais inclusiva e sustentável. 

No Brasil, quarto maior mercado de beleza do mundo, a companhia completa 65 anos em 2024 e é uma das líderes entre as empresas de beleza, com um portfólio de 21 marcas no país, como L’Oréal Paris, Maybelline, Garnier, Niely, Colorama, Kérastase, L’Oréal Professionnel, RedKen, La Roche-Posay, Vichy, SkinCeuticals, CeraVe, Lancôme, Giorgio Armani, Yves Saint Laurent, Ralph Lauren, Cacharel, Prada, Azzaro, Mugler e Aesop.

Sobre o programa no Brasil 

Há 19 edições, o Grupo L’Oréal no Brasil realiza localmente o Para Mulheres na Ciência em parceria com a Academia Brasileira de Ciências e a UNESCO no Brasil, premiando sete pesquisadoras com uma bolsa-auxílio de R$ 50 mil reais nas áreas de Ciências da Vida, Ciências Físicas, Ciências Químicas e Matemática. No País, o programa já premiou 124 mulheres cientistas, somando mais de R$6 milhões de reais. As inscrições de 2024 estão abertas até o dia 10 de junho através do site https://bit.ly/pmnc_2024.

Imprensa – Grupo L’Oréal no Brasil

FSB Holding

Adriana Slaiman – adriana.slaiman@fsb.com.br

Tiffany Pancas –  tiffany.pancas@fsb.com.br

Tatiana Reid – tatiana.reid@fsb.com.br

 

Cientista brasileira é premiada em Paris

A cientista brasileira Alicia Kowaltowski  será homenageada em Paris, em 28 de maio, pelo Prêmio Internacional Para Mulheres na Ciência 2024, promovido pela Fundação L’Oréal, do Grupo L’Oréal, em parceria com a Unesco Ela é uma das cinco vencedoras reconhecidas por seus projetos pioneiros nas áreas das ciências da vida e do ambiente. A pesquisa da professora de Bioquímica na Universidade de São Paulo (USP) tem importante contribuição no enfrentamento dos desafios globais de saúde pública, como doenças crônicas, diabete, obesidade, infarto e envelhecimento.

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Alicia é graduada em Medicina, doutora em Ciências Médicas e foi selecionada pelo programa para estudar os recursos que permitem aos seres humanos obter energia dos alimentos para viver. “O metabolismo é fascinante porque está no cerne da vida – todas as definições técnicas da vida devem incluir o metabolismo e o fluxo de moléculas sendo transformadas dentro de nós”, comenta Alicia.

Hoje, a professora incentiva estudantes brasileiros a realizarem bolsas, apoiadas pela agência paulista de fomento Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), a fim de estimular suas pesquisas, ampliar seus horizontes e entregar resultados pioneiros. “Meu conselho aos cientistas em ascensão é para serem curiosos, fazerem boas perguntas, estarem abertos a resultados inesperados, encontrarem supervisores de apoio e nunca desistirem”, afirma.

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Leia a matéria na íntegra no site de O Globo

Sessão Plenária IV: Inteligência Artificial, Educação e ChatGPT

0A sessão plenária da Reunião Magna da ABC 2024 na tarde de 8 de maio contou com o Acadêmico Renato Janine Ribeiro (USP), Teresa Ludermir (UFPE) e Naomar Monteiro (UFBA). 

“Da tabuada à redação: como ficará a expressão com a IA?” 

O Acadêmico Renato Janine Ribeiro é doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), onde é professor sênior de Ética e Filosofia Política. Atua na área de filosofia política, com ênfase em teoria política. Professor honorário do Instituto de Estudos Avançados da USP. Foi ministro de Estado da Educação (2015). É pesquisador sênior do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). É membro titular da Academia Brasileira de Ciências e presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Sua apresentação era intitulada Ele faz uma comparação bastante pertinente: quando a calculadora se tornou portátil, veio um grande medo das crianças nunca mais aprenderem a fazer contas. “Hoje tem calculadora no celular. Alfabetização em matemática inclui fazer contas, mas não é preciso ter a tabuada na ponta da língua. Não tem mais sentido que as crianças façam cálculos. A matemática é uma linguagem, tem que aprender o raciocínio. O que as pessoas vão aprender é a interpretar dados, a fazer programação, a explorar a matemática em toda a sua utilidade”, argumentou o filósofo.  

Mas e na redação? Nesse caso, a expressão pessoal é a meta. Então, o argumento de Janine se inverte. “O Chat GPT produz textos razoáveis, mas não faz nada original. Se não treinar, como escrever? Se não aprender, como criar? Como haverá expressão?”

De fato, a IA não inova. “Ela não fala sobre o que o homem faz, mas sobre o que o homem fez. [O grande matemático e cientista da computação inglês] AlanTuring disse que ‘uma máquina infalível não será inteligente’. Aprendemos de modo geral por ensaio e erro. É preciso errar para aprender. O ChatGPT não pensa, não cria nada – ainda”.

Apesar de toda essa argumentação, Janine ressalta que na nossa cultura existe o fantasma da criatura que escapa ao criador, como o monstro do Dr. Frankenstein, de Mary Shelley,o Pigmaleão de Bernard Shaw e o robô do filme de Kubrick 2001, Uma Odisseia no Espaço. “Esse é um medo que o mundo da IA pode despertar”, alerta o Acadêmico.

Como a IA e o ChatGPT podem ajudar na educação? 

A Acadêmica Teresa Bernarda Ludermir é doutora pelo Colégio Imperial Imperial de Ciência, Tecnologia e Medicina da Universidade de Londres, na Grã-Bretanha. É professora titular da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), coordena o Instituto Nacional de Inteligência Artificial (INCT) e dirige o Centro de Pesquisa Aplicada em Inteligência Artificial para Segurança Cibernética. É membra da Academia Pernambucana de Ciências, membra sênior do Instituto de Engenheiros Elétricos e Eletrônicos (IEEE), membra da International Neural Network Society (INNS) e membra titular da Academia Brasileira de Ciências (ABC).

