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Sessão Plenária VI: Inteligência Artificial e Saúde

No dia 9 de maio, a última sessão plenária da Reunião Magna da ABC 2024, realizada no Museu do Amanhã, contou com apresentações de Antônio Luiz Pinho Ribeiro (UFMG), Helder Nakaya (USP) e Ana Estela Haddad (USP).

IA em Saúde: da invenção à implementação

Antônio Luiz Pinho Ribeiro é médico, com especialização em Clínica Médica e Cardiologia. É doutor em Medicina pela UFMG, de cuja Faculdade de Medicina é professor titular do Departamento de Clínica Médica. Atua também como coordenador de Pesquisa e Inovação do Centro de Telessaúde do Hospital das Clínicas da UFMG (HC-UFMG/MCTI) e como orientador pleno dos programas de pós-graduação de Infectologia e Medicina Tropical e Clínica Médica, entre outras atividades.

Estamos num momento de convergência entre o avanço dos métodos, o avanço do poder das máquinas e do avanço da capacidade de armazenar informações. A medicina se apropriou desses avanços de forma muito clara e passamos a ter um número muito grande de fontes de dados em saúde, desde os prontuários eletrônicos e os exames de laboratório, mas também governamentais, dados externos de redes sociais, dos celulares, relógios enfim gerando um número grande de informações que está transformando como o conhecimento médico, em saúde, se dá. Essa revolução chegou de forma mais acentuada em meados do século XX e desde então houve uma explosão de métodos de deep learning que possibilitam o rastreamento de problemas, de avaliação de prognóstico, de risco.

O grande problema é que esses modelos não foram incorporados na nossa prática como esperávamos, é uma revolução que ainda não se materializou em ferramentas na nossa prática clínica. Sobre os motivos: há o temos da própria classe médica de serem substituídos. Na verdade, a IA é uma ferramenta como tantas outras. A medicina já teve várias revoluções tecnológicas. Essa provavelmente vai mudar nossa prática, mas num horizonte visível ela não tem nenhuma perspectiva de substituir o trabalho do médico.

As dificuldades para a implementação são muito grandes, existe uma dificuldade regulatória, as agências estão tendo que se adaptar, o número de produtos incorporados ainda é restrito, pouco impactando na nossa prática clínica.

Ribeiro apresentou o exemplo da Rede de Telessaúde de Minas Gerais, na qual trabalha há 20 anos. Implantaram núcleos de telessaúde nas universidades do país, projeto que contou também com a contribuição de Ana Estela Haddad. Ampla gama de ações de telessaúde à distância educação e saúde e principalmente o telediagnóstico e o tele eletrocardiograma, teleatendimento a ambulâncias, além de outros procedimentos. Também trabalhamos com pesquisa em implementação de saúde digital e de inteligência artificial. A peça de resistência dessa rede é essa oferta nacional de telediagnóstico, que começou em MG, em 82 municípios, e com apoio do ministério da Saíde a rede se expandiu para 12 estados do país. Núcleos regionais de telessaúde nesses estados. Hoje são mais de 1400 pontos de atendimento com atendimento 24hs, com execução de mais de 7 mil ECGs por dia, laudados em 2 minutos. Um a cada dez eletros do SUS são feitos dessa forma. Isso gerou uma base de dados que se tornou uma das maiores do mundo e pareado com o SUS, que tem um sistema de dados muito organizado.  Nos últimos dois anos as aplicações de IA em saúde explodiram e temos inúmeros outros locais e parceiros.

Os dados do ECG servem para vários fins: para diagnóstico, para fazer o laudo, para triagem, monitoramento e rastreamento para identificação de outras doenças, como insuficiência cardíaca, e para predizer mortes, arritmias, infartos. O IA-ECG aumenta a acuidade dos resultados, reduz o tempo de trabalho e reduz custos. Um marcador interessante é quando a idade real do paciente e a idade do coração diferem em mais de oito anos, há um risco maior de morte, perceptível mesmo nos ECGs normais.

Estão estudando, em grupo com a Ester Sabino, como se pode pelos ECGs-IA identificar se a pessoa tem doença de Chagas, que é uma doença que mata silenciosamente, sem sintomas e, portanto, muitas vezes tb sem diagnóstico.

Resumindo, Ribeiro ressaltou que a IA abre novas possibilidades para os sistemas de saúde e para a prática clínica, que a implementação e incorporação na rotina das ferramentas de AI-ECG ainda não estão resolvidas e que o SUS brasileiro pode ter papel relevante na avaliação crítica da incorporação da IA em saúde.

A Nova Era da Saúde: O Impacto Transformador da IA na Prática e Pesquisa Médica

O bioinformata Helder Nakaya é doutor em Ciências Biológicas/Bioquímica pela Universidade de São Paulo (USP). É pesquisador sênior do Hospital Israelita Albert Einstein e membro do comitê científico da Sociedade Brasileira de Imunologia. É professor adjunto da Universidade Emory, em Atlanta, nos Estados Unidos, é docente e foi vice-diretor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP). É consultor da CEPI (Coalition for Epidemic Preparedness Innovations) e da IUIS (International Union of Immunological Societies) e membro do conselho consultivo científico do consórcio europeu da vacina do ebola e do Instituto Internacional de Análise de Sistemas Aplicados (IIASA). É do Comitê de Assessoramento Científico da Sclavo Vaccines Association, Itália. Foi membro afiliado da Academia Brasileira de Ciências (2017-2021).

Nakaya começou comparando o médico ao computador. “O médico vai pegar uma lista de sintomas, exames, processar tudo na cabeça, interpretar, analisar as imagens e os resultados de exames de acordo com o que aprendeu, dar um diagnóstico e prescrever um tratamento. Do ponto de vista de um bioinformata, é igualzinho a um computador. Você tem um input, que é a inclusão dos dados, tem um processamento e tem um output, que seria o diagnóstico e o tratamento”, explicou.

Ele ainda acrescentou que na interpretação dos dados o médico leva em conta também a parte epidemiológica, a genética do paciente, casos anteriores que ele já tenha visto, artigos científicos relacionados, enfim, busca identificar alterações de padrões. “Imagina se conseguíssemos colocar na cabeça de um médico milhões de imagens, milhões de dados, milhões de artigos científicos… então é isso que a IA faz, torna mais eficiente o resultado do processamento. As possibilidades computacionais da IA são quase infinitas.”

