pt_BR

Reunião Magna da ABC 2024: veja o programa e inscreva-se!

Em 2024, a Reunião Magna da ABC 2024 já tem local e data: dias 7, 8 e 9 de maio, no Museu do Amanhã, Rio de Janeiro. 

O tema é “Inteligência Artificial e as Ciências: Oportunidades e Riscos“. Os coordenadores do evento são a Acadêmica Elisa Reis e o vice-presidente da ABC para a Região  Minas Gerais e Centro-Oeste, Virgílio Almeida

Já temos nomes destacados nas conferências magnas e nas sessões!

Veja a programação e inscreva-se aqui.

Conheça aqui os palestrantes!

 

 

 

* A imagem que compõe o logotipo da Reunião Magna 2024 da ABC foi gerada via inteligência artificial. A composição foi efetuada por um humano. =)

Reunião Magna da ABC 2023 está disponível no Youtube

A Reunião Magna da Academia Brasileira de Ciências 2023 já está disponível no Youtube!

Entre 9 e 11 de maio, a ABC realizou o seu encontro anual para um auditório lotado no Museu do Amanhã, Rio de Janeiro. O tema deste ano foi “Ciência Básica para o Desenvolvimento Sustentável” e reuniu diversos membros da Academia e outros expoentes da ciência brasileira e internacional.

Durante as treze sessões, divididas entre conferências e mesas-redondas, foram abordados temas nas áreas de saúde, economia, filosofia, educação, meio ambiente, direitos dos povos originários, políticas públicas e muito mais.

E agora, se você não pode estar conosco presencialmente, pode acessar a íntegra dos debates, separados por palestrante, na playlist Reunião Magna 2023 no canal da ABC no Youtube.

Não perca essa oportunidade e fique por dentro das discussões sobre os rumos da ciência no país.

Assista as palestras da #RM2023!

O auditório do Museu do Amanhã recebeu a Reunião Magna da ABC 2023 entre os dias 9 e 11 de maio 

#RMagna2023: Educação básica e divulgação científica

A tarde do último dia de Reunião Magna da Academia Brasileira de Ciências 2023, 11 de maio, foi dedicada à educação. As discussões buscaram cobrir as muitas faces do ensino de ciência no século 21, e passaram também pelo debate atual sobre reforma do ensino médio.

Para a última sessão plenária da #RMagna2023, a ABC convidou os educadores Eduardo Fleury Mortimer e Iamni Torres Jager, que trouxeram experiências sobre ciência e sala de aula, além de impressões sobre o Novo Ensino Médio (NEM). Também foi convidado o físico Ildeu de Castro Moreira, experiente divulgador científico, que apresentou resultados de uma pesquisa sobre percepção pública da ciência no Brasil.

Pesquisa em educação científica no Brasil

A pesquisa em educação científica só começa a se consolidar no Brasil nas décadas de 60 e 70 e se expandindo apenas no século 21, com a criação da área 46 da Capes para ensino de ciências e matemática. Quando surgiu, a área abrigava apenas sete programas de pós-graduação ao redor do país, número que cresceu para 60 em apenas dez anos. “Para se ter uma ideia, a institucionalização da área de ensino de ciências nos EUA se deu há mais de um século”, comparou Eduardo Mortimer, professor da Faculdade de Educação da UFMG.

Para o pesquisador, existe uma tensão perene entre duas visões no ensino de ciências. A primeira, compartilhada pelos cursos de Educação, é mais ligada às humanidades, mesmo que os professores sejam formados em ciências naturais ou exatas. A segunda visão é mais característica dos próprios departamentos de física, biologia ou matemática das universidades, portanto mais ligada às chamadas “ciências duras”. “Esse cenário traz problemas metodológicos e de avaliação, já que cada área tem exigências diferentes”, argumentou Mortimer.

O problema se reflete na dicotomia entre sociedades científicas específicas das áreas e sociedades voltadas ao ensino – como a Associação Brasileira de Ensino de Biologia (SBenBio), a Sociedade Brasileira de Ensino de Química (SBEnQ) e a Associação Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências (Abrapec). Mortimer avaliou que essas sociedades independentes dão dinamismo a área, pois criam congressos e publicações focadas no ensino de ciências.

“Ainda constatamos uma falta de reconhecimento para a área de educação em ciência, que se reflete, por exemplo, na criação de mestrados profissionais para professores pelas associações específicas das áreas, passando ao largo das sociedades de ensino”, avaliou. “Deveria ser, no mínimo, um trabalho conjunto”.  

Ciência em sala de aula

Iamni Torres Jager é doutora em Ciência, Tecnologia e Educação pelo Cefet-RJ e atualmente leciona biologia na rede pública do Rio de Janeiro. Ela compartilhou sua experiência pedagógica, tentando fazer com que as ciências façam sentido dentro da realidade dos alunos. “Desde a graduação sempre carreguei o questionamento sobre o porquê de pesquisar botânica e genética, por exemplo”, conta. “Quando passei para a sala de aula essa dúvida se transformou em ‘por que ensinar ciência?’”.

Ao longo da carreira, a professora passou pelos mais diversos ambientes de ensino, desde colégios públicos, particulares, pré-vestibulares  até uma experiência com educação de mulheres em privação de liberdade. A partir de uma perspectiva freiriana, ela esclareceu que o ensino de ciência precisa estar conectado ao cotidiano e a localidade, e que a relação professor-aluno deve ser regida pelo que Paulo Freire denominou “amorosidade”.

