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Acadêmico é o 3º brasileiro a ser eleito para a Royal Society do Reino Unido

A Royal Society do Reino Unido, uma das mais importantes associações honoríficas de ciência do mundo, anunciou no dia 16 de maio seus novos membros. Dentre eles está um brasileiro, o epidemiologista Cesar Gomes Victora, membro titular da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e professor emérito na Universidade Federal de Pelotas (UFPel).

Victora é referência internacional em saúde infantil, com uma vasta produção científica sobre a importância da amamentação exclusiva para reduzir drasticamente a mortalidade de bebês. Também desenvolveu os modelos de curva de crescimento infantil que hoje guiam profissionais de saúde em mais de 140 países. Victora é ex-presidente da Associação Epidemiológica Internacional (IEA) e atua como consultor de órgãos internacionais como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

Em 1982, foi um dos criadores das Coortes de Nascimento de Pelotas, junto com o pesquisador Fernando Barros. Uma coorte de nascimento é uma metodologia de estudo que acompanha o crescimento de um grupo de pessoas desde o início de suas vidas, possibilitando comparações de valor inestimável. A coorte de Pelotas segue ativa mais de 40 anos depois e é até hoje a maior da América Latina.

Entrar para a Royal Society não é a primeira distinção que o Acadêmico recebe. Membro titular da Academia Brasileira de Ciências (ABC) desde 2006, Victora é detentor do Prêmio Álvaro Alberto e grau Comendador e Grão-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico. Para esta última ele foi escolhido em 2021, mas recusou recebê-la das mãos de um governo negacionista em saúde, vindo a aceita-la apenas em 2023. Hoje com 72 anos, o cientista olha para trás com orgulho de sua ciência ter se transformado em políticas públicas para saúde no mundo inteiro.

A notícia de sua nomeação vem num período terrível, porém. Seu estado, o Rio Grande do Sul enfrenta a maior tragédia climática da história do país e Victora acredita que os estudos nas coortes precisarão levar em conta essa dimensão quando a vida voltar ao normal. Sobre esse e outros assuntos ele conversou numa entrevista exclusiva para a ABC, que você confere abaixo:

O membro titular da ABC Cesar Victora durante a Reunião Magna ABC de 2016

Como foi para o senhor receber essa nomeação?

Sendo bem sincero, eu nunca sonhei em ser Fellow da Royal Society. Eu fiz meu doutorado em Epidemiologia em Londres nos anos 80 e a Royal Society era o nível máximo, nunca pensei em atingir. Fiquei muito contente quando recebi a notícia. Sou apenas o terceiro brasileiro a entrar, o primeiro foi Dom Pedro II e depois foi o Carlos Nobre (risos). Mas há muitos cientistas brasileiros com condições, isso reflete um pouco a importância da ciência brasileira, como conseguimos crescer apesar de todos os problemas, sobretudo no governo anterior. Mas apesar de tudo isso, nós conseguimos colocar a nossa ciência num patamar que não é o mesmo de quando comecei a trabalhar.

O senhor é um dos criadores das coortes de Pelotas, uma iniciativa fundamental que consegue resultados de longuíssimo prazo. No mundo em desenvolvimento são poucas as coortes com mais de vinte anos. Você consegue explicar o sucesso de Pelotas?

Realmente, a maioria das coortes de longo prazo estão em países europeus, principalmente na Inglaterra e nos países escandinavos. No caso deles, ajuda muito o fato de terem informações muito boas em saúde, então conseguem acessar os dados nos sistemas existentes. No Brasil até possuímos boas informações para fatores como mortalidade e nascimento, por exemplo, mas ainda coletamos os dados manualmente, buscando as pessoas, chamando para exames, etc.

Logo que começamos, em 1982, eu fui atrás de outras coortes em países de renda média e baixa e encontrei apenas cinco, a nossa no Brasil e na África do Sul, Guatemala, Filipinas e Índia. Então tive a ideia de criar um consórcio para juntar os dados de todas elas. Os resultados são muito interessantes porque são muito parecidos.

Um fator que ajuda Pelotas é não ser uma cidade muito grande, tem cerca de 300 mil habitantes, isso facilita a localizar as pessoas. Acho que numa cidade como Rio, São Paulo ou a própria Porto Alegre seria muito mais difícil. Então o segredo é muita persistência e muito trabalho, mas a cidade ajuda também.

Como fazer com que as pessoas voltem?

No começo a gente conseguia encontrar muita gente. Com dois anos de idade achamos mais de 90%. Hoje, aos 40 anos, nós achamos 52%, o que é bastante razoável, são 3 mil pessoas.

Quando as pessoas se mudam de Pelotas mas continuam no estado do Rio Grande do Sul a gente dá uma passagem de ônibus. Geralmente elas gostam, porque aproveitam para visitar Pelotas. Quando estão fora do estado é mais complicado, já chegamos a mandar gente pra Santa Catarina, onde tem muitos gaúchos. Elas gostam de participar, é raríssimo alguém se recusar. Existe um certo orgulho de fazer parte da coorte.

É impressionante como tem poucas coortes assim no Brasil, imaginando o tamanho do país e o que precisaria para ser representativo…

No Brasil tem outras coortes não tão longas, em Ribeirão Preto e São Luiz do Maranhão, com as quais temos consórcios para fazer estudos juntos.

Mas Pelotas é interessante porque é uma cidade pobre num estado rico. É uma região que sempre teve uma mortalidade muito alta. Por ser uma cidade pobre num estado rico o IDH é bem na média do país. Também tem uma população negra muito grande, tem a diversidade étnica do Brasil, então é bem representativa sim.

Como a tragédia das enchentes no RS afeta os trabalhos nas coortes?

Não temos nem como medir isso ainda. Estamos acompanhando, mas há prejuízos consideráveis. As pessoas vem para o nosso centro fazer exames médicos, tratar doenças crônicas como obesidade e hipertensão, tratar saúde mental, tudo isso foi muito afetado. Os profissionais contratados para fazer os exames da coorte provavelmente terão contratos suspensos, vamos tentar aguentar o máximo possível. Mas atrapalha em tudo e teremos que retomar depois.

Quando voltar todo mundo para casa e retomarmos o trabalho vamos ter que incorporar novas doenças. As pessoas vão ter diarreia, leptospirose, hepatite, todas essas doenças transmitidas pela água, vamos ter que pensar em como incorporar isso na coorte. No momento nossa coorte mais jovem tem 9 anos e temos planos para fazer outra em 2026, espero que até lá os efeitos da enchente já tenham passado. Mas, infelizmente, temo que essa possa não ser a última enchente…

Além de guiar políticas internacionais, seu trabalho também resultou numa mudança de comportamento das pessoas, passou-se a valorizar mais a amamentação. Você enxerga isso acontecendo hoje? É algo espalhado por todos os grupos sociais ou está concentrada mais entre quem tem acesso informação?

