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“Não tem mais volta”, diz Carlos Nobre sobre catástrofes climáticas

Enquanto pessoas ilhadas ainda aguardam resgate e mais de 300 municípios do Rio Grande do Sul nem conseguem calcular o prejuízo causado pelas enchentes, cientistas alertam que eventos com chuvas extremas chegaram para ficar.

O que chama a atenção, diz Carlos Nobre, climatologista brasileiro que fez carreira no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), é que essas tragédias estão acontecendo mais cedo do que se previa. Em 2007, o quarto relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC) da ONU previu que esses fenômenos se tornariam recorrentes por volta de 2030 ou 2040.

A antecipação se deve ao aumento rápido da temperatura média do planeta: em 2023, o recorde de aquecimento foi batido, com 1,5° C a mais que no período pré-industrial. Em 2024, o calor acima da média continua.

“Os modelos indicavam que, quando a gente atingisse 1,5°C, já deveríamos esperar fenômenos muito extremos, de chuvas muito intensas e prolongadas, como vimos no Rio Grande do Sul”, afirma Nobre.

O desafio, aponta o cientista, será adaptar as cidades e retirar cerca de 3 milhões de brasileiros que vivem em áreas de risco. “Aumentar a resiliência e ter uma política de adaptação às mudanças climáticas é um investimento de centenas de bilhões de reais”, diz ele em entrevista à DW.

DW: As tragédias recentes que vimos no Brasil, como a enchente em Santa Catarina no fim de 2023, a seca extrema na Amazônia e a catástrofe recente do Rio Grande do Sul estão de alguma forma interconectadas? Quais relações a ciência consegue traçar?

Carlos Nobre: Essas tragédias têm uma interconexão, sem dúvida. Começando pela bacia do rio Taquari, no centro-norte do Rio Grande do Sul: ela registrou o maior recorde de chuvas e inundações em setembro de 2023. Ali, houve uma relação direta com o El Niño, que estava se desenvolvendo, provocado pelo aquecimento acima do normal no Oceano Pacífico Equatorial.

O El Niño induz uma seca na Amazônia e um aumento da velocidade do jato subtropical, que passa sobre o Uruguai, Paraguai, centro-leste da Argentina e Sul do Brasil. Quando o vento desse jato fica mais forte, a uma altura de 10 a 15 quilômetros, ele faz com que as frentes frias parem ali. Chove muito. O El Niño faz com que esse jato subtropical forte induza chuvas muito fortes no Sul do país.

Essa chuva extrema que vimos semana passada no Rio Grande do Sul, que chegou até o sul de Santa Catarina, é um fenômeno meteorológico um pouco diferente. É um sistema de ondas de todo o Hemisfério Sul entre a região subpolar e as latitudes subtropicais. Esse sistema na última semana estava quase que estacionário, o que a gente chama de bloqueio atmosférico. Havia esse sistema de baixa pressão ao sul e outro de altíssima pressão ao norte. Quando tem um bloqueio de alta pressão, o ar fica mais quente e impede a formação de nuvens. Como está muito quente, cria esta onda de calor, ou domo de calor. No sul, a baixa pressão traz as frentes frias, que ficam estacionadas porque há este sistema de bloqueio.

O El Niño já está numa fase de perder força, o jato subtropical já não está muito forte. Mas, sim, tudo isso tem a ver com o aquecimento global. Os oceanos bateram todos os recordes de aquecimento da história desse o último período interglacial, ou seja, dos últimos 125 mil anos. E quando o oceano está muito quente, evapora muita água e essa água é a fonte de energia para todos os sistema de chuva e indução de áreas de seca. O El Niño existe há milhões de anos, sempre induziu chuvas fortes no Sul, mas bateu-se o recorde agora.

Carlos Nobre

As previsões climáticas feitas anos atrás previam mais chuvas extremas para o Sul do Brasil. Elas estão acertando?

Os modelos matemáticos climáticos rodados há muitos anos já previam. Os modelos com aquecimento global mostram um aumento da chuva anual no Sul do Brasil. Um aumento de 10% a 20%.