“Todas as experiências em sala de aula possuem aspectos comuns. Muitas demandas são trazidas ou ressignificadas pelos próprios alunos, a partir de suas realidades sociais. A perspectiva histórica atua como forma de entender o presente e vislumbrar o futuro”, explicou a educadora. “A sala de aula deve ser um espaço de reflexão crítica das ciências, de forma a trazer esse conhecimento para o campo da justiça social”, finalizou.

Eduardo Mortimer, Ildeu Moreira e Iamni Jager durante a última sessão plenário da #RMagna2023 (Foto: Miguel Sá)

Novo Ensino Médio

Como não poderia deixar de ser, ambos os palestrantes dedicaram o final de suas apresentações a discutir o Novo Ensino Médio (NEM). A política, instituída em 2017, vem enfrentando dificuldades de implementação e tanto educadores quanto alunos reclamam que levou a uma perda de qualidade no ensino. O prazo previsto pelo Ministério da Educação (MEC) para que se completasse a transição é 2024, mas a falta de avanços recentes coloca em xeque esse objetivo.

O NEM institui uma nova Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que ocupa 60% da carga horária dos alunos. Tanto Mortimer quanto Jager argumentam que o novo modelo diminui o espaço de disciplinas como química e física justamente na fase em que os jovens estão mais propícios a introdução dessas ciências. “A ênfase passa a ser em competências e habilidades muito genéricas e não em domínio conceitual”, criticou Mortimer.

O NEM institui também os itinerários formativos, que pressupõem maior liberdade aos estudantes ao montar sua grade. Esses itinerários são divididos em ciências da natureza, ciências humanas, matemática e linguagens, além de formação técnica e profissional. Entretanto, a lei não obriga as escolas a oferecerem todos os itinerários, apenas dois, o que os pesquisadores apontam como uma grave fonte de exclusão. “O que estamos vendo é o aumento no abismo entre instituições públicas e privadas”, disse Jager.

O foco na interdisciplinaridade também é visto com preocupação. Para os palestrantes, tratar temas como evolução de forma pulverizada é perigoso, dados os contextos socioculturais e religiosos diversos entre as regiões do país. Outra questão é a formação dos professores, que não estão preparados para essa nova abordagem. “Estamos trocando um marco seguro e consolidado – o ensino disciplinar – por uma aventura interdisciplinar a qual só uma minoria dos professores vivenciou durante a formação”, resumiu Mortimer.

O pesquisador avaliou também que o incremento na carga horária é uma das coisas que pode ser mantida da proposta, mas que essa se dá em um período pouco propício. “A contradição é que o NEM foi aprovado num período histórico de corte de gastos, mas ele é naturalmente expansivo. Para atender as demandas precisaríamos de um investimento significativo na formação de professores e infraestrutura que simplesmente não se vê”, argumentou.

Percepção pública da ciência

Mudando o foco do debate, a última palestra ficou a cargo do físico e divulgador científico Ildeu de Castro Moreira. Ele apresentou resultados ainda não publicados da pesquisa “Confiança na Ciência no Brasil em tempos de pandemia”, desenvolvida pelo INCT de Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia (INCT-CPCT).

A pesquisa entrevistou 2.069 pessoas em todo o Brasil, entre agosto e outubro de 2022, e buscou aferir a confiança da população nas instituições e nos cientistas. O trabalho sondou também a opinião pública em temas científico de alta relevância, como vacinas e mudanças climáticas. “O que aferimos foi que visões ideológicas e políticas influenciam na percepção das pessoas sobre ciência”, sumarizou Ildeu.

A confiança dos brasileiros na ciência continua alta – 68,9% dos entrevistados dizem confiar e 55,6% afirmam que a confiança aumentou na pandemia. Entretanto, esses números representam uma ligeira queda na confiança com relação ao pré-pandemia, e 10% dos entrevistados afirmou ter perdido a confiança nesse ínterim. Alguns recortes saltam aos olhos: a média de desconfiança no Centro-Oeste, por exemplo,  é 14% mais alta que a média nacional.

A pandemia também parece ter familiarizado o brasileiro com seus centros de pesquisa. Enquanto, em 2019 apenas 9,4% dos entrevistados sabiam citar alguma instituição, agora são 25,4%. As principais instituições foram, como era de se esperar, a Fiocruz e o Butantan, que estiveram no centro dos holofotes na busca por vacinas durante a crise.

E por falar em vacinas, 86% dos entrevistados as consideram um instrumento importante de saúde pública, o que mostra que a cultura vacinal brasileira ainda vive. Por outro lado, 8% disseram não vacinar os filhos, posição mais frequente entre homens que se identificam como conservadores. Quanto às mudanças climáticas, 91% dos respondentes acreditam que é um fenômeno em curso e 84% enxergam riscos graves para o futuro. De novo, o negacionismo parece interligado com visões de mundo mais conservadoras.

“Podemos ver que o negacionismo pouco tem a ver com escolaridade, e sim com visões de mundo”, comentou Ildeu.

Mais de dois terços do brasileiro confiam na ciência, mas crescimento de posturas negacionistas em segmentos específicos preocupa (Fonte: INCT – CPCT)

Convidado da Reunião Magna da ABC na GloboNews

O repórter Marcelo Lins, do Especial de Domingo da GloboNews, entrevistou Ernesto Polcuch, diretor de Ciência da Unesco para América Latina e Caribe.  O especialista foi convidado pela Academia Brasileira de Ciências para proferir conferência em 11 de maio, na sua Reunião Magna, realizada no Museu do Amanhã.