Acho que não está concentrado não, é o que mostram os últimos resultados do Enani (Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil). Essa é uma ideia que eu tenho na cabeça, uma “lei” que eu inventei, que eu chamo de “equidade inversa”. Isso quer dizer que quando surge um medicamento ou um tratamento, quem adota inicialmente são os ricos, mas depois se espalha pela sociedade, piora a desigualdade no começo e depois equilibra.

A amamentação exclusiva não existia, essa é a minha maior contribuição. E não foi pela coorte, pois não tinha tamanho suficiente. Foi através de um estudo em Pelotas e Porto Alegre, o primeiro a mostrar que a amamentação exclusiva reduzia muito a mortalidade. Depois vieram outros estudos corroborando, o que levou a Organização Mundial da Saúde e a Unicef a mudar as recomendações globais. Só depois disso que o Brasil alterou também.

Você vê impactos na amamentação nesse momento de tragédia no RS?

Acho que não vai ter um grande impacto, não. Um problema que sempre surge em tragédias como essa é que a primeira coisa que se doa é leite em pó. Com toda a boa intenção do mundo, eu sei, mas há um fluxo grande de leite em pó que pode levar ao desmame. Mas não acho que há esse perigo agora, a amamentação já está reconhecida o suficiente para isso não ocorrer.

Uma transformação grande entre a década de 80 e hoje foi que antes existia um problema grande de subnutrição e hoje existe um problema de obesidade. Como você vê a evolução desse problema nas últimas décadas?

Uma coisa interessante que descobrimos quando juntamos os dados internacionais foi o que se tornou o conceito dos mil dias – desde a concepção até o segundo aniversário. Observamos que o ganho de peso nesse período é fundamental para a formação da criança. Mas depois disso o problema praticamente se inverte.

Não é que a criança não precise ser bem-nutrida depois dos dois anos, mas depois dessa faixa se ela ganha muito peso ela corre o risco de se tornar uma criança obesa e depois um adulto obeso. O que observamos é que os dois primeiros anos são chave. Esse novo conhecimento guiou políticas públicas a investir mais na primeira infância, onde o impacto é mais sentido.

Pensando historicamente, me parece curioso como era comum substituir o leite materno no passado. A amamentação é algo tão natural, por que estávamos fazendo tão diferente?

Eu tenho algumas ideias. Acho que a indústria do leite processado, as grandes multinacionais, começaram a promover seus produtos como sendo modernos. A partir dos anos 60, o moderno não era amamentar, isso era coisa de pobre. Então quem tinha dinheiro preferia leite em pó. Isso é um exemplo do que chamamos determinantes comerciais da saúde, como o grande poder econômico piora a saúde para aumentar lucros.

O que aconteceu foi uma grande propaganda do leite em pó que levou a isso. Outro problema foram os ultraprocessados, o leite em pó é o primeiro ultraprocessado que a criança toma na vida, um produto cheio de aditivos. Também os pediatras recomendavam dar água, dar chá, pois achavam que o leite materno não era suficiente, e de preferência já com o leite em pó também.

Outro tema em que você já atuou foi na questão do parto, da quantidade de cesarianas feitas hoje. Está nessa mesma lógica?

Está na mesma lógica sim. Essa de que algo medicalizado e altamente tecnológico, seria melhor que o natural. Obviamente que há muitos casos em que cesariana é necessária e salva vidas. Há lugares onde o nível de cesarianas é muito baixo então morrem muitas crianças e muitas mães. Mas no Brasil isso está desequilibrado, apesar de ter melhorado.

Há um diferencial social importante também, 90% das mulheres de alta escolaridade fazem cesariana. Mas mesmo nos mais pobres gira em torno de 35%. Ou seja, está alto em todos os setores.

Nós trabalhamos junto com antropólogos que mostram que muitas pessoas mais pobres acham que cesariana é melhor porque os ricos estão fazendo, então deve ser bom. É um exemplo da importância da multidisciplinaridade. Eu lutei muito contra esse excesso de cesarianas no Brasil mas não consegui grandes sucessos. A vida é assim, há coisas em que temos mais sucesso que em outras.

Você ainda é um pesquisador ativo, quais suas próximas áreas de investigação no futuro?

Eu estou com 72 anos. Já não estou diretamente ligado às coortes, trabalho com alguns dados mas não muitos. Ajudei a formar uma série de pessoas que assumiram esse trabalho. A maior parte do que ainda faço é em relação às desigualdades socioeconômicas e étnicas em países em desenvolvimento.

Criamos aqui em Pelotas o Centro Internacional de Equidade em Saúde, onde recebemos estudos e dados de todo o mundo. No momento estamos trabalhando muito com crianças zero dose, ou seja, crianças que nunca receberam nenhuma vacina. São crianças de lugares mais remotos e mais pobres ou são de grupos com menos acesso à saúde. Mais de 10% das crianças do mundo estão nessa situação.

Trabalhamos de perto com as Nações Unidas junto a Aliança Global de Vacinação, chamada Gavi, para identificar essas crianças e mudar um pouco esse cenário. Comecei a trabalhar mais com outros lugares que não o Brasil, até porque os problemas nesses outros lugares são maiores. Os dois lugares mais complicados no mundo ainda são partes do sul da África e do sul da Ásia.

Esses lugares ainda não tem uma boa cobertura vacinal de covid-19, como está a situação?

A covid foi complicada, teve uma série de problemas no acesso às vacinas. Os países ricos compraram tudo muito rapidamente, foi mal distribuído. Felizmente a covid hoje em dia é uma doença diferente de 2020, porque essa é a tendência. Não é bom para o vírus matar seu hospedeiro, então numa epidemia inicialmente a virulência é super alta e depois se torna menos letal.

Mesmo em populações não vacinadas?

Mesmo nessas populações. O vírus mudou porque se ele matar as pessoas rapidamente ele não se dissemina. É por isso por exemplo que o ebola não consegue se expandir tanto. Mas a questão da desigualdade em vacinas continua, e se agrava com o fenômeno novo das fake-news e dos antivax. Isso é novo, no Brasil não existia, mas dados internacionais mostram que isso está acontecendo também em outros países de renda média.

Isso é uma pena num país com uma tradição tão grande em vacinas como o Brasil…

Mas está acontecendo, sobretudo nas classes médias e altas, não penetrou muito nos mais pobres. Lembra do que falei da “equidade invertida”? Ela funciona para coisas boas e coisas ruins, como o exagero nas cesariana e os antivax, essas ideias chegam nos ricos antes dos pobres. Mas o problema é que também se recupera a confiança em vacinas mais rápido nos ricos que nos pobres.

E você vê uma evolução nas vacinas em geral nos países pobres?