O que chama a atenção é que isso está acontecendo de forma muito mais antecipada. Se a gente pegar o relatório do IPCC [Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas] de 2007, que ganhou o Prêmio Nobel da Paz, eu estava inclusive entre os autores, ele indicava que este tipo de fenômeno poderia acontecer por volta de 2030, 2040. Mas eles [fenômenos dos eventos climáticos extremos] já se anteciparam muito.

No ano passado atingimos o recorde de aquecimento, a temperatura média global já subiu 1,5° C mais quente que o período pré-industrial. Este ano continua quente. A temperatura média do planeta em fevereiro e março de 2024 já bateu 1,56°C mais quente, é o recorde histórico.

Os modelos indicavam que quando a gente atingisse 1,5°C nós já deveríamos já esperar fenômenos muito extremos de chuvas muito intensas e prolongadas como vimos no Rio Grande do Sul.

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Leia a entrevista completa, sem barreiras, na DW.

Rio Grande do Sul ainda vai viver muitos eventos extremos, dizem cientistas do IPCC

Em um relatório publicado em 2023, os especialistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) apontaram pela primeira vez uma relação entre as fortes precipitações observadas na região que engloba o Rio Grande do Sul desde a década de 1950 e as alterações climáticas provocadas pela ação humana.

Segundo a pesquisadora Thelma Krug, vice-presidente do órgão entre 2015 e julho de 2023, a constatação é apenas reforçada pelas fortes chuvas e a subsequente tragédia que afeta o Estado Desde a semana passada.

Os últimos eventos “de certa forma confirmam algo que estamos dizendo há tempos: que, para além das variabilidades naturais que levam aos eventos extremos, existe uma contribuição ou influência humana”, afirma a matemática, que hoje atua como presidente do Comitê de Direção do Sistema Global de Observação do Clima, à BBC News Brasil.

Ainda segundo Krug, apesar da chamada ciência da atribuição climática – que estuda o impacto da atividade humana na probabilidade de ocorrência de fenômenos específicos – ser ainda muito nova, as relações respaldadas pelo IPCC indicam que fortes precipitações como as observadas atualmente podem se tornar mais recorrentes.

“Infelizmente, acredito que há uma probabilidade muito grande de que esses eventos voltem a ocorrer de uma forma mais frequente e intensa”, diz.

O IPCC é um grupo de cientistas definido pelas Nações Unidas que monitora e avalia a ciência relacionada às mudanças climáticas.

Em seu relatório, o IPCC aponta a contribuição humana para o aumento das chuvas na região chamada de Sudeste da América do Sul (SES), que engloba não apenas o Rio Grande do Sul, mas também outros Estado da região sul do Brasil e algumas áreas de nações como Argentina e Uruguai.

A SES é a única que engloba o Brasil onde o IPCC detectou evidências de fortes precipitações relacionadas à ação humana.

O painel classifica sua conclusão como de “baixa confiança”, mas segundo Krug esse é o maior nível de evidência disponível atualmente para a região devido à dificuldade dos cálculos envolvidos.

[A Acadêmica] Mercedes Bustamante, professora da Universidade de Brasília (UnB) e colaboradora de alguns dos relatórios do IPCC, também vê fortes indícios da influência das mudanças climáticas provocadas pelas atividades antrópicas nas chuvas que provocaram 83 mortes e afetaram 345 dos 497 municípios gaúchos.

Segundo a ecologista, membra da Academia Brasileira de Ciências (ABC), o Rio Grande do Sul sempre foi o ponto de encontro de sistemas tropicais e sistemas polares, o que cria um padrão que inclui períodos de chuvas intensas e outros de seca.

E a tendência é que essa alternância continue se repetindo, mas com cada vez mais intensidade.

“Essa é uma região onde vamos viver muito mais extremos, segundo os modelos climáticos”, diz a especialista.

Thelma Krug e Mercedes Bustamante

Transformação dos Biomas

As fortes chuvas que atingem o Rio Grande do Sul atualmente podem ser explicadas por uma conjunção de fatores de risco, entre eles uma massa de ar quente sobre a área central do país, que bloqueia a frente fria que está na região Sul e faz com que a instabilidade fique sobre o Estado, causando chuvas intensas e contínuas.