Na entrevista, Polcuch destacou a importância do evento anual da ABC, que este ano discutiu a contribuição da ciência para o desenvolvimento sustentável. “Nós da Unesco viemos dar uma perspectiva regional global sobre estes temas”, relatou.

O repórter contextualizou a situação ruim no Brasil, que enfrentou um período terrível com negacionismo, fake news, desinformação e ataques contra a ciência. Polcuch apontou que, apesar disso, foi mostrado na Reunião Magna que a população brasileira confia mais na ciência hoje do que antes da pandemia.

Assista a entrevista na íntegra aqui!

#RMagna2023: Ciência básica nas mudanças climáticas

As mudanças climáticas são o desafio do século 21, e um desafio para cujo enfrentamento a humanidade já está atrasada. Enquanto no Acordo de Paris, de 2016, os países assinantes se comprometeram a limitar o aquecimento do planeta a 2°C, hoje menos de um quinto dos cientistas envolvidos no Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) acreditam que isso seja possível. A maior parte deles já trabalha com o objetivo de limitar o aquecimento a 3°C com relação ao período pré-industrial.

Para debater esse tema urgente, a Academia Brasileira de Ciências (ABC) convidou seus membros titulares Paulo Artaxo (USP), Carlos Alfredo Joly (Unicamp) e Ima Célia Vieira (Museu Goeldi). Os Acadêmicos abordaram os diferentes aspectos da emergência climática – e como o Brasil está inserido nesse problema global – durante a quinta Sessão Plenária da Reunião Magna 2023, realizada no dia 10 de maio. A coordenação ficou por conta de Artaxo, que aproveitou para traçar um retrato atual – e nada otimista – sobre a crise.

A urgência climática e a transformação da sociedade

Um estudo publicado na Nature em 2020 mostrou que o mundo alcançou uma marca emblemática: a massa de materiais feitos pelo homem já ultrapassou toda a biomassa do planeta Terra.

Foi esse exemplo que o climatologista Paulo Artaxo usou para abrir a sessão, na esteira das discussões sobre o Antropoceno que haviam ocorrido na parte da manhã. Esse novo período geológico, em que o ser humano é capaz de alterar padrões geofísicos da própria Terra, tem nas mudanças climáticas sua mais emblemática representação.

Mas essa discussão não começou agora. Desde 1972, quando a Conferência de Estocolmo juntou líderes mundiais pela primeira vez ao redor do tema, já foram realizadas a Rio 92, a Rio +20 e 27 Conferências das Partes da ONU sobre o tema. “Para se ter uma ideia, só na COP 26, em 2021, se reconheceu o problema dos combustíveis fósseis, mas ainda não avançamos na retirada de subsídios do setor”, criticou Artaxo. “Por isso a descrença dos climatologistas nos acordos diplomáticos”.

Composição das emissões de Gases do Efeito Estufa (GEE) de 1990 a 2019. Em azul estão os GEE originados de combustíveis fósseis e da indústria, principais fontes de emissão (Dados: IPCC)

De acordo com o IPCC, no ritmo atual o planeta chegaria a uma elevação de 4°C na temperatura média em 2100. Isso significa um aumento médio de 5,5°C para o Brasil, e as consequências são alarmantes. Regiões como o vale do São Francisco e o leste da Amazônia já estão cerca de 2°C mais quentes. “O semiárido vai se tornar árido, e o Brasil inteiro ficará mais seco, imaginem o impacto na agricultura”, alertou Artaxo. “Outro problema são os eventos climáticos extremos, que se tornarão cinco vezes mais frequentes. Imaginem a degradação social que tudo isso causa”, alertou.

Para ele, não se trata mais apenas de reduzir emissões, a emergência climática requer uma rápida transformação da sociedade. Ele ressaltou que, para ficar nas metas traçadas, o mundo precisaria reduzir emissões em uma taxa de 5% ao ano até 2050. “Isso depende de inovações em transição energética, uso da terra, uso da água, captura de carbono e uma série de outras áreas. Muitas dessas tecnologias ainda nem existem, por isso a ciência básica é tão fundamental”, argumentou.

O Brasil possui uma série de vantagens em sustentabilidade que o tornam líder natural no debate. A matriz energética brasileira é comparativamente limpa e o país tem condições de cortar pela metade suas emissões, apenas combatendo o desmatamento. O potencial eólico e solar, sobretudo no Nordeste, também é significativo, assim como o fato de possuirmos experiência e programas consolidados de biocombustíveis. “Precisamos fazer valer essa vocação, essa década é fundamental para todo o resto do século 21”, finalizou.

Amazônia: um mosaico de florestas

A Amazônia não é uma floresta única: é um mosaico de florestas em disputa, e muitas delas já foram alteradas. A influência humana na maior floresta tropical do planeta não se dá apenas pela derrubada, mas por diversas formas de degradação. Essas florestas alteradas e degradadas perdem muito de seus serviços ecológicos, cruciais para as mudanças climáticas, e esse foi o foco da fala da Acadêmica Ima Célia Vieira, pesquisadora do Museu Paraense Emilio Goeldi.

Segundo ela, é impossível fugir da questão fundiária quando se trata da preservação da Amazônia. O grosso da apropriação de terras públicas na floresta se dá por latifundiários, muitas vezes de forma ilegal. O crime de grilagem é um problema recorrente, mas o trabalho dos órgãos de fiscalização é dificultado pelo amplo poder político dos donos de terra, em nível local e nacional. “Em comparação, temos 40% da Amazônia em posse de povos indígenas e tradicionais, e lá a destruição não avança. É urgente limitar o mercado de terras na floresta”, argumentou a Acadêmica.

