A família é a unidade mais fundamental da sociedade, na qual a maioria dos cidadãos vivem, pela maior parte de suas vidas. Ainda que sejam grupos intimamente ligados, as famílias estão sujeitas a impactos sociais e econômicos que transcendem sua estrutura. Em sua Conferência Magna, realizada no dia 15 de maio durante a Reunião Magna da ABC 2019, a cientista política Merike Blofield abordou como as mudanças socioeconômicas massivas a nível global, e especialmente, na América Latina, têm contribuído para a pluralização dessas famílias.

Blofield é professora associada de ciência política da Universidade de Miami, onde coordena, desde 2015, o Programa de Estudos sobre Mulher e Gênero e lidera, desde 2017, o programa de Gênero e Desenvolvimento Social do Instituto de Estudos Avançados das Américas. Sua apresentação foi baseada em um estudo que publicou no relatório do International Panel on Social Progress, intitulado “The pluralization of families“.

Ela defendeu que a prosperidade familiar é essencial para o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU). A cientista política pontuou que famílias prósperas asseguram o bem-estar de forma mais ampla, promovendo a igualdade de gênero (ODS 5), o bem-estar da criança (ODS 3) e reduz os níveis de pobreza e fome (ODSs 1 e 2). Além disso, podem impactar também na economia, elevando o capital social (ODSs 4 e 8), e em aspectos como a saúde e o comportamento bem-ajustado, que leva a baixa criminalidade (ODSs 10 e 16).

Nos últimos 50 anos, o desenvolvimento econômico, a urbanização, os avanços tecnológicos e a globalização promoveram grandes transformações sociais: o nível de educação e a participação no mercado de trabalho das mulheres aumentaram; o tamanho das famílias diminuiu, com menos filhos; e os tipos de família se diversificaram para modelos onde tanto o pai quanto a mãe trabalham, os pais são divorciados ou as mães criam os filhos sozinhas.

Apesar da elevação do nível de educação e da forte participação no mercado de trabalho, as mulheres continuaram também a cuidar dos filhos, em uma proporção bem maior do que os pais. Na América Latina, essa condição resulta no que Blofield denomina de “crise do cuidado”, como um fardo a ser carregado pelas mães, que tem impacto direto nas crianças.

Tempo médio alocado para o cuidado dos filhos e do lar, por sexo e idade (quatro países latino-americanos, 2007). Imagem: Merike Blofield

A crise do cuidado é mais intensa ainda entre as mães de baixa renda. Enquanto as famílias mais abastadas contratam empregadas domésticas para cuidas das crianças, as mães de baixa renda se apoiam em redes informais para o cuidado dos filhos e conseguirem trabalhar fora, isso quando não deixam de trabalhar – o que poderá resultar em privação material e um estresse tremendo, tanto para a mãe, quanto para os filhos.

Nesse contexto, o Estado também se envolveu, promovendo a expansão de transferências e serviços. A cientista política apresentou o caso brasileiro, onde houve uma expansão das políticas sociais, que auxiliam as mães a alimentarem seus filhos, e também os programas de transferência de dinheiro condicionais, como o Bolsa Família. Blofield mostrou que, por volta de 2015, 27 milhões dos lares mais pobres do país foram alcançados e a pobreza extrema foi reduzida pela metade.

Ela destacou também os serviços públicos de educação básica. “A melhor maneira de sair da pobreza não é apenas dar transferências, mas é permitir que as mães trabalhem, mesmo quando têm filhos”, declarou Blofield. Esses serviços, com foco direcionado para as mães de baixa renda, além de ajudá-las a trabalhar, são uma chave para o capital humano e a igualdade de oportunidades. Ela explicou: “Tem sido demonstrado que os serviços de educação e cuidados na primeira infância podem melhorar significativamente o capital humano, a igualdade de oportunidades e desenvolvimento de habilidades de crianças e adolescentes mais tarde na vida, até que se tornem adultos na força de trabalho”.

O avanço é significativo, mas estratificado por classe. Cobertura dos serviços de educação e cuidados na primeira infância para crianças abaixo dos 3 anos (esquerda); Cobertura dos serviços de educação e cuidados na primeira infância para crianças de 4 anos, por status socioeconômico (direita). Imagem: Merike Blofield

Mas e quanto aos pais? A cientista política apontou dois grupos: um maior, de pais que residem com esposas/parceiras (os) que trabalham; e outro que está crescendo, de pais não-residentes. Ela indicou que, para aumentar o envolvimento com os filhos, os pais residentes devem passar mais tempo cuidando deles em casa e defendeu também as licenças paternidade e a compartilhada. Já para aqueles que não moram com os filhos, é importante estabelecer e manter o apoio na renda e no cuidado.

Em conclusão, Blofield destacou que, para superar as desigualdades, as transformações massivas e a pobreza durante a infância que ocorrem na América Latina, é essencial que haja uma participação maior tanto do Estado quanto dos pais na família. Os altos investimentos serão compensados por famílias prósperas que promoverão o desenvolvimento sustentável.