Nascido em 1988, Alisson Ronieri Cadore passou a infância no campo, em uma espécie de vila familiar em Catuípe, pequena cidade de cerca de sete mil habitantes no Rio Grande do Sul. Guarda boas lembranças daquele período, quando se reunia, depois da escola, com amigos e primos para jogar futebol no campinho ou pescar nos rios.
O pai era agricultor e a mãe era professora das séries iniciais na escola da vila. Embora não tivessem cursado o ensino superior, os pais sempre incentivaram Allisson e o irmão mais novo a estudar e buscar oportunidades além da vida no campo, onde eles próprios haviam crescido. “Fui o segundo primo, dentre onze, a fazer faculdade — e o primeiro a seguir mestrado e doutorado”, contou.
Curioso desde criança, queria entender como as coisas aconteciam na natureza. Acredita que seu interesse pela ciência tenha surgido naturalmente, a partir das perguntas que fazia e da descoberta de que era possível procurar respostas para elas. Como sempre gostou de números e tinha facilidade com eles, aproximou-se especialmente das ciências exatas.
“Eu queria ser engenheiro eletricista, atuando em empresas de equipamentos médicos. Por isso, fiz vestibular para engenharia elétrica, em período integral, e física médica, no noturno”, relatou o cientista.
Durante três anos, cursou simultaneamente as duas graduações, até começar a questionar qual caminho deveria seguir. A possibilidade de atuar como professor e pesquisador, na engenharia ou na física, ganhou espaço, enquanto o interesse pela área médica diminuía.
As diferentes experiências de iniciação científica realizadas durante a graduação foram importantes justamente por ajudá-lo a identificar quais caminhos não desejava seguir.
“Eletrônica de potência, hospital universitário na física médica, simulação computacional… Essas experiências serviram para me mostrar o que eu não gostaria de fazer como pesquisador”, contou Cadore.
A virada aconteceu quando conheceu a física experimental. Durante uma Escola de Inverno de Física da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), entrou em contato com um grupo que construía dispositivos eletrônicos e investigava a física associada a eles. Era, segundo ele, a combinação que procurava sem sequer saber que existia.
Voltou ao Sul decidido a abandonar a engenharia e ingressar no mestrado em física assim que concluísse a graduação no Centro Universitário Franciscano, em 2011.
A rotina universitária havia sido intensa, com dois cursos superiores e atividades de iniciação científica ocupando praticamente todo o dia. Cadore destaca que a determinação e, sobretudo, a convivência com os amigos foram fundamentais naquele período.
“Eram longas horas de estudo nos dois cursos superiores e ICs, das 7h30 às 22h40, todos os dias. No final de semana, encontrar os amigos para jogar, assistir futebol, comer uma pizza, tomar uma cervejinha e conversar foi essencial”, reconheceu.
Cadore fez mestrado e doutorado em física na UFMG. Na pós-graduação, outra pessoa passou a ter papel fundamental em sua trajetória: a namorada, hoje sua esposa e mãe do filho do casal.
“Sem ela, eu talvez não tivesse nem passado na seleção do mestrado e teria voltado para o Sul, onde terminaria o curso de engenharia elétrica e seguiria outro caminho. Teria tido um futuro completamente diferente do que é o meu presente”, afirmou.
No mestrado, sob orientação do professor Rodrigo Gribel Lacerda, no Laboratório de Nanomateriais da UFMG, trabalhou no desenvolvimento de sensores de gases baseados em transistores de grafeno.
“Estudei principalmente a interação entre moléculas de hidrogênio (H₂) e oxigênio (O₂) e o transporte eletrônico nos transistores de grafeno”, explicou.
No doutorado, Leonardo Cristiano Campos assumiu a orientação, com Rodrigo Gribel Lacerda como coorientador. Cadore realizou ainda período sanduíche na Universidade da Califórnia em Santa Bárbara, nos Estados Unidos, sob orientação de Andrea F. Young.
Nesse período, participou da montagem, no Brasil, do primeiro sistema de transferência e empilhamento determinístico de materiais bidimensionais no mesmo laboratório em que havia realizado o mestrado.
“Expandi o estudo da interação de H₂ e amônia em transistores de grafeno suportados em isolantes 2D, como o nitreto de boro hexagonal. Conseguimos mostrar que a interação com o H₂ ocorria na interface metal-grafeno, e não no canal de grafeno. Inclusive, patenteamos esse método de detecção seletiva de H₂”, relatou.
Depois do doutorado, Cadore realizou pós-doutoramento durante dois anos e meio no Centro de Grafeno de Cambridge, no Reino Unido. Em seguida, passou um ano no Centro de Pesquisas Avançadas em Grafeno, Nanomateriais e Nanotecnologias da Universidade Presbiteriana Mackenzie (MackGraphe).