Aliado a isso, o período entre o final de abril e o início de maio de 2024 ainda tem influência do fenômeno El Niño, responsável por aquecer as águas do Oceano Pacífico, contribuindo também para que áreas de instabilidade fiquem sobre o Estado.

Essa combinação de diversos fatores de uma única vez é considerada rara pelos especialistas.

No entanto, segundo Mercedes Bustamante, a maior frequência desses “riscos compostos” é apontada na compilação de dados sobre mudança climática do IPCC.

“Há uma convergência de variáveis diferentes que atuam em sinergia e ampliam esse fator de risco”, diz. “Muitas das discussões sobre preparação se referiam a riscos de forma isolada, mas precisamos olhar para os efeitos em cascata e os riscos de forma integrada.”

Bustamante explica que o desmatamento em larga escala do Cerrado nas últimas décadas aumentou a temperatura superficial e reduziu a quantidade de evapotranspiração, ou a devolução da água à atmosfera, na região central do país.

Com menos retorno de umidade, a atmosfera fica mais quente e seca. Em convergência com o El Niño, é essa massa de ar quente que está bloqueando e mantendo a área de instabilidade sobre o Rio Grande do Sul.

“Há um fenômeno regional, que é o El Niño, mas também uma questão associada à transformação dos nossos biomas”, diz.

Ao mesmo tempo, essa mesma massa de ar quente bloqueia os chamados ‘rios voadores’ da Amazônia, uma espécie de curso d’água invisível que circula pela atmosfera. Trata-se da umidade gerada pela Amazônia e que se dispersa por todo o continente sul-americano.

Se esse curso d’água encontrasse um ambiente menos seco na região central do Brasil, parte dele precipitaria ali. Mas nas circunstâncias atuais a umidade é obrigada a desviar pelas bordas da massa quente e úmida, de forma que esbarra nos Andes e é canalizada para o sul do país.

“Tivemos frentes frias que não conseguem ‘subir’ e massas de ar úmido que não conseguem se distribuir para o Brasil central e ‘vazam’ pelos lados”, resume.

Segundo a pesquisadora, esse contexto tornou as chuvas registradas na última semana mais extremas e disseminadas do que as que abateram o Rio Grande do Sul em setembro de 2023.

(…)

Leia a reportagem completa, sem barreiras, no site da BBC News Brasil.

Mudanças climáticas e o novo anormal

*Texto originalmente publicado no portal Sul 21.

O aquecimento da Terra por efeitos antropocêntricos não gera um padrão único de mudanças climáticas. São anomalias que combinadas a fatores locais criam comportamentos de intensidade não observados anteriormente.  A região central do Brasil encontra-se com a atuação de um bloqueio atmosférico, este impede o deslocamento de sistemas frontais, os quais ficam aprisionados na região sul, causando as chamadas frentes estacionárias, que tem como consequência a ocorrência de chuvas intensas e tempestades mais severas.

A novidade na equação anual do clima riograndense é o excesso de vapor vindo da região sudoeste (rios voadores) e o oceano mais quente. Parte deste comportamento tem autoria do El Niño, mas a parte mais substantiva vem do Atlântico mais quente que é um efeito do aquecimento global. A frequência destas chuvas excepcionais demonstram que efeitos extremos são um novo normal. Estas anomalias, no entanto, podem ocorrer não somente sob a forma de chuvas, vendavais e ciclones, mas igualmente secas.

Desastres farão parte da realidade do Rio Grande do Sul. Enfrentá-los requer uma combinação de ciência e administração pública. Conforme a Organização Meteorológica Mundial os Serviços Climáticos (SC) baseiam-se nos resultados da previsão meteorológica e, mais importante, na adaptação desta previsão para as ameaças decorrentes do tempo, e do clima, com o fornecimento de alertas de riscos a setores de hidrologia, agricultura, desastres naturais, aviação, navegação, energia, saúde e muitos outros.  Em síntese, SC não é meramente uma previsão de tempo e de clima e sim uma rede de instituições trabalhando em parceria para minimizar os riscos que a população vem enfrentando.

Isto significa inclusive preparar a população através do ensino nas escolas. 