Acho que evoluiu sim. Claro que a covid atrapalhou, e por dois motivos: porque os sistemas de saúde colapsaram e pelos antivax que desacreditaram as vacinas num geral. Mas a tendência é de melhora. A aliança internacional para vacinas investiu muito nesses países, mas a cobertura ainda é abaixo do que gostaríamos

Estou trabalhando agora como consultor para eles, fazendo análise dos dados. Por exemplo, se você encontra uma criança não-vacinada, os irmãos certamente também não são vacinados. A partir daí você procura essas outras crianças também. O Centro de Equidade em Saúde de Pelotas é o maior centro do mundo sobre desigualdades em saúde materno-infantil. Temos bancos de dados com milhões de crianças.

Sempre quando estou fazendo uma pesquisa eu penso como ela pode se tornar uma política. Meu objetivo não é só publicar numa revista de ponta, mas ter também um impacto na saúde global. Me orgulho muito que isso tenha acontecido.

Asfixia financeira

Leia matéria de Mariana Serafini para Carta Capital, publicada em 16/5:

Sob o pretexto de garantir mais “flexibilidade na gestão financeira”, o governador Tarcísio de Freitas, do Republicanos, pretende abocanhar 30% dos recursos da Fapesp, a principal agência de fomento à pesquisa do estado de São Paulo. A notícia surpreendeu a comunidade científica, a alertar para o risco de interrupção dos projetos em andamento e até mesmo para um cenário de suspensão do pagamento de bolsas aos pesquisadores.

Na proposta de Lei de Diretrizes Orçamentárias para 2025, encaminhada pelo Executivo à Assembleia Legislativa, o governo incluiu um artigo que permite reduzir o repasse de 1% das Receitas Tributárias do Estado à Fundação, previsto na Constituição estadual desde 1989, para 0,7%. O corte é estimado em 600 milhões de reais. O impacto vai muito além das pesquisas desenvolvidas nas universidades paulistas, notadamente nas estaduais USP, Unicamp e Unesp. “Milhares de startups e pequenas empresas foram financiadas pela Fapesp nos últimos 27 anos. Vinte e dois centros de pesquisa em parcerias com grandes empresas dependem da estabilidade desses investimentos, atuando em temas como aeronaves inovadoras e produção de hidrogênio de baixo carbono. Outros 22 centros de pesquisa na fronteira do conhecimento cuidam de temas como tratamento de câncer, doenças genéticas e novos materiais, além de dez modernos centros de Inteligência Artificial”, elenca o alerta do Conselho Superior da Fapesp, que busca reverter a decisão no Legislativo.

A supressão de recursos ameaça cerca de 4 mil projetos de curto e médio prazo e quase 10 mil bolsistas. “Seria desastroso”, avalia [o Acadêmico] Renato Janine Ribeiro, ex-ministro da Educação, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência [e membro titular da Academia Brasileira de Ciências (ABC)]. “Essa desvinculação de receitas significa que o governador quer fugir da responsabilidade constitucional de investir em certas áreas, como educação e ciência, para investir em outras.”

Na avaliação de Ribeiro, também professor de Filosofia da USP, a proposta compromete a autonomia orçamentária da agência de fomento, que se destaca no cenário nacional pela eficiência e qualidade. “A Fapesp é uma referência para o Brasil. Muitos estados tentam copiar o modelo e não conseguem, não é fácil estipular um valor mínimo de recursos tributários para a ciência como foi feito em São Paulo.” As universidades públicas, acrescenta o ex-ministro, têm o orçamento quase todo comprometido com as despesas cotidianas, como a folha de pagamento, serviços de manutenção e contas de água e luz. Enquanto isso, os recursos da Fapesp são destinados especificamente à pesquisa. “É o que chamamos de orçamento livre, porque a instituição tem autonomia para decidir para onde vai destinar esses recursos e consegue garantir os projetos do começo ao fim.” Segundo ele, a proposta do Executivo pode atingir “uma das grandezas do nosso estado, que é o financiamento em ciência e inovação”.

A cientista [e Acadêmica] Mayana Zatz, bióloga molecular e geneticista, membro do Conselho Superior da Fapesp [e membra titular da ABC], explica que o grande trunfo da instituição é ter seu orçamento comprometido no longo prazo, porque só dessa forma é possível garantir o andamento das pesquisas. “Quando a ­Fapesp aprova um projeto, ela não entrega o dinheiro ao pesquisador, ela administra esse recurso e vai liberando de acordo com a demanda. Isso dá a impressão de que está sobrando dinheiro, mas ele já está todo comprometido.”

O desfinanciamento da Fapesp, acrescenta Zatz, também ameaça o futuro dos jovens pesquisadores. “Devido à falta de garantias e de estrutura, o Brasil está perdendo seus melhores cérebros há tempos”, lamenta. O Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, estima que 6,7 mil pesquisadores abandonaram o País nos últimos anos, em busca de melhores condições.

Já a biomédica Helena Nader, presidente da Academia Brasileira de Ciência, teme um efeito dominó. “Quando São Paulo faz essa aberração, ele sinaliza para os outros estados que ciência não é relevante. E, ao dizer que ciência e educação não são relevantes, vira as costas para o século XXI, que é o século do conhecimento.” A professora destaca que a Fapesp não investe apenas em pesquisa básica, mas também em projetos com aplicações práticas nas áreas de saúde, agricultura e engenharia, entre outras. Financiou, por exemplo, diversos estudos orientados para a transição energética, incluindo inovações na geração de energias renováveis e tecnologias para armazenamento de energia em veículos elétricos.

Desde que a proposta chegou à Assembleia Legislativa, vários deputados da oposição correram para protocolar emendas à Lei de Diretrizes Orçamentárias, visando preservar o financiamento da Fapesp. Celso Giannazi, do PSOL, destaca que nenhum governo até hoje havia ousado mexer nesse recurso, e isso acende um sinal de alerta. Ele acredita que há margem de diálogo para tentar convencer deputados do centro, e mesmo da direita, a barrar a proposta do Executivo. O deputado Simão Pedro, do PT, acrescenta que o texto não deve ser votado na Casa nas próximas três semanas. Enquanto isso, tem intensificado o trabalho corpo a corpo com colegas da base governista. “Tenho conversado com os deputados do PSDB e acredito ser possível reverter esse retrocesso. Uma característica desse governo é não aceitar que seus projetos avancem com emendas. Freitas prefere mudar a própria proposta. Vamos fazer pressão para que isso aconteça.”

Zatz afirma que os cientistas também estão mobilizados, pedindo aos deputados para vetar a proposta, e ainda tentam agendar uma conversa com o governador. “Acreditamos que é possível convencê-lo a declinar”, afirma. Em nota, a Secretaria da Fazenda, responsável pelo planejamento da LDO, garante que “não há previsão de utilização do dispositivo até o momento”. •

Cientista brasileira é uma das cinco pesquisadoras a vencerem o Prêmio Internacional L’Oréal -Unesco Para Mulheres na Ciência

São Paulo, 14 de maio de 2024 – A Fundação L’Oréal em parceria com a UNESCO têm o orgulho de revelar os nomes das cinco vencedoras do Prêmio Internacional L’Oréal-UNESCO Para Mulheres na Ciência 2024. No dia 28 de maio, a sede da UNESCO em Paris receberá as cientistas que serão homenageadas pelos seus projetos pioneiros nas áreas das ciências da vida e do ambiente e, em particular, pela sua importante contribuição para enfrentar os desafios globais de saúde pública, que vão do câncer às doenças infecciosas, como a malária e a poliomielite, e doenças crônicas como obesidade, diabetes e epilepsia.