Em seu laboratório no Einstein e na USP, Nakaya e seu grupo usam IA principalmente em medicina de precisão. Isso significa que pegam um grupo de pessoas que tem a mesma doença, foram vacinadas e tratadas da mesma forma, com o mesmo fármaco e observam que o desfecho da doença dentre essas pessoas é diferente. “Algumas ficam bem, outras nem tanto, tem pessoas que morrem. Isso vai depender de fatores genéticos, idade, sexo, estresse, enfim, diversos fatores que influenciam o desfecho médico.  Nós conseguimos medir milhares de componentes”, explicou. 

O bioinformata esclareceu que seu grupo consegue medir a atividade 30 mil genes, milhares de proteínas, metabólitos, enfim, uma quantidade imensa de dados. Apenas algoritmos de machine learning, relata, permitem que se processe essa rede complexa no pedacinho que importa para o profissional predizer se aquela pessoa vai morrer de febre amarela depois da infecção aguda, ou se aquela mãe que foi infectada com zika na gravidez vai dar origem a um bebê com microcefalia, enfim, “obtemos informações precisas sobre as perspectivas do indivíduo”. Na verdade, isso não é muita novidade. Nakaya explicou que hoje temos as tecnologias, mas que Hipócrates, o “pai” da medicina, já dizia, em 480 a.C., que “é mais importante conhecer a pessoa que tem a doença do que a doença que a pessoa tem”. 

Ao longo desses anos, o grupo de Nakaya desenvolveu diversas ferramentas computacionais para ajudar os profissionais a fazerem essas análises complexasmuito com o Sistema Único de Saúde (SUS).  Como admirador profundo do SUS, Nakaya apontou um problema do sistema: as bases de dados descentralizadas. “Tem uma base pra HIV, uma base pra malária, uma base pra dengue… Se conseguimos linkar duas bases, por exemplo, como fizemos com um grupo de 15 mil pessoas no Amazonas, podemos ver que quem tem HIV tem mais chance de também ter malária. Isso para um gestor é importantíssimo, saber que comorbidades podem existir para tomar decisões médicas ou até em políticas públicas.

O problema de integrar as bases de dados é o seguinte: a forma de entrar com os dados muitas vezes é diferente. “Um Luiz Mendonça está com z numa base e com s em outra base, o nome da mãe está incompleto numa delas ou com uma letra trocada, enfim, a mesma pessoa está em várias bases com esses erros e isso impede que o cruzamento de dados seja feito de forma correta”, observou. Então existem métodos probabilísticos e determinísticos, como: “se o CPF for igual, então é a mesma pessoa”. Mas têm muitas falhas.

Nakaya ficou pensando sobre como achar um método que seja bom. “Então me lembrei de um programa antigo, que compara de forma muito rápida e muito eficaz bilhões de sequências de DNA, é chamado de BLAST, e começamos a usá-lo”, relatou. O método envolve pegar os dados pessoais e “transformar em DNA”, e funcionou, permitiu a linkagem.

“E com isso descobrimos uma imensa quantidade de dados repetidos, redundâncias, informações perdidas ou excessivas, apenas por conta dos métodos probabilísticos e determinísticos”, contou. Agora o grupo está tentando encriptar em DNA para proteger os dados sensíveis. 

Outra linha do laboratório é o de visão computacional.  “Começamos a usá-la para detectar parasitas, primeiro com tripanossomas da doença de Chagas e depois para Leishmania. Usamos também vídeos”, relatou. Um exemplo é um programa que detecta estresse respiratório em bebês, respirações anormais, feito com vídeos — o médico pode ver  o bebê e observar a respiração. Fizeram também um modelo que detecta lesões de monkey pox com boa acurácia. “O meu sonho é criar um scanner portátil no qual se coloque o software que está por trás disso tudo, que possa ser levado para regiões remotas do país.

Outro problema que procuramos lidar é com os dados referentes às novas publicações, revistas, artigos, em cada área. Hoje, a quantidade de informação nova é imensa. “Não conseguimos ler 45 milhões de artigos, mas uma máquina consegue ler. Então fizemos esssee programa e criamos grafos de conhecimentos, nos quais a gente conecta doenças, drogas, genes e assim conseguimos usar os cientistas para fazer perguntas, ter insights a partir desses grafos de conhecimento. Usamos também para fazer reposicionamento de fármacos e para ver o que os brasileiros mais publicam, desde 1993.

Nakaya referiu-se ainda ao projeto de uso dos grandes modelos de linguagem, como o ChatGPT. “Temos uma riqueza muito grande nas anamneses médicas, quando o médico anota os sintomas, exames etc. O problema é que quando tentamos ler esse material e organizar essa informação usando mineração de textos e as regras anteriores normais temos problemas, porque encontramos abreviações, erros de digitação, ausência de acentos, enfim, fica difícil organizar. E são milhões de dados relevantes que não são usados para pesquisa por conta disso. Então nossa ideia é pegar esses dados através de uma IA e organizar, usar para vigilância, para sabermos quando houver um surto, ou para hipóteses diagnósticas. Conseguimos fazer isso até em tempo real. O modelo consegue adicionar coisas que o médico não falou, por ter toda a base de dados organizada por trás. Faz diagnóstico, sugere exames, faz prescrição médica, baseado no contexto específico. E é muito útil, porque se são 15 minutos de consulta e o médico passa dez minutos anotando, ele perde a parte mais importante, que é a interação médico-paciente.

Finalmente, Nakaya focou na questão maior, que é quando vamos conseguir todas as doenças e prevenir a velhice. “Bom, é difícil prever o futuro, porque nós, humanos, somos pensadores lineares, conseguimos compreender a realidade e extrapolar um pouquinho — mas é difícil pensar nisso quando é algo exponencial. E exponencial é exatamente como o nosso conhecimento evoluiu ao longo de 150.000 anos. É difícil entender esse crescimento exponencial”. Ele deu um exemplo interessante: o Projeto Genoma Humano. “Ao longo de 14 anos, foram investidos 2.7 bilhões de dólares. Até a metade do projeto, após sete anos, somente 1% do genoma estava sequenciado. No entanto, nos set anos seguintes os 99% faltantes foram sequenciados. Isso é ser exponencial. Quando muda uma tecnologia, no ano seguinte isso já pode estar impactando a vida de todo mundo”, destacou.