Temos a necessidade urgente de organizar os diferentes setores da sociedade para formar uma rede unificada entre as diferentes instituições que de forma conjunta possam auxiliar os órgãos governamentais e privados, e aos cidadãos de forma geral, para o planejamento aos riscos decorrentes de eventos extremos de tempo e de clima, associados ou não com mudanças climáticas, bem como se preparar para tomada adequada de ações. 

A intervenção institucional e articulada da UFRGS nesse cenário é crucial. Uma das maiores universidades públicas do Brasil não pode ficar inerte frente a um quadro tão grave. Seja por meio de ações de apoio e suporte a socorro emergencial, ou por meio de ações continuadas de pesquisa e extensão que possam gerar dados e subsídios para decisões e políticas públicas de reversão ou mitigação do quadro de mudanças climáticas. Há no tecido da universidade iniciativas que atuam nessa direção, mas elas precisam ser direcionadas por uma orientação estratégica central, com apoio e articulação institucional que as potencialize e as direcione para as questões emergenciais, sob pena de não realizarem toda sua potência de incidência sobre o quadro que vivemos.

O estabelecimento de um Programa de Serviços Climáticos é estratégico para o estado e temos certeza que tanto a UFRGS como as demais Universidades públicas e privadas do RS certamente seriam parceiras para uma iniciativa como esta. O excepcional é o novo anormal.

Márcia Cristina Bernardes Barbosa, Professora titular do Instituto de Física

Pedro de Almeida Costa, professor associado da Escola de Administração

Rita de Cássia Marques Alves, professora do Instituto de Geociências e PPG de sensoriamento remoto

Leia o artigo na Sul 21.

Morreu o Acadêmico David John Randall

David Randall era professor distinguido do Departamento de Ciências Atmosféricas da Universidade Estadual do Colorado. Obteve seu doutorado em Ciências Atmosféricas, pela Universidade da Califórnia, Los Angeles. O mestrado e a graduação ele cursou na Universidade Estadual de Ohio, Columbus em Engenharia Aeronáutica e Astronáutica.

O Professor Randall ingressou no Departamento de Ciências Atmosféricas da CSU em 1988. Antes de sua chegada, ele ocupou cargos no Instituto de Tecnologia de Massachusetts e na NASA.

Como professor, Randall gostava de ministrar disciplinas relacionadas a modelagem numérica da atmosfera, dinâmica atmosférica, camada limite atmosférica, convecção e clima. Como pesquisador, tinha interesse no estudo de nuvens e clima, dinâmica climática, parametrização de nuvens e métodos numéricos. Seus projetos em andamento incluíam o desenvolvimento de métodos de parametrização de nuvens aprimorados, experimentos numéricos para determinar o papel das nuvens na manutenção do clima atual e uma investigação sobre o papel das nuvens na dinâmica climática.

O porf. Adalberto Val, vice-presidente da ABC para a região Norte comentou sobre essa perda: “Um homem excepcional, um cientista singular, um professor atento. Contribuiu como ninguém com a fisiologia comparada. Chefiou a expedição Alpha Helix à Amazônia em 1976. Minha vida profissional representa muito do que aprendi com Dave.”

Dave Randall fazendo uma palestra a bordo de um barco em Manaus, na ocasião em que recebeu o diploma de membro correspondente da ABC. Observem a projeção ao fundo.

 

José Marengo é entrevistado pelo canal Meio

O membro titular da Academia Brasileira de Ciências José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), concedeu entrevista ao canal Meio, no YouTube, no dia 14 de fevereiro.

Durante a conversa Marengo abordou muitos aspectos das mudanças climáticas, como o atual El Niño, a influência humana na temperatura do planeta e o trabalho do Cemaden na prevenção de tragédias e adaptação aos efeitos de um mundo cada vez mais quente.

Confira:

Quase metade da Amazônia caminha para ponto de não-retorno até 2050, diz pesquisa

Leia matéria de Vinicius Sassine para a Folha de S. Paulo, publicada em 14/2:

Um grupo de cientistas brasileiros estima que, até o ano de 2050, de 10% a 47% da floresta amazônica estarão expostos a ameaças graves e poderão sofrer uma transição de ecossistema, com perda de resiliência da floresta e conversão a outras formas do bioma, incapazes de cumprir o papel de sumidouro de carbono desempenhado pela Amazônia.