Vieira lembrou do histórico de pesquisas ambientais na Região Norte, destacando que a floresta era mais resiliente à ação humana na década de 80 do que é hoje. O impacto do avanço da fronteira agrícola, com aumento no volume de queimadas, exploração madeireira e expansão de pastagens foi gradativamente enfraquecendo essa capacidade regenerativa da Amazônia. “Se nada for feito, a Amazônia pode ser reduzida à metade do original até 2050”, alertou.

Os impactos da fragmentação da mata, associados às mudanças climáticas que estão tornando as secas mais frequentes, já são sentidos na biodiversidade. Estudos recentes mostraram que a flora mais vulnerável à seca está desaparecendo e que áreas degradadas tem uma quantidade menor de espécies, o que dificulta esforços de restauração. “A degradação é um problema tão grande quanto o desmatamento, a floresta deixa de estocar carbono e passa a ser emissora”, explicou Ima Vieira.

Nesse sentido, a Acadêmica defendeu a inclusão da degradação no Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm). O plano, que havia sido extinto na gestão anterior, foi retomado no novo governo e deve ser ainda mais abrangente e guiado por ciência de ponta. Ela defendeu também os Pagamentos por Serviços Ambientais (PSA), como uma forma de incentivar a preservação. “Tudo depende de governança, de coordenação dentro do pacto federativo. Vemos esforços muito fragmentados, é preciso continuidade e compreensão sobre as dinâmicas sociais do território”, apontou.

Os Acadêmicos Ima Célia Vieira, Paulo Eduardo Artaxo Netto e Carlos Alfredo Joly (Foto: Cristina Lacerda)

Crise da biodiversidade e do clima: duas faces da mesma moeda

Quando assinou o Acordo de Paris, o Brasil se comprometeu a restaurar 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2030, como forma de atingir as metas de redução de emissões. Entretanto, segundo dados de ONGs e outras fontes não-oficiais, apenas 79 mil hectares (0,68%) foram restaurados e o país permanece na estaca zero de suas obrigações.

A restauração como ferramenta para a preservação da biodiversidade e combate às mudanças climáticas foi o foco da apresentação do Acadêmico Carlos Alfredo Joly. Ele lembrou que a redução das emissões brasileiras passa fundamentalmente pela restauração. “Nenhum outro país consegue fazer tanto pelo combate às mudanças climáticas sem envolver outros setores da economia como nós”, disse.

O custo dessas iniciativas varia de acordo com o bioma e o estado de degradação do território. Para a Amazônia e a Mata Atlântica, o custo médio por hectare gira em torno de US$ 2 mil, enquanto para o Cerrado é um pouco mais alto, na faixa dos US$ 3 mil. Estimativas da iniciativa re.green mostram que restaurar áreas muito degradadas e com baixa regeneração natural pode ser dez vezes mais caro que áreas em melhor estado. “Nada é mais barato do que conservar”, resumiu Joly.

A preservação da biodiversidade é central nesses esforços e o Acadêmico defendeu que é preciso reconhecer e identificar alvos cruciais de preservação, como plantas eficazes na estocagem de carbono, espécies que dão sustentação à fauna, sobretudo a polinizadores, e espécies de interesse econômico, que possam atrair investimento e participação de comunidades locais.

Além disso, é preciso dominar técnicas de manejo de sementes, descobrindo formas de aumentar a produtividade do replantio. “Prática e pesquisa precisam caminhar juntos, nós temos grupos interessados capazes de acelerar o processo”, finalizou o Acadêmico.

Debate

Ao final das discussões, os integrantes da mesa debateram com os ouvintes no auditório do Museu do Amanhã. Observações e tendências sobre a atuação do novo governo foram levantadas. A presidente da ABC, Helena Nader, lembrou que a retomada dos investimentos, sobretudo do Fundo Amazônia, são um sinal positivo, mas falta articulação. “A questão climática deveria perpassar todos os ministérios, mas não estamos vendo isso”.

Para Paulo Artaxo, ainda é necessário um direcionamento mais claro para a transição energética, que precisa ser vista como prioridade. “Ciência nem sempre agrada aos ouvidos, mas é nossa obrigação alertar”, frisou.

 

#RMagna2023: esforço conjunto para acabar com a fome

Com 33,1 milhões de brasileiros passando algum grau de insegurança alimentar, como a ciência pode contribuir para remediar esta realidade? A Reunião Magna da ABC 2023 se debruçou sobre o tema na sessão plenária “Ciência para o combate à fome”, realizada no dia 11 de maio. Para um país que já conseguiu sair do Mapa da Fome, a situação de ter retornado a ele em 2022 é preocupante, já que fere gravemente um direito humano básico.

O quadro de insegurança alimentar apresenta vários níveis, sendo caracterizado pela condição de alguém que não consegue acesso pleno e contínuo a alimentos, e a fome é a forma mais grave. Por isso, a ciência não pode fugir do debate e precisa oferecer dados para políticas públicas que visam enfrentar o problema. A sessão contou com a mediação da diretora da ABC Mariangela Hungria, da Embrapa, com apresentações dos Acadêmicos José Oswaldo Siqueira (UFLA) e Ricardo Paes de Barros (Insper) e dos pesquisadores Antônio Buainain (Unicamp) e Dirce Marchioni (USP).

