Livros e filmes de suspense e mistério, séries de investigação e terror, além de documentários, principalmente aqueles relacionados à natureza, à vida selvagem e a grandes descobertas científicas. Essas são as atividades prediletas de Jeane Marcelle Cavalcante do Nascimento, depois da ciência. Mas é claro que a vida ao ar livre é sua maior alegria, fazendo trilhas, conhecendo novos lugares e estando perto da água, seja em rios, cachoeiras ou no mar. Esse é o ponto de convergência entre sua vida pessoal e a profissional, porque foi a curiosidade sobre a natureza que despertou seu interesse pela ciência.
Jeane nasceu em 1988, na cidade de Estância, no estado de Sergipe. Ainda pequena, mudou-se para São Miguel dos Campos, em Alagoas, e quando tinha nove anos a família foi para São Mateus, no estado do Espírito Santo. Suas lembranças são de uma infância feliz, embora na transição para a adolescência tenha havido uma fase de dificuldades financeiras. Ainda assim, Jeane lembra com carinho das amizades e da convivência com as pessoas queridas.
Seu pai era autônomo e tinha o próprio negócio. A mãe se casou muito jovem, tendo interrompido os estudos porque o marido não permitia que ela trabalhasse fora nem continuasse estudando. Cuidava da casa e das três crianças: um menino mais velho, Jeane no meio e uma menina mais nova.
Porém, quando Jeane tinha doze anos, o pai abandonou a família e não deu mais notícias. A menina começou trabalhar como babá e professora de reforço escolar. “Mas minha mãe superou todas as dificuldades. Voltou a estudar enquanto trabalhava como agente de saúde para sustentar a gente, concluiu o magistério e, em seguida, fez faculdade de Serviço Social”, contou a Acadêmica.
A menina sempre foi curiosa. Crescendo em cidades do interior, viveu em contato muito próximo com a natureza, observando animais, plantas, rios e o ambiente ao seu redor. Essa vivência estimulou em Jeane, desde cedo, a vontade de entender como a vida funciona e como tudo está conectado.
Na escola, as aulas de ciências eram as que mais lhe interessavam, principalmente no ensino médio, quando falavam sobre evolução, diversidade da vida e descobertas científicas. “A ideia de que ainda existiam tantas coisas desconhecidas no mundo me fascinava”, conta a Acadêmica. Jeane recorda a importância dos professores dessa fase na sua trajetória, dado que a paixão com que ensinavam ciências e a forma como incentivavam a curiosidade e a busca pelo conhecimento foram suas primeiras referências na área.
Além disso, Jeane era ávida leitora e passava muito tempo na biblioteca da escola. Nesse período, começou a conhecer a história de grandes cientistas e o impacto que suas descobertas tiveram no mundo. “Duas figuras que sempre me inspiraram foram Marie Curie e Charles Darwin. Ela, pela perseverança, inteligência e coragem de ocupar espaços que, na época, eram quase impossíveis para as mulheres. E Darwin porque suas ideias sobre evolução aguçavam minha curiosidade sobre a diversidade dos seres vivos, aliadas ao fascínio que eu sentia pelas viagens que ele fazia ao redor do mundo”, relembra Jeane.
À medida que foi crescendo, o interesse espontâneo da menina apenas se fortalecia. Enquanto os colegas mudavam constantemente de ideia sobre profissão, Jeane sempre teve absoluta convicção do que queria. Seu processo de escolha pela biologia, portanto, aconteceu de forma muito natural. “De certa forma, era um sonho de infância, mas foi amadurecendo junto comigo até se transformar em profissão”, avaliou.
Desde que começou o curso de ciências biológicas na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Jeane Nascimento participou de projetos de iniciação científica (IC). “Na verdade, foi logo nas primeiras semanas da faculdade que eu descobri a área com a qual trabalho até hoje”, contou a pesquisadora. Ao assistir a uma palestra sobre taxonomia, morfologia e biologia de insetos aquáticos, ministrada pelo professor Frederico Falcão Salles, ela ficou completamente encantada com aquele universo que, até então, desconhecia. “Lembro que aquela palestra despertou em mim um sentimento muito forte de pertencimento, como se eu finalmente tivesse me encontrado. No dia seguinte, fui até o laboratório do professor pedir uma oportunidade de estágio”, contou.
Descobrir o mundo dos insetos aquáticos, da taxonomia e da biodiversidade foi definitivo na trajetória de Jeane Nascimento, porque ali começou sua relação com a pesquisa científica e com a entomologia. Embora pudesse parecer uma especialização precoce para alguém que estava apenas começando a faculdade, ela diz que nunca se arrependeu. “A partir daquele momento, abracei a entomologia e essa escolha passou a fazer parte da minha vida”, avaliou.
A empolgação e o amor pela ciência do seu orientador, professor Frederico Salles, foram uma inspiração para Jeane Nascimento. A convivência no laboratório, os trabalhos de campo, as disciplinas e as descobertas constantes confirmavam que ela havia feito a escolha certa. Mas, sem dúvida, a circunstância que determinou desenvolvimento da carreira da bióloga foi a oportunidade de conhecer a Amazônia, no último ano da graduação. “O impacto da biodiversidade amazônica, da grandiosidade dos rios e da riqueza biológica da região foi tão forte que decidi que ali era onde eu queria fazer minha pós-graduação”, relatou Nascimento.