É o chamado ponto de não retorno, quando a floresta já não encontra formas de retroalimentação e colapsa, total ou parcialmente, convertendo-se em outras formas de existência biológica.

Esse ponto de inflexão para a amazônia é um dos principais focos de atenção na discussão científica sobre mudanças climáticas, em razão dos impactos para o clima, que extrapolam os limites do bioma, para a emissão de CO2 e para o modo de vida dentro e fora da região amazônica.

(…)

O ritmo de aumento da devastação foi interrompido no primeiro ano do governo Lula.

O novo estudo conduzido pelos pesquisadores brasileiros afirma que a amazônia está cada vez mais exposta a pressões, com aumento de temperaturas, secas extremas, desmatamento e fogo, mesmo nas áreas mais centrais ou nas mais remotas. O colapso do bioma pode ser local, regional ou mesmo total, o que agravaria as mudanças climáticas, cita o estudo.

É preciso interromper o desmatamento e a degradação e expandir iniciativas de reflorestamento, afirmam os pesquisadores.

O artigo científico foi publicado nesta quarta-feira (14) na revista Nature. O estudo é liderado pelos pesquisadores Marina Hirota e Bernardo Flores, da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), e tem participação de cientistas do Brasil (como [os Acadêmicos] Carlos Nobre e José Marengo e Erika Berenguer), Estados Unidos e Europa. A pesquisa teve financiamento do Instituto Serrapilheira.

Temperaturas mais altas, secas extremas, desmatamento e fogo enfraquecem mecanismos que garantem a resiliência da floresta, com influência direta no ciclo de chuvas. Isso aproxima o bioma da “transição crítica”, do ponto de não retorno.

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Leia a matéria na íntegra na Folha de S.Paulo.

Paulo Artaxo concede entrevista à TV Globo do Piauí

O Acadêmico Paulo Artaxo, professor titular de física da USP e membro do Painel Intergovernamental para as Mudanças Climáticas (IPCC), concedeu entrevista para o PITV, da Globo Piauí, em ocasião da inauguração da sala de monitoramento de eventos climáticos extremos de Teresina.

Artaxo salientou que esses eventos são um dos reflexos das mudanças climáticas. “Hoje, a atmosfera terrestre tem muito mais energia para dissipar do que a 30 anos atrás e uma maneira de fazer isso é através dos eventos climáticos extremos. Precisamos pensar maneiras de proteger a população mais vulnerável”, disse.

O espaço foi inaugurado pela Secretaria de Meio Ambiente do Piauí e conta com aporte inicial de R$ 250 mil.

Assista a reportagem completa do PITV

“Precisamos entender que vivemos em um mundo em transformação”, afirma vice-presidente da ABC para a Região Norte

Por Tiago da Mota e Silva, doutor em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), graduado em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero (FCL) e pesquisador em Comunicação desde 2012. É membro do Centro Interdisciplinar de Semiótica da Cultura e da Mídia (CISC). Investiga temas relacionados à Ecologia da Comunicação, conservação ambiental e mudança climática. 

Em 30 de setembro, o biólogo Adalberto Luis Val  esteve no Palácio dos Bandeirantes, recebendo o Prêmio Fundação Bunge, um dos mais prestigiosos na ciência, pelo conjunto de suas contribuições à soluções baseadas na natureza para a agricultura sustentável. Pouco mais de um mês depois, em 4 de dezembro, o professor [e vice-presidente da Academia Brasileira de Ciências para a região Norte] estava em um flutuante, na Vila do Janauacá, interior do Amazonas, participando de mais uma excursão em campo.

Nascido em Campinas, no interior de São Paulo, Adalberto e sua esposa Vera estão em Manaus, trabalhando no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), há 42 anos. “Eu já vi de tudo por aqui”, relembra. Mesmo assim, viajando com mais outros 17 cientistas, a maioria jovem, na faixa dos 30 anos, o cientista continua se surpreendendo com as descobertas sobre a maior floresta tropical do mundo.