Refletindo sobre como o IA e o ChatGPT podem ajudar na educação, ela aponta que o Brasil não pode correr o risco de ser apenas um usuário de soluções de IA concebidas no exterior. “O desenvolvimento de uma IA ética e responsável para a educação é crucial para construir um futuro em que a tecnologia contribua para a democratização do conhecimento e a formação de cidadãos críticos e engajados”, apontou.

Ela explicou que o ChatGPT não é uma IA de propósito geral: é um sistema de IA gerador de textos como bom desempenho. Porém, o uso enorme de poder computacional ainda consome muita energia, não é sustentável.

Sobre as possibilidades de uso na educação, Teresa defende a IA como um parceiro do professor. “Não é substituir o professor por um programa e sim integrar o ensino de IA no currículo da educação básica e superior”, explicou.

A IA está fazendo diferença em diversas áreas na educação. A principal é a personalização do aprendizado. Com ajuda da IA, é possível de fato promover uma educação inclusiva. “Primeiro, ela pode ajudar o professor sugerindo novos métodos de ensino, melhorias do processo de avaliação e na criação de conteúdo. “Os jovens de hoje têm dificuldade de concentração, só dão atenção a pouquíssimos minutos de aulas. Os tutores propõem jogos e novas atividades, podem dar ao professor um feedback. Dão assistência na preparação de materiais didáticos, ajudam o professor”, destaca Teresa. “E no caso do aluno com dificuldade, a IA oferece tutores individuais que acompanham individualmente cada um e ele consegue evoluir. Além disso, os benefícios na gestão escolar são imensos. E dá acesso à educação de qualidade em locais distantes, onde não há professores suficientes”, complementa.

O desenvolvimento de uma IA ética e responsável para a educação é crucial para construir um futuro em que a tecnologia contribua para a democratização do conhecimento e a formação de cidadãos críticos e engajados. Mas Teresa sabe que nem tudo são flores. Os desafios da implementação da IA na educação são grandes, especialmente na formação de professores e engajamento dos alunos, assim como há questões no uso da IA com ética e responsabilidade. “A desigualdade digital, em vez de ser reduzida, pode aumentar, por conta de falta de infraestrutura e dos custos de implementação. E há pontos fundamentais, como a regulamentação e políticas públicas. Estas têm que promover a inclusão digital para não perdermos esse bonde.” Ela defende a promoção de campanhas de conscientização pública sobre os benefícios e riscos de IA.

Além destes desafios, existe a própria questão tecnológica. “Precisamos melhorar o desenvolvimento de modelos. Nem toda IA é uma IA responsável, porque precisamos de mais ciência nos modelos para reduzir o viés algorítmico, avaliar a qualidade dos dados. Dados tem erros. E precisamos saber reduzir o tamanho dos modelos”, apontou a palestrante.

E para tudo isso, evidentemente, é preciso financiamento. Primeiro. para a formação de recursos humanos qualificados em inteligência artificial. Segundo, mas ao mesmo tempo, para o aumento imediato da capacidade computacional do país. “Temos que estabelecer centros internacionais de pesquisa no Brasil, atraindo especialistas em IA e estabelecendo política para fixação de talentos, com remuneração competitiva com mercado internacional”, finalizou Teresa Ludermir.

Inteligência Artificial na Saúde: Desmitificar para Avançar

O médico Naomar Monteiro é Ph.D. em Epidemiologia e doutor honoris causa pela Universidade McGill, no Canadá. É professor aposentado do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde coordena o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Inovação, Tecnologia e Equidade em Saúde (Inteq-Saúde). Também atua como professor visitante no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP), onde ocupa a Cátedra Alfredo Bosi de Educação Básica, desenvolvendo estudos sobre a relação entre universidade, educação, história e sociedade. Ele desenvolve pesquisas no campo da epidemiologia de transtornos mentais, particularmente o efeito de raça, racismo, gênero e classe social sobre a saúde mental.

Naomar apresentou um mapa conceitual de 2022 do campo da saúde digital, no qual a inteligência artificial (IA) é o centro de tudo: saúde móvel, saúde eletrônica, telemedicina e telessaúde. “No mapa de 2016, a IA nem aparecia”, observou. Naomar apontou que o uso de IA em saúde tem sido mostrado como uma das aplicações positivas. “Porém, está sendo feito com pressa, sem muita reflexão. A otimização visa a lucratividade, sem dúvida, e não a equidade no atendimento.”

Sobre os desafios e perspectivas do uso pedagógico de IA na educação superior, Naomar destacou que é preciso promover transversalidades, reinventar a ideia de competência crítica e pautar a formação de formadores numa cultura digital sensível. “E superar a confusão conceitual, como a noção de letramento digital. ‘Letramento’ é uma tradução do inglês, de ‘literacy’, que significa ‘alfabetização’. Então, rigorosamente, ‘letramento digital’ é alfabetizar pessoas para programar, mas não é como o termo vem sendo usado: ele vem sendo usado como a capacidade de lidar com os dispositivos mínimos, como o celular e o laptop”.

“Promover transversalidades”, de acordo com Naomar, envolve operar em torno de eixos temáticos e vetores do conhecimento coerentes com a complexidade de organização do saber científico na atualidade. “O repertório curricular deve ser menos rígido, sem caráter obrigatório, mais inter e transdisciplinar, incorporando conhecimentos e valores relativos às humanidades, ciências sociais e artes. Para a formação de um indivíduo é fundamental buscar equilíbrio entre conhecimento e imaginação, entre efetividade e excelência, entre racionalidade e sensibilidade”, apontou.

Sobre a priorização das competências tecnológicas críticas, a educação deve envolver a compreensão de lógicas, mecanismos e efeitos das técnicas e instrumentos de práticas, a fim de possibilitar intervenções nos corpos sociais, individuais e coletivos com propriedade e qualidade. Para Naomar, o professor do século XXI deve desenvolver habilidades para aplicar tecnologias no máximo de eficácia, focando na eficiência (custo-benefício), na efetividade concreta (qualidade-equidade) e, assim, promovendo uma transformação social sustentável.

“Professores devem ser capazes de utilizar saberes, práticas e técnicas, a partir de avaliação crítica dos seus aspectos operativos, principalmente o potencial de valorizar a sensibilidade ecossocial”, explicou. Esta “sensibilidade ecossocial” envolveria, entre outros pontos, a consciência planetária, a ética e respeito à diversidade humana e aos diferentes saberes, assim como o estímulo à solidariedade e empatia.

