Na última sessão plenária da Reunião Magna da Academia Brasileira de Ciências (ABC), no dia 16 de maio, foram discutidos os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODSs) 13, 14 e 15. O ODS 13 refere-se à “Ação contra a mudança global do clima”; o 14, “Vida na água”;  e o15, “Vida terrestre”.

A sessão foi coordenada pelo Acadêmico Adalberto Val, e contou com a professora do departamento de ecologia da Universidade de Brasília, Mercedes Bustamante; com a professora associada da Universidade James Cook, Jodie Rummer; e com a professora associada da Universidade de Amsterdam, Carina Hoorn.

 

O futuro é criado e plantado no presente

Conseguir alimentar entre 9 e 10 bilhões de pessoas até 2050 e reduzir os efeitos das mudanças climáticas são os grandes desafios da humanidade. Esse foi o foco da palestra da professora e Acadêmica Mercedes Bustamante.

Ela relatou que o Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) estabeleceu uma meta para a redução da temperatura do planeta, pensando na questão do clima como elemento chave para resolver outros problemas. O relatório determina que o aquecimento no mundo seja reduzido em 1,5 °C em relação aos níveis pré-industriais.

A Acadêmica alega que “todos os caminhos para atingir a meta do IPCC apontam para as transições no uso global e regional da terra”. Contudo, muitas vezes, os países optam por uma estratégia de overshoot, ou seja, compram a permissão para o aumento das emissões de gases poluentes e depois as reduzem de forma drástica.  “Assim, estamos colocando a sujeira para debaixo do tapete, e depois de um tempo teremos mais para limpar”, compara Bustamante.

Essa transição no uso do solo pode ser feita transformando áreas de pasto em áreas de produção de grãos, ou em locais de produção de energia. Também pode ser realizada por meio de mudanças na cobertura florestal.

Quanto mais tardiamente os esforços de mitigação são implementados, maior deve ser o o sequestro de carbono, ou seja, o papel das emissões negativas para compensar emissões passadas. “Optar pela redução de gás carbônico gera impactos diretos sobre a terra, energia, água e nutrientes, tornando necessário um sistema de governança que, efetivamente, permita sustentabilidade e o manejo desses recursos”, aponta Bustamante.

O Brasil é um país com ampla biodiversidade. Contudo, há mais de mil espécies de animais e mais de duas mil espécies de planta ameaçadas de extinção. Atualmente, as mudanças no uso da terra e as mudanças no clima impulsionam a perda de biodiversidade e de serviços ecossistêmicos brasileiros. “O atual uso insustentável dos recursos naturais precisa ser urgentemente interrompido diante de vários sinais de colapso ambiental”, destaca a Acadêmica. Ela também reforça que a atual taxa de destruição e degradação das florestas brasileiras já está colocando em risco o ciclo hidrológico que mantém, em grande parte, a produção agrícola.

Além disso, como tentativa de frear as alterações no clima, o Brasil também assumiu, no Acordo de Paris, a responsabilidade de restaurar 12 milhões de hectares de florestas até 2030. Contudo, Mercedes Bustamante pondera que o país restaurou, nas últimas décadas, cerca de 300 mil hectares e que não seria possível restaurar 12 milhões de hectares até 2030 sem um programa efetivo para essa questão.

Uma das alternativas sugeridas pela professora é que seja feita uma boa gestão dos ecossistemas, para manter a saúde e aumentar a resiliência, reduzindo, ao mesmo tempo, a vulnerabilidade às mudanças climáticas. “Ecossistemas resilientes têm maior potencial para mitigar e se adaptar às mudanças climáticas, por meio do sequestro de carbono, e para reverter o aquecimento global”, reforça a Acadêmica.

Nesse sentido, “a ciência atua como cartografia, ou seja, não é ela que determina o melhor caminho a ser seguido, mas é ela que gera o melhor mapa”, compara. O conhecimento científico preencheu algumas lacunas na última década, proporcionando avanços no desenvolvimento de listas de espécies, incluindo as ameaçadas e invasoras, e o compartilhamento, transparência de dados e informações públicas sobre biodiversidade e serviços ecossistêmicos. “Sustentabilidade não é mais uma opção, é um imperativo para o Brasil”, finalizou Bustamante.

 

Os peixes são atletas?

A professora Jodie Rummer é especializada em ecossistemas de recifes de corais em todo o mundo, com destaque para a Grande Barreira de Corais, localizada na Austrália. Trata-se do maior recife de corais contínuo do planeta, com 2.300 km de extensão, uma estrutura viva do tamanho da Itália, tão grande que pode ser vista do espaço. Em sua palestra na Reunião Magna da ABC, Rummer focou na grande capacidade dos peixes de se adaptarem a condições climáticas adversas, como a acidificação dos oceanos, que tem levado à morte muitos corais da Grande Barreira, desde 2016.

Por essa grande capacidade de adaptação, a bióloga alega que os peixes são como atletas. Enquanto o nadador Michael Phelps atinge uma velocidade 2,7 metros por segundo, e Usain Bolt corre a 12,4 metros por segundo, o peixe-vela alcança uma velocidade de 30,5 metros por segundo, mesmo tendo o comprimento corporal menor que o dos dois humanos. “Eles são um grupo fantástico de atletas, que tornam possível a investigação das adaptações necessárias para lidar com questões contemporâneas, como a mudança climática”, afirma Rummer.