Todos os anos, o prêmio internacional L’Oréal-UNESCO Para Mulheres na Ciência homenageia uma mulher de cada continente, isto é, África e Estados Árabes; Ásia e Pacífico; Europa; América Latina e Caribe; e América do Norte. Este ano, a brasileira Alicia Kowaltowski será uma das cientistas homenageadas, representando a América Latina e Caribe, pelo seu projeto que contribui para a saúde pública, através do estudo da biologia das mitocôndrias.

As laureadas desta 26ª edição foram selecionadas entre 350 candidatos em todo o mundo pela Professora Brigitte L. Kieffer, Diretora de Pesquisa do Instituto de Pesquisa Inserm, membro da Academia Francesa de Ciências e ex-vencedora do programa Para Mulheres na Ciência.

Por meio dos seus projetos, as ganhadoras demonstram que a ciência precisa mais do que nunca das mulheres para enfrentar, por exemplo, os grandes desafios de saúde pública, num cenário em que os casos de câncer poderão aumentar em 77% até 2050, a obesidade irá afetar 1 em cada 8 pessoas em todo o mundo, além dos mais de 249 milhões de casos de infecção por malária. (Fonte: Organização Mundial da Saúde)

AS LAUREADAS DE 2024 – PRÊMIO INTERNACIONAL PARA MULHERES NA CIÊNCIA

 

LAUREADA PELA AMÉRICA LATINA E CARIBE

A professora de Bioquímica Alicia Kowaltowski, da Universidade de São Paulo (USP) no Brasil [e membro titular da Academia Brasileira de Ciências – ABC], receberá o prêmio por sua contribuição fundamental para a biologia das mitocôndrias, que são “a principal fonte de energia das células, atuando como suas baterias”. O seu trabalho tem sido fundamental para a compreensão das implicações do metabolismo energético no que diz respeito a doenças crônicas, incluindo a obesidade, a diabetes e o envelhecimento.

LAUREADA PELA ÁFRICA E OS ESTADOS ÁRABES

A professora Rose Leke, ex-chefe do Departamento de Doenças Infecciosas e Imunologia da Faculdade de Medicina e Ciências Biomédicas e ex-Diretora do Centro de Biotecnologia da Universidade de Yaoundé, em Camarões, será homenageada pela sua dedicada liderança e seus esforços para melhorar os resultados da malária associada à gravidez, apoiar a erradicação da poliomielite e aprimorar a imunização na África.  Além de buscar meios para que jovens cientistas possam alavancar suas carreiras. A influência nacional, regional e global da Dra. Leke teve um impacto profundo na saúde pública no seu país natal, Camarões, e em toda a África. Suas realizações a posicionam como um modelo, educadora líder e defensora de jovens cientistas.

LAUREADA PELA AMÉRICA DO NORTE

A professora Nada Jabado, do departamento de pediatria e genética humana no Canadá, será homenageada por revolucionar a compreensão dos defeitos genéticos responsáveis pelos tumores cerebrais pediátricos agressivos. A descoberta das primeiras mutações de histonas em doenças humanas, conhecidas como onco histonas, desencadeou uma mudança fundamental na esfera da investigação do câncer. Por meio da sua investigação inovadora e liderança eficaz no estabelecimento de uma rede colaborativa global, ela remodelou a abordagem médica ao câncer pediátrico, avançando tanto nas capacidades de diagnóstico como nos tratamentos clínicos para pacientes jovens.

LAUREADA PELA ÁSIA E PACÍFICO

A professora Nieng Yan da Escola de Ciências da Vida em Tsinghua, receberá o prêmio por descobrir a estrutura atômica de múltiplas proteínas da membrana. Sua pesquisa excepcional informou vários distúrbios, como epilepsia e arritmia, e orientou o tratamento da síndrome dolorosa. Como uma autoridade líder em seu campo, a Dra. Yan inspira mulheres cientistas em todo o mundo e é uma forte defensora da igualdade de gênero na pesquisa e na educação científica.

LAUREADA PELA EUROPA

A professora Geneviève Almouzni, diretora de Pesquisa do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS) do Instituto Curie na França, será homenageada por suas contribuições inspiradoras para o entendimento de como o DNA é empacotado com proteínas dentro do núcleo da célula. O seu trabalho pioneiro em epigenética aprofundou a compreensão de como a identidade celular é determinada durante o desenvolvimento normal e interrompida pelo cancro.

26 ANOS EMPODERANDO MULHERES NA CIÊNCIA

Hoje, as mulheres representam apenas 33,3% de todos os pesquisadores do mundo, segundo dados da UNESCO. Além disso, ainda existem outras barreiras – apenas um quarto dos cargos de liderança científica são ocupados por mulheres na Europa e apenas 7,5% dos Prêmios Nobel da ciência foram atribuídos a mulheres desde a sua criação.

Durante 26 anos, a Fundação L’Oréal em parceria com a UNESCO tem trabalhado em conjunto para promover a igualdade de gênero na ciência por meio do prêmio internacional Para Mulheres na Ciência e dos programas para jovens talentos que abrangem mais de 140 países, destacando as mulheres cientistas e contribuindo para quebrar o teto de vidro na ciência.

Desde a sua criação, o programa L’Oréal–UNESCO Para Mulheres na Ciência homenageou mais de 4400 mulheres pela excelência da sua investigação, incluindo 132 laureadas com prêmios internacionais e mais de 4000 jovens pesquisadoras.

ENTRE AS LAUREADAS, 7 RECEBERAM O PRÊMIO NOBEL DE CIÊNCIA

Alexandra Palt, Diretora Executiva da Fundação L’Oréal, afirma que um futuro sustentável para a humanidade depende de uma igualdade real entre homens e mulheres. “Infelizmente, este ainda não é o caso hoje na ciência, embora o mundo enfrente desafios sem precedentes. O programa L’Oréal-UNESCO Para Mulheres na Ciência garante que esta questão permaneça no centro do debate há 26 anos. Em particular, procuramos elevar o perfil das pesquisas conduzidas por muitas cientistas excepcionais e inspirar a próxima geração de mulheres pesquisadoras. Essa premiação internacional proporciona avanços significativos para a saúde da humanidade e encoraja-nos a continuar a luta,” afirma.