Nick Couldry: “IA não é inteligência, nem é artificial”

O sociólogo Nick Couldry trabalha na London School of Economics and Political Science, no Reino Unido. Seu trabalho é voltado principalmente para estudos de mídia e comunicações, cultura e poder, e teoria social. Ele apresentou uma Conferência Magna intitulada “IA como Mito e Colonialismo de Dados” na Reunião Magna da ABC 2024, no dia 7 de maio.

Couldry descreve a inteligência artificial (IA) como uma evolução da computação. “Não é inteligência, nem é artificial, porque depende do trabalho humano para treiná-la. É apenas probabilística, não é criativa”. E vai além: afirma que é uma descrição equivocada, que cria um reconhecimento equivocado. “No mínimo, é um exagero de marketing que serve aos interesses de algumas grandes corporações de tecnologia.”

O sociólogo entrou on-line, do Reino Unido

Couldry defende que as práticas e discursos que chamamos de “IA” representam uma redefinição fundamental do conhecimento e de suas relações de poder. “E se impõe com a nossa participação, que incorporamos a IA na vida cotidiana sem entender o que está em jogo”, alertou.

Nossa ordem socioeconômica está sendo transformada através da IA, aponta Couldry, transformando a vasta capacidade de computação expandida em algo que chamamos de “inteligência”, mas são os resultados matemáticos de vasta e direcionada computação interativa que é… eficaz. “Mas não pode explicar por que é eficaz!” Ele citou Vint Cerf, que diz que a IA generativa gera previsões cujo único critério de eficácia é “credibilidade gramatical”. Couldry alerta que “confundir” os resultados da IA com conhecimento é cometer um erro de categoria profundo. “Se os resultados da IA, por mais eficazes que sejam como hipóteses, não podem explicar por que são plausíveis, então a IA é fundamentalmente diferente da inteligência humana”, observou. 

E essa é uma questão importante, de acordo com Couldry, porque nossa percepção da IA pode reconfigurar o que chamamos de “conhecimento” e como ele estará incorporado à vida social. O que a IA entrega é uma produção acelerada de resultados ‘suficientemente bons’. E isso é uma mudança na construção social do conhecimento”, afirmou.

As consequências podem ser impactantes para a liberdade social, se esse poder cognitivo for continuamente aplicado e ocorra um aumento da “espionagem em massa” através da IA em grande escala. E podem impactar também nas instituições de conhecimento de todos os tipos: como, e em que termos, elas podem confiar no conhecimento baseado na experiência humana se ele se torna um ativo financeiro?

Assim, Couldry considera que vivemos uma nova fase nas relações entre colonialismo e capitalismo, que é o colonialismo de dados, uma ordem emergente para a apropriação da vida humana, de modo que os dados possam ser continuamente extraídos dela, com valor agregado. “O colonialismo de dados prepara o terreno para um novo modo de produção capitalista e organização socioeconômica, enquanto coexiste com o legado neocolonial. É uma continuação da tentativa do Ocidente de impor uma única versão de racionalidade ao mundo”, explicou o sociólogo.

Para o palestrante, estamos reimaginando o conhecimento em prol do poder computacional comercial massivo controlado, enquanto imaginamos os limites inerentes à computação. “E essa visão de conhecimento produz ignorância”, pontuou.

E Couldry propõe uma tomada de posição. “Se o ‘risco existencial’ da IA reside nas transformações sociais que se desdobram em torno dela, o papel das ciências sociais não deveria ser a aceitação, mas sim a crítica da IA.”

Sessão Plenária II: avanços da computação e inteligência artificial

No dia 8 de maio, a segunda Sessão Plenária da Reunião Magna 2024 da Academia Brasileira de Ciências (ABC) tratou dos avanços da computação e da inteligência artificial. A sessão reuniu o Acadêmico e cientista da computação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Edmundo de Souza e Silva, o professor titular de computação da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) Altigran Soares da Silva e Clarice Sieckenius de Souza, professora emérita da PUC-Rio especializada linguística computacional, retórica digital e filosofia da tecnologia.

A corrida em IA: desafios e estratégias para reduzir a lacuna tecnológica 

Edmundo Souza e Silva, Coppe/UFRJ

Membro titular da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Nacional de Engenharia, Edmundo de Souza e Silva é doutor em Ciência da Computação pela Universidade da California (UCLA/EUA) e professor titular do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ). Suas pesquisas abrangem a modelagem e análise de sistemas de computação, redes de comunicação de dados e aprendizado de máquina. Ele contribuiu significativamente para a expansão da internet no Brasil.

“Estamos vivenciando uma nova era tecnológica em andamento, impulsionada pela computação, comunicação de dados e inteligência artificial”, apontou Edmundo. Segundo ele, desde 2019 já estava claro que haveria um ponto de inflexão, que está ocorrendo agora.

Ele abordou inicialmente os Grandes Modelos de Linguagem (“Large Language Models” ou LLMs), que são modelos de inteligência artificial (IA) capazes de interpretar e gerar texto de forma análoga à humana. “LLMs tentam prever as respostas baseando-se no contexto do diálogo e na sequência das frases anteriores”, explicou. Entre as aplicações mais usadas estão o ChatGPT-4 (OpenAI), o Gemini (Google) e o LLaMA 2 (Meta), Edmundo comentou que o teste de Turing, para tentar diferenciar um humano de um computador a partir do diálogo com ambos, já foi “quebrado” (ou “ultrapassado”)  pela IA.

Edmundo comentou que IA é um conceito amplo, objetivando fazer com que  o computador imite a inteligência humana.  Para tanto, a IA usa modelos de “aprendizagem de máquina”, que são métodos que possibilitam a detecção automática de padrões em dados, ou ainda “métodos úteis para fazer com que sistemas de computação possam realizar cada vez melhor uma determinada tarefa, através da experiência. O sistema ‘aprende’ parâmetros de um modelo que representa os dados”.