A ciência evolui de forma incremental e, às vezes acontecem esses grandes saltos da ciência, as mudanças de paradigma. Os modelos atuais de IA, de acordo com Nakaya, estão ajudando a ciência de forma incremental. “No momento em que isso se tornar uma super inteligência é que vamos ver as coisas explodirem, de uma forma que nem poderíamos prever. E aí virá a nova era da medicina, com a economia da IA”, pontou. O bioinformata realtou que já existe um chatbot melhorado, que imita uma enfermeira até no jeito de falar e consegue ter empatia, se relacionar com a pessoa com que ela está lidando, não é só um algoritmo de perguntas e respostas. “Acho que isso vai ter um impacto enorme na saúde mental”, refletiu.

Só que não adianta criar uma IA fantástica que fique restrita a um número pequeno de pessoas privilegiadas. Agora, a questão é de escala. “Temos que conseguir baratear esses recursos para que haja equidade e universalidade no acesso. Tem um bonde chegando. A gente pode se empenhar pra pegar esse bonde ou ficar distraído. Dizem que informação é o novo petróleo. Então o DATASUS é o nosso pré-sal”, concluiu.

Transformação Digital do SUS: Programa SUS Digital

Ana Estela Haddad é doutora em Ciências Odontológicas pela Universidade de São Paulo  (USP), onde é professora titular do Departamento de Ortodontia e Odontopediatria da Faculdade de Odontologia (FOUSP) e docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Odontológicas. Atualmente é membro do Comitê Assessor da Rede Universitária de Telemedicina (RUTE) e do Grupo SAITE (Saúde, Inovação, Tecnologia e Educação) de Pesquisa do CNPq. É coordenadora adjunta do Núcleo de Apoio à Pesquisa em Políticas Públicas para a Metrópole (NAP Escola da Metrópole) e coordenadora da Estação Multicêntrica de Estudos e Tendências de Recursos Humanos em Saúde (FOUSP-ABENO) da Rede de Observatórios de Recursos Humanos em Saúde (Ministério da Saúde/OPAS). É uma das representantes do Brasil na Red de Lideres por la Primera Infância, rede latino-americana integrada por líderes de 28 países. Atualmente é secretária de Informação e Saúde Digital do Ministério da Saúde.

Ana Estela referiu-se às palestras anteriores, lembrando que todos os programas e projetos citados demandam muitas camadas de trabalho. “Quando pensamos na política de saúde, o que é necessário para a gente chegar a fazer isso crescer em termos populacionais e não individuais, vemos que o DATASUS é realmente um grande passo já andado”, observa. Ela explica que na gestão da ministra Nísia Trindade no Ministério da Saúde foi criada a Secretaria de Informação e Saúde Digital, para a qual os dados são fundamentais. À frente da nova Secretaria Ana Estela contextualizou o SUS: são 2,8 bilhões de atendimentos por ano, sendo que 70% da população brasileira depende do Sistema Único de Saúde (SUS). “Nenhum país no mundo com mais de 100 milhões de habitantes oferece um Sistema Único de Saúde, só o Brasil”, ressaltou.

Conforme já foi visto nas sessões anteriores do evento, sabemos dos riscos com tecnologias emergentes, como a IA. “Temos, por exemplo, o risco de vieses. Por isso é importante conhecer a entrada dos bancos de dados, como eles são formados, que informações são essas que estamos colocando e a relação com as informações que vão sair do outro lado. Tem a questão da segurança da informação, da proteção de dados. Hoje os dados de saúde são muito preciosos e estamos sob constante ataque. O DATASUS é muito monitorado e é sempre tensa essa questão. Essa secretaria que foi formada tem essa missão: acelerar a transformação digital do SUS, mas com uso técnico e crítico dessas novas tecnologias”, firmou.

As aplicações de IA na Saúde englobam a atenção integral à saúde, vigilância em saúde; pesquisa, desenvolvimento e inovação em saúde; formação e educação permanente dos trabalhadores e profissionais de saúde; gestão do SUS, que envolve planejamento, monitoramento e avaliação. Dentre os desafios a enfrentar, Ana Estela destacou a necessidade de superar a fragmentação, reunindo as informações num só lugar; implementar o uso de diferentes tecnologias; garantir a segurança da informação; assegurar a proteções privacidade dos dados; construir uma visão nacional; e garantir a governança e soberania dos dados.

O objetivo de tudo isso é viabilizar o acesso universal num sistema de saúde que é público. É também empoderar o cidadão, que tem direito à posse do seu prontuário para tomar as melhores decisões no seu autocuidado, dar continuidade a esse cuidado”. Ana Estela ressalta que o cidadão precisa de cuidado integrado de promoção, de continuidade e de prevenção. “A informação é um bem público. Com grandes bancos de dados podems fazer predições, fazer vigilância em saúde, perceber quando uma epidemia começa a aparecer e começar a atuar preventivamente. Além de melhorar a qualidade de vida do cidadão, que é prioridade, isso também resulta numa redução de custos.”

Diversos setores foram criados na Secretaria conduzida por Ana Estela, visando possibilitar a implementação de todas as IAs previstas, como o Laboratório de Inovação em Saúde Digital e o Índice Nacional de Maturidade em Saúde Digital, ferramenta criada para diagnosticar a situação de cada estado e município e apoiar os respectivos gestores; e a criação da Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), que é o caminho para centralizar e universalizar os dados de saúde. Ana Estela destacou que já existe o SUS Digital para o Cidadão, app para celular que é a porta de entrada do cidadão para acesso aos serviços do SUS com qualidade, apontando no sentido da autonomia do sujeito.

E qual o benefício que a RNDS traz? segundo Ana Estela, essa plataforma materializa a ideia de um prontuário único eletrônico do cidadão. “Com os dados de saúde reunidos numa única plataforma é possível acompanhar todo o histórico clínico de uma paciente. Na prática, quer dizer que se a paciente tomou uma vacina em Manaus quando estava visitando sua mãe, seu registro de saúde vai ter esse dado. Essa ferramenta alcança os povos indígenas e todos os outros periféricos”, conclui.

Asfixia financeira

Leia matéria de Mariana Serafini para Carta Capital, publicada em 16/5:

Sob o pretexto de garantir mais “flexibilidade na gestão financeira”, o governador Tarcísio de Freitas, do Republicanos, pretende abocanhar 30% dos recursos da Fapesp, a principal agência de fomento à pesquisa do estado de São Paulo. A notícia surpreendeu a comunidade científica, a alertar para o risco de interrupção dos projetos em andamento e até mesmo para um cenário de suspensão do pagamento de bolsas aos pesquisadores.