Para Lidia Brito, Diretora Geral Adjunta de Ciências Naturais da UNESCO, empoderar as mulheres na ciência é uma questão de equidade e pragmatismo. “As mulheres representam metade da população e será necessária toda a engenhosidade humana para enfrentar os desafios assustadores que enfrentamos, sejam eles a degradação ambiental, as perturbações climáticas e da biodiversidade, as pandemias, o fosso tecnológico ou a pobreza persistente. É encorajador ver um número crescente de mulheres entre os Prémios Nobel da ciência. Desde 1901, 25 mulheres receberam esta distinção, entre elas 15 (60%) desde a criação do programa L’Oréal-UNESCO Para Mulheres na Ciência em 1998. Seis destas 15 mulheres já haviam recebido o prêmio L’Oréal – Prêmio Internacional UNESCO Para Mulheres na Ciência antes de receber o Prêmio Nobel”, conclui.

Sobre o Grupo L’Oréal 

O Grupo L’Oréal se dedica à beleza há 115 anos. Com seu portfólio internacional único de 37 marcas diversas e complementares, o Grupo gerou vendas no valor de 41.18 bilhões de euros em 2023 e conta com mais de 90 mil colaboradores em todo o mundo. Como líder mundial em beleza, a empresa está presente em todas as redes de distribuição: mercados, lojas de departamento, farmácias e drogarias, cabeleireiros, varejo de viagens, varejo de marca e e-commerce. Pesquisa & Inovação, e uma equipe de pesquisa dedicada de 4.000 pessoas, estão no centro da estratégia da L’Oréal, trabalhando para atender as aspirações de beleza em todo o mundo. Reforçando seu compromisso de sustentabilidade, a L’Oréal anunciou o programa L’Oréal Para o Futuro e estabeleceu metas ambiciosas de desenvolvimento sustentável em todo o Grupo para 2030, visando capacitar seu ecossistema para uma sociedade mais inclusiva e sustentável. 

No Brasil, quarto maior mercado de beleza do mundo, a companhia completa 65 anos em 2024 e é uma das líderes entre as empresas de beleza, com um portfólio de 21 marcas no país, como L’Oréal Paris, Maybelline, Garnier, Niely, Colorama, Kérastase, L’Oréal Professionnel, RedKen, La Roche-Posay, Vichy, SkinCeuticals, CeraVe, Lancôme, Giorgio Armani, Yves Saint Laurent, Ralph Lauren, Cacharel, Prada, Azzaro, Mugler e Aesop.

Sobre o programa no Brasil 

Há 19 edições, o Grupo L’Oréal no Brasil realiza localmente o Para Mulheres na Ciência em parceria com a Academia Brasileira de Ciências e a UNESCO no Brasil, premiando sete pesquisadoras com uma bolsa-auxílio de R$ 50 mil reais nas áreas de Ciências da Vida, Ciências Físicas, Ciências Químicas e Matemática. No País, o programa já premiou 124 mulheres cientistas, somando mais de R$6 milhões de reais. As inscrições de 2024 estão abertas até o dia 10 de junho através do site https://bit.ly/pmnc_2024.

Imprensa – Grupo L’Oréal no Brasil

FSB Holding

Adriana Slaiman – adriana.slaiman@fsb.com.br

Tiffany Pancas –  tiffany.pancas@fsb.com.br

Tatiana Reid – tatiana.reid@fsb.com.br

 

Cientista brasileira é premiada em Paris

A cientista brasileira Alicia Kowaltowski  será homenageada em Paris, em 28 de maio, pelo Prêmio Internacional Para Mulheres na Ciência 2024, promovido pela Fundação L’Oréal, do Grupo L’Oréal, em parceria com a Unesco Ela é uma das cinco vencedoras reconhecidas por seus projetos pioneiros nas áreas das ciências da vida e do ambiente. A pesquisa da professora de Bioquímica na Universidade de São Paulo (USP) tem importante contribuição no enfrentamento dos desafios globais de saúde pública, como doenças crônicas, diabete, obesidade, infarto e envelhecimento.

(…)

Alicia é graduada em Medicina, doutora em Ciências Médicas e foi selecionada pelo programa para estudar os recursos que permitem aos seres humanos obter energia dos alimentos para viver. “O metabolismo é fascinante porque está no cerne da vida – todas as definições técnicas da vida devem incluir o metabolismo e o fluxo de moléculas sendo transformadas dentro de nós”, comenta Alicia.

Hoje, a professora incentiva estudantes brasileiros a realizarem bolsas, apoiadas pela agência paulista de fomento Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), a fim de estimular suas pesquisas, ampliar seus horizontes e entregar resultados pioneiros. “Meu conselho aos cientistas em ascensão é para serem curiosos, fazerem boas perguntas, estarem abertos a resultados inesperados, encontrarem supervisores de apoio e nunca desistirem”, afirma.

(…)

Leia a matéria na íntegra no site de O Globo

Fiocruz promoverá debate sobre os desafios do CNPq

No dia 28 de maio (terça-feira), o Núcleo de Estudos Avançados do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) promove o debate ‘Desafios do CNPq no processo de reconstrução do País’. O palestrante da sessão é o presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o Acadêmico Ricardo Galvão.

A atividade conta com a participação de seis debatedores: o pesquisador emérito da Fiocruz e Acadêmico, Samuel Goldenberg; a presidente da Abrasco, Rosana Onocko-Campos; a professora titular da Universidade de São Paulo (USP) e Acadêmica, Marie-Anne Van Sluys; a pesquisadora do IOC e Acadêmica, Patricia Torres Bozza; a professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e Acadêmica, Thaiane Moreira de Oliveira; e o presidente da Associação Nacional de Pós-graduandos (ANPG), Vinícius Soares.

A coordenação é do Acadêmico Renato Cordeiro

A sessão, que homenageia os 124 anos do Instituto, será transmitida ao vivo pelo canal do IOC no Youtube a partir das 14h.

Sobre o Núcleo

O Núcleo de Estudos Avançados visa promover debates acadêmicos sobre temas interdisciplinares no campo da ciência, da política e da filosofia, envolvendo a comunidade científica intra e extramuros.

 

Brasil precisa multiplicar investimento em IA por dez, diz Virgílio Almeida

O Brasil pode perder a onda da inteligência artificial e ficar para trás em inovação se não mudar de postura, diz o professor de ciência da computação da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) Virgilio Almeida, que está no grupo de especialistas chamados ao Palácio do Planalto para falar sobre os impactos da IA na economia, no mundo do trabalho e o desafio regulatório.

Almeida foi convocado para aconselhar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre a tecnologia e avalia que o investimento em pesquisa precisa subir dez vezes.

Segundo ele, o país precisa definir os incentivos corretos para prevenir que IAs desenvolvidas no exterior não tenham “efeitos indesejados” como a substituição descontrolada do trabalho.

Embora Lula tenha eleito a IA como uma prioridade para o encontro do G20 em julho, o Estado brasileiro avançou muito pouco desde novembro, quando a ABC (Academia Brasileira de Ciências) divulgou um estudo coordenado por Almeida com um alerta: o país está dez anos atrasado na pesquisa em inteligência artificial.

“Nada mudou”, diz Almeida, que passou pelo Berkman Klein Center for Internet and Society na Universidade de Harvard.

