Membro titular da ABC, o químico Aldo Zarbin (UFPR) proferiu a Palestra Magna do Simpósio e Diplomação de Membros Afiliados da ABC da Região São Paulo 2026-2030, intitulada “O Fazer Ciência em Dez Palavras ou Como se Constrói o Conhecimento”, título do livro que lançou no final de 2025, publicado pela Editora ICH.
Antes de iniciar, ele se dirigiu aos novos membros afiliados da ABC: “Integrar a ABC foi certamente a coisa mais importante que aconteceu na minha carreira científica. A ABC é uma casa que pensa o Brasil e propõe alternativas. E vocês agora são parte disso”, ressaltou.

Iniciando a palestra sobre o livro, Zarbin contou que a ideia foi mostrar às pessoas o que é fazer ciência, “o que fazemos enquanto cientistas”. Ele escolheu dez palavras que, a seu ver, definem o trabalho científico na sua essência. Começou com a criatividade, que gera pensamentos disruptivos, que ele associa diretamente ao convívio com a arte, que em todas as formas faz “abrir a cabeça”, “pensar fora do convencional” e cujos processos têm grande similaridade com os processos da ciência. Citou uma frase do físico Albert Einstein: “Criatividade é a inteligência se divertindo”, que define bem sua percepção da palavra.
A seguir, ele destacou a sagacidade. “Como cientistas, ficamos tão absortos no que estamos fazendo e no que esperamos como resultado que esquecemos de olhar para o lado – ou para o próprio experimento que estamos fazendo -, onde às vezes está o que realmente interessa”, afirmou Zarbin. Citou o químico e microbiologista francês Louis Pasteur, que disse: “O acaso favorece as mentes mais bem preparadas”.
A terceira palavra que Zarbin relacionou foi determinação. “Não é teimosia. Determinação significa que a pessoa não desiste no primeiro empecilho que encontra, o que leva às descobertas disruptivas. Teimosia é quando tudo que a pessoa descobriu mostra uma coisa e ela se recusa a aceitar, insistindo na premissa inicial – o que só leva ao atraso”. O exemplo dado por Zarbin foi a descoberta do grafeno, uma forma cristalina do carbono, com apenas um átomo de espessura, considerado um dos materiais mais finos, fortes e condutores do mundo. Sua existência foi prevista na teoria, mas tida como impossível. Assim que essa afirmativa foi feita, os cientistas Andre Geim, da Universidade de Manchester, junto com seu colega Konstantin Novoselov, discordaram. Foram para o laboratório de magnetismo e isolaram o grafeno pela primeira vez em 2004. Por essa descoberta revolucionária, ambos foram laureados com o Prêmio Nobel de Física em 2010. “Isso é determinação.”
A quarta palavra é sabedoria. “Pouca gente sabe do poder da ciência, para o bem e para o mal. É a sabedoria que encaminha as aplicações para este ou aquele lado”. Um exemplo foi o do pesquisador Linus Pauling, que foi convidado para integrar o Plano Manhattan e recusou, por perceber que aquela pesquisa sobre fissão nuclear poderia ser conduzida para um mau caminho do. Após a realidade da bomba atômica, Pauling passou a ir a escolas de ensino fundamental para difundir sua posição contra a disseminação da bomba atômica, explicando o que era e o que poderia causar. Ele teve a sabedoria de escolher o caminho certo e, por isso, ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 1962.
A quinta palavra é simplicidade. “Se você tem dez caminhos para seguir uma ideia, comece pelo mais simples – geralmente, é o que dá certo”, observou Zarbin, citando um TED Talk de George Whitesides intitulado “Rumo à ciência da simplicidade”. Ele disse que a complexidade seria fruto de um grande número de coisas simples que são interligadas. “A simplicidade é o último degrau da sabedoria.”
A sexta palavra é divulgação, inclusive para leigos. “Os cientistas vivem numa bolha. Temos que divulgar nosso trabalho para o povo”, disse Zarbin, citando a pesquisa Percepção Pública da Ciência e Tecnologia no Brasil, com sua 6ª edição divulgada pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) em parceria com o Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e o Instituto Nacional de Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia (INCT-CPCT) em 2023, que aponta os principais dados sobre como os brasileiros enxergam a ciência e mostra que teoricamente o povo tem muito interesse pela ciência, mas não sabe onde se faz pesquisa nem o nome de pesquisadores brasileiros.
Zarbin referiu-se à letra da música “Queremos Saber”, de Gilberto Gil, que diz: “Queremos saber o que vão fazer com as novas invenções, queremos notícia mais séria sobre a descoberta da antimatéria e e suas implicações na emancipação do homem, das grandes populações, homens pobres das cidades, das estepes, dos sertões (…) Pois se foi permitido ao homem tantas coisas conhecer, é melhor que todos saibam o que pode acontecer. (…) Todos queremos saber…”
Correndo contra o tempo, Zarbin referiu-se rapidamente às outras palavras. “Para crescer na carreira científica é preciso publicar. “O desvio ético é quase um apelo para quem não tem a retidão necessária. Colocar o nome num artigo em que a pessoa só fez uma medida, usar uma imagem mais ou menos representativa do que está sendo descrito, enfim…”. Zarbin ressalta que, para que se possa de fato dizer que a voz da ciência é irrefutável e que só um argumento científico pode refutar outro argumento científico, o cientista precisa ter moral, pois é a ética que valida a ciência. “Simplesmente não se pode falhar na ética. Além de destruir a carreira do pesquisador, mancha o nome da instituição a que ele está ligado e pode manchar inclusive a imagem da ciência brasileira.”
Falando sobre oportunidade, Zarbin apontou que 93% da ciência brasileira é feita em instituições públicas, com dinheiro público. “O Estado brasileiro dá oportunidade para se fazer ciência. Mas estiverem no poder pessoas negacionistas, que não acha que a ciência é importante, essa oportunidade some”, alertou.
Chegou então a vez de falar de representatividade. “Ninguém faz ciência sozinho”. As instituições que representam hoje os cientistas são a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e a Academia Brasileira de Ciência”s. Não há nenhuma decisão em assuntos importantes para o país – numa democracia – em que a ABC e a SBPC não sejam consultadas”. Segundo Zarbin, não adianta cada um estar fazendo sua ciência enfiado no seu laboratório e o mundo em voltar caindo, desmoronando, apontou.
E, por fim, a palavra mais importante, para o palestrante: paixão. “Cientista não tem relógio de ponto, leva trabalho para casa o tempo todo. É trabalho intelectual, a gente gosta”. Ele citou uma frase de Aaron Ciechanover, ganhador do Prêmio Nobel de Química 2014: “Eu não trabalhei para ganhar o prêmio Nobel. Eu ganhei porque eu adoro o que eu faço, eu me divirto com o que eu faço, eu vou trabalhar todos os dias muito feliz como o que eu tenho para fazer”.
“Começar com criatividade e acabar com paixão é completar o ciclo da atividade científica”, finalizou Zarbin.