Na proposta de Lei de Diretrizes Orçamentárias para 2025, encaminhada pelo Executivo à Assembleia Legislativa, o governo incluiu um artigo que permite reduzir o repasse de 1% das Receitas Tributárias do Estado à Fundação, previsto na Constituição estadual desde 1989, para 0,7%. O corte é estimado em 600 milhões de reais. O impacto vai muito além das pesquisas desenvolvidas nas universidades paulistas, notadamente nas estaduais USP, Unicamp e Unesp. “Milhares de startups e pequenas empresas foram financiadas pela Fapesp nos últimos 27 anos. Vinte e dois centros de pesquisa em parcerias com grandes empresas dependem da estabilidade desses investimentos, atuando em temas como aeronaves inovadoras e produção de hidrogênio de baixo carbono. Outros 22 centros de pesquisa na fronteira do conhecimento cuidam de temas como tratamento de câncer, doenças genéticas e novos materiais, além de dez modernos centros de Inteligência Artificial”, elenca o alerta do Conselho Superior da Fapesp, que busca reverter a decisão no Legislativo.

A supressão de recursos ameaça cerca de 4 mil projetos de curto e médio prazo e quase 10 mil bolsistas. “Seria desastroso”, avalia [o Acadêmico] Renato Janine Ribeiro, ex-ministro da Educação, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência [e membro titular da Academia Brasileira de Ciências (ABC)]. “Essa desvinculação de receitas significa que o governador quer fugir da responsabilidade constitucional de investir em certas áreas, como educação e ciência, para investir em outras.”

Na avaliação de Ribeiro, também professor de Filosofia da USP, a proposta compromete a autonomia orçamentária da agência de fomento, que se destaca no cenário nacional pela eficiência e qualidade. “A Fapesp é uma referência para o Brasil. Muitos estados tentam copiar o modelo e não conseguem, não é fácil estipular um valor mínimo de recursos tributários para a ciência como foi feito em São Paulo.” As universidades públicas, acrescenta o ex-ministro, têm o orçamento quase todo comprometido com as despesas cotidianas, como a folha de pagamento, serviços de manutenção e contas de água e luz. Enquanto isso, os recursos da Fapesp são destinados especificamente à pesquisa. “É o que chamamos de orçamento livre, porque a instituição tem autonomia para decidir para onde vai destinar esses recursos e consegue garantir os projetos do começo ao fim.” Segundo ele, a proposta do Executivo pode atingir “uma das grandezas do nosso estado, que é o financiamento em ciência e inovação”.

A cientista [e Acadêmica] Mayana Zatz, bióloga molecular e geneticista, membro do Conselho Superior da Fapesp [e membra titular da ABC], explica que o grande trunfo da instituição é ter seu orçamento comprometido no longo prazo, porque só dessa forma é possível garantir o andamento das pesquisas. “Quando a ­Fapesp aprova um projeto, ela não entrega o dinheiro ao pesquisador, ela administra esse recurso e vai liberando de acordo com a demanda. Isso dá a impressão de que está sobrando dinheiro, mas ele já está todo comprometido.”

O desfinanciamento da Fapesp, acrescenta Zatz, também ameaça o futuro dos jovens pesquisadores. “Devido à falta de garantias e de estrutura, o Brasil está perdendo seus melhores cérebros há tempos”, lamenta. O Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, estima que 6,7 mil pesquisadores abandonaram o País nos últimos anos, em busca de melhores condições.

Já a biomédica Helena Nader, presidente da Academia Brasileira de Ciência, teme um efeito dominó. “Quando São Paulo faz essa aberração, ele sinaliza para os outros estados que ciência não é relevante. E, ao dizer que ciência e educação não são relevantes, vira as costas para o século XXI, que é o século do conhecimento.” A professora destaca que a Fapesp não investe apenas em pesquisa básica, mas também em projetos com aplicações práticas nas áreas de saúde, agricultura e engenharia, entre outras. Financiou, por exemplo, diversos estudos orientados para a transição energética, incluindo inovações na geração de energias renováveis e tecnologias para armazenamento de energia em veículos elétricos.

Desde que a proposta chegou à Assembleia Legislativa, vários deputados da oposição correram para protocolar emendas à Lei de Diretrizes Orçamentárias, visando preservar o financiamento da Fapesp. Celso Giannazi, do PSOL, destaca que nenhum governo até hoje havia ousado mexer nesse recurso, e isso acende um sinal de alerta. Ele acredita que há margem de diálogo para tentar convencer deputados do centro, e mesmo da direita, a barrar a proposta do Executivo. O deputado Simão Pedro, do PT, acrescenta que o texto não deve ser votado na Casa nas próximas três semanas. Enquanto isso, tem intensificado o trabalho corpo a corpo com colegas da base governista. “Tenho conversado com os deputados do PSDB e acredito ser possível reverter esse retrocesso. Uma característica desse governo é não aceitar que seus projetos avancem com emendas. Freitas prefere mudar a própria proposta. Vamos fazer pressão para que isso aconteça.”

Zatz afirma que os cientistas também estão mobilizados, pedindo aos deputados para vetar a proposta, e ainda tentam agendar uma conversa com o governador. “Acreditamos que é possível convencê-lo a declinar”, afirma. Em nota, a Secretaria da Fazenda, responsável pelo planejamento da LDO, garante que “não há previsão de utilização do dispositivo até o momento”. •

Saiba tudo sobre a Reunião Magna da ABC

MATÉRIAS REUNIÃO MAGNA 2024


 

Sessão Plenária I: Inteligência Artificial e Regulação

Sessão Plenária II: Avanços da Computação e Inteligência Artificial

Sessão Plenária III: Especulando Sobre o Futuro Com a Inteligência Artificial

Sessão Plenária IV: Inteligência Artificial, Educação e ChatGPT

Sessão Plenária V: Inteligência Artificial e Agricultura

Sessão Plenária VI: Inteligência Artificial e Saúde

 

Conferências Magnas

Vinton Cerf: IA ainda não compreende contextos

Nick Couldry: “IA não é inteligência, nem é artificial”

Margaret Martonosi: desenvolvimento de IA requer pegada de carbono acoplada

Ranveer Chandra: agricultura de precisão feita com smartphones

Karen Strier: tecnologias de IA podem contribuir com a conservação das espécies

 


Cientista brasileira é uma das cinco pesquisadoras a vencerem o Prêmio Internacional L’Oréal -Unesco Para Mulheres na Ciência

São Paulo, 14 de maio de 2024 – A Fundação L’Oréal em parceria com a UNESCO têm o orgulho de revelar os nomes das cinco vencedoras do Prêmio Internacional L’Oréal-UNESCO Para Mulheres na Ciência 2024. No dia 28 de maio, a sede da UNESCO em Paris receberá as cientistas que serão homenageadas pelos seus projetos pioneiros nas áreas das ciências da vida e do ambiente e, em particular, pela sua importante contribuição para enfrentar os desafios globais de saúde pública, que vão do câncer às doenças infecciosas, como a malária e a poliomielite, e doenças crônicas como obesidade, diabetes e epilepsia.