O poder computacional no mundo aumentou exponencialmente a partir de 2010. “Isso custa caro, requer máquinas poderosas e não se deu repentinamente”, ressaltou o pesquisador. “Requer investimento contínuo e crescente, e é isso que as grandes economias fazem”, destacou.

Em 2022, as agências governamentais de suporte à pesquisa dos EUA alocaram US$ 1,7 bilhão em IA para pesquisa e desenvolvimento (P&D), o que representou um aumento de 13% em relação ao ano anterior e um aumento de 209% em relação a 2018. Além do enorme investimento do governo, o setor privado investiu US$ 67.2 bilhões em 2023, quase nove vezes mais do que a China, que estava em segundo lugar no ranking.

Mas máquinas poderosas não bastam. É preciso ter massa crítica de pessoas altamente qualificadas que saibam desenvolver a tecnologia – e os EUA vêm investindo de forma crescente em recursos humanos devidamente qualificados mostra o gráfico apresentado por Edmundo sobre o número de professores e graduados em computação.

No Brasil, o Acadêmico avalia que haja em torno de três mil docentes em computação e 17 programas de excelência (avaliação Capes) nessa área nas universidades federais. “Acredito que formamos pouco menos de 400 doutores por ano em 2019. É preciso aumentar a nossa força de trabalho – e com qualidade”, ressaltou. Porém, ao aumentar a formação de recursos humanos precisamos pensar também na empregabilidade dos egressos. A capacidade de gerar empregos na área aumentou enormemente nos EUA entre 2011 e 2023. “Isso não acontece no Brasil, e por isso muitos dos nossos alunos de computação são contratados por empresas de outros países ainda nos cursos de graduação.”

De modo geral, a IA pode trazer vários benefícios ao processo de ensino e aprendizagem, facilitando a compreensão de conceitos em diferentes áreas, resumindo literatura num tema específico, possibilitando que alunos e professores interajam com tutores virtuais, estimulando o desenvolvimento de análise crítica durante a escrita, facilitando a análise de dados e outros benefícios que vão sendo descobertos com a experiência.

No entanto, para que seu uso seja eficaz é preciso que haja um certo nível de “alfabetização” digital, tanto da parte dos alunos como dos professores. “A disparidade na alfabetização digital pode aumentar as desigualdades educacionais. Os conteúdos precisam ser personalizados para refletir diversos contextos culturais e linguísticos. Se usarmos soluções prontas de IA, podemos criar mais problemas do que obter benefícios”, alertou o cientista. E ressaltou que é preciso reformular a maneira de ministradas as aulas, dando também suporte adequado para os professores – que continuarão indispensáveis.

Em suma, para que a IA tenha impacto positivo na educação, é preciso planejar como integrar os recursos que ela oferece em sala de aula, em todos os níveis educacionais. “E refletir sobre o que queremos com a educação, pois é fundamental formar jovens que tenham espírito crítico”, observou Edmundo. O pesquisador afirma que os LLMs não conseguem substituir a criatividade de um profissional com conhecimento. “A IA não é exatamente ‘inteligente’. Essa é uma palavra que ajuda a difundir a ideia, mas não é como um humano.” E sim, você pode ser enganado. A IA apresenta textos convincentes, mas, eventualmente, com erros. É preciso cautela e planejamento cuidadoso no uso. E, nesse quesito, os países com mais recursos levam vantagens.

Considerando, portanto, que a IA já está impactando a sociedade de muitas maneiras, é urgente que sejam feitas considerações éticas, entendendo benefícios e riscos. “A IA pode criar oportunidades de empregos em tecnologia. Porém, os empregos com mão de obra menos qualificada serão impactados. E quais as estratégias para requalificar mão de obra? Como promover redes de apoio social? Como promover as reformas educativas necessárias para acompanhar os avanços tecnológicos e gerar frutos para o país? Devemos também preservar nossos bancos de dados para que possamos resolver nossos problemas. Temos banco de dados riquíssimos e são eles que alimentam os algoritmos de IA.

O palestrante avalia que o uso de IA na solução de problemas sociais, especialmente, exige uma abordagem multidimensional. “Por isso, é fundamental engajar a sociedade, engajar estudantes para que desenvolvam soluções alimentadas por IA que abordem questões sociais nas suas comunidades”. Para Edmundo, temos uma janela de oportunidade pequena. “Mais do que nunca, precisamos unir ciência, legisladores e empreendedores para agir rapidamente.”

Reflexões Sobre o Desenvolvimento da IA no Brasil 

O tema de reflexão seguinte foi sobre a relevância de criação de um LLM brasileiro, dado que as Big Techs detêm liderança na área. Elas mantêm atualizações contínuas e lançamentos de novos modelos, enquanto os centros de pesquisa brasileiros possuem recursos restritos em financiamento, infraestrutura e de acesso a grandes volumes de dados.

Para o professor titular do Instituto de Computação da Universidade Federal do Amazonas (IComp/UFAM) Altigran Soares da Silva, é essencial que o Brasil e a academia brasileira não aceitem passivamente as soluções “prontas” de IA. “Devemos assumir o protagonismo no desenvolvimento de tecnologias e aplicações de IA que sejam verdadeiramente adaptadas nossa realidade sociocultural. Isto inclui investir em pesquisa e desenvolvimento locais, expandir os centros de inovação e formar parcerias estratégicas dentro do país.”

O professor amazonense, que foi cofundador de empreendimentos de tecnologia, como a Akwan, adquirida pela Google, a Neemu, adquirida pela Linx Sistemas, e a Teewa, adquirida pela JusBrasil, ressaltou a importância de o país desenvolver uma agenda de pesquisa autônoma, visando liderar inovações em áreas críticas, e estabelecer parcerias estratégicas e interdisciplinares que ampliem o impacto e a aplicabilidade da pesquisa em IA dentro do contexto nacional.

“Competir com Big Techs é impraticável, mas podemos reorientar investimentos para áreas onde o Brasil pode oferecer contribuições únicas e relevantes. Devemos investir em nichos específicos, buscando desenvolver soluções adaptadas às necessidades locais e maximizar o impacto social”. Altigran reforçou a importância de utilização dos recursos existentes de maneira estratégica, para liderar em áreas menos exploradas, gerando inovação sustentável. “E podemos utilizar LLMs abertos como base para o desenvolvimento dos nossos”, apontou.