José Oswaldo Siqueira, Dirce Marchioni, Antônio Buainain, Mariangela Hungria e Ricardo Paes de Barros

Potência agrícola vs. milhões de brasileiros com fome

A fome é um processo fisiológico e uma dinâmica social que acompanha a humanidade há centenas de anos. Os diferentes meios de produção agrícola foram resultado de manejo humano para conseguir responder à necessidade de alimentação. Desde técnicas em menor escala até a industrialização, as ciências agrárias evoluíram para conseguir alimentar uma população crescente – 7,8 bilhões de vidas, segundo o Banco Mundial.

“No contexto da fome, a agricultura começou para fins de sobrevivência, depois se organizou como atividade familiar e foi evoluindo para um grande negócio tecnológico”, afirmou o engenheiro agrônomo José Oswaldo Siqueira, professor emérito da Universidade Federal de Lavras (UFLA). O mercado está cada vez mais globalizado e capitalizado, com atuação de grandes corporações. Segundo Siqueira, é um negócio que movimenta cinco trilhões de dólares por ano.

“Hoje produzimos alimento suficiente para dez bilhões de pessoas. Mas como elas têm acesso a esses alimentos? A fome não é questão de escassez alimentícia, mas sim de pobreza e desigualdades”, diz o pesquisador. Em sua visão, a adoção de técnicas eficazes para otimizar a produção é um dos caminhos para apostar em qualidade, alto valor nutricional e preservação do meio ambiente.

“No Brasil, enfrentamos o paradoxo de representar 10% da produção global de alimentos e ter, ao mesmo tempo, mais de 33 milhões de brasileiros com insegurança alimentar”, reflete Siqueira. Para se tornar um dos líderes mundiais em agricultura, o país investiu em diversas tecnologias, como automatização, edição genética e manejo do solo, mas a fome persiste. “Este cenário ocorre porque as pessoas não conseguem comprar comida. A fome é muito mais intensa entre as mulheres, as pessoas negras e as pessoas com baixa escolaridade”, alertou.

Para erradicar a fome no mundo, segundo um estudo de 2021 publicado no periódico Food Policy, seriam necessários 39 a 50 bilhões de dólares por ano até 2030. No Brasil, Siqueira estima que 1% da produção total de alimentos seria suficiente para erradicá-la: “Apenas na lavoura, perdemos 10% da produção. É mais barato erradicar do que remediar as consequências. A sociedade precisa de ações imediatas com políticas públicas, melhorias na distribuição e no acesso, bem como no preparo para possíveis colapsos nos sistemas de produção futuramente”.

A fome e suas várias faces

Mais da metade dos países enfrenta fome por escassez de alimentos. A afirmação é de Antônio Márcio Buainain, professor livre docente do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). De acordo com ele, precisamos melhorar o diagnóstico sobre a fome e entendê-la de forma local, atentando para a realidade de cada país e sem generalizações.

“Quantos países do mundo não têm problema de produção de alimentos? Há diversos países com problemas de oferta e que importam de outras nações, o que agrava o acesso das pessoas aos alimentos necessários”, apontou. Portanto, a fome precisa ser tratada de acordo com o momento, a população e a localidade.

O segundo desafio, segundo Buainain, é combater desinformação, principalmente aquela produzida pela academia. “O debate sobre a fome e a insegurança alimentar vem da academia e há muitas narrativas que são pouco científicas”, alerta. Uma delas, segundo ele, é a crença de que a agricultura familiar produz cerca de 70% dos alimentos no Brasil. A importância desse tipo de produção não pode se basear em dados falsos, refutados desde 2015 em artigo científico, de acordo com o pesquisador. O índice rela seria de 25%, de acordo com o artigo referido.

Em sua opinião, as políticas de combate à fome que miram a erradicação da pobreza são importantes, mas não suficientes para enfrentar o problema em sua magnitude, já que a fome tem diversas facetas: “Temos a insegurança alimentar estrutural, mas há também aquela que se associa com as crises econômicas. A instabilidade, os conflitos, as guerras e crises do sistema financeiro requerem políticas públicas que apoiem as famílias de forma pontual, além das intervenções permanentes”.

Para acabar com a fome, a renda mínima é necessária

Para o Acadêmico Ricardo Paes de Barros – engenheiro eletrônico com mestrado em estatística e doutorado em economia -, professor do Insper Instituto de Ensino e Pesquisa, o problema da fome não é tão complexo no Brasil e é absurdo que ainda não tenha sido resolvido. Segundo dados apresentados por ele na sessão, o custo de uma das cestas básicas mais saudáveis é de R$ 664 reais por pessoa no mês.

“Para alimentar toda a nossa população com essa cesta, que é nutricionalmente equilibrada e que atende as necessidades calóricas, precisamos de R$ 679 bilhões de reais por ano. Na produção de alimentos, conseguimos cerca de R$ 789 bilhões por ano”, estima.

O problema está no poder aquisitivo da população, que é mal distribuído e ocasiona situações de pobreza extrema em diversas famílias. Outro aspecto que agravou o problema brasileiro foi o aumento dos preços. De janeiro de 2020 para cá, a inflação geral foi de quase 25%, mas o setor de alimentos e bebidas acumulou aproximadamente 40%.

