Saiba tudo sobre o Simpósio e Diplomação de Membros Afiliados da ABC Norte 2026-2030

O primeiro simpósio regional do ano foi realizado no dia 13 de agosto, na Universidade Federal do Amapá (Unifap), reunindo os cinco novos membros afiliados da Região Norte eleitos para o período 2026-2030. São eles Bruno Tardelli Diniz Nunes, do Instituto Evandro Chagas; Celso Henrique Leite Silva Júnior, do Instituto de Pesquisas Ambientais da Amazônia; Jeane Marcelle Cavalcante do Nascimento e Susana Braz Mota, do Instituto Nacional de Pesquisas Amazônicas, e Rafael Azevedo Baraúna, da Universidade Federal do Pará.

Afiliada em seu último ano de mandato, Giovana Anceski Bataglion foi a cerimonialista da solenidade. Ela abriu o evento destacando que, na ocasião, estavam sendo celebradas não apenas a trajetória e a excelência científica dos pesquisadores que passam a integrar os quadros da ABC, como a força, a diversidade e o crescente protagonismo da ciência produzida na região Norte do Brasil.

A mesa de abertura foi composta pelo vice-presidente da ABC para a região Norte, Adalberto Luis Val (Inpa), a Acadêmica Ima Vieira (MPEG/Finep) e a vice-reitora da Unifap, Ana Cristina Maué Soares.

Ima Vieira, Adalberto Val e Ana Cristina Maué | Fotos: Anderson Ferreira/Águia Drone Fotografia e Imagens Aéreas
Helena B. Nader/Acervo ABC

A presidente da ABC, Helena Bonciani Nader, impedida de comparecer por questões de saúde, enviou um áudio. Ela saudou os afiliados presentes em Macapá e destacou que a escolha da Unifap para o evento traduz a visão da ABC sobre a distribuição da inteligência brasileira. “O Brasil não pode pensar sua ciência a partir de um único centro. O centro também está onde a ciência responde às questões de seu território”, afirmou.

Para Nader, a soberania de um país também depende de sua capacidade de produzir ciência, dominar tecnologias e tomar decisões com base em conhecimento próprio. E o Amapá é um estado no qual algumas das questões científicas mais urgentes de nosso tempo estão presentes de forma concreta: conservação da biodiversidade, mudanças climáticas e emergências climáticas, a saúde das populações, o uso sustentável dos recursos naturais, os direitos das comunidades tradicionais e a construção de alternativas de desenvolvimento com inclusão. “O Brasil necessita de uma ciência verdadeiramente nacional, presente em todas as regiões e capaz de reconhecer a diversidade de experiências e saberes que constitui o país.”

Adalberto Luis Val (INPA/ABC)

Adalberto Val ressaltou que, ao longo do tempo, as assimetrias dentro da academia vão sendo reduzidas, e as regiões Norte e Nordeste vêm sendo valorizadas. “Na Amazônia se produz hoje ciência relevante para o futuro do mundo. Para ampliar o conhecimento científico na região, precisamos transformar imediatamente as historicamente baixas taxas de investimento em ciência e tecnologia na Amazônia em taxas estratégicas, que possam realmente alavancar o desenvolvimento regional. Há uma inclinação em curso. Esperamos que ela avance e se consolide de forma significativa.”

Val abordou um ponto chave: a relação com os ribeirinhos, quilombolas e povos originários que, segundo ele, têm se intensificado e se mostrado muito produtiva. “Os conhecimentos produzidos e não escritos deles mostram muitas vezes caminhos para pesquisas que nunca imaginaríamos, pois têm origem na experiência prática desses brasileiros. Precisamos avançar mais nessa interação, que faz parte da agenda da ABC e deve fazer parte da agenda nacional”, apontou.

Ana Cristina Maué Soares (Unifap)

A vice-reitora Ana Cristina Maué Soares manifestou a satisfação da Unifap em participar do diálogo proposto pela ABC, aproximando a ciência da sociedade, fortalecendo a cooperação entre pesquisadores, instituições e comunidades. “Que esse encontro gere novas ideias, parcerias e ações concretas para o futuro da Amazônia e do nosso país. Enquanto universidade da região, temos o compromisso de produzir conhecimento, formar profissionais e contribuir para a construção de soluções que respeitem o nosso território e nossas comunidades”, declarou.

Para Soares, é importante que os amazônidas, como ela, deixem de ser apenas objeto de estudo para se transformarem em sujeitos do conhecimento. “Historicamente, a Amazônia sempre foi vista pelo olhar do outro, do estrangeiro, observou. Nesse sentido, usou uma frase característica dos movimentos sociais da região: “Nada sobre nós sem nós. Aqui, no extremo norte do Brasil, somos capazes de produzir ciência de qualidade. Então somos nós, papa-chibés [expressão popular do estado do Pará usada para definir um paraense autêntico ou ‘raiz’]; somos nós, indígenas; somos nós, quilombolas; somos nós, caboclos; somos nós, tucujus [expressão popular referente ao jeito de falar, às gírias, às expressões típicas e ao sotaque dos habitantes do estado do Amapá] e todas as outras identidades que compõem a sociodiversidade da Amazônia brasileira que vamos, também, estar pensando a ciência.”

Ima Vieira (MPEG/Finep)

A Acadêmica Ima Vieira, pesquisadora do Museu Paraense Emílio Goeldi e atualmente assessora do presidente da Finep, Luiz Antônio Elias, levou uma mensagem de esperança em função da liberação de uso do Fundo Nacional de Ciência e Tecnologia (FNDCT), descontingenciado em 2023, que colocou recursos na ciência e Tecnologia, inclusive na Amazônia.

“Como a Finep é a secretaria-executiva do Fundo, ela tem grandes perguntas: como usar o fundo para reduzir desigualdades regionais, como distribuir esses recursos de um modo democrático, como fortalecer a ciência e a tecnologia brasileiras?”, questionou Ima. Ela mostrou que, em 2022, 16% dos recursos públicos iam para a região; hoje, chegam a 29%. “Ainda é pouco? É. Temos uma desigualdade histórica em C&T no Brasil, mas estou acompanhando o esforço da maior agência de fomento do país em fazer com que essa desigualdade diminua”, afirmou

A pesquisadora ressaltou que atualmente existe o programa Proinfra regional, programas exclusivos para a Amazônia, para as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, e o Proinfa nacional, no qual as instituições amazônicas também podem concorrer. Com isso, as instituições amazônicas conseguem às vezes o dobro do número de projetos apoiados anteriormente. “O fato de aportar recursos especificamente para a região tem melhorado as condições das universidades e instituições da região. Hoje, todas as instituições locais da área recebem recursos da Finep”, sublinhou.

Ima Vieira tem clareza de que a demanda é muito maior do que a Finep consegue apoiar. Mas o retorno aumentou muito. “No edital para acervos, estamos atendendo a 95% das demandas da Amazônia. No edital do CT-Infra também estamos atendendo a quase 100%”, finalizou.

Os novos membros afiliados fizeram, então, suas apresentações. Saiba mais sobre a trajetória de cada um deles e seus temas de pesquisa nos links abaixo.

Pequenos organismos, grandes problemas
Fascinado pelo mundo microscópico, o biomédico Bruno Tardelli é especialista nos arbovírus, como os da zika, dengue e chikungunya, que pesquisa no Instituto Evandro Chagas, no Pará.

Monitoramento que protege a floresta
Pesquisador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e professor da Federal do Maranhão (UFMA), Celso Henrique Leite Silva Júnior utiliza drones e satélites para monitorar queimadas e desmatamento.

Descobrir e entender a biodiversidade amazônica
Trabalhando no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, Jeane do Nascimento pesquisa os insetos aquáticos, que ajudam a indicar a qualidade da água de rios e igarapés, funcionando como ‘termômetros’ ambientais.

Um cientista que experimenta
Farmacêutico especializado na resistência bacteriana, o professor da UFPA Rafael Baraúna colecionou aprendizados dentro e fora da ciência para encontrar sua vocação.

Contribuindo para a segurança alimentar das populações amazônicas
Atuando no INPA, a bióloga Susana Braz Mota busca compreender os limites de adaptação dos peixes amazônicos às mudanças climáticas e outros estressores ambientais.

 

Celso Henrique, Susana Mota, Rafael Baraúna, Jeane do Nascimento e Bruno Tardelli | Foto: Anderson Ferreira/Águia Drone Fotografia e imagens Aéreas

Cerimônia de Diplomação

Giovana Bataglion (UFAM)

Foi realizada então a entrega dos diplomas e a sessão de fotos. Saudando os novos membros, Giovana Bataglion relatou suas percepções ao longo dos cinco anos como membra afiliada da ABC. “Gostaria de compartilhar com vocês um pouco do significado que esse título pode assumir ao longo dos próximos anos”, apontou.