Todos os anos, o prêmio internacional L’Oréal-UNESCO Para Mulheres na Ciência homenageia uma mulher de cada continente, isto é, África e Estados Árabes; Ásia e Pacífico; Europa; América Latina e Caribe; e América do Norte. Este ano, a brasileira Alicia Kowaltowski será uma das cientistas homenageadas, representando a América Latina e Caribe, pelo seu projeto que contribui para a saúde pública, através do estudo da biologia das mitocôndrias.

As laureadas desta 26ª edição foram selecionadas entre 350 candidatos em todo o mundo pela Professora Brigitte L. Kieffer, Diretora de Pesquisa do Instituto de Pesquisa Inserm, membro da Academia Francesa de Ciências e ex-vencedora do programa Para Mulheres na Ciência.

Por meio dos seus projetos, as ganhadoras demonstram que a ciência precisa mais do que nunca das mulheres para enfrentar, por exemplo, os grandes desafios de saúde pública, num cenário em que os casos de câncer poderão aumentar em 77% até 2050, a obesidade irá afetar 1 em cada 8 pessoas em todo o mundo, além dos mais de 249 milhões de casos de infecção por malária. (Fonte: Organização Mundial da Saúde)

AS LAUREADAS DE 2024 – PRÊMIO INTERNACIONAL PARA MULHERES NA CIÊNCIA

 

LAUREADA PELA AMÉRICA LATINA E CARIBE

A professora de Bioquímica Alicia Kowaltowski, da Universidade de São Paulo (USP) no Brasil [e membro titular da Academia Brasileira de Ciências – ABC], receberá o prêmio por sua contribuição fundamental para a biologia das mitocôndrias, que são “a principal fonte de energia das células, atuando como suas baterias”. O seu trabalho tem sido fundamental para a compreensão das implicações do metabolismo energético no que diz respeito a doenças crônicas, incluindo a obesidade, a diabetes e o envelhecimento.

LAUREADA PELA ÁFRICA E OS ESTADOS ÁRABES

A professora Rose Leke, ex-chefe do Departamento de Doenças Infecciosas e Imunologia da Faculdade de Medicina e Ciências Biomédicas e ex-Diretora do Centro de Biotecnologia da Universidade de Yaoundé, em Camarões, será homenageada pela sua dedicada liderança e seus esforços para melhorar os resultados da malária associada à gravidez, apoiar a erradicação da poliomielite e aprimorar a imunização na África.  Além de buscar meios para que jovens cientistas possam alavancar suas carreiras. A influência nacional, regional e global da Dra. Leke teve um impacto profundo na saúde pública no seu país natal, Camarões, e em toda a África. Suas realizações a posicionam como um modelo, educadora líder e defensora de jovens cientistas.

LAUREADA PELA AMÉRICA DO NORTE

A professora Nada Jabado, do departamento de pediatria e genética humana no Canadá, será homenageada por revolucionar a compreensão dos defeitos genéticos responsáveis pelos tumores cerebrais pediátricos agressivos. A descoberta das primeiras mutações de histonas em doenças humanas, conhecidas como onco histonas, desencadeou uma mudança fundamental na esfera da investigação do câncer. Por meio da sua investigação inovadora e liderança eficaz no estabelecimento de uma rede colaborativa global, ela remodelou a abordagem médica ao câncer pediátrico, avançando tanto nas capacidades de diagnóstico como nos tratamentos clínicos para pacientes jovens.

LAUREADA PELA ÁSIA E PACÍFICO

A professora Nieng Yan da Escola de Ciências da Vida em Tsinghua, receberá o prêmio por descobrir a estrutura atômica de múltiplas proteínas da membrana. Sua pesquisa excepcional informou vários distúrbios, como epilepsia e arritmia, e orientou o tratamento da síndrome dolorosa. Como uma autoridade líder em seu campo, a Dra. Yan inspira mulheres cientistas em todo o mundo e é uma forte defensora da igualdade de gênero na pesquisa e na educação científica.

LAUREADA PELA EUROPA

A professora Geneviève Almouzni, diretora de Pesquisa do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS) do Instituto Curie na França, será homenageada por suas contribuições inspiradoras para o entendimento de como o DNA é empacotado com proteínas dentro do núcleo da célula. O seu trabalho pioneiro em epigenética aprofundou a compreensão de como a identidade celular é determinada durante o desenvolvimento normal e interrompida pelo cancro.

26 ANOS EMPODERANDO MULHERES NA CIÊNCIA

Hoje, as mulheres representam apenas 33,3% de todos os pesquisadores do mundo, segundo dados da UNESCO. Além disso, ainda existem outras barreiras – apenas um quarto dos cargos de liderança científica são ocupados por mulheres na Europa e apenas 7,5% dos Prêmios Nobel da ciência foram atribuídos a mulheres desde a sua criação.

Durante 26 anos, a Fundação L’Oréal em parceria com a UNESCO tem trabalhado em conjunto para promover a igualdade de gênero na ciência por meio do prêmio internacional Para Mulheres na Ciência e dos programas para jovens talentos que abrangem mais de 140 países, destacando as mulheres cientistas e contribuindo para quebrar o teto de vidro na ciência.

Desde a sua criação, o programa L’Oréal–UNESCO Para Mulheres na Ciência homenageou mais de 4400 mulheres pela excelência da sua investigação, incluindo 132 laureadas com prêmios internacionais e mais de 4000 jovens pesquisadoras.

ENTRE AS LAUREADAS, 7 RECEBERAM O PRÊMIO NOBEL DE CIÊNCIA

Alexandra Palt, Diretora Executiva da Fundação L’Oréal, afirma que um futuro sustentável para a humanidade depende de uma igualdade real entre homens e mulheres. “Infelizmente, este ainda não é o caso hoje na ciência, embora o mundo enfrente desafios sem precedentes. O programa L’Oréal-UNESCO Para Mulheres na Ciência garante que esta questão permaneça no centro do debate há 26 anos. Em particular, procuramos elevar o perfil das pesquisas conduzidas por muitas cientistas excepcionais e inspirar a próxima geração de mulheres pesquisadoras. Essa premiação internacional proporciona avanços significativos para a saúde da humanidade e encoraja-nos a continuar a luta,” afirma.