Na mesma instituição, foi professor assistente da Escola de Engenharia e pesquisador do MackGraphe por mais um ano.
As experiências contribuíram para ampliar sua inserção internacional e aprofundar o trabalho com materiais bidimensionais e dispositivos em escala nanométrica, área à qual passaria a dedicar sua carreira.
Atualmente, Alisson Cadore é pesquisador pleno do Laboratório Nacional de Nanotecnologia (LNNano), no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas, no interior de São Paulo, e professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Física da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).
Ingressou como pesquisador do LNNano em 2022, mas conhecia a infraestrutura do CNPEM desde 2014, quando utilizava o UVX, fonte brasileira de luz síncrotron de segunda geração.
A proximidade com a instituição também veio por meio da esposa, que foi aluna visitante do LNNano entre 2014 e 2015 e, posteriormente, pesquisadora contratada no antigo UVX, em 2017. “Sempre ouvi falar muito bem da infraestrutura e da capacidade dos pesquisadores do CNPEM”, contou Cadore.
Quando surgiu uma vaga no LNNano compatível com sua área de atuação, decidiu se candidatar e foi selecionado.
Para o pesquisador, a combinação entre infraestrutura científica e a possibilidade de colaboração com especialistas de diferentes áreas faz do CNPEM um ambiente particularmente fértil para o avanço de sua pesquisa em nanoeletrônica. Além de contribuir para a formação de recursos humanos em áreas altamente competitivas internacionalmente, considera que esse ambiente favorece seu próprio amadurecimento científico e a consolidação de sua atuação nas comunidades nacional e internacional.
Como físico experimental, Cadore trabalha na descoberta e aplicação de novos nanomateriais em dispositivos eletrônicos e ópticos ultracompactos, com dimensões de poucos mícrons.
É especialista na fabricação de nanodispositivos optoeletrônicos e heteroestruturas de van der Waals, além de estudar propriedades elétricas e ópticas e aplicações de materiais bidimensionais.
“A ideia principal é buscar nanomateriais naturais e abundantes na natureza e, eventualmente, utilizá-los em tecnologias de baixo custo, porém eficientes”, explicou.
É justamente a possibilidade de descobrir novas propriedades em materiais já conhecidos que está entre os aspectos que mais o fascinam na ciência.
“O que me encanta é a possibilidade de estarmos em constante aprendizado e evolução. Podemos nos reinventar ano a ano, ou projeto a projeto, na busca pela resposta a uma determinada pergunta”, afirmou.
Na área em que atua, esse processo de redescoberta é particularmente evidente. Muitos dos materiais hoje estudados em escala nanométrica já eram conhecidos e investigados nas décadas de 1960, 1970 e 1980 em sua forma volumétrica, ou tridimensional.
“Na escala nano, porém, muitas das propriedades básicas ainda não foram propriamente descritas. Em vários casos, quando esses materiais atingem espessuras ultrafinas, de poucos nanômetros, suas propriedades podem ser completamente diferentes daquelas apresentadas na forma bulk”, explicou.
Cadore considera a eleição como membro afiliado da Academia Brasileira de Ciências um reconhecimento aos anos de dedicação à pesquisa.
“Vejo o título como uma valorização do tempo e da energia que investi na busca pelo novo e por respostas para perguntas que podem contribuir para a sociedade”, afirmou.
Ao mesmo tempo, enxerga a participação na ABC como uma oportunidade de estimular novas gerações a seguir a carreira científica.
“Quero contribuir para incentivar ainda mais jovens estudantes e doutores a se dedicarem à pesquisa científica e à inovação”, destacou.
Fora dos laboratórios, dois interesses ocupam boa parte do tempo livre de Cadore: futebol e cinema. “Quando não estou trabalhando, poderia passar horas e horas envolvido com isso”, contou.
As viagens também se tornaram uma paixão, despertada tanto pela carreira científica quanto pela esposa. Ao longo de sua trajetória profissional, teve a oportunidade de conhecer 22 países e inúmeras cidades, experiências que procura aproveitar não apenas para desenvolver novas colaborações, mas também para conhecer diferentes culturas.
O próprio relato sobre sua trajetória foi concluído durante uma viagem científica à China. “Estou respondendo este questionário diretamente de Xangai, onde vim a convite de um professor para conhecer seu trabalho e iniciar uma colaboração científica. Mas também estou tendo o prazer de entender muito mais da cultura e da culinária chinesas”, contou.
Para Cadore, essa combinação entre curiosidade, descoberta e abertura permanente ao desconhecido — seja em um material de poucos nanômetros, seja em outro país — continua sendo um dos principais motores da vida científica.