“A crise climática não distribui seus impactos de forma igual. Os povos indígenas e tradicionais, que contribuem muito para o enfrentamento, são os mais afetados. Reconhecer seus saberes significa reconhecer que são parte da solução”. A fala é da presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC), Helena Bonciani Nader, durante a abertura do sexto seminário “COP30: balanço crítico e lições para a ciência brasileira rumo à COP31”, realizado na manhã da diplomação dos novos Afiliados ABC para São Paulo, no dia 6 de outubro, na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O debate abordou o tema “Povos Indígenas, comunidades tradicionais e a justiça climática”.
No último ano, as terras indígenas foram responsáveis por apenas 1,7% do desmatamento registrado na Amazônia, embora ocupem 23% da área. Considerando que o bioma é um dos pilares fundamentais do enfrentamento às mudanças climáticas, é impossível pensar a crise sem colocar essas populações no centro do debate. Para isso, a ABC convidou:
- A socióloga Andréa Zhouri, ex-presidente da Associação Brasileira de Antropologia (ABA) e professora aposentada da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde ajudou a criar linhas de pesquisa sobre ambiente e sociedade;
- O filósofo Gersem Baniwa, que coordenou a área de educação escolar indígena na Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e no Ministério da Educação (MEC) e foi uma das lideranças por trás do projeto da Universidade Federal Indígena (Unind);
- A procuradora do Ministério Público Federal (MPF) Thais Santi, que atuou junto aos povos indígenas e tradicionais de Altamira, Pará, durante a construção da hidrelétrica de Belo Monte;
- A bióloga Patricia Pinho, diretora de pesquisa do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), cujos estudos se concentram nos sistemas socio-ecológicos e integram os conhecimentos tradicionais como soluções para a sustentabilidade.

Impacto das energias “limpas” e o caso de Belo Monte
A socióloga Andréa Zhouri integra a Rede de Pesquisa Territórios e Meio Ambiente (Rede TEMA), que lançou um manifesto durante a COP 30 alertando para os impactos de políticas energéticas sobre povos indígenas, tradicionais e quilombolas. Além dos já conhecidos impactos dos combustíveis fósseis na intensificação da crise climática e os perigos de contaminação associados à uma eventual exploração na foz do Amazonas, tecnologias ditas limpas também afetam essas populações de formas muitas vezes negligenciadas. “A expansão de fazendas solares no norte de Minas Gerais, a mineração do lítio para baterias no Vale do Jequitinhonha, a exploração de minerais críticos e a expansão das hidrelétricas no Xingu são alguns exemplos de políticas de descarbonização que tem desconsiderado o papel central dos povos indígenas, implementadas sem a devida consulta e reproduzindo lógicas coloniais” criticou.
Zhouri lembra que a consulta prévia, livre e informada é um direito dos povos indígenas antes de quaisquer projetos que afetem suas terras e modos de vida, mas esses processos são cada vez mais negligenciadas por governos ou empresas com interesses econômicos nos territórios. “Soluções para o colapso climático exigem considerar a proteção dos territórios tradicionais, a regularização fundiária e a autonomia de gestão, reconhecendo que há múltiplas formas de se habitar, produzir e proteger o ambiente. A justiça climática começa pelos territórios tradicionais”, enfatiza.
O exemplo da hidrelétrica de Belo Monte é paradigmático. Com 10 anos completos de funcionamento em 2026, a usina segue no centro de inúmeras disputas judiciais, inclusive na Corte Interamericana de Direitos Humanos. O principal efeito da construção foi um desvio de mais de 100 quilômetros no curso natural do rio Xingu, alterando a dinâmica das águas em um território com dezenas de populações indígenas e tradicionais. Para a procuradora do Ministério Público Federal (MPF) Thaís Santi, “não é possível entender a Amazônia sem compreender que os povos têm uma relação completamente diferente com o ambiente”.
Santi mudou-se para Altamira em 2012, à princípio para ficar seis meses, mas está lá até hoje. Durante todo esse tempo ela pode observar como as populações do Xingu perderam mais do que água, mas todo um modo de vida. “São indígenas canoeiros que hoje vivem sem água”, resume. “A Volta Grande do Xingu hoje vive em seca permanente, some isso à crise climática e temos uma crise humanitária. Sem água os animais somem, as hortas de mandioca morrem, povos inteiros viram refugiados climáticos”. Para piorar a situação, a flexibilização da política ambiental brasileira já admite que nesse mesmo lugar permita-se mineração de ouro a céu aberto. “Já existem licenças concedidas e ainda não explicaram nem de onde vão tirar a água para lavar o cianeto, que ficará estocado numa barragem maior do que a que rompeu em Mariana. A pergunta é, de onde vão retirar mais água?”, provoca Santi, preocupada.
Mas a grande diáspora de Belo Monte não foi indígena, mas ribeirinha. Estes foram expulsos sem nenhum reconhecimento à territorialidade. A procuradora explica que uma iniciativa da antropóloga Manuela Carneiro, Titular ABC, foi um divisor de águas na relação entre o MPF e o licenciamento ambiental no Brasil. “Ela chamou a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e pesquisadores independentes para Altamira. Num primeiro momento nós não conseguíamos reunir as famílias da diáspora, mas através desse engajamento aos poucos a esperança retornou. O estudo que eles conduziram recomendou a criação de um conselho ribeirinho, algo revolucionário para a empresa da hidrelétrica, acostumada a tomar decisões de cima pra baixo. Hoje o conselho é uma das maiores representações que nós temos por lá”, afirmou.
