Ciência para aproximar sociedade e natureza

Viajar, conhecer culturas, lugares e modos de vida diferentes estão entre os maiores interesses de Deborah Santos Prado fora da ciência. Além de sua filha, Teresa, que é com quem ela mais gosta de passar o tempo e, como diz, “descobrir o mundo a partir de novos olhares”.

Nascida em 1988, em Orlândia, no interior de São Paulo, Deborah cresceu em uma cidade pequena, onde teve uma infância com bastante liberdade. Andava de bicicleta, brincava na rua com os vizinhos e passava horas inventando jogos e atividades. A mãe era secretária e o pai, técnico administrativo. Ambos começaram a trabalhar cedo e tiveram menos oportunidades educacionais, mas sempre incentivaram os dois filhos a estudar. Deborah foi a primeira pessoa da família a cursar uma graduação.

Na escola, gostava especialmente de história, geografia, português e biologia. Hoje, olhando para trás, percebe nessa combinação de interesses alguns dos elementos que acabariam convergindo em sua trajetória científica: a curiosidade pelas pessoas, pela sociedade e pelo mundo natural. Uma experiência durante o ensino médio marcou a menina. Em um ciclo de palestras sobre carreiras, conheceu um biólogo que fazia doutorado e pretendia seguir a vida acadêmica, sobre a qual ela não tinha conhecimento. “Para o contexto em que cresci, a possibilidade de me tornar pesquisadora parecia algo distante, mas, ao mesmo tempo, muito inspirador”, recordou Deborah.

Antes mesmo de se encantar pela ciência, ela se interessou pelo próprio ambiente universitário e pela possibilidade de trocar ideias e construir conhecimento. Professores e professoras que aliavam inteligência à capacidade de despertar nos estudantes o interesse pela ciência, pela educação e pela transformação social foram importantes inspirações.

Aos 17 anos, deixou Orlândia para cursar ciências biológicas na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), onde se graduou em 2010. Foi durante a graduação que começou a conhecer mais profundamente o universo da pesquisa e percebeu que a universidade poderia reunir três dimensões que a atraíam: produção de conhecimento, formação de pessoas e contribuição para a sociedade. A carreira acadêmica, então, deixou de parecer uma possibilidade remota e começou a se transformar em projeto de vida.

No último ano da graduação, Deborah fez iniciação científica em um projeto financiado pela Fapesp sobre sistemas produtivos e populações tradicionais do Vale do Ribeira, em São Paulo. O contato com a pesquisa de campo e com realidades sociais e culturais diferentes da sua seria decisivo para os caminhos que seguiria. “Foi nesse período que descobri o quanto me fascinava produzir conhecimento a partir da interação com pessoas e comunidades, conectando pesquisa científica e desafios concretos da sociedade”, relatou.

O trabalho com comunidades tradicionais despertou nela um interesse que permanece até hoje. Ao concluir a iniciação científica, já sabia que queria continuar na pesquisa. Na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), fez mestrado em ecologia, concluído em 2013, com período sanduíche na Universidade de Manitoba, no Canadá. Também na Unicamp, aprofundou a perspectiva interdisciplinar que marcaria sua trajetória, concluindo, em 2019, o doutorado em Ambiente e Sociedade no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Durante essa etapa, realizou período sanduíche na Universidade Autónoma de Madrid, na Espanha, e estágio de pesquisa no Centro de Pesquisa e Documentação da América Latina (Cedla), na Universidade de Amsterdam, na Holanda.

Essas experiências internacionais, assim como a convivência com orientadores, mentores, colegas e parceiros de pesquisa ao longo de sua trajetória ampliaram sua maneira de enxergar a ciência e consolidaram uma convicção: problemas complexos não podem ser compreendidos a partir de uma única área do conhecimento. “Embora minha formação de origem seja em biologia, foi na convergência entre as ciências naturais e sociais que encontrei meu lugar como pesquisadora.”

Essa convergência ganhou ainda mais força nos anos seguintes. Fez dois estágios de pós-doutorado: no primeiro, Deborah integrou o projeto Pesca Artesanal e Conflitos Socioambientais Marinhos (PactoMar/OCEANS-PACT) na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), financiado pela Fapesp e pelo Belmont Forum. O segundo foi realizado na Escola de Meio Ambiente, Recursos e Sustentabilidade da Universidade de Waterloo, no Canadá. Seu projeto era sobre justiça ambiental em territórios de pesca artesanal na América Latina, em colaboração com o projeto internacional Vulnerability to Viability Global Partnership (V2V).

Ao longo dessa trajetória, consolidou sua experiência em temas como governança ambiental de bens comuns, conflitos e justiça ambiental, áreas protegidas e populações tradicionais. Atualmente, Deborah é docente do Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciência e Tecnologia do Mar da Unifesp, no campus da Baixada Santista, e co-coordenadora do hub latino-americano da Sociedade de Sistemas Socioecológicos. Ela procura entender como as pessoas se relacionam com a natureza e como podem ser tomadas decisões mais justas e sustentáveis sobre o uso dos recursos naturais. Boa parte de suas pesquisas envolve comunidades da zona costeira brasileira, especialmente pescadoras e pescadores artesanais, que dependem diretamente do mar e de seus territórios para sua subsistência, sua cultura e a manutenção de seus modos de vida.

Nos últimos anos, a cientista vem investigando conflitos relacionados ao uso desses territórios e buscando maneiras de estimular o diálogo entre diferentes grupos sociais. O objetivo é contribuir para modelos de desenvolvimento que não reproduzam desigualdades sociais e ambientais e que reconheçam os direitos e conhecimentos das populações diretamente dependentes dos recursos naturais.

Para a afiliada da ABC, um dos aspectos mais fascinantes da ciência é justamente sua capacidade de se transformar por meio do debate, da crítica e do questionamento. Essa concepção também orienta seu interesse pela relação entre o sistema científico e outras formas de conhecimento, especialmente os saberes tradicionais e locais de diferentes povos e comunidades. A pesquisadora considera que aproximar essas diferentes maneiras de compreender o mundo é fundamental diante da crise ambiental planetária. “Questões como as mudanças climáticas exigem não apenas abordagens interdisciplinares, mas respostas que sejam socialmente legítimas e capazes de incorporar as experiências das populações diretamente afetadas”, afirmou Deborah Prado.

Eleita membro afiliado da Academia Brasileira de Ciências (ABC) na área de ciências sociais, Prado vê a distinção como um reconhecimento de sua trajetória e como valorização da pesquisa interdisciplinar e transdisciplinar. Na ABC, pretende contribuir especialmente com as pautas socioambientais, estimulando o diálogo entre diferentes áreas e fortalecendo a aproximação entre ciência e sociedade. Também quer colaborar para ampliar a troca entre gerações, aproximando cientistas seniores e jovens pesquisadores em espaços de aprendizado mútuo e construção coletiva do conhecimento.

“Espero que minha trajetória possa mostrar a jovens estudantes, especialmente aqueles que vêm de cidades do interior ou de contextos em que a carreira científica parece algo distante, que a ciência é um caminho possível”, afirma Deborah Prado. E ressalta que ampliar essa diversidade não é importante apenas para quem chega à universidade. É também uma forma de fortalecer a própria ciência: “A produção de conhecimento se fortalece quando reúne pessoas com diferentes experiências, classes sociais, origens e perspectivas.”

 

(Elisa Oswaldo-Cruz para ABC | Fotos: DCI Unifesp)