Ainda assim, Barros nota que o cenário nacional foi melhor do que em outros países, justamente porque a produção de alimentos é muita alta por aqui: “Alimento no Brasil é mais barato do que em 70% dos países”. Ele explicou que se a agricultura brasileira não produzisse nos ritmos atuais, o preço dos alimentos no mercado nacional seria ainda mais alto, em função da desigualdade de renda no Brasil ser muito acentuada.

“O nosso problema é fazer com que os alimentos cheguem a quem precisa e que as pessoas tenham renda. Hoje em dia, o nosso programa de renda mínima, como o Bolsa Família, precisa ser maior que R$ 120 bilhões, e o novo orçamento atende essa expectativa, porque é da ordem de R$ 175 bilhões”, declarou Barros. O desafio, portanto, é fazer com que essa renda seja fiscalmente estável, contínua e que alcance quem precisa.

A qualidade da alimentação dos brasileiros

A comida representa valores culturais, religiosos e é motivo de sociabilidade. O mosaico da alimentação brasileira é constituído por tradições milenares, vindas de povos indígenas nativos, populações africanas, portuguesas e de outros países. Segundo a nutricionista e doutora em saúde pública Dirce Marchioni, professora do Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), o padrão alimentar brasileiro vem mudando nas últimas décadas.

“Há cada vez mais participação de alimentos industrializados. Do início da década de 1970 ao início dos anos 2000, o brasileiro passou a comer mais carne, biscoitos, refrigerantes e menos arroz, feijões e raízes, por exemplo”, detalhou. 

Com as mudanças nos hábitos, algumas tradições permaneceram e outras foram derrubadas pelo atual estilo de vida. Em dez anos, de 2008 a 2018, o arroz e o feijão prevaleceram, mas houve redução na frequência de consumo de alguns alimentos, como o próprio arroz e feijão, frutas, carne bovina, pães, laticínios e carnes processadas. A tendência é observada independentemente do sexo, da idade e da faixa de renda.

“Grande parte da população não tem uma alimentação de qualidade. Há baixa adequação do consumo de frutas, verduras e legumes, bem como leite e derivados. Ao mesmo tempo, temos ingesta excessiva de carne e gorduras saturadas”, afirma Marchioni.

Por outro lado, um dado que vem apresentando estabilidade, segundo o Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan), é a redução da frequência de menores de cinco anos com altura reduzida e magreza acentuada. Na avaliação de Marchioni, o resultado é fruto do aumento de crianças atendidas pelo Sisvan em conjunto com políticas públicas para essa faixa etária.

Por último, a pesquisadora mencionou uma tendência preocupante em todo o mundo, que é a obesidade. Não basta só combater a fome: a alimentação adequada endereça, igualmente, questões de saúde pública: “A obesidade está intimamente ligada à elevação de risco para doenças crônicas e pode ser considerada má nutrição se a pessoa não se alimenta bem e com qualidade”.

#RMagna2023: Qualidade ambiental, políticas públicas e povos originários

A crise humanitária em curso na Terra Indígena Yanomami trouxe os olhares do mundo para a situação das populações indígenas brasileiras. Entre 2019 e 2022, morreram 570 crianças em uma população de cerca de 38 mil pessoas, o que levou muitos juristas a caracterizarem o cenário como genocídio. A principal causa da crise foi a invasão em massa de garimpeiros, estimulada pela desmonte de políticas públicas e órgãos de fiscalização.

A defesa dos povos originários também passa pela ciência e, por isso, a Academia Brasileira de Ciências (ABC) realizou a sessão plenária “Qualidade ambiental, políticas públicas e povos originários”, em 10 de maio, durante sua Reunião Magna 2023. A coordenação da sessão ficou por conta do vice-presidente da ABC para a Região Norte, Adalberto Luis Val, e os convidados foram a advogada Samara Pataxó e o antropólogo Ricardo Ventura Santos.

Ricardo Ventura Santos, Adalberto Luis Val e Samara Pataxó

Val abriu a sessão lembrando do conceito de Saúde Única e como ele se aplica particularmente bem à questão indígena. A disrupção social causada pela invasão afetou profundamente o modo de vida tradicional dos yanomamis. Em paralelo, a destruição da terra e a contaminação por mercúrio expuseram os indígenas à mazelas como malária e fome.  “Clima, biodiversidade e sociedade estão acoplados. A saúde de seres humanos depende da saúde do meio ambiente e isso é muito claro na tragédia”, lembrou o Acadêmico.

Os indígenas e o Estado brasileiro

O termo “genocídio” foi criado no século XX para denominar um crime até então sem nome. Em 1948, a Convenção da ONU para a Repressão e Punição do Crime de Genocídio classificou como tal, entre outras ações, a “submissão intencional de um grupo a condições de existência que lhe ocasionem a destruição física total ou parcial”, o que sustenta as comparações com a situação dos Yanomami.

“A relação entre o Estado brasileiro e os indígenas é de extermínio, integração e tutela até a Constituição de 88, que pela primeira vez reconhece os direitos dos povos originários”, avaliou Ricardo Ventura Santos. As cicatrizes desse apagamento aparecem na nossa população, que possui a menor porcentagem de pessoas se autodeclarando indígenas na América do Sul – menos de 1%.

Apesar disso, dados mais recentes sugerem que as identidades tradicionais estão em alta. O Censo de 2010 apontava que existiam no país 817 mil indígenas. Deste então, a produção acadêmica e cultural só cresceu e, de acordo com dados preliminares do Censo de 2022, hoje são 1,6 milhão. “Esse crescimento reflete a demografia, mas, principalmente, se deve a um aumento no reconhecimento das próprias pessoas como indígenas”, explicou Ventura.