(…)

Leia a matéria completa na Folha.

Sessão Solene da ABC e CNPq 2024: parte 1

A Escola Naval, no Rio de Janeiro, foi palco da Sessão Solene conjunta da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) na noite de 8 de maio. O evento teve patrocínio da Marinha do Brasil e da Fundação Conrado Wessel.

A mesa foi composta pelo secretário-executivo do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Luis Manuel Rebelo Fernandes, representando a ministra Luciana Santos;  a presidente da ABC, Helena Bonciani Nader; o presidente do CNPq, Acadêmico Ricardo Magnus Osório Galvão; o comandante da Marinha do Brasil, Marcos Sampaio Olsen; o presidente da Diretoria-Executiva da Fundação Conrado Wessel, Carlos Vogt; a presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Acadêmica Denise Pires de Carvalho; o presidente da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), Celso Pansera; o presidente da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), Acadêmico Jerson Lima Silva; e o vice-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Acadêmico Paulo Eduardo Artaxo Netto.

Jerson Lima, Denise Carvalho, Ricardo Galvão, Helena Nader, Luis Fernandes, Almirante Olsen, Carlos Vogt, Celso Pansera e Paulo Artaxo

Menção Especial de Agradecimentos do CNPq

A cerimônia teve início com a entrega da Menção Especial de Agradecimentos do CNPq, que representa um reconhecimento da significativa contribuição de instituições e personalidades para o desenvolvimento, o aprimoramento e a divulgação do Conselho.

Recebeu a Menção Especial a Acadêmica Mercedes Maria da Cunha Bustamante, assim como o Ministério da Igualdade Racial. Também foram homenageadas com a Menção Especial a senadora Maria Teresa Leitão de Melo e a deputada federal Maria do Rosário Nunes, impossibilitada de comparecer devido às fortes chuvas que assolam o sul do país. 

Títulos de Pesquisador Emérito do CNPq

O título de pesquisador emérito do CNPq é destinado a pesquisadora ou pesquisador radicado no Brasil há pelo menos dez anos, pelo conjunto de sua obra científico-tecnológica e por seu renome junto à comunidade científica. Um dos homenageados foi o ex-presidente do CNPq, Acadêmico Evaldo Ferreira Vilela. Também receberam o título Antônio Ricardo Droher Rodrigues (in memoriam), o Acadêmico Clovis Caesar Gonzaga (in memoriam), Josefa Salete Barbosa Cavalcanti; Pedro Alberto Morettin e Ulpiano Toledo Bezerra de Meneses.

 

Prêmio Almirante Álvaro Alberto para a Ciência e Tecnologia 2024

O prêmio criado em 1981 era denominado Prêmio Nacional de Ciência e Tecnologia. O nome foi alterado em 1986, quando passou a ser chamado de Prêmio Almirante Álvaro Alberto para Ciência e Tecnologia. O prêmio é um reconhecimento e estímulo a pesquisadores e cientistas brasileiros que prestam relevante contribuição à ciência e à tecnologia do país. É uma parceria entre o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, e a Marinha do Brasil.

O prêmio contempla, alternadamente, uma grande área do conhecimento por ano. Em 2024, foi outorgado para a área de Ciências Humanas e Sociais, Letras e Artes. A premiação consiste em diploma e medalha concedidos pelo CNPq, MCTI e Marinha do Brasil; premiação em espécie concedida pelo CNPq; viagem no navio de assistência hospitalar e uma viagem à Antártica, oferecidas pela Marinha do Brasil.

A agraciada desta edição foi a Acadêmica Niède Guidon.

Reprodução | Nossa Ciência

Nascida em Jaú, no estado de São Paulo, no ano de 1933, Niède cursou História Natural na Universidade de São Paulo (USP), fazendo em seguida uma especialização em Arqueologia Pré-Histórica na Universidade Paris-Sorbonne e o doutorado em Pré-História na mesma universidade. Sua tese foi sobre as pinturas rupestres de Várzea Grande, no estado do Piauí. Trabalhou como arqueóloga do Museu Paulista da USP e dez anos depois entrou para o corpo docente da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, na França.

Dentre os diversos cargos de destaque que ocupou no Brasil e na França, atuou como professora visitante na Universidade Federal do Piauí, na Universidade Estadual de Campinas e na Universidade Federal de Pernambuco, onde orientou dezenas de teses, dissertações e publicações em livros e artigos em revistas científicas.

Ainda na década de 1970, com pesquisas apoiadas pelos governos francês e brasileiro, Niède Guidon iniciou as pesquisas na Serra da Capivara, também no estado do Piauí. Preocupada com a preservação dos sítios arqueológicos do Parque Nacional da Serra da Capivara, Guidon defendeu o desenvolvimento turístico como fonte de recursos para a região. Em 1979, foi criado o Parque Nacional da Serra da Capivara e em 1986 foi criada a Fundação Museu do Homem Americano (Fundham), com a finalidade de apoiar os trabalhos a serem desenvolvidos na área do parque e na região. Em 1991, o parque foi declarado Patrimônio Cultural da Humanidade, agregando a legislação internacional de preservação ao Patrimônio Arqueológico.

Com apoio do CNPq e de várias universidades brasileiras, Guidon investiga há mais de 40 anos a pré-história no Brasil. Suas pesquisas são referências fundamentais na arqueologia e apontam que a região da Serra da Capivara foi povoada a partir de tempos muito recuados, que beiram os 100 mil anos. Esses primeiros povos encontraram um habitat propício ao seu desenvolvimento e sobreviveram na região durante milênios, até serem dizimados pelos colonizadores, no final do século XVII.

Entre os prêmios e títulos recebidos ao longo de sua carreira destacam-se o título de Cavaleiro da Ordem Nacional do Mérito, oferecido pelo governo francês, em 1995; o título de Comendador da Ordem do Mérito Cultural, oferecido pelo Ministério da Cultura do Brasil, em 2002; o título de Cientista de Ano, oferecido em 2004 pela SBPC; a Ordem do Mérito Científico, na categoria de Grã Cruz, oferecido em 2005 pelo MCTI; o Prêmio Príncipe Claus, oferecido pelo governo da Holanda, em 2005; a medalha comemorativa dos 60 anos da Unesco, em 2010; e o International Hypatia Awards, oferecido pelo Centro Internacional para a Conservação do Patrimônio Arquitetônico da Itália, em 2020. Em 2021, Niède Guidon foi eleita membra titular da Academia Brasileira de Ciências.

Impossibilitada de comparecer ao evento, Guidon enviou um vídeo em que agradece a premiação. “Quero agradecer muito ao CNPq por esse prêmio. Eu simplesmente fiz o meu trabalho como pesquisadora e arqueóloga. Vinha da França pra cá, fazer pesquisas na Serra da Capivara, que é realmente um lugar fantástico, tanto pela natureza como pela memória que o homem pré-histórico deixou aqui, e por isso foi reconhecido pela Unesco como Patrimônio da Humanidade. Agradeço muito ao CNPq, que possibilitou todo esse trabalho. Espero que isso continue, porque ainda há muito a se descobrir na Serra da Capivara”. 

