Marcio Pochmann é doutor em economia, professor titular do Instituto de Economia na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (IE/Unicamp). Foi presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) entre 2007 e 2012 e secretário do Desenvolvimento, Trabalho e Solidariedade da Prefeitura de São Paulo entre 2001 e 2004.

 Pochmann discorda do entendimento da realidade a que estamos submetidos.  As reflexões partem de uma visão de que a sociedade tenha se mantido a mesma embora venha sofrendo impactos transformações profundas e no máximo provoca uma reação ao que esta ocorrendo.

A globalização é o questionamento das fronteiras entre os estados nacionais, que eram 50 na primeira Assembleia Geral das Nações Unidas e hoje são 200, segundo o economista. “Havia um projeto superior de sociedade que não estávamos vendo”. Pochmann relata “A globalização vem ocorrendo desde 1980, e os países têm que aceitar um jogo de cartas marcadas. São 170 corporações mundiais que controlam esse sistema”, apontou.

O palestrante observou que estas corporações são extremamente são nocivas, por terem um discurso pela sustentabilidade e se comportarem de forma oposta. “É o caso da Vale, segunda maior mineradora do mundo, que trabalha no Brasil sem sistema de proteção, sem no mínimo uma sirene para avisar de um rompimento de barragem”.

Para Pochmann, essas grandes corporações são as responsáveis pelo aumento da desigualdade no mundo. “Elas priorizam pagar menos impostos, por isso deslocam suas sedes para os paraísos fiscais, focam nos países em que podem flexibilizar as condições de trabalho”, acrescentou. Em vez de empregos dignos, o que se amplia é a terceirização e a precarização, o que cria uma ilusão de que houve redução na taxa de desemprego. “E a ideia de que a globalização é inevitável faz com que os países se acomodem”, afirmou o economista.

A sociedade mudou nos últimos 40 anos: houve uma mudança no sistema econômico e produtivo de grande monta. Pochmann observou que há uma nova realidade em construção. “É um outro período que está se constituindo e está sendo analisado com as mesmas ferramentas, agora inadequadas”.

Em 1980, o Brasil era um pais industrializado. Hoje, a indústria brasileira corresponde ao que havia em 1910, em função de uma desindustrialização precoce por equívocos nas políticas industriais. “O Brasil negou a importância da indústria, que é a coluna vertebral do país”, declarou Pochmann.

Havia uma burguesia industrial que desapareceu, relatou. Hoje, o que há no país são empresários vinculados a segmentos enriquecidos por meio de ganhos imediatos que, de acordo com o palestrante, não estão pensando no futuro do Brasil. “São os empresários ricos do comércio varejista, líderes religiosos, setores que foram crescendo à sombra do estado brasileiro”, afirmou Pochmann.

Pochmann explica que os EUA também estão passando por um processo de desindustrialização, só que é madura, porque sua população já tem acesso aos bens industriais. “No Brasil, esse amadurecimento foi impedido. Iniciamos o século XXI com parte dos brasileiros vivendo no século XIX, sem acesso à energia elétrica”, acentuou o pesquisador.

Há 40 anos, o Brasil tinha uma estrutura de empregos industriais. Hoje, essa estrutura foi reduzida a serviços em hospitais e shoppings, que viraram os principais empregadores. E os empregos na área de serviços pagam muito menos. “Se na década de 30 deslocamos pessoas da agricultura para a indústria, agora estamos o inverso: tirando pessoas de serviços de alta produtividade para um setor de baixa produtividade. Estamos tirando as possibilidades de protagonismo do país”, ressaltou Pochmann. “E somos um país continental, que tem aquilo que o mundo vai precisar nos próximos anos”, acrescentou.

Há um choque no entendimento sobre o que fazer, porque, segundo Pochmann, predomina uma visão de que o país precisa fazer mudanças para se adaptar ao que esta ocorrendo no mundo. “Os Estados Unidos são uma grande potência, com sinais de decadência. A China é uma potência nova, com que o Brasil estava se relacionando, mas agora está se afastando porque este governo só dialoga com os Estados Unidos”, afirmou, preocupado.

Pochmann fez um alerta contundente: estamos vivendo um momento que está definindo os próximos 50 anos. “Temos que entender a realidade, agarrar a oportunidade de fazer história com as nossas próprias mãos, ou ficaremos eternamente subjugados. ”

E um sintoma grave desta paralisia é o fato de o governo não estimular a indústria, a ciência, a tecnologia e a educação. “São mais de 3 milhões de jovens que ingressam no ensino superior, setor que nos ‘devolve’ 1 milhão e 100 mil graduados, mestres e doutores”, apontou, informando que estes números são superiores aos de muitos países em melhor situação. “Tudo isso está sob risco, porque a elite governante não percebe a importância deste capital”.

O economista destacou o fato de termos um dos maiores sistemas de previdência e um dos maiores sistemas de saúde do mundo – que é o maior demandante de medicamentos e equipamentos. Esta deveria ser a base fundamental do desenvolvimento, mas Pochmann alerta que estes complexos estão sob ataque. “O projeto é continuar esperando que o futuro venha de fora. Assim, o que vamos encontrar é o passado. Estamos retrocedendo”, apontou.

“Nós, cientistas, temos uma responsabilidade histórica. Temos que lutar pela democracia, pela troca de ideias, para oferecer uma alternativa ao desmanche nacional”, concluiu o economista.