O Censo revela ainda a enorme diversidade desses povos. Em 2010, foram identificados no Brasil 305 etnias e 274 línguas originárias. Todo esse mosaico cultural guarda relações, hábitos e histórias distintas, mas a luta por direitos, sobretudo à terra, é pauta comum.

Comparação entre os últimos Censos do IBGE mostra crescimento no número de brasileiros que se autodeclaram indígenas

Movimento indígena e direitos fundamentais

A advogada Samara Pataxó pertence ao povo Pataxó da Terra Indígena da Coroa Vermelha, na Bahia. Ela compartilhou sua experiência na articulação jurídica dos povos tradicionais e destacou que a ADPF 709, movida no Supremo Tribunal Federal (STF) pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), foi um marco histórico nessa defesa. “Pela primeira vez, em nome próprio e com advogados próprios, os povos indígenas foram buscar seus direitos junto à mais alta corte do país”, afirmou.

Uma ADPF – Arguição de Descumprimento de Direito Fundamental – é uma ação de controle de constitucionalidade movida quando se entende que algum preceito fundamental da Carta Magna não está sendo respeitado. No caso da ADPF 709, defendia-se que o governo precisava ser coagido a estabelecer ações mínimas de combate à pandemia entre os povos indígenas. “Durante a maior crise sanitária dos últimos cem anos, o que existia era uma estrutura acéfala nos órgãos competentes, que tinha dificuldade de realizar ações mínimas, quanto mais elaborar um Plano Nacional”, denunciou Pataxó.

Mas o precedente aberto pela ADPF não se restringe à covid-19. Para a advogada, o tema da saúde pública não pode ser dissociado da questão territorial, no caso dos povos indígenas. A demarcação e o respeito pelos territórios é central tanto para a proteção dos povos originários, quanto para a própria conservação ambiental. De acordo com dados da MapBiomas, entre 1990 e 2020 as terras indígenas perderam apenas 1% de sua área de vegetação nativa, enquanto nas áreas privadas a perda foi de 20,6%.

“A mãe de todas as lutas é a luta pela mãe-terra”, afirmou Samara Pataxó, garantindo que as representações continuarão fazendo frente aos avanços sobre os direitos dos povos indígenas sempre que estes forem desrespeitados. “Nunca mais um Brasil sem nós”, finalizou.

#RMagna2023: vacinas, vírus e novas pandemias

A humanidade estuda há muito tempo formas de se proteger contra doenças. Foi assim em 1796, quando um médico inglês formulou a primeira vacina contra a varíola. E a história se repetiu em 2020, no primeiro ano da pandemia de Covid-19, quando diversas vacinas foram formuladas em tempo recorde, entre elas as vacinas com a tecnologia do RNA mensageiro. Na primeira sessão plenária da Reunião Magna da ABC 2023, “Ciência básica na promoção da qualidade de vida e da saúde”, o Acadêmico Marcelo Bozza (UFRJ) mediou o debate com o microbiologista João Marques (UFMG), que foi membro afiliado da ABC entre 2011 e 2015, a ecóloga Mariana Vale (UFRJ) e a virologista Clarissa Damaso (UFRJ).

Marcelo Bozza, Mariana Vale, Clarissa Damaso e João Marques

Da origem da vida às terapias baseadas em RNA 

Quem não ouviu falar das vacinas com tecnologia de RNA mensageiro? O Ácido Ribonucleico – RNA, na sigla em inglês – é essencial para diversos processos celulares e é multifuncional. Ele está intimamente envolvido em todos os passos do fluxo de informação biológica, da fita dupla de DNA à síntese proteica. Na apresentação do Acadêmico João Marques, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), muito foi dito sobre o quanto a ciência tem explorado o potencial do RNA em intervenções terapêuticas. Se hoje ele é tão importante para salvar milhares de vidas, isto se deve à evolução natural da molécula e ao interesse da ciência em estudá-la.

“A múltipla identidade do RNA é o que o coloca na teoria principal sobre a origem da vida. Há 4 bilhões de anos, o início parece ter sido uma molécula especial, que pôde fazer cópias de si mesma por reações químicas a partir das condições locais até originar códigos genéticos mais complexos. Para existir vida na Terra, precisamos de uma unidade autorreplicativa”, explica Marques. 

Como tudo na biologia, esse RNA fez cópias imperfeitas, pois não existiria evolução com cópias idênticas. As cópias competiram entre si, uma prova para a teoria da evolução de Darwin. Durante a competição, alguns RNAs passaram a usar o mundo celular como hospedeiro, numa espécie de parasitismo. Esse tipo de relação a humanidade conhece muito bem, porque há uma série de microrganismos baseados em RNA. Nos últimos 200 anos, por exemplo, diversas pandemias foram causadas por vírus de RNA. O coronavírus responsável pela covid-19 é um deles.

“Como organismos tão simples são capazes de causar estragos tão grandes?”, indagou Marques. Para ajudar o corpo a enfrentá-los, pesquisas que investigam a multifuncionalidade do RNA vêm evoluindo desde a década de 1980, quando os primeiros testes com RNA mensageiro sintético foram conduzidos em laboratório. Mais um exemplo de ciência básica que acaba gerando ciência aplicada. 

No laboratório de Marques na UFMG, um dos esforços da equipe é identificar mecanismos antivirais, como os pequenos RNAs. Alguns seres vivos, como plantas e insetos, produzem essas moléculas quando contraem um microrganismo. É como se fosse um RNA específico originado a partir de uma resposta imune, que dirige a degradação dos RNAs de patógenos invasores.