A adaptação de LLMs ao português é um passo importante, especialmente para línguas com recursos limitados, como as indígenas. Altigran exemplificou possíveis aplicações da IA em dados públicos brasileiros, como os do SUS, INEP e CadÚnico, ressaltando a necessidade de parcerias entre universidades, indústrias e governo.

Os exemplos envolvem ações que já estão sendo realizadas por parcerias entre universidades, como uma no âmbito do CI-IA Saúde (CPA) envolvendo UFMG e UFAM. “A hipótese é de que é possível utilizar IA para permitir o pareamento eficiente, efetivo e escalável de dezenas ou centenas de bases médicas do SUS e do setor privado de seguro de saúde – que são incompletas, multimodais e heterogêneas” explicou. 

Claro que muito mais é necessário, na avaliação de Altigran. Mas já há muito que pode ser feito com o que temos em mãos. “São oportunidades significativas. O Brasil pode liderar inovações alinhadas com as necessidades locais, maximizando o retorno dos investimentos e posicionando o país como um líder na aplicação de IA em governança e administração pública, por exemplo”, finalizou.

Reflexões sobre o design de tecnologias com IA para uso científico 

Professora emérita da PUC-Rio, Clarice Sieckenius de Souza é doutora em Letras e Linguística, tendo se dedicado ao estudo da inteligência artificial, linguística computacional, interação humano-computador, semiótica computacional, retórica digital e filosofia da tecnologia ao longo de sua carreira.

Ela destacou que os softwares são artefatos intelectuais coletivos, que envolvem as pessoas que utilizam a computação e as que estudam a computação. “Realmente, os processos sociais que acontecem na computação são muito diversos, muito complexos”, assentiu.

Clarisse destacou que, diante dos desafios que temos como sociedade, a interdisciplinaridade é fundamental. “A pluralidade e diversidade na ciência são uma conquista civilizatória, pela qual nos cabe zelar”, apontou. “A IA oferece oportunidades inéditas para descobertas científicas, ao mesmo tempo em que poderá beneficiar-se continuamente destas mesmas descobertas para aprimorar-se”, disse.

A pesquisadora ressaltou ainda a necessidade de que os especialistas reenquadrem seus discursos. “Como nossos conferencistas falam sobre IA? Geralmente, usando sujeitos ocultos e indeterminados. Atribuímos tudo ‘aos sistemas, à IA’. Tipo ‘mamãe, o vaso quebrou’… sozinho?”

A questão da responsabilização por aquilo que a IA produz foi levantada por Clarisse. “Quando alguém pergunta a um especialista sobre o uso de IA para criar deepfakes em política, por exemplo, muitas vezes obtém respostas do tipo ‘isso não é problema meu, não posso controlar o uso’. É aquela posição de neutralidade, bastante questionável”, observou.

Ela alertou que com a IA a maneira de conhecer fica automatizada e que teremos apenas mais do mesmo, se só trabalharmos sem cima das probabilidades baseadas no que já existe. “É o oráculo do passado”, disse. Nesse sentido, ela apresentou dois conceitos interessantes: o de monocultura científica, que afirma o retrocesso de conquistas na diversidade, e o de injustiça epistêmica, que indica ameaças ao pensamento inovador.

“A IA usa software aberto, muito bem. Mas, e a engenharia do software? Não adianta discutir o produto da IA sem refletir sobre como ela é produzida”, observou. E finalizou com um apelo. “Colegas de toda as áreas, venham nos ajudar a abrir esse processo de produção de IA, vamos formar os desenvolvedores da IA de que precisamos e que queremos.”

Sessão Solene da ABC e CNPq 2024: parte 1

A Escola Naval, no Rio de Janeiro, foi palco da Sessão Solene conjunta da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) na noite de 8 de maio. O evento teve patrocínio da Marinha do Brasil e da Fundação Conrado Wessel.

A mesa foi composta pelo secretário-executivo do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Luis Manuel Rebelo Fernandes, representando a ministra Luciana Santos;  a presidente da ABC, Helena Bonciani Nader; o presidente do CNPq, Acadêmico Ricardo Magnus Osório Galvão; o comandante da Marinha do Brasil, Marcos Sampaio Olsen; o presidente da Diretoria-Executiva da Fundação Conrado Wessel, Carlos Vogt; a presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Acadêmica Denise Pires de Carvalho; o presidente da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), Celso Pansera; o presidente da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), Acadêmico Jerson Lima Silva; e o vice-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Acadêmico Paulo Eduardo Artaxo Netto.

Jerson Lima, Denise Carvalho, Ricardo Galvão, Helena Nader, Luis Fernandes, Almirante Olsen, Carlos Vogt, Celso Pansera e Paulo Artaxo

Menção Especial de Agradecimentos do CNPq

A cerimônia teve início com a entrega da Menção Especial de Agradecimentos do CNPq, que representa um reconhecimento da significativa contribuição de instituições e personalidades para o desenvolvimento, o aprimoramento e a divulgação do Conselho.

Recebeu a Menção Especial a Acadêmica Mercedes Maria da Cunha Bustamante, assim como o Ministério da Igualdade Racial. Também foram homenageadas com a Menção Especial a senadora Maria Teresa Leitão de Melo e a deputada federal Maria do Rosário Nunes, impossibilitada de comparecer devido às fortes chuvas que assolam o sul do país. 

Títulos de Pesquisador Emérito do CNPq

O título de pesquisador emérito do CNPq é destinado a pesquisadora ou pesquisador radicado no Brasil há pelo menos dez anos, pelo conjunto de sua obra científico-tecnológica e por seu renome junto à comunidade científica. Um dos homenageados foi o ex-presidente do CNPq, Acadêmico Evaldo Ferreira Vilela. Também receberam o título Antônio Ricardo Droher Rodrigues (in memoriam), o Acadêmico Clovis Caesar Gonzaga (in memoriam), Josefa Salete Barbosa Cavalcanti; Pedro Alberto Morettin e Ulpiano Toledo Bezerra de Meneses.

