Mudanças no estilo de vida podem prevenir até 90% das doenças crônicas

Ao refletir sobre sua eleição como membro afiliado da Academia Brasileira de Ciências (ABC), Carlos Roberto Bueno Júnior diz enxergar um filme de toda a sua trajetória. Mais do que o reconhecimento, ele vê no título uma oportunidade para avançar em uma meta que orienta sua carreira: contribuir para melhorar a qualidade de vida de um número cada vez maior de pessoas.

Nascido em 1985, em Carmo do Rio Claro, pequena cidade de Minas Gerais, Carlos Roberto passou ali a infância e a adolescência. Brincava muito na rua e competia pelos times de vôlei e futsal da cidade.

Filho do agricultor Carlos e da artesã Regina, cresceu com os irmãos mais novos, André e Renan, em uma família de recursos limitados. “Até hoje ela faz os doces artesanais típicos mineiros – mamão verde, abóbora, figo e laranja”, conta, referindo-se à mãe.

“Meus pais, Regina e Carlos, sempre buscaram o melhor para mim e meus dois irmãos mais novos, André e Renan, dentro das possibilidades. Gostávamos dos dias em que nas refeições havia carne ou suco e, até chegar a época do vestibular, me lembro de ter viajado apenas algumas vezes – que cabem na mão – por motivos religiosos, com exceção das viagens para competir”, recorda o Acadêmico, integrante da primeira geração da família a chegar ao ensino superior.

Devido às condições financeiras, estudou sempre em escolas públicas. Desse período, guarda a lembrança de professores que, segundo ele, enxergavam um propósito maior em suas funções. Entre eles estão a professora Rosarinha, que desenvolveu um projeto de literatura, e a professora Sueli, proprietária de uma escola particular que oferecia gratuitamente aulas extras aos alunos mais interessados.

Ainda no ensino médio, Carlos Roberto já pensava em ser professor universitário. A decisão de cursar educação física surgiu de uma percepção que se tornaria central em sua trajetória profissional: a de que a tendência, no futuro, seria investir cada vez mais na prevenção, e não apenas no tratamento de doenças.

Ingressou na Universidade de São Paulo (USP) e, no segundo ano da graduação, iniciou sua trajetória na pesquisa científica.

“Tomei esse caminho pela curiosidade de entender a complexidade do corpo humano e por entender que a ciência estava ligada à docência no ensino superior em universidades públicas. Com o tempo, minha motivação maior tem sido o fato de que a ciência me dá uma oportunidade de melhorar a vida das pessoas”, contou o Acadêmico.

Graduado em educação física pela USP, permaneceu na Universidade para obter o título de mestre em biodinâmica, estudando o movimento humano, e o doutorado em ciências biológicas, na área de genética, com a tese “Abordagens terapêuticas em modelo experimental de distrofia muscular”.

Em 2012, foi professor adjunto substituto da disciplina de fisiologia na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), nos cursos de educação física, fisioterapia, terapia ocupacional, nutrição e psicologia, instituição onde também realizou estágio de pesquisa.

Toda a formação científica de Bueno, da graduação ao doutorado, foi realizada na USP. Ao relembrar esse percurso, ele destaca pessoas que exerceram papéis muito diferentes, mas igualmente importantes em sua formação.

“Desde a minha orientadora de mestrado, Patricia Brum, à minha orientadora de doutorado, a Acadêmica Mayana Zatz, passando pela dona Amélia, que trabalhava na biblioteca na época da minha graduação em educação física, sou muito grato. Talvez o que todas tenham em comum seja uma paixão imensa pelo trabalho.”

Mas foi Jair, segurança de uma empresa terceirizada na época de seu mestrado, quem lhe fez uma pergunta que acabaria se tornando uma espécie de bússola para sua atuação profissional: “O que vocês já descobriram aqui que ajuda as pessoas?”

“É a questão em que mais penso no dia a dia”, afirma Bueno.

O pesquisador também considera fundamentais as experiências de longa permanência que teve no exterior. Passou pela Noruega e pela Inglaterra, onde realizou, em 2018, estágio de pesquisa na Universidade de Birmingham, além de ter atuado durante um ano como professor visitante na Escola Médica de Harvard, nos Estados Unidos.

“A principal lição que aprendi é que não há nada mágico nestes lugares, ‘apenas’ gente querendo fazer diferente e políticas organizadas, que demoram tempo para gerar resultados.”

Atualmente, Carlos Roberto Bueno Júnior é professor associado da Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto (EEFERP) da USP e colaborador da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia, onde realizou pós-doutorado entre 2016 e 2017, participando de um estudo multicêntrico relacionado ao tratamento da síndrome metabólica.

Quando a universidade é chamada a mostrar seu impacto

Bueno avalia que seus projetos de trabalho de conclusão de curso (TCC), mestrado e doutorado contribuíram para o desenvolvimento de uma visão crítica sobre a atividade acadêmica e, sobretudo, sobre a necessidade de aproximá-la das demandas da sociedade.

