No dia 6 de outubro, 3a feira, a Universidade Federal do Estado de São Paulo (Unifesp) hospedou o Simpósio e Diplomação dos Membros Afiliados da ABC SP 2026-2030, eleitos no final de 2025 para um mandato de cinco anos. Foram diplomados e apresentaram seus trabalhos, pelos quais foram eleitos, os pesquisadores Alisson Ronieri Cadore (CNPEM), Carlos Roberto Bueno Júnior (USP), Deborah Santos Prado (Unifesp), Douglas Duarte Novaes (Unicamp) e Juliana Ferreira de Brito (Unesp).
A vice-reitora da Unifesp, Lia Bittencourt, representando a reitora Raiane Assumpção, recebeu os novos membros e seus familiares.
Pela manhã, havia sido realizado no local o sexto seminário “COP30: balanço crítico e lições para a ciência brasileira rumo à COP31”, organizado pela Academia Brasileira de Ciências. O tema do debate foi “Povos Indígenas, comunidades tradicionais e a justiça climática.”

A abertura foi feita pelo vice-presidente Regional da ABC para São Paulo, Glaucius Oliva. Ele apresentou a ABC e a categoria de membros afiliados da ABC, criada em 2007 para reconhecer a excelência de jovens pesquisadores de até 40 anos das seis regiões do Brasil previstas pela ABC (Norte, Nordeste e Espírito Santo, Minas |Gerais e Centro-Oeste, Rio de Janeiro, São Paulo e Sul). “São eleitos anualmente cinco de cada região para mandatos de cinco anos não renováveis. A eleição é conduzida por Comissões de Seleção presididas pelos vice-presidentes de cada região, num processo altamente competitivo que resulta na seleção dos melhores jovens cientistas de nosso país”, destacou Oliva.
Ele apontou os tempos difíceis que estamos vivendo, com uma onda de negacionismo da ciência nunca esperada com relação à emergência climática, à importância da vacinação, à evolução darwiniana e muito mais. Ressaltou que, como membros afiliados da ABC, os jovens diplomados estão inseridos numa luta mais ampla: além da luta pelos recursos necessários para a continuidade de suas pesquisas de excelência, a luta lá fora, pelo valor da ciência e das universidades.
Conheça os novos membros afiliados da Região SP nos perfis abaixo:Especialista em nanodispositivos optoeletrônicos
O físico experimental Alisson Cadore atua no Laboratório Nacional de Nanotecnologia, em Campinas, onde investiga nanomateriais naturais e abundantes que possam ser utilizados em tecnologias eficientes e de baixo custo.
Mudanças no estilo de vida podem prevenir até 90% das doenças crônicas
Professor da Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto da USP, Carlos Roberto Bueno Júnior desenvolve estratégias e ferramentas para estimular a adoção de hábitos mais saudáveis.
Ciência para aproximar sociedade e natureza
Pesquisadora da Unifesp, a cientista ambiental Deborah Santos Prado atua na interface entre questões sociais e ambientais, especialmente nos conflitos pelo uso dos territórios, buscando formas mais justas e sustentáveis.
Desvendando o caos de sistemas complexos
Matemático e professor da Unicamp, Douglas Duarte Novaes pesquisa como evoluem sistemas complexos, tornando-se um dos cientistas mais influentes da atualidade em ranking da Elsevier.
Minimizando o impacto econômico dos tratamentos ambientais
Professora na Unesp-Araraquara, a química eletroanalítica ambiental Juliana Ferreira de Brito desenvolve pesquisas com foco na oxidação de compostos orgânicos e geração de combustíveis.
Palestra Magna
Membro titular da ABC, o químico Aldo Zarbin (UFPR) proferiu a Palestra Magna, intitulada “O Fazer Ciência em Dez Palavras ou Como se Constrói o Conhecimento”, título que dá nome ao livro que lançou no final de 2025, publicado pela Editora ICH.
Antes de iniciar, ele apoiou inteiramente a fala de Oliva. “Integrar a ABC foi certamente a coisa mais importante que aconteceu na minha carreira científica. A ABC é uma casa que pensa o Brasil e propõe alternativas. E vocês agora são parte disso”, ressaltou.
Leia a matéria sobre a Palestra Magna aqui.
Foi realizada então a entrega dos diplomas. Veja as fotos da diplomação no Flickr da ABC
Saudação aos novos Membros Afiliados
Afiliada da ABC entre 2018 e 2022, Jaqueline Godoy Mesquita (Unicamp), atual presidente da Sociedade Brasileira de Matemática (SBM) e da Unión Matemática de América Latina y el Caribe (UMALCA) para o período 2025-2029, saudou os novos membros com uma mensagem clara: a eleição para a ABC deve ser entendida não apenas como reconhecimento da trajetória científica, mas como o início de um compromisso maior com a ciência brasileira e com a sociedade.