Ela foi representada na cerimônia pela diretora-científica da Fundham, Marcia Chame, que recebeu o prêmio Álvaro Alberto em seu nome, além da tradicional honraria da Marinha do Brasil, o Farol, que representa a luz que emana o conhecimento.

Márcia contou que trabalha há 44 anos com Niède Guidon e disse que ela ficou muito feliz com a homenagem. “Niède fez ciência de qualidade, com acurácia de dados, rigor metodológico e ética, além de coragem para enfrentar todas as teorias antes estabelecidas. Niéde transformou a região de São Raimundo Nonato. Ela construiu cinco escolas, envolveu três mil crianças num projeto de formação de profissionais para pesquisa. Cuidou da conservação da biodiversidade, conseguindo constituir o Parque e, depois, que ele se tornasse patrimônio cultural da humanidade. Levou a ciência muito além”. E agradeceu o reconhecimento, em nome da Acadêmica.

O comandante Marcos Olsen destacou o nome do prêmio, dado em homenagem ao primeiro presidente do CNPq e presidente da ABC em dois mandatos. “O almirante Álvaro Alberto da Mota e Silva dedicou-se ao estudo do domínio pacífico da energia nuclear. Teve atuação visionária na fundação e presidência do então Conselho Nacional de Pesquisa, o CNPq, um avanço importante na ciência brasileira. Buscou incansavelmente garantir a soberania do Brasil pela ciência.”

Luis Fernandes (MCTI), Ricardo Galvão (CNPq), Marcia Chame (Fundham) e o comandante Marcos Olsen

Presidente do CNPq, entidade que outorgou o prêmio, o Acadêmico Ricardo Galvão fez sua saudação. Ele focou na retomada democrática que veio arejar o país e dar fôlego à ciência brasileira, que está fazendo grandes avanços – ainda não suficientes, mas muito necessários. Destacou o reajuste das bolsas, estagnadas há quase 10 anos, e a oferta de mais de mil novas bolsas, com duplicação do investimento previsto. “Também foram objeto de substancial aporte as bolsas de produtividade em pesquisa, com a implantação do adicional de bancada para as de nível 2, minimizando assim a segregação entre modalidades”, apontou o presidente.

Ricardo Galvão, presidente do CNPq

Galvão ressaltou que, desde 2023, o CNPq passou a ser executor de uma parcela maior de recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, o FNDCT. De fato, o Conselho passou a ter participação direta em cinco das dez ações prioritárias do Fundo. Essa integração à nova política de aplicação dos recursos do FNDCT resultou em ajustes na política de fomento do CNPq. “Além disso, a aprovação de 2.750 projetos dentre 9.757 propostas submetidas demonstra que há uma enorme demanda qualificada reprimida, indicando a necessidade urgente de ampliar o orçamento próprio do CNPq”, alertou.

Um conjunto de ações mostra ainda a atenção do CNPq às temáticas relacionadas à promoção da igualdade étnico-racial e de gênero na ciência. Em parceria com o Ministério da Igualdade Racial, a chamada Pibic Ações Afirmativas foi fortalecida; a chamada Atlânticas, fruto de parceria entre o MCTI e os ministérios da Igualdade Racial, das Mulheres e dos Povos Indígenas, permitirá o envio de pesquisadoras negras, indígenas, quilombolas e ciganas para períodos de doutorado sanduíche e pós-doutorado no exterior. E em parceria com o Instituto Rio Branco (IRBr), o CNPq deu continuidade ao programa de ação afirmativa que oferece bolsas-prêmio de Vocação para a Diplomacia para candidatos negros”, listou Galvão.

“É pela reafirmação de um país que acredita na ciência, na história e no desenvolvimento humano que o CNPq premiou, hoje, a extraordinária pesquisadora Niède Guidon, grande vencedora do Prêmio Almirante Álvaro Alberto deste ano”, destacou. E complementou, reconhecendo que a reconstrução de todo um sistema de ciência, tecnologia e inovação leva tempo, “um tempo infelizmente mais longo que o empregado em seu desmonte”. Mas, a seu ver,  o conjunto de ações apresentadas demonstra que a comunidade científica já tem, sim, muito a celebrar, e terá certamente ainda mais nos próximos anos.

“Não há adversidade ou desafio que possa abater o ânimo de quem tem a honra e a felicidade de atuar na condução de uma instituição a serviço de uma comunidade científica tão rica, diversa, potente e produtiva como a brasileira”, finalizou.

 



 

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Sessão Solene da ABC e CNPq 2024: parte 2

Continuação de Sessão Solene da ABC e CNPq 2024: parte 1

Após a entrega do Prêmio Almirante Álvaro Alberto para a Ciência e Tecnologia 2024 para a Acadêmica Niède Guidon, os títulos de Pesquisador Emérito do CNPq e as Menções de Agradecimento, finalmente foram diplomados os novos membros da ABC.

Diplomação dos novos membros da Academia Brasileira de Ciências
Eleitos na Assembleia Geral da ABC de 4 de dezembro de 2023, estavam presentes na cerimônia da noite de 8 de maio na Escola Naval 18 dos 20 novos membros titulares. Não puderam comparecer a bioquímica Cristina Wayne Nogueira, da área de Ciências Químicas da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), e o engenheiro agrônomo Antonio Costa de Oliveira, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), em função das fortes chuvas na região. Dos três novos membros correspondentes, não estavam presentes Alberto Rodolfo Kornblihtt (Ciências Biológicas, Argentina) e José Alejandro Madrigal (Ciências Biomédicas, Reino Unido).

Foram diplomados Nancy Lopes Garcia (Ciências Matemáticas, Unicamp); das Ciências Físicas, Andrea Brito Latgé (UFF), Daniela Lazzaro (ON) e Luis Carlos Bassalo Crispino (UFPA); das Ciências da Terra, Marly Babinski (USP); das Ciências Biológicas, Neusa Hamada (INPA) e Vera Lucia Imperatriz Fonseca (USP); das Ciências Biomédicas, Ana Maria Caetano de Faria (UFMG), Marcio Lourenço Rodrigues (Fiocruz) e Patricia Chakur Brum (USP); das Ciências da Saúde, Monica Roberto Gradelha (UFRJ) e Selma Maria Bezerra Jeronimo (UFRN); das Ciências Agrárias, Francisco Murilo Zerbini Junior (UFV) e Segundo Sacramento Urquiaga Caballero (Embrapa). Das Ciências da Engenharia, Eduardo Antônio Barros da Silva (UFRJ), Julio Romano Meneghini (USP) e Teresa Bernarda Ludermir (UFPE); das Ciências Sociais, Renato Janine Ribeiro (USP); e a membra correspondente Karen Barbara Strier (Ciências Biológicas, Universidade de Wisconsin-Madison).