Aos 67 anos, Adalberto escreveu capítulos importantes da ciência da Amazônia. Especializado no estudo de peixes, Adalberto é uma referência sobre a biodiversidade da região, além de ter sido diretor do Inpa entre os anos de 2006 e 2014. Na COP27, no ano passado, esteve na delegação do recém-eleito presidente Lula, no Egito.

Tudo isso faz de Adalberto um militante pela ciência e pela conservação da Amazônia, já há décadas. De lá para cá, defende praticamente as mesmas coisas: desmatamento zero, inclusão social e investimento em ciência. “A gente precisa de uma coalizão política para sinalizar um novo momento para a Amazônia. Uma coalizão social ampla para botar uma moratória na destruição”, opina o pesquisador.

Mesmo com toda sua experiência, a severa transformação da paisagem da Amazônia nesta que foi a mais severa seca de sua história coloca novos problemas para o cientista e para sua equipe. Os animais são capazes de se adaptar a essa nova situação? Como a floresta está se transformando?

Nessa entrevista, Adalberto compartilha algumas de suas inquietações para este novo momento e pondera como a ciência deve responder a ele: “Podemos usar a ciência para superar os problemas do Brasil, como este da seca extrema que estamos vivendo. Mas para isso, ela precisa estar aberta e flexível às demandas sociais do país”.

Já estamos no último dia de expedição. Qual é seu o balanço do que foi feito?

Nós tínhamos planejado um conjunto de experimentos que iria resultar em 10 ou 12 trabalhos científicos. Mas a gente percebeu que há uma interação muito grande entre vários experimentos que a gente tinha desenhado e provavelmente vamos ter trabalhos saindo dessa expedição por um bom tempo, mais do que imaginávamos.

O que mais me alegrou foi poder ver a relação de jovens cientistas brasileiros com jovens cientistas estrangeiros. Eu acho que eles têm uma visão diferente do que cientistas de gerações anteriores. Depois de 45 anos andando pela Amazônia, eu vi de tudo por aqui, mas ainda assim eles conseguem me surpreender com coisas novas. E isso me deixa muito entusiasmado.

Realmente, a maioria da equipe desta viagem é formada por cientistas na faixa dos 30 anos…

Isso. Se a gente quiser trabalhar no sentido de ter uma integração regional no país, precisamos que nossos jovens  o conheçam, nos seus rincões. É fantástico você fazer experimentos em laboratórios, com a comodidade de ter tudo que é necessário à mão. Mas é completamente diferente vir para o campo e lidar com o dia a dia. Ou seja, é muito simples a gente levar o objeto de estudo para o laboratório, mas é muito desafiador levar o laboratório para onde o objeto de estudo está. Isto nos impõe formas novas de pensar.

E que formas seriam essas?

Isso me remete à formação de cientistas no Brasil diante dos desafios que a gente tem no país. Precisamos pensar em ter as demandas da sociedade respondidas pela ciência de acordo com cada uma das regiões. Portanto, a pós-graduação não pode ter um desenho único, um processo único de avaliação que reduz os programas às notas conforme aquelas características desejáveis dentro do é pensado por meia dúzia de pessoas. Não pode ser assim. A gente precisa proporcionar mais experiências desse tipo aos jovens que estão se formando. A lição que se tira de uma expedição como essa, além é claro do conjunto de dados coletados, é a de como podemos usar a ciência para superar os problemas do país, como este da seca extrema que estamos vivendo na Amazônia. Mas para isso, a ciência precisa estar aberta e flexível para se adaptar às demandas sociais do país.

Adalberto Val trabalha com demais cientistas durante expedição. Da direito para esquerda_ Waldir Heinrichs, Jefferson Silva e Maria de Nazaré de Paula

E quais deveriam ser as prioridades estratégicas da ciência que é feita aqui, na Amazônia?