 

Prêmio Almirante Álvaro Alberto para a Ciência e Tecnologia 2024

O prêmio criado em 1981 era denominado Prêmio Nacional de Ciência e Tecnologia. O nome foi alterado em 1986, quando passou a ser chamado de Prêmio Almirante Álvaro Alberto para Ciência e Tecnologia. O prêmio é um reconhecimento e estímulo a pesquisadores e cientistas brasileiros que prestam relevante contribuição à ciência e à tecnologia do país. É uma parceria entre o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, e a Marinha do Brasil.

O prêmio contempla, alternadamente, uma grande área do conhecimento por ano. Em 2024, foi outorgado para a área de Ciências Humanas e Sociais, Letras e Artes. A premiação consiste em diploma e medalha concedidos pelo CNPq, MCTI e Marinha do Brasil; premiação em espécie concedida pelo CNPq; viagem no navio de assistência hospitalar e uma viagem à Antártica, oferecidas pela Marinha do Brasil.

A agraciada desta edição foi a Acadêmica Niède Guidon.

Reprodução | Nossa Ciência

Nascida em Jaú, no estado de São Paulo, no ano de 1933, Niède cursou História Natural na Universidade de São Paulo (USP), fazendo em seguida uma especialização em Arqueologia Pré-Histórica na Universidade Paris-Sorbonne e o doutorado em Pré-História na mesma universidade. Sua tese foi sobre as pinturas rupestres de Várzea Grande, no estado do Piauí. Trabalhou como arqueóloga do Museu Paulista da USP e dez anos depois entrou para o corpo docente da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, na França.

Dentre os diversos cargos de destaque que ocupou no Brasil e na França, atuou como professora visitante na Universidade Federal do Piauí, na Universidade Estadual de Campinas e na Universidade Federal de Pernambuco, onde orientou dezenas de teses, dissertações e publicações em livros e artigos em revistas científicas.

Ainda na década de 1970, com pesquisas apoiadas pelos governos francês e brasileiro, Niède Guidon iniciou as pesquisas na Serra da Capivara, também no estado do Piauí. Preocupada com a preservação dos sítios arqueológicos do Parque Nacional da Serra da Capivara, Guidon defendeu o desenvolvimento turístico como fonte de recursos para a região. Em 1979, foi criado o Parque Nacional da Serra da Capivara e em 1986 foi criada a Fundação Museu do Homem Americano (Fundham), com a finalidade de apoiar os trabalhos a serem desenvolvidos na área do parque e na região. Em 1991, o parque foi declarado Patrimônio Cultural da Humanidade, agregando a legislação internacional de preservação ao Patrimônio Arqueológico.

Com apoio do CNPq e de várias universidades brasileiras, Guidon investiga há mais de 40 anos a pré-história no Brasil. Suas pesquisas são referências fundamentais na arqueologia e apontam que a região da Serra da Capivara foi povoada a partir de tempos muito recuados, que beiram os 100 mil anos. Esses primeiros povos encontraram um habitat propício ao seu desenvolvimento e sobreviveram na região durante milênios, até serem dizimados pelos colonizadores, no final do século XVII.

Entre os prêmios e títulos recebidos ao longo de sua carreira destacam-se o título de Cavaleiro da Ordem Nacional do Mérito, oferecido pelo governo francês, em 1995; o título de Comendador da Ordem do Mérito Cultural, oferecido pelo Ministério da Cultura do Brasil, em 2002; o título de Cientista de Ano, oferecido em 2004 pela SBPC; a Ordem do Mérito Científico, na categoria de Grã Cruz, oferecido em 2005 pelo MCTI; o Prêmio Príncipe Claus, oferecido pelo governo da Holanda, em 2005; a medalha comemorativa dos 60 anos da Unesco, em 2010; e o International Hypatia Awards, oferecido pelo Centro Internacional para a Conservação do Patrimônio Arquitetônico da Itália, em 2020. Em 2021, Niède Guidon foi eleita membra titular da Academia Brasileira de Ciências.

Impossibilitada de comparecer ao evento, Guidon enviou um vídeo em que agradece a premiação. “Quero agradecer muito ao CNPq por esse prêmio. Eu simplesmente fiz o meu trabalho como pesquisadora e arqueóloga. Vinha da França pra cá, fazer pesquisas na Serra da Capivara, que é realmente um lugar fantástico, tanto pela natureza como pela memória que o homem pré-histórico deixou aqui, e por isso foi reconhecido pela Unesco como Patrimônio da Humanidade. Agradeço muito ao CNPq, que possibilitou todo esse trabalho. Espero que isso continue, porque ainda há muito a se descobrir na Serra da Capivara”. 

Ela foi representada na cerimônia pela diretora-científica da Fundham, Marcia Chame, que recebeu o prêmio Álvaro Alberto em seu nome, além da tradicional honraria da Marinha do Brasil, o Farol, que representa a luz que emana o conhecimento.

Márcia contou que trabalha há 44 anos com Niède Guidon e disse que ela ficou muito feliz com a homenagem. “Niède fez ciência de qualidade, com acurácia de dados, rigor metodológico e ética, além de coragem para enfrentar todas as teorias antes estabelecidas. Niéde transformou a região de São Raimundo Nonato. Ela construiu cinco escolas, envolveu três mil crianças num projeto de formação de profissionais para pesquisa. Cuidou da conservação da biodiversidade, conseguindo constituir o Parque e, depois, que ele se tornasse patrimônio cultural da humanidade. Levou a ciência muito além”. E agradeceu o reconhecimento, em nome da Acadêmica.

O comandante Marcos Olsen destacou o nome do prêmio, dado em homenagem ao primeiro presidente do CNPq e presidente da ABC em dois mandatos. “O almirante Álvaro Alberto da Mota e Silva dedicou-se ao estudo do domínio pacífico da energia nuclear. Teve atuação visionária na fundação e presidência do então Conselho Nacional de Pesquisa, o CNPq, um avanço importante na ciência brasileira. Buscou incansavelmente garantir a soberania do Brasil pela ciência.”