Para Lidia Brito, Diretora Geral Adjunta de Ciências Naturais da UNESCO, empoderar as mulheres na ciência é uma questão de equidade e pragmatismo. “As mulheres representam metade da população e será necessária toda a engenhosidade humana para enfrentar os desafios assustadores que enfrentamos, sejam eles a degradação ambiental, as perturbações climáticas e da biodiversidade, as pandemias, o fosso tecnológico ou a pobreza persistente. É encorajador ver um número crescente de mulheres entre os Prémios Nobel da ciência. Desde 1901, 25 mulheres receberam esta distinção, entre elas 15 (60%) desde a criação do programa L’Oréal-UNESCO Para Mulheres na Ciência em 1998. Seis destas 15 mulheres já haviam recebido o prêmio L’Oréal – Prêmio Internacional UNESCO Para Mulheres na Ciência antes de receber o Prêmio Nobel”, conclui.

Sobre o Grupo L’Oréal 

O Grupo L’Oréal se dedica à beleza há 115 anos. Com seu portfólio internacional único de 37 marcas diversas e complementares, o Grupo gerou vendas no valor de 41.18 bilhões de euros em 2023 e conta com mais de 90 mil colaboradores em todo o mundo. Como líder mundial em beleza, a empresa está presente em todas as redes de distribuição: mercados, lojas de departamento, farmácias e drogarias, cabeleireiros, varejo de viagens, varejo de marca e e-commerce. Pesquisa & Inovação, e uma equipe de pesquisa dedicada de 4.000 pessoas, estão no centro da estratégia da L’Oréal, trabalhando para atender as aspirações de beleza em todo o mundo. Reforçando seu compromisso de sustentabilidade, a L’Oréal anunciou o programa L’Oréal Para o Futuro e estabeleceu metas ambiciosas de desenvolvimento sustentável em todo o Grupo para 2030, visando capacitar seu ecossistema para uma sociedade mais inclusiva e sustentável. 

No Brasil, quarto maior mercado de beleza do mundo, a companhia completa 65 anos em 2024 e é uma das líderes entre as empresas de beleza, com um portfólio de 21 marcas no país, como L’Oréal Paris, Maybelline, Garnier, Niely, Colorama, Kérastase, L’Oréal Professionnel, RedKen, La Roche-Posay, Vichy, SkinCeuticals, CeraVe, Lancôme, Giorgio Armani, Yves Saint Laurent, Ralph Lauren, Cacharel, Prada, Azzaro, Mugler e Aesop.

Sobre o programa no Brasil 

Há 19 edições, o Grupo L’Oréal no Brasil realiza localmente o Para Mulheres na Ciência em parceria com a Academia Brasileira de Ciências e a UNESCO no Brasil, premiando sete pesquisadoras com uma bolsa-auxílio de R$ 50 mil reais nas áreas de Ciências da Vida, Ciências Físicas, Ciências Químicas e Matemática. No País, o programa já premiou 124 mulheres cientistas, somando mais de R$6 milhões de reais. As inscrições de 2024 estão abertas até o dia 10 de junho através do site https://bit.ly/pmnc_2024.

Imprensa – Grupo L’Oréal no Brasil

FSB Holding

Adriana Slaiman – adriana.slaiman@fsb.com.br

Tiffany Pancas –  tiffany.pancas@fsb.com.br

Tatiana Reid – tatiana.reid@fsb.com.br

 

Cientista brasileira é premiada em Paris

A cientista brasileira Alicia Kowaltowski  será homenageada em Paris, em 28 de maio, pelo Prêmio Internacional Para Mulheres na Ciência 2024, promovido pela Fundação L’Oréal, do Grupo L’Oréal, em parceria com a Unesco Ela é uma das cinco vencedoras reconhecidas por seus projetos pioneiros nas áreas das ciências da vida e do ambiente. A pesquisa da professora de Bioquímica na Universidade de São Paulo (USP) tem importante contribuição no enfrentamento dos desafios globais de saúde pública, como doenças crônicas, diabete, obesidade, infarto e envelhecimento.

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Alicia é graduada em Medicina, doutora em Ciências Médicas e foi selecionada pelo programa para estudar os recursos que permitem aos seres humanos obter energia dos alimentos para viver. “O metabolismo é fascinante porque está no cerne da vida – todas as definições técnicas da vida devem incluir o metabolismo e o fluxo de moléculas sendo transformadas dentro de nós”, comenta Alicia.

Hoje, a professora incentiva estudantes brasileiros a realizarem bolsas, apoiadas pela agência paulista de fomento Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), a fim de estimular suas pesquisas, ampliar seus horizontes e entregar resultados pioneiros. “Meu conselho aos cientistas em ascensão é para serem curiosos, fazerem boas perguntas, estarem abertos a resultados inesperados, encontrarem supervisores de apoio e nunca desistirem”, afirma.

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Leia a matéria na íntegra no site de O Globo

Diversificação do Ensino Superior e Seus Subtemas

No dia 28 de maio, 3ª feira, às 16h, a quarta edição do Fórum ABC/SBPC de Educação Superior vai trazer Sabine Righetti (Unicamp) e José Francisco Soares (UFMG) para debaterem sobre a Diversificação do Ensino Superior e Seus Subtemas

O evento é on-line e será transmitido pelo YouTube da Academia Brasileira de Ciências.

A série de eventos é coordenada pelos Grupo de Trabalho de Educação Superior  da ABC.

 

Conheça os convidados:

Sabine Righetti (Unicamp)
Jornalista de ciência e pesquisadora do Labjor-Unicamp em comunicação científica. PhD em política científica pela Unicamp, com passagem por Stanford e Universidade de Michigan, recebeu quase dez prêmios em jornalismo — incluindo o José Reis (2023). Cofundadora e diretora da Agência Bori, serviço único no Brasil que apoia a cobertura da imprensa de todo o país à luz de evidências científicas.

 

 

 


José Francisco Soares (UFMG)
É professor emérito da UFMG. Foi presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) entre 2014 e 2016. Graduado em Matemática pela UFMG, mestre e doutor em Estatística, respectivamente, pelo Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), em 1977, e pela Universidade do Wisconsin-Madison. Pós-doutor em Educação pela Universidade de Michigan.

