Juliana Ferreira de Brito gosta de estar rodeada pelos amigos e pela família. É uma ativista de pautas femininas e do espaço das mulheres na ciência. Adora conhecer lugares e culturas – viajar é uma das suas grandes paixões. É paulista, filha de mineiro e pernambucana, uma mistura que a fez entender desde cedo o quanto o Brasil é plural e lindo. Hoje ela tem dois filhos e espera que eles também se encantem com a beleza da ciência e do mundo no futuro.
Nascida no ano de 1988, em São Paulo, capital, onde viveu até os 11 anos, Juliana teve em seu irmão, pouco mais de dois anos mais novo, o principal companheiro de infância. “Não podíamos brincar na rua, então aproveitávamos as garagens dos prédios dos amigos”, contou. Em casa, gostava de livros de passatempos e jogos de tabuleiro. Seu pai era economista e trabalhava no Bank of America, e a mãe era dona de casa. Em 1999, a família se mudou para Três Pontas, no interior de Minas Gerais, onde o pai abriu uma papelaria e a mãe iniciou carreira em advocacia, na qual trabalha até hoje.
Juliana não sabe exatamente quando seu interesse por ciência começou. Era uma criança curiosa, interessada em saber de onde as coisas vinham e como funcionavam. As questões ambientais sempre a preocuparam e ela ouvia falar que os cientistas estudavam soluções para estes problemas. “O programa ‘O Fantástico Mundo de Beakman’ também foi um impulsionador, eu adorava assistir e tinha a sensação de estar recebendo um conhecimento que eu não obteria em outro lugar”, contou a pesquisadora.
No colégio, Juliana sempre teve mais facilidade na área de exatas. De início, adorava matemática; depois, se encantou pela química. Ela tinha muito contato com dois primos mais velhos que faziam engenharia e cursar o ensino superior já era uma decisão tomada. Mas a escolha pela química só se deu no final do ensino médio. “Pensava também em cursar farmácia, para pesquisar formulações de medicamentos. Mas logo descobri que era realmente na química que eu me encaixava. Lembro dos meus pais perguntarem de onde eu tinha tirado essa ideia de cursar química, e eu não tinha uma resposta clara para essa pergunta, a não ser a certeza de que era algo que eu gostava.”
Fez o vestibular e passou para a Universidade Federal de Lavras (UFLA), no mesmo estado, e se mudou para a cidade em 2007. Desde o começo do segundo ano, se envolveu com iniciação científica (IC). Dado o seu interesse prévio pelas questões ambientais, no primeiro ano já havia se informado sobre a possibilidade de fazer IC com uma professora que pesquisava tratamento de resíduos. “Ela me sugeriu fazer a disciplina de Química Analítica Qualitativa primeiro, e assim o fiz. Comecei em seguida a IC com ela”, relatou Juliana. Porém, logo uma veterana a convidou para conhecer o que o grupo de pesquisa dela fazia, porque havia uma vaga. Juliana achou a pesquisa muito diferente e futurista: eles usavam um indutor de adsorção por campo magnético para tratar efluentes contaminados. Ficou interessada e mudou de laboratório, fazendo IC sob a orientação do engenheiro elétrico Joaquim Paulo da Silva, até o fim da sua graduação.
A graduação em uma universidade federal, com um campus grande como o da UFLA, foi ótima para Juliana. “Nosso grupo de pesquisa era extremamente interdisciplinar, a troca de ideias e conhecimento era fantástica, colaborou muito com o meu crescimento”, afirma a Acadêmica. E credita ao professor Joaquim grande participação nesse processo. “Ele foi um impulsionador gigantesco da minha carreira como pesquisadora, foi com ele que eu tive a percepção da imensidão de possibilidades na carreira de um cientista”, reconheceu Juliana.