Luis Fernandes (MCTI), Ricardo Galvão (CNPq), Marcia Chame (Fundham) e o comandante Marcos Olsen

Presidente do CNPq, entidade que outorgou o prêmio, o Acadêmico Ricardo Galvão fez sua saudação. Ele focou na retomada democrática que veio arejar o país e dar fôlego à ciência brasileira, que está fazendo grandes avanços – ainda não suficientes, mas muito necessários. Destacou o reajuste das bolsas, estagnadas há quase 10 anos, e a oferta de mais de mil novas bolsas, com duplicação do investimento previsto. “Também foram objeto de substancial aporte as bolsas de produtividade em pesquisa, com a implantação do adicional de bancada para as de nível 2, minimizando assim a segregação entre modalidades”, apontou o presidente.

Ricardo Galvão, presidente do CNPq

Galvão ressaltou que, desde 2023, o CNPq passou a ser executor de uma parcela maior de recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, o FNDCT. De fato, o Conselho passou a ter participação direta em cinco das dez ações prioritárias do Fundo. Essa integração à nova política de aplicação dos recursos do FNDCT resultou em ajustes na política de fomento do CNPq. “Além disso, a aprovação de 2.750 projetos dentre 9.757 propostas submetidas demonstra que há uma enorme demanda qualificada reprimida, indicando a necessidade urgente de ampliar o orçamento próprio do CNPq”, alertou.

Um conjunto de ações mostra ainda a atenção do CNPq às temáticas relacionadas à promoção da igualdade étnico-racial e de gênero na ciência. Em parceria com o Ministério da Igualdade Racial, a chamada Pibic Ações Afirmativas foi fortalecida; a chamada Atlânticas, fruto de parceria entre o MCTI e os ministérios da Igualdade Racial, das Mulheres e dos Povos Indígenas, permitirá o envio de pesquisadoras negras, indígenas, quilombolas e ciganas para períodos de doutorado sanduíche e pós-doutorado no exterior. E em parceria com o Instituto Rio Branco (IRBr), o CNPq deu continuidade ao programa de ação afirmativa que oferece bolsas-prêmio de Vocação para a Diplomacia para candidatos negros”, listou Galvão.

“É pela reafirmação de um país que acredita na ciência, na história e no desenvolvimento humano que o CNPq premiou, hoje, a extraordinária pesquisadora Niède Guidon, grande vencedora do Prêmio Almirante Álvaro Alberto deste ano”, destacou. E complementou, reconhecendo que a reconstrução de todo um sistema de ciência, tecnologia e inovação leva tempo, “um tempo infelizmente mais longo que o empregado em seu desmonte”. Mas, a seu ver,  o conjunto de ações apresentadas demonstra que a comunidade científica já tem, sim, muito a celebrar, e terá certamente ainda mais nos próximos anos.

“Não há adversidade ou desafio que possa abater o ânimo de quem tem a honra e a felicidade de atuar na condução de uma instituição a serviço de uma comunidade científica tão rica, diversa, potente e produtiva como a brasileira”, finalizou.

Leia a continuação, na matériaSessão Solene da ABC e CNPq: parte 2

 



 

Leia a matéria Sessão Solene da ABC e CNPq 2024: parte 2

Sessão Solene da ABC e CNPq 2024: parte 2

Continuação de Sessão Solene da ABC e CNPq 2024: parte 1

Após a entrega do Prêmio Almirante Álvaro Alberto para a Ciência e Tecnologia 2024 para a Acadêmica Niède Guidon, os títulos de Pesquisador Emérito do CNPq e as Menções de Agradecimento, finalmente foram diplomados os novos membros da ABC.

Diplomação dos novos membros da Academia Brasileira de Ciências
Eleitos na Assembleia Geral da ABC de 4 de dezembro de 2023, estavam presentes na cerimônia da noite de 8 de maio na Escola Naval 18 dos 20 novos membros titulares. Não puderam comparecer a bioquímica Cristina Wayne Nogueira, da área de Ciências Químicas da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), e o engenheiro agrônomo Antonio Costa de Oliveira, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), em função das fortes chuvas na região. Dos três novos membros correspondentes, não estavam presentes Alberto Rodolfo Kornblihtt (Ciências Biológicas, Argentina) e José Alejandro Madrigal (Ciências Biomédicas, Reino Unido).

Foram diplomados Nancy Lopes Garcia (Ciências Matemáticas, Unicamp); das Ciências Físicas, Andrea Brito Latgé (UFF), Daniela Lazzaro (ON) e Luis Carlos Bassalo Crispino (UFPA); das Ciências da Terra, Marly Babinski (USP); das Ciências Biológicas, Neusa Hamada (INPA) e Vera Lucia Imperatriz Fonseca (USP); das Ciências Biomédicas, Ana Maria Caetano de Faria (UFMG), Marcio Lourenço Rodrigues (Fiocruz) e Patricia Chakur Brum (USP); das Ciências da Saúde, Monica Roberto Gradelha (UFRJ) e Selma Maria Bezerra Jeronimo (UFRN); das Ciências Agrárias, Francisco Murilo Zerbini Junior (UFV) e Segundo Sacramento Urquiaga Caballero (Embrapa). Das Ciências da Engenharia, Eduardo Antônio Barros da Silva (UFRJ), Julio Romano Meneghini (USP) e Teresa Bernarda Ludermir (UFPE); das Ciências Sociais, Renato Janine Ribeiro (USP); e a membra correspondente Karen Barbara Strier (Ciências Biológicas, Universidade de Wisconsin-Madison).

Os diplomados na noite de 8 de maio

Saudação aos novos membros da ABC
Para recepcionar os novos membros foi convidado o vice-presidente da ABC para a região Sul, o antropólogo Ruben George Oliven, residente em Porto Alegre. Ele explicou sua ausência como mais uma questão decorrente do negacionismo climático, “é a reação do meio ambiente à ação predatória de alguns setores da sociedade”, pontuou. “A ciência tem muito a contribuir para evitar novas tragédias. A ABC tem alertado e vai continuar alertando a sociedade e o poder público sobre a importância de seguir os ensinamentos da ciência”, disse.