Sessão Plenária IV: Inteligência Artificial, Educação e ChatGPT

0A sessão plenária da Reunião Magna da ABC 2024 na tarde de 8 de maio contou com o Acadêmico Renato Janine Ribeiro (USP), Teresa Ludermir (UFPE) e Naomar Monteiro (UFBA). 

“Da tabuada à redação: como ficará a expressão com a IA?” 

O Acadêmico Renato Janine Ribeiro é doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), onde é professor sênior de Ética e Filosofia Política. Atua na área de filosofia política, com ênfase em teoria política. Professor honorário do Instituto de Estudos Avançados da USP. Foi ministro de Estado da Educação (2015). É pesquisador sênior do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). É membro titular da Academia Brasileira de Ciências e presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Sua apresentação era intitulada Ele faz uma comparação bastante pertinente: quando a calculadora se tornou portátil, veio um grande medo das crianças nunca mais aprenderem a fazer contas. “Hoje tem calculadora no celular. Alfabetização em matemática inclui fazer contas, mas não é preciso ter a tabuada na ponta da língua. Não tem mais sentido que as crianças façam cálculos. A matemática é uma linguagem, tem que aprender o raciocínio. O que as pessoas vão aprender é a interpretar dados, a fazer programação, a explorar a matemática em toda a sua utilidade”, argumentou o filósofo.  

Mas e na redação? Nesse caso, a expressão pessoal é a meta. Então, o argumento de Janine se inverte. “O Chat GPT produz textos razoáveis, mas não faz nada original. Se não treinar, como escrever? Se não aprender, como criar? Como haverá expressão?”

De fato, a IA não inova. “Ela não fala sobre o que o homem faz, mas sobre o que o homem fez. [O grande matemático e cientista da computação inglês] AlanTuring disse que ‘uma máquina infalível não será inteligente’. Aprendemos de modo geral por ensaio e erro. É preciso errar para aprender. O ChatGPT não pensa, não cria nada – ainda”.

Apesar de toda essa argumentação, Janine ressalta que na nossa cultura existe o fantasma da criatura que escapa ao criador, como o monstro do Dr. Frankenstein, de Mary Shelley,o Pigmaleão de Bernard Shaw e o robô do filme de Kubrick 2001, Uma Odisseia no Espaço. “Esse é um medo que o mundo da IA pode despertar”, alerta o Acadêmico.

Como a IA e o ChatGPT podem ajudar na educação? 

A Acadêmica Teresa Bernarda Ludermir é doutora pelo Colégio Imperial Imperial de Ciência, Tecnologia e Medicina da Universidade de Londres, na Grã-Bretanha. É professora titular da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), coordena o Instituto Nacional de Inteligência Artificial (INCT) e dirige o Centro de Pesquisa Aplicada em Inteligência Artificial para Segurança Cibernética. É membra da Academia Pernambucana de Ciências, membra sênior do Instituto de Engenheiros Elétricos e Eletrônicos (IEEE), membra da International Neural Network Society (INNS) e membra titular da Academia Brasileira de Ciências (ABC).

Refletindo sobre como o IA e o ChatGPT podem ajudar na educação, ela aponta que o Brasil não pode correr o risco de ser apenas um usuário de soluções de IA concebidas no exterior. “O desenvolvimento de uma IA ética e responsável para a educação é crucial para construir um futuro em que a tecnologia contribua para a democratização do conhecimento e a formação de cidadãos críticos e engajados”, apontou.

Ela explicou que o ChatGPT não é uma IA de propósito geral: é um sistema de IA gerador de textos como bom desempenho. Porém, o uso enorme de poder computacional ainda consome muita energia, não é sustentável.

Sobre as possibilidades de uso na educação, Teresa defende a IA como um parceiro do professor. “Não é substituir o professor por um programa e sim integrar o ensino de IA no currículo da educação básica e superior”, explicou.

A IA está fazendo diferença em diversas áreas na educação. A principal é a personalização do aprendizado. Com ajuda da IA, é possível de fato promover uma educação inclusiva. “Primeiro, ela pode ajudar o professor sugerindo novos métodos de ensino, melhorias do processo de avaliação e na criação de conteúdo. “Os jovens de hoje têm dificuldade de concentração, só dão atenção a pouquíssimos minutos de aulas. Os tutores propõem jogos e novas atividades, podem dar ao professor um feedback. Dão assistência na preparação de materiais didáticos, ajudam o professor”, destaca Teresa. “E no caso do aluno com dificuldade, a IA oferece tutores individuais que acompanham individualmente cada um e ele consegue evoluir. Além disso, os benefícios na gestão escolar são imensos. E dá acesso à educação de qualidade em locais distantes, onde não há professores suficientes”, complementa.

O desenvolvimento de uma IA ética e responsável para a educação é crucial para construir um futuro em que a tecnologia contribua para a democratização do conhecimento e a formação de cidadãos críticos e engajados. Mas Teresa sabe que nem tudo são flores. Os desafios da implementação da IA na educação são grandes, especialmente na formação de professores e engajamento dos alunos, assim como há questões no uso da IA com ética e responsabilidade. “A desigualdade digital, em vez de ser reduzida, pode aumentar, por conta de falta de infraestrutura e dos custos de implementação. E há pontos fundamentais, como a regulamentação e políticas públicas. Estas têm que promover a inclusão digital para não perdermos esse bonde.” Ela defende a promoção de campanhas de conscientização pública sobre os benefícios e riscos de IA.

Além destes desafios, existe a própria questão tecnológica. “Precisamos melhorar o desenvolvimento de modelos. Nem toda IA é uma IA responsável, porque precisamos de mais ciência nos modelos para reduzir o viés algorítmico, avaliar a qualidade dos dados. Dados tem erros. E precisamos saber reduzir o tamanho dos modelos”, apontou a palestrante.

E para tudo isso, evidentemente, é preciso financiamento. Primeiro. para a formação de recursos humanos qualificados em inteligência artificial. Segundo, mas ao mesmo tempo, para o aumento imediato da capacidade computacional do país. “Temos que estabelecer centros internacionais de pesquisa no Brasil, atraindo especialistas em IA e estabelecendo política para fixação de talentos, com remuneração competitiva com mercado internacional”, finalizou Teresa Ludermir.