Os diplomados na noite de 8 de maio

Saudação aos novos membros da ABC
Para recepcionar os novos membros foi convidado o vice-presidente da ABC para a região Sul, o antropólogo Ruben George Oliven, residente em Porto Alegre. Ele explicou sua ausência como mais uma questão decorrente do negacionismo climático, “é a reação do meio ambiente à ação predatória de alguns setores da sociedade”, pontuou. “A ciência tem muito a contribuir para evitar novas tragédias. A ABC tem alertado e vai continuar alertando a sociedade e o poder público sobre a importância de seguir os ensinamentos da ciência”, disse.

O Acadêmico Ruben Oliven faz a saudação aos novos membros da ABC; na mesa, Jerson Lima (Faperj), Denise Carvalho (Capes), Ricardo Galvão (CNPq), Helena Nader (ABC), Luis Fernandes (MCTI), comandante Marcos Olsen, Carlos Vogt (FCW), Celso Pansera (Finep) e Paulo Artaxo (SBPC)

Oliven apresentou de forma resumida as ações da ABC, mostrando aos novos membros todas as frentes de trabalho nas quais podem se engajar. Falou sobre as mudanças mais recentes, como a inserção de mais mulheres e a primeira presidência de uma cientista mulher.  Destacou também a eleição recente de Davi Kopenawa como membro colaborador, ressaltando que a defesa dos direitos dos povos indígenas e da conservação da floresta amazônica são temas muito caros à Academia Brasileira de Ciências.

 “A ABC tem dez áreas e cada uma delas elegeu novos membros. O convívio com cientistas de distintas áreas é fascinante, na medida em que nos coloca em contato com pessoas que trabalham com diferentes temas e de modos diversos, mas que compartilham a curiosidade que é típica dos cientistas e a desenvolvem através de suas pesquisas.”

O cientista apontou ainda a posição enfática em defesa  da ciência que a ABC assumiu durante o período obscurantista por que o país passou. “Preocupamo-nos também com a questão da Desinformação Científica, sobre a qual estamos publicando um documento que alerta sobre as consequências nefastas de divulgar mentiras sobre vacinas, sobre o clima e sobre a evolução humana. Os desastres que têm assolado o Brasil nos últimos tempos nos dão razão”, observou.

Enfim, Oliven afirmou que a Academia é suprapartidária: “o partido da ABC é a ciência”. E defendeu o fato de a ABC ser considerada “cautelosa”, explicando que ela só se pronuncia quando tem uma posição embasada em pesquisas e evidências. “É este seu papel. Ela é uma instituição séria. Séria, mas não sisuda”, brincou.

 

Em nome dos recém-empossados 

A Acadêmica Vera Lucia Imperatriz

A Acadêmica Vera Lucia Imperatriz Fonseca representou os novos membros no seu agradecimento. Ela também se referiu aos importantes estudos sobre os limites das ações humanas para a manutenção do equilíbrio e a sustentabilidade do planeta, conduzidos por muitos cientistas. Destacou que os riscos relacionados ao ponto de não retorno ambiental têm sido bastante divulgados e apontou a importância das ciências sociais nesse momento. “A ciência e os saberes em geral têm uma voz imprescindível, e os seus feitos na recente pandemia mostraram o quanto dependemos dela e da comunicação horizontal para a população. Agradeço em nome do grupo aos membros da Academia que nos acolhem e esperamos corresponder às expectativas.”

 

Palavras da presidente

Helena Nader, presidente da ABC

A presidente da ABC, Helena Nader, agradeceu a todos os parceiros ali representados que possibilitam a realização das atividades da ABC, especialmente aquela cerimônia: CNPq, Marinha do Brasil, Capes, Faperj e Finep. Ela concordou com Galvão sobre haver muito a celebrar esse ano, especialmente a consolidação da nossa jovem democracia, que remonta apenas a 1986.

Helena considerou motivo de celebração a volta do Brasil à arena internacional, focada especialmente na sustentabilidade ambiental e social. Em 2024, nosso país está sediando a reunião do G20, grupo de países que concentra 80% da economia mundial. O tema de debate escolhido foi “Construindo um Mundo Justo e um Planeta Sustentável”. “Queremos que isso seja alcançado com uma transição ambiental justa e inclusiva”, apontou a presidente.

No âmbito do G20, a organização do Science 20 (S20) pela Academia foi um dos marcos do ano. “Nós escolhemos como tema ‘Ciência Para a Transformação Global’ e definimos cinco forças-tarefa”, explicou Helena, relacionando-as: Inteligência Artificial, Bioeconomia, Processo de Transição Energética, Desafios da Saúde, e Justiça Social. “Nada disso se resolve da noite para o dia, são processos de transição, como a energética. Nosso documento final será discutido, dialogado, e em torno do dia 20 de julho esperamos que seja assinado por todos os presidentes das Academias e das agências internacionais envolvidas.”

Sobre a tragédia no Rio Grande do Sul, Helena Nader reiterou que a política precisa conversar com a ciência. “O ponto de não retorno climático está próximo, de fato, mas parte do desastre poderia ter sido prevenido com ciência. Nosso Código Florestal não está sendo cumprido. Cabe a todos nós aqui, como membros da sociedade civil, cobrar”.

Para os novos membros, Helena Nader deu um aviso: “Podem arregaçar as mangas, vocês serão instados a trabalhar.” Apresentou os Grupos de Trabalho em atividade, aos quais os membros que estão chegando podem se juntar. Ela pediu ainda a colaboração ativa de todos para levar aos Três Poderes, nos três diferentes níveis (Federal, Estadual e Municipal), a voz da ciência.

“Precisamos fazer a política ouvir a ciência, para o estabelecimento de políticas públicas que ponham em prática as recomendações da ciência. Aprendemos que apenas nossa união como sociedade é que faz repercutir a voz da ciência. Juntos, somos mais fortes para construir uma sociedade inclusiva, social e ambientalmente justa, um Brasil soberano que tenha a educação, a ciência, a tecnologia e a inovação como alicerces.”

Encerramento

Luís Fernandes, secretário executivo do MCTI

O final da cerimônia foi marcado pelas palavras do secretário executivo do MCTI, Luís Fernandes, representando a ministra de C,T&I, Luciana Santos. Ele relatou que foi instituído um programa emergencial custeado pelo FNDCT para recuperar o sistema estadual de ciência e tecnologia do Rio Grande do Sul, em parceria com o governo local.

“Estamos aqui para celebrar a ciência, mas não podemos esquecer das ameaças tão recentes ao nosso sistema de CT&I e da resistência incisiva e contínua da comunidade científica, por meio das instituições aqui representadas”, recordou. Aos presentes, Fernandes reiterou: “é necessário um compromisso permanente em fazer a defesa da ciência e da democracia.”

A Sessão Solene ABC/CNPq 2024 foi encerrada com um coquetel no Salão Nobre da Escola Naval, oferecido pela Fundação Conrado Wessel.

 

 

 


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