“Entendo que a sociedade tem cobrado de nós, e com razão, impactos sociais robustos em nossas atividades de ensino, pesquisa e extensão universitária. Partindo do princípio de que as estratégias de indução destes impactos não são discutidas de forma satisfatória, conduzi a criação de um grupo no Instituto de Estudos Avançados da USP com este objetivo, intitulado Carreira Docente de Impacto.”

O grupo Carreira Docente de Impacto, do Instituto de Estudos Avançados da USP, busca aprofundar justamente essa discussão sobre a contribuição social das atividades desenvolvidas nas universidades.

Outra linha de trabalho do pesquisador envolve a otimização de programas de exercício físico e sua possível associação com variantes genéticas. Bueno ressalta, porém, que até o momento não há evidências científicas de que análises genéticas tragam benefícios para o treinamento físico.

“Ainda assim, inúmeras empresas, inclusive brasileiras, vendem isso para as pessoas”, criticou.

Atualmente, o pesquisador vem se dedicando a projetos científicos, inclusive em parceria com a Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo, que utilizam aplicativos móveis para o planejamento, a execução e a avaliação de programas e políticas voltados ao estilo de vida.

“Envolve alimentação saudável, atividade física, saúde mental e qualidade do sono no contexto de instituições e de governos”, explicou. “É voltado para colaboradores de instituições privadas e públicas.”

No âmbito desse projeto, está sendo testado um modelo no qual os próprios colaboradores decidem os temas a serem trabalhados e, por meio de conversas em grupo, elaboram estratégias práticas para responder às demandas identificadas. Essas estratégias são então implementadas e avaliadas.

“São avaliados, com testes validados pela ciência, aspectos comportamentais – como atividade física, saúde mental, alimentação, qualidade de vida – e outras medidas de saúde, como força muscular, capacidade cardiorrespiratória, pressão arterial, glicemia e perfil lipídico”, relatou Bueno.

A finalidade é desenvolver e validar um superaplicativo que possa ser utilizado em empresas e unidades básicas de saúde para ajudar as pessoas a melhorar seu estilo de vida.

“As pessoas respondem quiz sobre o conteúdo, criam grupos de vínculos, registram suas atividades de estilo de vida e conversam com profissionais da saúde. E há sistema de gamificação, com pontos sendo atribuídos a todas essas atividades”, explicou Carlos Roberto.

Estima-se que 75% a 90% das doenças crônicas poderiam ser prevenidas com modificações no estilo de vida. Para Bueno, esse dado evidencia tanto a importância social da prevenção quanto seu potencial para reduzir os custos dos sistemas de saúde.

“É indiscutível a relevância de ações neste sentido para a sociedade, em termos de avanços em bem-estar e financiamento de nossos sistemas de saúde, dado que prevenir é mais barato do que tratar doenças, apesar de, na prática, isso ser muito incipiente.”

O desafio, segundo ele, já não está apenas em produzir conhecimento sobre hábitos saudáveis, mas em encontrar maneiras de transformar esse conhecimento em mudanças concretas na vida cotidiana.

“Em outras palavras, já há muito conhecimento científico de qualidade sobre estratégias para um estilo de vida mais saudável, mas as pessoas não aplicam tais saberes nas suas vidas – é neste desafio que se inserem nossos projetos de pesquisa”, contextualizou o Acadêmico.

Em 2025, Carlos Roberto Bueno Júnior esteve entre os dois primeiros colocados em duas importantes premiações da Universidade de São Paulo: o Prêmio USP de Impacto Social, da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária, e o Prêmio Excelência para Novas Lideranças em Pesquisa na USP, da Pró-Reitoria de Pesquisa e Inovação.

Os reconhecimentos dialogam com uma preocupação que atravessa sua trajetória: fazer com que o conhecimento produzido dentro da universidade tenha consequências concretas para quem está fora dela.

Fora da ciência, o que mais dá prazer a Carlos Roberto Bueno Júnior é estar com a esposa, Larissa, e o filho, Raoni. Gosta também de conhecer novos lugares, embora o turismo convencional não seja exatamente o que mais o interessa.

“Nas viagens, o que mais faz sentido para mim não é conhecer os pontos turísticos, mas sim os costumes do povo tradicional do lugar”, relata.

Também gosta de estar com os amigos e conversar sobre temas profundos. Mas, depois de uma trajetória que passou pela USP, Unifesp, Universidade de Birmingham, Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia e Escola Médica de Harvard, é à simplicidade da infância em Minas Gerais que ele continua retornando.

“Sou muito conectado às minhas origens, curto ficar alguns dias na roça com a família e os amigos, inclusive cozinhando no fogão à lenha”, conta.

Talvez haja uma conexão entre esse retorno às origens e a pergunta que Carlos Roberto carrega desde os tempos do mestrado. Afinal, depois de percorrer universidades e centros de pesquisa no Brasil e no exterior, seu desafio científico continua podendo ser resumido naquela indagação feita pelo segurança Jair: “O que vocês já descobriram aqui que ajuda as pessoas?”

Encontrar formas de transformar essas descobertas em hábitos, políticas e ferramentas capazes de chegar à vida cotidiana é justamente o caminho que Bueno escolheu para tentar respondê-la.

(Elisa Oswaldo-Cruz para ABC | Fotos: DCI Unifesp)