Thais Santi conclui com os ensinamentos que o caso de Belo Monte trouxe para a sua profissão. “O MPF não é protagonista, é coadjuvante. Nossa função é garantir que as pessoas sejam ouvidas e não sejam humilhadas. Hoje estamos com uma denúncia de etnocídio no Xingu e uma perícia em curso sobre os impactos. Belo Monte nos ensinou a importância de não assumir uma posição de superioridade de saberes. Ninguém pode falar em nome dos povos indígenas e tradicionais”.
O que protege os territórios são os saberes e modos de vida tradicionais
O filósofo e educador indígena Gersem Baniwa é uma das lideranças por trás da Universidade Federal Indígena (Unind), estabelecida em maio deste ano pela Lei 15.418/2026. O objetivo é criar uma universidade multicêntrica, com campi espalhados pelos territórios e foco no ensino superior para os povos originários. No entanto, a depender do que acontecer nas urnas, ele teme que o projeto não saia do papel.
“Nós indígenas reconhecemos todos os avanços que a ciência produziu para o mundo, gerando qualidade de vida. Somos fãs da ciência moderna, esse é um ponto pacífico”, reforça Baniwa, que ao mesmo tempo se diz decepcionado com a universidade brasileira. “Estou há 40 anos na academia e estou cansado do nosso modelo de formação. Quando eu era mais jovem os missionários investiram em mim porque eu era obcecado por aprender, mas hoje acho que esse modelo está esgotado”, lamentou.
O problema, argumenta o filósofo, é que a ciência ainda insiste em se distanciar dos conhecimentos tradicionais. Embora tenha havido um esforço de inclusão nas últimas décadas através das ações afirmativas, os números de evasão, e até mesmo suicídios, de indígenas no ambiente universitário seguem acima da média. “Mesmo quando nos tornamos pesquisadores seguimos nos sentindo desvalorizados e negados. Eu mesmo já ouvi de colegas que ciência indígena é bobagem”, criticou.
Para Baniwa, a pesquisa continua tratando as populações indígenas como objeto de estudo por não-indígenas, e não como sujeitos produtores de conhecimento. Faltam projetos e incentivos desenhados para cientistas indígenas. “Indígenas, quando vão fazer pesquisa, a fazem por outra lógica, inclusive metodológica. Eu sempre me pergunto: por que eu tenho que pedir autorização para os comitês de ética dos brancos para estudar meu próprio povo? Se o meu povo diz que eu posso, por que eu preciso da autorização de mais alguém?”, provoca.
Para ele, a COP 30 pecou por não trazer a educação indígena para os debates. “Há um pensamento muito positivista, todo mundo entende que a solução só poderá vir de acordos comerciais e diplomáticos, de novas tecnologias. O mundo moderno fez uma escolha por um modelo de civilização que não deu certo, e processos civilizatórios só se alteram por meio da educação”, argumentou. “Há um avanço assustador no número de indígenas de extrema direita, que estão indo para o lado do capitalismo predatório, se aliando à mineração. Há uma necessidade urgente de se proteger os modos de vida, os territórios só serão preservados se os modos de vida tiverem continuidade”.
Números do colapso
Pesquisadora do IPAM, a bióloga Patrícia Pinho trouxe alguns números que nos lembram do atual estado da Amazônia. Atualmente, 40% da floresta está em estado de degradação, fruto dos efeitos combinados das mudanças climáticas com o uso da terra pela agropecuária, urbanização e mineração. Todos os anos, 2 milhões de pessoas são afetadas por eventos climáticos extremos e estima-se que a região tenha perdido 9% de seu PIB com desastres nos últimos 20 anos. “Mas nós não temos métricas capazes de calcular o que significa perder uma cultura”, lamentou.
A cientista vem trabalhando com lideranças locais, num processo de escuta e troca entre a ciência e o conhecimento tradicional. “Como resultado temos descoberto deslocamentos forçados, aumento de doenças, insegurança alimentar e uma erosão da cultura”, lista. “Alteram-se os hábitos alimentares, perdem-se saberes que eram passados de geração para geração, o calor altera a dinâmica do trabalho ao ar livre, até as relações de gênero são alteradas”.
Em particular, a violência aumentou de forma exponencial na Amazônia, principalmente nos municípios mais afetados pelo desmatamento, grilagem e garimpo. “Enquanto o Brasil conseguiu reduzir o número de homicídios, na Amazônia eles aumentaram e estão 10 vezes maiores do que o limite crítico para que uma região seja considerada violenta pelas Nações Unidas”, exemplificou Pinho. Em resumo, a pesquisadora afirma que o colapso social chega antes do colapso ecológico e climático. “Ignorar o colapso social é também ignorar gigantescos riscos financeiros: de acordo com um artigo publicado na PNAS em 2018, o colapso socio-ambiental da floresta deverá custar entre 1 e 3,5 trilhões de dólares nos próximos 30 anos”.
Assista ao debate entre os 32m e 2h55m do vídeo abaixo: