Desvendando o caos de sistemas complexos

Buscar entender como as coisas funcionam é base do que faz qualquer cientista, das Humanas às Exatas. No caso do matemático Douglas Duarte Novaes, esse interesse se manifestava já na infância, quando ele desmontava objetos e brinquedos para entender como cada parte contribuía para o todo, ou quando na escola ele escolhia seguir para o capítulo seguinte ao que estava sendo ensinado em sala de aula, apenas pelo prazer de descobrir algo por conta própria. Hoje ele é pesquisador da Universidade Estadual de Campinas e um dos cientistas mais influentes do mundo de acordo com o ranking da editora científica Elsevier.

Nascido em Santa Bárbara d’Oeste, no interior paulista, Douglas cresceu com as possibilidades oferecidas por uma cidade pequena. As brincadeiras ao ar livre e a exploração dos arredores atiçavam sua curiosidade. Na escola, o talento para as Exatas já se mostrava, e suas disciplinas preferidas sempre foram Ciências e Matemática. As influências se misturavam. A mãe, Maria Luisa era desenhista, mas quando o filho era adolescente ela ingressou numa faculdade em Exatas. O pai, Vlamir, sempre trabalhou como técnico de programação. “Eu me interessava pelos assuntos que minha mãe estudava, tinha curiosidade sobre as disciplinas de sua formação. Foi ela quem me inspirou a seguir carreira em Exatas”, conta.

E assim foi que em 2006 ele ingressou na Licenciatura em Matemática da Unicamp. A escolha aprofundou seu interesse pela área e o apresentou a uma possibilidade que ele não imaginava: ser pesquisador em matemática. Os dois primeiros anos serviram para solidificar essa opção e no terceiro tomou a decisão. “Foi então que procurei uma oportunidade de iniciação científica. A experiência foi muito motivadora: permitiu que eu conhecesse mais de perto o trabalho de pesquisa e reforçou minha vontade de continuar nesse caminho”.

Douglas graduou-se em 2010 e no ano seguinte ingressou no mestrado na Unicamp, sob orientação do professor Marco Antonio Teixeira. Durante essa fase, pesquisou órbitas periódicas em equações diferenciais, quando soluções se repetem de forma idêntica em determinados intervalos de tempo. Já ali dedicava-se a área dos sistemas dinâmicos.

O interesse se aprofundou no doutorado, o qual seguiu sob orientação de Teixeira mas com um adicional, uma experiência internacional na Universidade Autônoma de Barcelona (UAB) sob orientação de Jaume Llibre Saló. “Foi um dos aspectos mais importantes de minha formação, a experiência ampliou meus horizontes acadêmicos e me permitiu construir uma rede de colaboradores que mantenho até hoje. O contato com essas pessoas e perspectivas de pesquisa foi muito valioso ao longo da minha trajetória”, conta.

Douglas obteve o título de Doutor em 2015 e ainda acumularia três experiências pós-doutorais, uma na Unicamp e duas na UAB. Em 2016 ingressou como professor em sua alma mater, Unicamp, onde atua até hoje. Na vida pessoal, é casado com Laís, com quem tem dois filhos, Gael e Sofia.

“Minha pesquisa se concentra no desenvolvimento de ferramentas da Teoria Qualitativa dos Sistemas Dinâmicos, área que estuda como os sistemas evoluem ao longo do tempo. Procuro compreender estruturas geométricas que ajudam a organizar esse comportamento. Algumas delas estão associadas a movimentos periódicos ou quase periódicos; outras podem estar relacionadas ao surgimento de comportamentos caóticos. Também trabalho com sistemas dinâmicos descontínuos, nos quais podem ocorrer mudanças bruscas nas regras que descrevem sua evolução. Para estudá-los, desenvolvo e aplico métodos matemáticos que ajudam a identificar e caracterizar soluções periódicas. Em termos simples, essas ferramentas contribuem para entender os comportamentos que diferentes sistemas podem apresentar”, descreve o pesquisador sobre sua pesquisa.

À indicação para a Academia ele responde com o entusiasmo de quem sempre gostou de aprendizagem contínua. Considera um incentivo para seguir em frente na pesquisa e na formação de novos talentos. “Fazer parte da ABC me dará oportunidades de trocar ideias com pesquisadores de diferentes áreas e conhecer outras perspectivas sobre a ciência brasileira. Espero ampliar minha compreensão dos desafios científicos nacionais e contribuir para as discussões e iniciativas durante esse período”, finaliza

(Marcos Torres para ABC | Fotos: DCI Unifesp)