“Ser membro da Academia Brasileira de Ciências é muito bom em termos de currículo e prestígio, mas é muito mais do que isso. É muito mais do que um diploma: é um compromisso, uma responsabilidade social com a ciência brasileira”, afirmou.
Mesquita incentivou os novos afiliados a aproveitarem os cinco anos de mandato para se tornarem uma voz ativa dentro da Academia, participando dos debates, propondo iniciativas e contribuindo para aproximar a ciência da população. Segundo ela, a dedicação à pesquisa, aos artigos e à formação de estudantes não deve afastar os cientistas das questões mais amplas do país. “A gente recebe recursos públicos para fazer a nossa pesquisa. Temos a responsabilidade social de também permitir que sejam geradas oportunidades para as novas gerações.”
A matemática lembrou que seu período como afiliada, entre 2018 e 2022, coincidiu com anos particularmente difíceis para a ciência, incluindo a pandemia de covid-19. Naquele contexto, os afiliados se mobilizaram para levar informação científica à sociedade. Ela própria, apesar de atuar em matemática, participou da produção de conteúdos sobre a pandemia, buscando esclarecer a população sobre a importância das vacinas e da ciência.
A ex-afiliada recomendou também que os novos membros aproveitem a ABC para romper barreiras entre disciplinas e construir novas redes de colaboração. Foi a convivência na Academia, contou, que ampliou seu diálogo com outras áreas e contribuiu para trabalhos interdisciplinares, entre eles uma pesquisa utilizando modelagem matemática para estudar a propagação da chikungunya. “Você começa a perceber como é importante falar com outras áreas, conectar-se com outros cientistas. Essa interdisciplinaridade é uma das coisas muito importantes que a Academia traz.”
Mesquita reforçou ainda que os afiliados devem apresentar ideias e criar iniciativas próprias. Recordou que sua geração não queria que a passagem pela ABC se resumisse ao recebimento de um diploma e buscou participar efetivamente da vida da instituição, promovendo atividades e criando, inclusive, um programa de mentoria para afiliados.
Para ela, essa disposição para participar torna-se ainda mais necessária diante dos desafios que o país deverá enfrentar nos próximos anos. “Defender a ciência, combater a desinformação e contribuir para a soberania nacional também fazem parte das responsabilidades assumidas pelos jovens cientistas ao ingressarem na Academia”, apontou. “Os cientistas têm que ser essa força motriz e essa resistência dentro da nossa sociedade”, afirmou Mesquita.
Aos novos membros, ela deixou um chamado para que façam dos cinco anos de afiliação um período de participação efetiva: “Que vocês trabalhem bastante, que realmente lutem pela ciência do Brasil.”
Saudação em nome dos novos Membros Afiliados
Recém-diplomado como Membro Afiliado da ABC, Carlos Roberto Bueno Júnior (USP) foi responsável pelos agradecimentos em nome dos cinco jovens pesquisadores eleitos para a Regional São Paulo. Em sua fala, destacou que a diplomação representa não apenas o reconhecimento de trajetórias científicas de excelência, mas a assunção de uma responsabilidade perante a sociedade e o país.
“Estar aqui hoje, ao lado de pesquisadoras e pesquisadores tão extraordinários, não representa apenas marcos pessoais ou o coroamento de anos de dedicação aos laboratórios e à pesquisa. É, acima de tudo, um compromisso solene e inegociável com a soberania, o desenvolvimento e o futuro do Brasil”, afirmou.
Bueno Júnior ressaltou que, ao ingressarem em uma instituição como a ABC, os novos afiliados assumem também o dever de fazer com que o conhecimento produzido nas universidades e centros de pesquisa ultrapasse seus próprios ambientes. “A ciência não é uma obra contemplativa; é uma força viva de transformação social e emancipação humana.”
Para o pesquisador, esse compromisso ganha especial importância diante das transformações aceleradas, das ameaças ao pensamento crítico e da disseminação de narrativas simplificadoras e desinformação nos ambientes digitais. Questões como emergência climática, reindustrialização e justiça social, observou, exigem respostas fundamentadas em conhecimento científico, mas também a disposição dos pesquisadores para participar do debate público.
“A sociedade espera de nós, cientistas, não o silêncio, a timidez ou a acomodação em torres de marfim. A sociedade clama por nossa voz, nossa coragem e nossa capacidade de liderar ações efetivas”, declarou.
Em nome dos novos afiliados, Bueno Júnior defendeu uma participação mais direta da comunidade científica no diálogo com os poderes Executivo e Legislativo e com candidatos a cargos públicos. Citou, nesse contexto, o documento preparado pela ABC para as eleições de 2026 e defendeu que suas propostas sejam apresentadas, debatidas e incorporadas aos programas de governo.