Está muito claro que o conjunto de informações sobre biodiversidade que a gente produz aqui precisa ser ampliado. E isso vai muito além de contar quantas espécies existem ou como elas vivem. Novas perguntas precisam ser feitas. Quais são as informações que as espécies escondem em seu DNA por conta do processo evolutivo que elas tiveram? De que forma essas informações podem ser usadas para sobreviver a ambientes extremos como esse que acabamos de passar? Como nós podemos usar essas informações para gerar qualidade de vida? A gente precisa pensar em ciência em termos de ecossistema de inovação, especialmente na Amazônia. Eu penso que alguns conceitos contemporâneos são interessantes nesse sentido. Um deles é a Saúde Única. Até hoje, nós fomos tratando os problemas conforme eles foram surgindo, mas as doenças vão se avolumando em velocidade crescente. Este não me parece ser o melhor caminho. Nossos povos originários sabiam fazer isso, nossos avós sabiam fazer isso, que é buscar o equilíbrio entre a qualidade ambiental e a vida que se leva, para evitar que novos problemas surjam.

Outra prioridade: está mais do que na hora de migrar, de fato, para processos de produção de energia diferentes. O Brasil conta com uma costa marinha fantástica capaz de produzir energia eólica aos quilos. O petróleo faz mal para a saúde! Não é mais uma questão econômica pura e simples. É lamentável, por exemplo, a gente estar utilizando esse barco gastando essa quantidade de combustível quando a gente poderia ter um barco aqui perfeitamente mantido por energia solar.

Um terceiro ponto envolve recordarmos que hoje vivem na Amazônia brasileira cerca de 25 milhões de pessoas. Estamos falando de mais do que muitos países no mundo. Essa população tem demandas, tem anseios, busca qualidade de vida… Temos um vasto conjunto de pessoas marginalizadas por conta do processo de integração da região, que ainda não faz parte da agenda nacional. Portanto, temos que dar o próximo passo da ciência, especialmente em regiões tão afastadas dos grandes centros: transformar as informações que a gente tem em novas tecnologias apropriadas para essas regiões que promovam bem-estar. Não adianta trazer para cá tecnologias desenvolvidas em outras partes do mundo. Precisamos transformar a informação científica que produzimos aqui em soluções desenhadas especificamente para nós. Para se chegar nisso, é necessário um novo desenho institucional para a ciência brasileira, penso que até mesmo com novas instituições de ciência e tecnologia na Amazônia.

Doca de onde parte a expedição científica, no Tarumã, em Manaus. Ao fundo, é possível observar um banco de areia onde antes só havia rio
Base Flutuante do ICMBio, em Anavilhanas, onde a equipe de cientistas montou um laboratório improvisado

Depois de 45 anos de militância, eu vejo que o senhor ainda é bastante entusiasmado. Que novas contribuições você espera dar para Amazônia?

Primeiro, a gente precisa lutar pela ampliação e por apoio à ciência na Amazônia. Nós estamos falando em não mais do que 3% de todo o investimento do país em ciência e tecnologia para as instituições da região, fortalecendo sua capacidade produtiva. Mas, além da infraestrutura, precisamos também de massa cinzenta. Um não adianta sem o outro. Portanto, quero formar gente boa e ter bons laboratórios para a produção. Isso não pode ficar a reboque de instituições do exterior.

Viajando esses 14 dias pelo Rio Negro e pelo Solimões, o que chamou mais a sua atenção nas transformações da paisagem durante esta seca histórica?

Eu resumo em uma palavra: resiliência. É fantástica a resiliência desse sistema. Você vê lagos secando e, ainda assim, lá a diversidade aquática está representada. Tem um sisteminha ali, isoladinho, de repente brota alguma plantinha lá e ele vai se recompondo. É um sistema super dinâmico. E é bom que a gente entenda que, por ser um sistema super dinâmico, ele não se manterá igual. Uma das coisas que eu sempre disse é: não espere que as coisas sejam sempre iguais ao longo do tempo. Elas não foram sempre as mesmas no passado, tendo em vista como a Amazônia evoluiu desde o começo do levantamento dos Andes, com modificações intensas no sistemas. Quando temos picos de desafios como este que estamos vivendo com a seca, isso impõe um novo momento para os ecossistemas, com reflexos para o futuro. O sistema irá se adaptar para este novo momento. Se houvesse uma única espécie de árvore no sistema, já era, teria desaparecido. Se houvesse uma única espécie de peixe, talvez a mortalidade que a gente teve aqui teria desaparecido com ela. Mas a Amazônia não é assim. Aqui há uma diversidade imensa que explica, em parte, essa imensa resiliência.