Para testar a resistência e a capacidade de adaptação, os peixes enfrentam uma espécie de esteira aquática no laboratório da pesquisadora. Eles são submetidos a condições experimentais como altas temperaturas, altos níveis de gás carbônico, para simular a acidificação dos oceanos ou qualquer outra condição desafiadora, além do aumento gradual do fluxo da água, contra o qual os peixes precisam nadar.

O objetivo do estudo é avaliar como o desempenho muda diante de certos fatores de estresse, e identificar espécies e locais vulneráveis, a fim de analisar as implicações ecológicas das mudanças climáticas, uma consequência do aumento das emissões de gás carbônico na atmosfera, que aquecem e acidificam os oceanos. Além disso, o aumento da poluição industrial e agrícola está degradando a qualidade da água, aumentando a carga de sedimentos e destruindo o habitat de diversas espécies. A bióloga cita o exemplo do maior branqueamento de corais já documentado na Grande Barreira. Isso ocorre quando o coral fica estressado com as temperaturas elevadas da água, e as algas simbióticas responsáveis pela sua alimentação e coloração se desprendem dele. “Se as condições não melhorarem, as algas podem não voltar, e o coral morre de fome, restando o esqueleto de carbonato que é totalmente branco”, explica a bióloga.

Diante disso, as pesquisas de Rummer já mostram que os peixes estão modificando seu metabolismo em resposta ao estresse térmico, como o que ocorre durante o branqueamento de corais. Alguns conseguem manter seu desempenho atlético até mesmo quando as taxas de gás carbônico estão elevadas. “Além disso, estamos descobrindo que os estresses causados pela mudança climática, como o aquecimento dos oceanos e a acidificação, não estão necessariamente afetando a sobrevivência, mas estão afetando a fisiologia e o comportamento dos tubarões e das raias”, completou a pesquisadora.

Jodie Rummer ressalta que a fisiologia tem o potencial de contribuir para identificar e resolver problemas complexos de conservação. Contudo, é necessário envolver outros profissionais, como os formuladores de políticas públicas, para que essas questões se tornem relevantes. “Precisamos encontrar maneiras inteligentes de comunicar as descobertas da pesquisa, alcançar públicos grandes e diversificados e transmitir paixão e urgência”, finaliza a pesquisadora.

 

Das placas tectônicas à biodiversidade

Para proteger a Amazônia e sua biodiversidade, é preciso conhecer suas origens. Esse foi o foco da geóloga Carina Hoorn na última palestra da Reunião Magna 2019 da ABC. Ela abordou o papel crucial da Cordilheira dos Andes no desenvolvimento da Amazônia durante a era Cenozoica.

O planeta Terra experimentou 4 bilhões de anos de rompimento continental, alterações no fundo do mar, vulcanismo, formação de montanhas e erosão. Todos esses eventos foram necessários para que a vida complexa conseguisse surgir, há aproximadamente meio milhão de anos. Para a pesquisadora, “a biodiversidade é um produto dos processos geológicos”. Por esse motivo, a elevação das montanhas e o clima determinam a biodiversidade de determinado local.

A América do Sul é uma das regiões com maior biodiversidade do mundo, com aproximadamente 42 mil espécies de plantas apenas no Brasil. A Amazônia é uma região em que essa característica é ainda mais intensa. De acordo com Hoorn, para compreender as origens amazônicas é preciso analisar a cadeia de montanhas mais longa do mundo: a Cordilheira dos Andes.

O Oeste da Amazônia, que fica mais próximo dos Andes, é ainda mais diverso. A geóloga mostra que o choque das placas tectônicas na porção ocidental da América do Sul e a consequente elevação da Cordilheira dos Andes afetaram o clima, os padrões de circulação do ar e mudaram a configuração territorial. Tais fatores aumentaram as precipitações e o transporte de sedimentos andinos, que acabaram fertilizando o solo amazônico ao longo dos anos. Além disso, a Cordilheira é uma barreira física que criou regiões distintas para a evolução das espécies, ou seja, inverteu o sentido da drenagem do terreno e criou novas áreas para serem colonizadas por animais e plantas terrestres. Essa superfície foi alagada e posteriormente drenada pela Bacia Amazônica em formação, há cerca de 10 milhões de anos.

Há indícios de que a biodiversidade amazônica também sofreu influências do Oceano Atlântico, uma vez que, na floresta, há plantas e animais característicos da região costeira. Carina Hoorn explica que, há aproximadamente 10 milhões de anos, o aumento das taxas de sedimentação das bacias andinas coincidiu com a queda do nível do mar e o resfriamento do clima. Com isso, os sedimentos dos Andes alcançaram a costa do Atlântico por meio do sistema de drenagem da Amazônia, que mais tarde seria o rio Amazonas.

A biodiversidade da Amazônia evoluiu ao longo de milhões de anos, seguindo mudanças geodinâmicas e climáticas. No entanto, “a recente perda de espécies é dramática e séria, ainda que não se qualifique como uma extinção em massa, no sentido paleontológico das cinco grandes extinções”, aponta a geóloga. Ela ainda ressalta que a biodiversidade da Terra como é conhecida é um resultado de 65 milhões de evolução, após a quinta extinção em massa. Atualmente, está havendo um rápido declínio, sem precedentes, em uma escala de centenas de anos, o que leva a geóloga a questionar: “Conseguirá esse sistema vulnerável  lidar com as ações humanas?”