Inteligência Artificial na Saúde: Desmitificar para Avançar

O médico Naomar Monteiro é Ph.D. em Epidemiologia e doutor honoris causa pela Universidade McGill, no Canadá. É professor aposentado do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde coordena o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Inovação, Tecnologia e Equidade em Saúde (Inteq-Saúde). Também atua como professor visitante no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP), onde ocupa a Cátedra Alfredo Bosi de Educação Básica, desenvolvendo estudos sobre a relação entre universidade, educação, história e sociedade. Ele desenvolve pesquisas no campo da epidemiologia de transtornos mentais, particularmente o efeito de raça, racismo, gênero e classe social sobre a saúde mental.

Naomar apresentou um mapa conceitual de 2022 do campo da saúde digital, no qual a inteligência artificial (IA) é o centro de tudo: saúde móvel, saúde eletrônica, telemedicina e telessaúde. “No mapa de 2016, a IA nem aparecia”, observou. Naomar apontou que o uso de IA em saúde tem sido mostrado como uma das aplicações positivas. “Porém, está sendo feito com pressa, sem muita reflexão. A otimização visa a lucratividade, sem dúvida, e não a equidade no atendimento.”

Sobre os desafios e perspectivas do uso pedagógico de IA na educação superior, Naomar destacou que é preciso promover transversalidades, reinventar a ideia de competência crítica e pautar a formação de formadores numa cultura digital sensível. “E superar a confusão conceitual, como a noção de letramento digital. ‘Letramento’ é uma tradução do inglês, de ‘literacy’, que significa ‘alfabetização’. Então, rigorosamente, ‘letramento digital’ é alfabetizar pessoas para programar, mas não é como o termo vem sendo usado: ele vem sendo usado como a capacidade de lidar com os dispositivos mínimos, como o celular e o laptop”.

“Promover transversalidades”, de acordo com Naomar, envolve operar em torno de eixos temáticos e vetores do conhecimento coerentes com a complexidade de organização do saber científico na atualidade. “O repertório curricular deve ser menos rígido, sem caráter obrigatório, mais inter e transdisciplinar, incorporando conhecimentos e valores relativos às humanidades, ciências sociais e artes. Para a formação de um indivíduo é fundamental buscar equilíbrio entre conhecimento e imaginação, entre efetividade e excelência, entre racionalidade e sensibilidade”, apontou.

Sobre a priorização das competências tecnológicas críticas, a educação deve envolver a compreensão de lógicas, mecanismos e efeitos das técnicas e instrumentos de práticas, a fim de possibilitar intervenções nos corpos sociais, individuais e coletivos com propriedade e qualidade. Para Naomar, o professor do século XXI deve desenvolver habilidades para aplicar tecnologias no máximo de eficácia, focando na eficiência (custo-benefício), na efetividade concreta (qualidade-equidade) e, assim, promovendo uma transformação social sustentável.

“Professores devem ser capazes de utilizar saberes, práticas e técnicas, a partir de avaliação crítica dos seus aspectos operativos, principalmente o potencial de valorizar a sensibilidade ecossocial”, explicou. Esta “sensibilidade ecossocial” envolveria, entre outros pontos, a consciência planetária, a ética e respeito à diversidade humana e aos diferentes saberes, assim como o estímulo à solidariedade e empatia.

Nick Couldry: “IA não é inteligência, nem é artificial”

O sociólogo Nick Couldry trabalha na London School of Economics and Political Science, no Reino Unido. Seu trabalho é voltado principalmente para estudos de mídia e comunicações, cultura e poder, e teoria social. Ele apresentou uma Conferência Magna intitulada “IA como Mito e Colonialismo de Dados” na Reunião Magna da ABC 2024, no dia 7 de maio.

Couldry descreve a inteligência artificial (IA) como uma evolução da computação. “Não é inteligência, nem é artificial, porque depende do trabalho humano para treiná-la. É apenas probabilística, não é criativa”. E vai além: afirma que é uma descrição equivocada, que cria um reconhecimento equivocado. “No mínimo, é um exagero de marketing que serve aos interesses de algumas grandes corporações de tecnologia.”

O sociólogo entrou on-line, do Reino Unido

Couldry defende que as práticas e discursos que chamamos de “IA” representam uma redefinição fundamental do conhecimento e de suas relações de poder. “E se impõe com a nossa participação, que incorporamos a IA na vida cotidiana sem entender o que está em jogo”, alertou.

Nossa ordem socioeconômica está sendo transformada através da IA, aponta Couldry, transformando a vasta capacidade de computação expandida em algo que chamamos de “inteligência”, mas são os resultados matemáticos de vasta e direcionada computação interativa que é… eficaz. “Mas não pode explicar por que é eficaz!” Ele citou Vint Cerf, que diz que a IA generativa gera previsões cujo único critério de eficácia é “credibilidade gramatical”. Couldry alerta que “confundir” os resultados da IA com conhecimento é cometer um erro de categoria profundo. “Se os resultados da IA, por mais eficazes que sejam como hipóteses, não podem explicar por que são plausíveis, então a IA é fundamentalmente diferente da inteligência humana”, observou. 

E essa é uma questão importante, de acordo com Couldry, porque nossa percepção da IA pode reconfigurar o que chamamos de “conhecimento” e como ele estará incorporado à vida social. O que a IA entrega é uma produção acelerada de resultados ‘suficientemente bons’. E isso é uma mudança na construção social do conhecimento”, afirmou.

As consequências podem ser impactantes para a liberdade social, se esse poder cognitivo for continuamente aplicado e ocorra um aumento da “espionagem em massa” através da IA em grande escala. E podem impactar também nas instituições de conhecimento de todos os tipos: como, e em que termos, elas podem confiar no conhecimento baseado na experiência humana se ele se torna um ativo financeiro?

Assim, Couldry considera que vivemos uma nova fase nas relações entre colonialismo e capitalismo, que é o colonialismo de dados, uma ordem emergente para a apropriação da vida humana, de modo que os dados possam ser continuamente extraídos dela, com valor agregado. “O colonialismo de dados prepara o terreno para um novo modo de produção capitalista e organização socioeconômica, enquanto coexiste com o legado neocolonial. É uma continuação da tentativa do Ocidente de impor uma única versão de racionalidade ao mundo”, explicou o sociólogo.

Para o palestrante, estamos reimaginando o conhecimento em prol do poder computacional comercial massivo controlado, enquanto imaginamos os limites inerentes à computação. “E essa visão de conhecimento produz ignorância”, pontuou.

E Couldry propõe uma tomada de posição. “Se o ‘risco existencial’ da IA reside nas transformações sociais que se desdobram em torno dela, o papel das ciências sociais não deveria ser a aceitação, mas sim a crítica da IA.”

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