O Acadêmico Ruben Oliven faz a saudação aos novos membros da ABC; na mesa, Jerson Lima (Faperj), Denise Carvalho (Capes), Ricardo Galvão (CNPq), Helena Nader (ABC), Luis Fernandes (MCTI), comandante Marcos Olsen, Carlos Vogt (FCW), Celso Pansera (Finep) e Paulo Artaxo (SBPC)

Oliven apresentou de forma resumida as ações da ABC, mostrando aos novos membros todas as frentes de trabalho nas quais podem se engajar. Falou sobre as mudanças mais recentes, como a inserção de mais mulheres e a primeira presidência de uma cientista mulher.  Destacou também a eleição recente de Davi Kopenawa como membro colaborador, ressaltando que a defesa dos direitos dos povos indígenas e da conservação da floresta amazônica são temas muito caros à Academia Brasileira de Ciências.

 “A ABC tem dez áreas e cada uma delas elegeu novos membros. O convívio com cientistas de distintas áreas é fascinante, na medida em que nos coloca em contato com pessoas que trabalham com diferentes temas e de modos diversos, mas que compartilham a curiosidade que é típica dos cientistas e a desenvolvem através de suas pesquisas.”

O cientista apontou ainda a posição enfática em defesa  da ciência que a ABC assumiu durante o período obscurantista por que o país passou. “Preocupamo-nos também com a questão da Desinformação Científica, sobre a qual estamos publicando um documento que alerta sobre as consequências nefastas de divulgar mentiras sobre vacinas, sobre o clima e sobre a evolução humana. Os desastres que têm assolado o Brasil nos últimos tempos nos dão razão”, observou.

Enfim, Oliven afirmou que a Academia é suprapartidária: “o partido da ABC é a ciência”. E defendeu o fato de a ABC ser considerada “cautelosa”, explicando que ela só se pronuncia quando tem uma posição embasada em pesquisas e evidências. “É este seu papel. Ela é uma instituição séria. Séria, mas não sisuda”, brincou.

 

Em nome dos recém-empossados 

A Acadêmica Vera Lucia Imperatriz

A Acadêmica Vera Lucia Imperatriz Fonseca representou os novos membros no seu agradecimento. Ela também se referiu aos importantes estudos sobre os limites das ações humanas para a manutenção do equilíbrio e a sustentabilidade do planeta, conduzidos por muitos cientistas. Destacou que os riscos relacionados ao ponto de não retorno ambiental têm sido bastante divulgados e apontou a importância das ciências sociais nesse momento. “A ciência e os saberes em geral têm uma voz imprescindível, e os seus feitos na recente pandemia mostraram o quanto dependemos dela e da comunicação horizontal para a população. Agradeço em nome do grupo aos membros da Academia que nos acolhem e esperamos corresponder às expectativas.”

 

Palavras da presidente

Helena Nader, presidente da ABC

A presidente da ABC, Helena Nader, agradeceu a todos os parceiros ali representados que possibilitam a realização das atividades da ABC, especialmente aquela cerimônia: CNPq, Marinha do Brasil, Capes, Faperj e Finep. Ela concordou com Galvão sobre haver muito a celebrar esse ano, especialmente a consolidação da nossa jovem democracia, que remonta apenas a 1986.

Helena considerou motivo de celebração a volta do Brasil à arena internacional, focada especialmente na sustentabilidade ambiental e social. Em 2024, nosso país está sediando a reunião do G20, grupo de países que concentra 80% da economia mundial. O tema de debate escolhido foi “Construindo um Mundo Justo e um Planeta Sustentável”. “Queremos que isso seja alcançado com uma transição ambiental justa e inclusiva”, apontou a presidente.

No âmbito do G20, a organização do Science 20 (S20) pela Academia foi um dos marcos do ano. “Nós escolhemos como tema ‘Ciência Para a Transformação Global’ e definimos cinco forças-tarefa”, explicou Helena, relacionando-as: Inteligência Artificial, Bioeconomia, Processo de Transição Energética, Desafios da Saúde, e Justiça Social. “Nada disso se resolve da noite para o dia, são processos de transição, como a energética. Nosso documento final será discutido, dialogado, e em torno do dia 20 de julho esperamos que seja assinado por todos os presidentes das Academias e das agências internacionais envolvidas.”

Sobre a tragédia no Rio Grande do Sul, Helena Nader reiterou que a política precisa conversar com a ciência. “O ponto de não retorno climático está próximo, de fato, mas parte do desastre poderia ter sido prevenido com ciência. Nosso Código Florestal não está sendo cumprido. Cabe a todos nós aqui, como membros da sociedade civil, cobrar”.

Para os novos membros, Helena Nader deu um aviso: “Podem arregaçar as mangas, vocês serão instados a trabalhar.” Apresentou os Grupos de Trabalho em atividade, aos quais os membros que estão chegando podem se juntar. Ela pediu ainda a colaboração ativa de todos para levar aos Três Poderes, nos três diferentes níveis (Federal, Estadual e Municipal), a voz da ciência.

“Precisamos fazer a política ouvir a ciência, para o estabelecimento de políticas públicas que ponham em prática as recomendações da ciência. Aprendemos que apenas nossa união como sociedade é que faz repercutir a voz da ciência. Juntos, somos mais fortes para construir uma sociedade inclusiva, social e ambientalmente justa, um Brasil soberano que tenha a educação, a ciência, a tecnologia e a inovação como alicerces.”

Encerramento

Luís Fernandes, secretário executivo do MCTI

O final da cerimônia foi marcado pelas palavras do secretário executivo do MCTI, Luís Fernandes, representando a ministra de C,T&I, Luciana Santos. Ele relatou que foi instituído um programa emergencial custeado pelo FNDCT para recuperar o sistema estadual de ciência e tecnologia do Rio Grande do Sul, em parceria com o governo local.

“Estamos aqui para celebrar a ciência, mas não podemos esquecer das ameaças tão recentes ao nosso sistema de CT&I e da resistência incisiva e contínua da comunidade científica, por meio das instituições aqui representadas”, recordou. Aos presentes, Fernandes reiterou: “é necessário um compromisso permanente em fazer a defesa da ciência e da democracia.”

A Sessão Solene ABC/CNPq 2024 foi encerrada com um coquetel no Salão Nobre da Escola Naval, oferecido pela Fundação Conrado Wessel.

 

 

 


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