Quanto mais biodiverso, mais resiliente é o sistema, não? Daí a importância de zelar por essa biodiversidade…

Eu sempre gosto de usar o verbo ‘conservar’. Eu faço uma diferenciação entre preservar e conservar. Preservar é construir um santuário, tornar algo intocável, isolado. Conservar é respeitar, mas também querer saber como funciona. É o aprender com o outro, com suas necessidades. A Amazônia precisa de estratégias de conservação para que possamos aprender com os mais de 80% que ainda restam dela.

Cientista avalia peixes recém capturados, em busca de parasitas

Em um exercício hipotético, o que seria um marco de uma virada de estratégia para a Amazônia e sua conservação?

Algumas coisas. A primeira delas é uma ênfase em um processo de inclusão social que respeite a diversidade dos povos da região. Eu ouvi de um líder indígena a alguns anos atrás que disse o seguinte: “Eu não quero ser incluído. Vocês vêm aqui, derrubam a floresta, contaminam as águas, namoram as meninas da aldeia e deixam as crianças aqui, e depois falam em inclusão. Eu não quero ser incluído numa situação dessas”. Precisamos diagnosticar adequadamente o que inclusão social é para a Amazônia.

O segundo ponto: a gente precisa ter uma moratória de destruição. Não é possível mais ser conivente com uma estradinha sendo aberta aqui, com dez hectares sendo perdidos ali, ou mesmo com explorar petróleo na foz do Amazonas. Junto dessa moratória, é preciso ter investimentos significativos na região. Não é mais possível que uma região que representa 60% do território brasileiro e 10% do PIB receba investimentos da ordem de 5% do governo federal. O orçamento de uma nação é a sua expressão política máxima. O maior marco de uma virada é o orçamento. Por enquanto a gente não viu isso. A gente precisa de uma coalizão política para sinalizar um novo momento. Uma coalizão social ampla para botar uma moratória na destruição. E imediatamente começar a trabalhar com inclusão, com essa ressalva de que ela não seja homogeneizante.

Quanto as pesquisas que têm sido feitas aqui, o que o senhor tem notado como levantamentos interessantes que possivelmente para novas perguntas sobre a Amazônia?

Medimos alguns parâmetros que indicam estresse dos animais. Os peixes tanto de lá quanto de cá indicaram uma sensibilidade muito alta à temperatura. Então, temos aparentemente um estresse térmico relacionado à seca, somado a um viés de competição. Porque o sistema encolheu, nós temos muitos animais em um lugar só e que passam a competir mais por recursos. Outra das consequências disso são as taxas de parasitismos que vimos aqui, os animais estão muito parasitados. Aparentemente, por conta da temperatura também, houve um gasto energético maior para manter a homeostase iônica nos animais. Isso é muito interessante porque a regulação iônica já é um processo energeticamente muito caro, usa uns 20% da energia que o peixe adquire da alimentação.

Tudo que você menciona indica que a Amazônia está passando por transformações. Por um lado, a resiliência do sistema indica que não é preciso ter um discurso catastrófico em relação à floresta. Por outro lado, é preciso considerar o quanto essas transformações nos impactam…

Sim, precisamos aprender com o mundo em transformação. A questão é que até aqui a velocidade biológica, que é super lenta ao longo do tempo, foi acompanhada pela velocidade da evolução das tecnologias humanas, que até a Revolução Industrial também foi super lenta. Só que desde então a tecnologia se tornou muito veloz, causando grandes impacto que não mais observam o tempo biológico. Precisamos entender com a nossa inteligência e com o nosso coração que estamos vivendo em um mundo em transformação.


Confira outras entrevistas com participantes da expedição:

“Quando o ambiente está doente, precisamos de um ecólogo”, diz especialista em lagos na Amazônia

O estoniano Priit Zingel esteve na última expedição do vice-presidente da ABC para a região Norte, Adalberto Val, e estudou os lagos amazônicos durante a maior seca já registrada.

“Agora é hora de apresentar as evidências que ajudam a Amazônia”, diz Chris Wood, membro correspondente da ABC

O biólogo canadense participa de expedições na Amazônia desde 1976, mas nunca tinha visto uma seca tão grave quanto a que viu agora.

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