Iniciou o mestrado, seguido pelo doutorado, no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), sob orientação da Acadêmica Neusa Hamada, cuja excelência científica, liderança e compromisso com a formação de novas gerações de pesquisadores fazem dela, até hoje, uma das maiores inspirações acadêmicas de Jeane e um dos principais referenciais em sua formação científica.
Este período, em suas palavras, foi o mais intenso e feliz da sua vida acadêmica. “Foram anos de muito aprendizado, viagens, trabalhos de campo, disciplinas, congressos, visitas a museus, pesquisas e capacitações em diferentes metodologias. Também tive a oportunidade de conhecer pesquisadores incríveis e construir colaborações e amizades que mantenho até hoje”, declarou Nascimento. Ela acrescenta que nessa fase aprendeu a valorizar a extensão e a formação de novos estudantes, entendendo a importância do diálogo da ciência com a sociedade, de modo a contribuir, de fato, para a transformação de realidades.
Atualmente, Jeane do Nascimento é pesquisadora adjunta do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), onde coordena o Programa de Pós-Graduação em Entomologia. Sua pesquisa é voltada para a descoberta e o entendimento da biodiversidade, especialmente dos insetos aquáticos. Grande parte do seu trabalho envolve descobrir e descrever espécies novas para a ciência, já que ainda existem muitos organismos, principalmente na Amazônia e em outras regiões do Brasil, que nunca foram estudados. “Eu tento entender quem são esses organismos, onde vivem, como surgiram e qual é o papel deles na natureza”, resume a Acadêmica.
Esse tipo de pesquisa tem aplicações muito importantes, de acordo com Jeane. “Os insetos aquáticos, por exemplo, ajudam a indicar a qualidade da água de rios e igarapés, funcionando como ‘termômetros’ ambientais. Quando determinadas espécies desaparecem ou mudam de lugar, pode ser um sinal de impacto ambiental, poluição ou alterações no ecossistema”, explicou a cientista. Assim, estudar a biodiversidade também contribui para a conservação da natureza, para o monitoramento ambiental e para entendermos melhor a enorme riqueza biológica que existe no Brasil.
Além da pesquisa, Nascimento também se dedica à popularização da ciência. “Acredito que o conhecimento científico precisa chegar às pessoas de forma acessível e despertar a curiosidade, principalmente em crianças e jovens. Por isso, participo de atividades de divulgação científica, ações educativas e projetos de extensão que buscam aproximar a sociedade da ciência e mostrar a importância da biodiversidade e da conservação ambiental no nosso dia a dia”, relata a bióloga. “Isso é importante para a formação crítica da sociedade e no incentivo às futuras gerações de cientistas.”
Ela também é autora de livros infanto-juvenis voltados para a divulgação científica e a popularização da ciência, incluindo obras traduzidas para línguas indígenas. “Esse é um trabalho que considero muito especial, porque amplia o acesso ao conhecimento científico e permite dialogar com diferentes públicos e culturas”, apontou Nascimento.
Jeane do Nascimento acha fascinante o fato de a ciência estar sempre em construção. “Cada pergunta respondida acaba gerando muitas outras. Gosto de pensar sobre o tanto que ainda há para conhecer sobre a vida na Terra. Além disso, gosto muito da conexão entre a pesquisa de biodiversidade e a conservação ambiental, porque conhecer as espécies é o primeiro passo para protegê-las”, destacou Nascimento.
Sobre o título de membro afiliado da ABC, Nascimento diz que foi uma grande surpresa. “Sinceramente, eu não esperava receber esse reconhecimento e acho que nem nos meus melhores sonhos imaginaria me tornar membro afiliado da Academia Brasileira de Ciências. Quando recebi a notícia, fiquei muito emocionada, porque esse título representa um reconhecimento da minha trajetória científica e de todo o amor, dedicação e esforço que venho colocando na ciência ao longo dos anos”, declarou a bióloga.
Para alguém que veio do interior, estudou em escola pública e construiu sua trajetória acadêmica com muito esforço e paixão pela pesquisa, esse reconhecimento tem um significado ainda mais especial: ser uma prova viva de que o estudo tem o poder de mudar realidades e vidas. “Também simboliza a importância da ciência produzida na Amazônia”, destacou.
Jeane do Nascimento vê a afiliação à ABC não apenas como um reconhecimento, mas também como uma responsabilidade e uma forma de retribuir à sociedade tudo o que recebeu ao longo da sua formação. Ela pretende atuar junto à Academia contribuindo especialmente na sua área e em divulgação científica, assim como atuar de forma alinhada aos objetivos e às prioridades da Academia, fazendo o que estiver ao seu alcance para fortalecer a ciência brasileira, a formação de novos pesquisadores, a defesa da educação e a valorização da produção científica nacional.