Orador convidado para a Reunião Magna da ABC 2019, realizada entre 14 e 16 de maio, no Museu do Amanhã, António Sampaio da Nóvoa formou-se em psicologia e em ciências da educação na Universidade de Genebra, tendo realizado dois doutoramentos: um em educação, na mesma universidade, e outro em história, na Universidade de Sorbonne, na França.

Nóvoa foi eleito e reeleito reitor da Universidade de Lisboa, entre 2006 e 2013, onde hoje é reitor honorário. Ao longo de seus mandatos, lutou pela abertura da universidade à sociedade, pela centralidade na pesquisa e pela reorganização da gestão da universidade, em particular com a criação dos serviços compartilhados. Lutou intensamente pela fusão entre a Universidade de Lisboa e a Universidade Técnica de Lisboa, visando a construção de uma nova universidade de língua portuguesa de referência no mundo. Atualmente, é representante da chefia permanente de Portugal na Unesco.

Gerações pós maio de 68: uma nova forma de ver o mundo

Convidado para proferir a primeira Conferência Magna do evento, Nóvoa refletiu sobre os últimos 50 anos. Começou referindo-se ao Papa emérito Bento XVI, que declarou em 11 de abril deste ano, em documento intitulado “A Igreja e o abuso sexual”, que todas as questões atuais referentes a gênero e sexualidade são consequência do movimento estudantil francês de maio de 68.

Ele concordou com Bento XVI. “Só que ele [o Papa emérito] vê isso como negativo, e eu vejo de um ponto de vista positivo”, ressaltou.

O que houve em 68 e 69, em sua perspectiva, foi uma profunda revolução sobre sexualidade, emancipação das mulheres, novas estruturas familiares, novas relações no mundo do trabalho, enfim, uma mudança total nos costumes. “Foi algo sem precedentes na história, que mudou as novas gerações, tornando-as abertas ao mundo”, pontuou Nóvoa.

Ele lembra que, em Portugal, a revolução estudantil ocorreu no ano seguinte, em 1969, seguida pela Revolução dos Cravos, em 1974, movimento que derrubou o regime salazarista e que, segundo Nóvoa, “deu aos portugueses a liberdade”.

Ao longo destes últimos 45 anos, Portugal cresceu muito em termos de qualidade da educação pública. “Nossa posição de hoje é ótima. Antes, estávamos na cauda da Europa; agora, somos capazes de promover a igualdade de oportunidades”, destacou Nóvoa. Para isto, foi feito um fortíssimo investimento em educação e em ciência. “A ciência tem por base a dúvida, que estimula a mudança, a descoberta. Hoje temos uma ciência e uma educação comprometidas com a liberdade.”

Retrocesso e obscurantismo

Os tempos atuais, no entanto, estão se caracterizando em muitos países por um recuo imenso na agenda positiva da democracia com direitos e da abertura ao mundo. Nóvoa destaca que “o que estamos vendo é o crescimento de uma indústria das crenças e certezas religiosas que são contra a razão científica.”

Para Nóvoa, o retrocesso se reflete também no fechamento às migrações. Ele diz que, embora a Europa esteja preocupada com o impacto das migrações nos países de acolhimento, o grande impacto, de fato, se dá nos países de origem dos imigrantes. “A fuga de cérebros nos países de origem acaba com qualquer possibilidade de desenvolvimento.”

Ele diz que esta tendência conservadora mundial entra em choque com a Declaração dos Direitos Humanos, adotada pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 1948. “Se fosse escrita hoje, a Declaração seria bem diferente. Uma questão seria o Artigo 27, que diz que todos os seres humanos têm direito aos benefícios da ciência, em todo o mundo.”

Em seu ponto de vista, este direito é impedido pela grande concentração de riqueza e poder nas mãos de uns poucos. Esta concentração, segundo Nóvoa, é baseada na precarização do trabalho e no controle da tecnologia. “São as comunidades em que ninguém pode entrar e, menos ainda, pode sair. Educação e ciência são o contrário disso: nos levam a procurar outras coisas, ser outras coisas, transformar. Isso é ser livre.”

“A ciência não é democrática, mas não há democracia sem ciência”

 Nessa linha, Nóvoa defende a ciência aberta e mais próxima da sociedade. “Não dá para ter boa ciência sem cultura científica. Isso é central para combater a indústria da crença, que está crescendo em todo o mundo. Precisamos de acesso livre ao conhecimento, participação cidadã e democratização da ciência”, alertou.

A desigualdade em ciência, tecnologia e inovação, inclusive, é o que explica, a seu ver, a desigualdade entre países. “Quando olhamos para a desigualdade no mundo, a educação, ou a falta dela, parece a melhor maneira de explicar”, observou Nóvoa, apontando que esta percepção é correta, em nível individual. Mas em nível nacional, a ciência é o que faz a diferença. “Ela promove cultura científica, influi em políticas públicas, muda a vida nas cidades, contribui com todo o sistema. Precisamos nos unir pela ciência, e pela ciência aberta”.

Falando sobre os objetivos do desenvolvimento sustentável, Nóvoa abordou o fato de não haver um ODS voltado para a ciência, e conta que houve muita discussão para incluir educação, que hoje está representada no ODS 4. “Mas a não inclusão da ciência me parece positiva, porque deu a ela transversalidade: nenhum ODS pode se concretizar sem ciência.”

Ciência da convergência

Citando o cientista francês Louis Pasteur, que em 1854 dizia que “não podemos prever o futuro, mas podemos preparar-nos para um futuro que não conhecemos”, Nóvoa completa afirmando que, se os problemas são globais, as respostas têm que ser globais.

“A ciência é uma linguagem comum para falar dos problemas do mundo”, encadeou.  “E é preciso alcançarmos uma ‘ciência da convergência’, aquela que é construída em torno dos desafios da humanidade”. Para atingir este ambicioso objetivo, Nóvoa indica os ‘cinco Ps’ como caminho: pessoas, planeta, prosperidade, paz e parcerias. “Esses são os elementos”, apontou.

Ele diz que a universidade é onde a ciência e a educação se juntam. “Ela deve se repensar nessa relação. Tem que usar critérios diferente do produtivismo acadêmico, que é fundamental, mas não pode ser medido como é hoje, porque não é o melhor caminho para a inovação. Temos que dar reconhecimento à nossa comunidade cientifica não pelos critérios das grandes editoras, e sim valorizando outras dinâmicas.”

A ciência da convergência pensa a ciência como um bem comum, renova sua pedagogia, constrói uma relação criativa e intensa dos alunos com as aprendizagens. E uma forma de viabilizá-la é estabelecendo os ODSs como referência para Editais e currículos. “Isso induziria outras formas de organização no espaço universitário e no espaço político. Para que isso ocorra e repercuta, no entanto, é importante que os grandes cientistas se dediquem à interação com a sociedade.”