“Vocês perceberão o prestígio que acompanha o nome da Academia Brasileira de Ciências. Isso aparece de diferentes maneiras, como quando essa conquista é destacada em um parecer de projeto, em uma avaliação acadêmica, em uma indicação ou em outras oportunidades profissionais. Ser eleito membro afiliado da ABC é um reconhecimento de excelência concedido pelos pares em um processo altamente seletivo que pode, sim, representar um importante impulso em nossas carreiras”, afirmou a química da Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

A seu ver, no entanto, o maior valor de pertencer à ABC por cinco anos vai muito além do currículo. “A Academia nos coloca em contato com uma comunidade científica extraordinária. Temos a oportunidade de interagir com outros membros afiliados, jovens cientistas extremamente promissores das mais diferentes áreas e regiões do Brasil. E, ao mesmo tempo, conviver com pesquisadores renomados, membros titulares da Academia, muitos deles referências nacionais e internacionais em suas áreas”, ressaltou Giovana. “Dessas interações surgem conversas, ideias, amizades científicas e, muitas vezes, novas colaborações.”

Sua principal mensagem foi a seguinte: “Para usufruir de tudo isso que a Academia pode proporcionar, é preciso fazer parte da Academia de verdade. E fazer parte significa estar presente. É preciso, algumas vezes, sair do laboratório, interromper um pouco a rotina dos nossos grupos de pesquisa e participar da vida da Academia. Participem dos eventos, participem das discussões, conheçam os outros membros, proponham atividades, aproveitem esses cinco anos”, ressaltou Bataglion.

Ela destacou a participação na Reunião Magna da ABC, realizada anualmente no Rio de Janeiro, tradicionalmente no mês de maio, quando é o aniversário da Academia. “É um evento que reúne pesquisadores de diferentes áreas em torno de temas relevantes e impactantes para a ciência e para a sociedade brasileira. Então, já coloquem a Reunião Magna nas suas agendas.”

Destacou também o Encontro Nacional de Membros Afiliados, bianual ou trienal, um espaço de interação entre jovens cientistas de todo o país, de discussão sobre os desafios da ciência brasileira e de diálogo com lideranças e representantes de instituições e órgãos de fomento. Bataglion ressaltou ainda as transmissões dos eventos da ABC, que ficam todas gravadas no YouTube. “Acompanhar essas discussões nos permite enxergar a ciência para além das fronteiras das nossas próprias áreas de atuação.”

E há ainda outras formas de participação. A ABC publica os Anais da Academia Brasileira de Ciências, um periódico científico de longa tradição, no qual os membros afiliados podem se envolver em diferentes atividades editoriais e como revisores. “Portanto, façam-se presentes na ABC. Vocês conquistaram o direito de estar aqui, agora ocupem esse espaço.”

Bruno Tardelli (IEC)

Recém-diplomado, Bruno Tardelli agradeceu em nome dos novos afiliados. Ele resumiu a honra da afiliação à ABC em dois sentimentos. “O primeiro é gratidão. À Academia Brasileira de Ciências, pela oportunidade de fazer parte desse seleto grupo de cientistas; gratidão pelo reconhecimento da nossa carreira, porque se estamos aqui nesse momento, é porque alguém nos enxergou, indicou nossos nomes e outros nos julgaram aptos a integrar esse seleto grupo. E gratidão aos nossos heróis. Cada um tem os seus heróis profissionais, aqueles que nos seguraram no início das nossas carreiras, nos ajudaram a chegar aonde estamos hoje”. Tardelli referiu-se ainda aos heróis familiares. “Nossos pais, nossos irmãos, nossos filhos, nossas esposas. Sem o apoio deles, não estaríamos aqui.”

O segundo sentimento citado por Tardelli foi o de responsabilidade. “Estou nervoso, confesso a vocês, porque a expectativa é de que demos retorno a essa honraria nos comprometendo, de fato, com as atividades da Academia. Tenho certeza de que contribuir de forma ativa será de muita importância para a nossa jornada profissional.”

Ao longo do evento, foram realizadas duas Palestras Magnas: Ima Vieira falou sobre Ciência, Território e Florestas na Amazônia Ameaçada. Já o Acadêmico Carlos Menck (USP) fez sua apresentação sobre as Estruturas Meneghini” e o tratamento do câncer de mama. 

(Elisa Oswaldo-Cruz para ABC | Foto: Anderson Ferreira/Águia Drone Fotografia e imagens Aéreas)