Segundo o pesquisador, a capacidade das terapias baseadas em RNA vai muito além das vacinas e há muita pesquisa a ser feita: “Estas terapias estão aqui para ficar e precisamos aproveitá-las da melhor forma”.

O preço para evitar pandemias

 O desmatamento ambiental é um dos fatores de risco para a ocorrência de novas doenças. Segundo a ecóloga e Acadêmica Mariana Vale, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), há um entendimento entre tomadores de decisão que temos um problema não pontual e que outras pandemias acontecerão.

O custo para reduzir a probabilidade de elas acontecerem é menor do que ter que lidar com elas assim que surgem, segundo a cientista. No total, 75% das doenças infecciosas emergentes vieram de animais, as chamadas doenças zoonóticas. Elas acontecem quando há patógenos que circulam principalmente em animais silvestres e, num determinado momento, a população humana começa a manifestá-los, seja por contato direto ou indireto com o animal. Caxumba, leishmaniose visceral, malária, febre amarela, dengue hemorrágica e covid-19 são apenas alguns exemplos.

“Temos observado um aumento muito grande dessas doenças a partir da década de 1960, o que tem muito a ver com aspectos do comportamento humano que aumentam os riscos e as chances de ocorrência. Em regiões com mais de 25% desmatamento, há acréscimo significativo na probabilidade de transmissão viral”, alerta a pesquisadora. 

Em um artigo publicado em 2020 com outros colaboradores, Vale observou que o custo para fazer um programa global de prevenção a pandemias gira em torno de 22 a R$ 31 bilhões de dólares por ano. “Desde 1918, 3,3 milhões de pessoas morreram por ano devido a surtos de doenças, com um gasto anual de 350 bilhões de dólares, um valor muito acima do necessário para a prevenção”, ressalta.

O antigo modelo brasileiro de prevenção ao desmatamento é um exemplo a ser seguido. De 2005 a 2012, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), houve redução de 70% no desmatamento da Amazônia. Desde 2013, a destruição florestal vem aumentando. Isto é perigoso porque, por lá, há diversas espécies de três animais – morcegos, primatas e roedores – que são eficientes em transmitir patógenos para seres humanos.

“No arco do desmatamento há mais de 25% de área desmatada, locais de alto risco, sobretudo se o desmatamento segue descontrolado. Outro fator de risco é a caça ilegal, um mercado que movimenta cerca de 35 milhões de dólares por ano”, afirma a pesquisadora.  

Para prevenir, precisamos investir igualmente no conhecimento sobre os patógenos que circulam na nossa fauna. “Temos uma lacuna de conhecimento enorme sobre os microrganismos locais. Amazônia e Cerrado apresentam um risco muito elevado e é por isso que precisamos estudar para sanar esse déficit”, orienta Vale.

Nos rastros da primeira vacina

A primeira vacina da história foi desenvolvida pelo médico inglês Edward Jenner, em 1796, contra a varíola. Um fato científico singular que mudou a história da saúde pública, sendo precursor para a erradicação da doença em vários países nas décadas de 1970 e 1980. No entanto, o conteúdo da vacina ainda é um mistério, de acordo com Clarissa Damaso, virologista da UFRJ.

A pesquisadora estuda há tempos a família poxvírus, que reúne diferentes vírus de varíola que atacam vários animais – seres humanos, bovinos, equinos e outros. “A varíola humana é uma doença que produz pústulas por todo o corpo, é carregada de estigma e deixa as pessoas desconfiguradas, com marcas profundas na pele. Algumas cepas chegavam a 40 ou 50% de letalidade”, aponta Damaso.

A vacina de Jenner foi desenvolvida cem anos antes da descoberta do primeiro vírus, no fim do século 19. Ou seja, Jenner não sabia o que causava a doença, mas conseguiu observar a dinâmica da enfermidade. No dia a dia, ele constatou que ordenhadoras de vacas começaram a ter lesões parecidas como as causadas pela varíola humana, mas de forma menos virulenta. Elas também não adoeciam de varíola humana.

“Ele estabeleceu uma estratégia científica para tentar comprovar que a varíola bovina poderia proteger contra a varíola humana. De forma antiética, naquela época, ele retirou a lesão das mãos de uma ordenhadora e a inoculou numa criança de oito anos. Algumas semanas depois, este menino foi exposto ao vírus da varíola humana e ele não adoeceu”, detalha Damaso.

No fim do século 18, a vacina Jenneriana se espalhou pelo mundo. Jenner acreditava que a doença bovina estava protegendo contra a infecção que matava mais pessoas. Ao rastrear desde 2014 o vírus presente em vacinas anteriores a 1900, Damaso e outros colaboradores estão obtendo um achado e tanto: “A partir do sequenciamento genético do material de vacinas antigas compradas on-line ou de acervos museológicos, tivemos a primeira evidência científica de que o vírus de varíola de cavalos foi utilizado como componente da vacina antivariólica, bem como outros vírus que têm um material genético muito parecido”, aponta Damaso.

Os estudos, além de serem importantes para o entendimento sobre a evolução dos poxvírus, já estão pautando atualizações em livros de virologia e saúde pública.  Novas perguntas surgiram, como, por exemplo: será que alguma vez o vírus de varíola bovina foi utilizado na vacina Jenneriana? A resposta requer novas pesquisas, mas, ao que tudo indica, é pouco provável.

teste