O objetivo, afirmou, deve ser contribuir para que ciência, educação e inovação sejam tratadas como políticas permanentes de Estado, e não fiquem submetidas às mudanças de prioridades a cada novo mandato. Segundo Bueno Júnior, a experiência internacional demonstra que países que alcançaram elevados níveis de desenvolvimento e soberania fizeram do investimento em educação e pesquisa uma prioridade estratégica de longo prazo.
Ao encerrar, Bueno Júnior transformou o agradecimento pela diplomação em uma declaração de compromisso dos cinco novos membros. O título de afiliado, afirmou, deve significar ação: levar a ciência, a educação e a inovação ao centro do debate político, usar o conhecimento científico para participar das grandes decisões nacionais, fortalecer a Academia e contribuir concretamente para transformar o Brasil. “Temos a obrigação de transformar essa energia em ação concreta para mudar o nosso país”, concluiu.
Encerramento
A presidente da ABC, Helena B. Nader, encerrou o encontro com uma convocação aos novos membros para que assumam um papel ativo na defesa da ciência e na interlocução com a sociedade. Ao recordar que o Programa de Membros Afiliados foi criado em 2007 pelo então presidente da ABC. Jacob Palis, Nader ressaltou que a iniciativa representa a incorporação das novas gerações de cientistas ao debate público. “A voz de vocês é a voz da ABC e a voz da ABC deve ser, sem concessões, a voz baseada em evidência. Não em achismos, não em crenças, não em religiões”, afirmou.
Dirigindo-se aos cinco novos afiliados da Regional São Paulo, a presidente destacou que os próximos cinco anos devem ser de participação efetiva nas diferentes frentes de atuação da Academia. Entre elas, citou a elaboração de recomendações para políticas públicas, a divulgação científica, o assessoramento técnico ao Legislativo e a representação da ciência brasileira em fóruns internacionais. “Vocês não serão apenas membros afiliados da ABC: são porta-vozes da comunidade científica brasileira”, enfatizou.
Para Nader, essa responsabilidade ganha especial relevância no atual cenário político. Em sua avaliação, grande parte do Legislativo manifesta desconfiança ou hostilidade em relação à educação e à ciência e questiona evidências relacionadas, entre outros temas, às mudanças climáticas e à segurança das vacinas. A presidente também manifestou preocupação com iniciativas que ameaçam direitos conquistados por mulheres, crianças, adolescentes e pessoas de diferentes identidades de gênero. “O que vem não é simples. Nós temos que lutar contra essa negação organizada e sistemática. Negação da evidência, negação do método, negação do próprio valor do conhecimento”, afirmou.
Nesse contexto, Nader evocou os 110 anos de história da ABC e lembrou que a instituição atravessou períodos de autoritarismo, crises econômicas e momentos de contestação ao conhecimento científico. Ao mencionar a ditadura iniciada em 1964, reconheceu que houve momentos em que a Academia demorou a reagir à gravidade da situação. Para ela, essa experiência histórica deve servir de aprendizado: “Nós não podemos ter essa inércia”.
A presidente defendeu que os cientistas estejam preparados para responder publicamente à desinformação com as ferramentas próprias da ciência. “Quando o parlamentar afirmar em comissão que as mudanças climáticas são uma farsa, será preciso que cientistas se levantem e, com dados, com lógica, com evidências irrefutáveis, as rebatam. Quando a hesitação vacinal for amplificada pela manipulação política, será preciso que vozes confiáveis expliquem os fatos básicos da imunologia.”
A mesma responsabilidade, acrescentou, se aplica à educação. Para Nader, cabe à comunidade acadêmica defender uma formação voltada ao pensamento autônomo e crítico: “Quando tentarem transformar o veículo escolar em instrumento ideológico, será preciso que acadêmicos defendam a essência da educação, que não é doutrinar, mas libertar.”
Helena Nader alertou ainda que esse tipo de atuação dificilmente produzirá as recompensas tradicionalmente valorizadas na carreira acadêmica. “Esse trabalho não aparecerá nos seus currículos. Não se converterá em índices de citação. Não ajudará a aprovar o próximo financiamento, mas ele é essencial e fundamental.”
Ao encerrar, voltou-se novamente aos novos afiliados para reforçar que a excelência científica que os levou à ABC vem acompanhada de uma responsabilidade que ultrapassa laboratórios, universidades e publicações. Para a presidente, participar da Academia significa colocar o conhecimento a serviço do país e contribuir para a defesa pública da ciência, da educação e do pensamento crítico. “Porque o futuro do país não depende da taxa de crescimento do PIB só, nem da estabilidade do câmbio. Depende da ciência, da tecnologia e da inovação. Depende de vocês. Sejam bem-vindos.”