Graças a um amigo veterano, Juliana Brito foi prestar o mestrado no Instituto de Química da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Araraquara, onde se tornou orientanda da professora Maria Valnice Boldrin. “Tive muita sorte. Ela não mede esforços para dar oportunidades de crescimento aos seus alunos”. Juliana Brito seguiu com a orientadora até o doutorado, tendo feito estágio no exterior em ambas as fases de sua formação.
Durante o mestrado, foi para o laboratório do professor Krishnan Rajeshwar, na Universidade do Texas em Arlington (UTA), nos Estados Unidos. “O professor Raj tem uma enorme disponibilidade para compartilhar conhecimento e unir pessoas. Ele foi muito importante na minha jornada e segue sendo um grande colaborador e amigo”, declarou Juliana Brito.
No doutorado, Brito fez um estágio sanduíche na Universidade de Messina, na Itália, sob orientação da professora Siglinda Perathoner. A seguir, entrou no Laboratório Interdisciplinar de Eletroquímica e Cerâmica da Universidade Federal de São Carlos (LIEC, UFSCar) para um estágio de pós-doutorado sob supervisão da professora Lúcia Helena Mascaro, de 2018 a 2022. Neste período, seguiu fazendo projetos em colaboração com o professor Raj, da UTA, mas a pandemia limitou seus planos de fazer um estágio de pós-doutorado presencial nos EUA. “Foi como eu consegui liberdade para atuar como pesquisadora, graças ao incentivo e disponibilidade da professora Mascaro”, afirmou a afiliada da ABC.
Atualmente, Juliana Ferreira de Brito é professora assistente na Unesp-Araraquara, trabalhando com foco em meio ambiente. Para isso, usa processos que envolvem reações de redução e oxidação, que acontecem obrigatoriamente de forma simultânea, pois para reduzir uma espécie, outra precisa ser oxidada. Porém, estes processos são usualmente estudados de forma isolada, olhando para uma das reações de cada vez.
“No meu caso, o objetivo é estudar sistemas em que seja possível realizar ambas as reações simultaneamente, de forma que possa ser gerado um combustível verde por meio da reação de redução, assim como realizar o tratamento de efluentes reais a partir da reação de oxidação”, explicou a pesquisadora.
Juliana Brito destacou que reações de redução podem ser aplicadas, em especial, para geração de etanol, amônia e H2 verdes, enquanto as reações de oxidação podem ser aplicadas a rejeitos líquidos industriais. “Sendo assim, com a mesma energia empregada para o tratamento de um resíduo, neste sistema simultâneo é possível gerar um composto químico de interesse comercial, minimizando o impacto econômico dos tratamentos ambientais. A energia que eu uso para realizar estas reações vem do sol, atrelado ao desenvolvimento dos catalisadores adequados”, ressaltou a afiliada da ABC.
O que encanta Juliana Brito na ciência é a possibilidade de encontrar respostas, solucionar enigmas e criar coisas novas. “E na minha área, o que me motiva é a possibilidade de melhorar o futuro. Muito do que criamos com a ciência causou efeitos colaterais ao meio ambiente e, consequentemente, a todos nós. Mas será também a ciência que poderá trazer soluções”, acredita a química.
Juliana se sentiu lisonjeada por ter sido indicada e eleita, pois considera que é uma conquista e um reconhecimento da sua contribuição científica. “Como membro afiliado, pretendo atuar de forma dinâmica e propositiva, honrando o papel da jovem liderança científica no país. Pretendo contribuir com debates sobre temas contemporâneos da ciência; realizar divulgação científica e combater a desinformação; atuar na mentoria de estudantes de pós-graduação e graduação, incentivando a carreira científica e promovendo a diversidade; e me disponibilizar como elo entre a minha instituição e a vice-presidência regional da ABC”, garantiu a pesquisadora.
Seu trabalho levou-a a receber o ISE-Elsevier Prize for Green Electrochemistry em 2023. Além da ABC, Juliana é membro afiliado da Academia de Ciências do Estado de São Paulo (Aciesp, 2023-2028) e grantee do Instituto Serrapilheira (2023-2028).