
“A floresta não pode esperar. E a ciência feita na Amazônia tampouco.” Com essa mensagem, a ecóloga e Acadêmica Ima Vieira, pesquisadora do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), em Belém do Pará, e assessora da Presidência da Finep, encerrou sua palestra magna durante o Simpósio e Diplomação dos Membros Afiliados da ABC da Região Norte 2026-2030, realizado em 13 de agosto, na Universidade Federal do Amapá (Unifap), em Macapá.
Membro titular da Academia Brasileira de Ciências (ABC), Vieira apresentou a conferência “Ciência, Território e Florestas na Amazônia Ameaçada”, na qual reuniu dados sobre mudanças climáticas, perda de biodiversidade, desmatamento, degradação e fogo, além de destacar a importância dos territórios protegidos, dos conhecimentos tradicionais e do fortalecimento das instituições científicas amazônicas.
Uma floresta cada vez mais próxima do limite
Segundo Ima Vieira, a Amazônia deixou de ser apenas vítima das mudanças climáticas. Em partes da região, já começa a contribuir para o agravamento do problema. “No leste da região ela já emite mais carbono do que absorve. O limiar perigoso é a soma de aquecimento com desmatamento acumulado, e evitar essa combinação está ao alcance desta geração”, alertou.
Isso porque as duas principais variáveis que determinam a proximidade desse limiar — as emissões globais e o desmatamento regional — são de origem antrópica. Isso significa que ainda existe uma janela de ação para alterar essa trajetória.
O cenário, contudo, exige urgência. De acordo com os dados apresentados, 18% da floresta original já foi perdida, proporção que chega a 31% no leste do bioma. Em 2024, foram registrados 36.379 km² de florestas degradadas, o maior nível em 15 anos, e 15,6 milhões de hectares queimados, a maior área da série histórica iniciada em 1985.
“Nenhuma dessas ameaças atua isolada. É a soma delas que produz o risco sistêmico”, explicou Vieira.

Muito ainda permanece desconhecido
Apesar da importância da biodiversidade amazônica, enormes parcelas da região continuam praticamente desconhecidas pela ciência. Estima-se que existam cerca de 16 mil espécies de árvores na Amazônia, mas os herbários da região reúnem apenas 530 mil registros dessas espécies.
Segundo Vieira, a Amazônia pode ter três vezes mais espécies vegetais do que aquelas atualmente conhecidas, enquanto 40% da região nunca foi estudada em campo. As coleções científicas também apresentam forte viés geográfico, concentrando-se nas proximidades de cidades, rios e estradas. “Um dos casos mais preocupantes está no sudeste do Pará, onde uma das maiores lacunas de conhecimento florístico coincide justamente com forte pressão de desmatamento e fogo”, apontou a ecóloga.
A velocidade da produção do conhecimento também não acompanha a da perda de biodiversidade. “No ritmo atual, seriam necessários cerca de 770 anos para avaliar o risco de extinção de toda a flora amazônica. São necessárias cerca de 462 avaliações por ano e fazemos 25 vezes menos do que isso. Assim, 85% da flora brasileira ainda não tem avaliação de risco de extinção”, apontou a Acadêmica.
Secas extremas e perda de resiliência
“O clima amazônico saiu da variabilidade conhecida”, afirmou Vieira. A região enfrentou secas extremas em 2005, 2010, 2015, 2016, 2023 e 2024, ao mesmo tempo em que a estação seca se tornou mais longa.
O problema, explicou, é que os eventos extremos passaram a ocorrer antes que os ecossistemas tenham tempo suficiente para se recuperar. Desde o início dos anos 2000, dados de satélite já detectam perda de resiliência em grande parte da bacia, expressa pelo aumento do tempo necessário para a floresta se recompor após perturbações.
A seca hidrológica de 2023 e 2024 foi a mais severa já registrada. Em outubro de 2024, o rio Negro, em Manaus, chegou a 12,11 metros, a menor cota em 122 anos de medições. Os rios Solimões, Madeira, Tapajós e Xingu também registraram mínimas históricas em diversas estações.
“A seca hidrológica não é apenas um indicador climático. É ruptura de mobilidade, de abastecimento e de pesca”, ressaltou.
O enfraquecimento do sumidouro de carbono
Outro sinal de alerta é a redução da capacidade da floresta de retirar carbono da atmosfera. “O sumidouro de carbono está enfraquecendo”, afirmou Vieira.
Segundo a pesquisadora, trata-se de um processo de longo prazo: a capacidade de absorção de carbono das florestas maduras vem diminuindo desde a década de 1990, enquanto a mortalidade de árvores supera progressivamente os ganhos decorrentes do crescimento.
O fenômeno não ocorre de maneira uniforme. O sudeste da Amazônia já funciona como fonte líquida de carbono, em consequência da combinação entre desmatamento, fogo e prolongamento da estação seca.
“Um sumidouro que enfraquece transfere para a mitigação global o esforço que a floresta absorvia sem custo e reduz a margem de qualquer trajetória compatível com 1,5 °C”, alertou a ecóloga.
Quando o fogo transforma a floresta
A degradação é outro componente fundamental dessa equação. Vieira destacou que 38% da floresta remanescente está degradada e que as emissões decorrentes desse processo são comparáveis às provocadas pelo próprio desmatamento.
Embora o fogo em floresta úmida dependa de ignição humana, são as condições de seca extrema que determinam sua capacidade de propagação. Em 2024, a formação florestal foi a classe de vegetação nativa mais atingida pelo fogo.
“O desmatamento foi de 5.731 km² no ano Prodes de 2025, o menor em onze anos, mas é o passivo acumulado que define o risco sistêmico”, ponderou.
Os incêndios sucessivos também alteram profundamente a composição da floresta. Após dois episódios de fogo, uma floresta deixa de apresentar características de floresta madura. A participação de espécies pioneiras passa de 26% para mais de 50% dos indivíduos adultos, enquanto o dossel perde quase dois terços de suas espécies.
Mesmo quando o número de plântulas não diminui, sua composição muda: espécies pioneiras de vida curta aumentam 178%, espécies tolerantes à sombra caem 31,6% e aquelas dependentes de animais dispersores diminuem 27%.
O banco de sementes do solo tampouco é suficiente para garantir a recuperação: três espécies pioneiras representam mais de 80% das sementes. Sem florestas próximas e sem fauna dispersora, explicou Vieira, torna-se necessária a restauração ativa.
Amazônia oriental concentra vulnerabilidades
A combinação entre aquecimento e desmatamento amplia drasticamente o risco de transformação da floresta. Segundo os dados apresentados pela Acadêmica, considerando apenas o aquecimento global, cerca de 35% da floresta estaria sujeita a processos de transição. Quando o desmatamento é incorporado à equação, essa proporção chega a 77%.
A vulnerabilidade, entretanto, varia conforme a região fitogeográfica. As formações mais ameaçadas estão concentradas principalmente nas bordas leste e sul da bacia.
“A Amazônia oriental é a fronteira mais exposta”, sintetizou Vieira.
Territórios protegidos sustentam a floresta
Ao abordar a dimensão territorial da crise, Vieira destacou que 49% do bioma está sob áreas protegidas, incluindo 23,1% em terras indígenas. Ao mesmo tempo, existem aproximadamente 60 milhões de hectares de florestas públicas não destinadas, áreas onde ocorre cerca de 30% dos incêndios.
Outros 300 mil km² de terras públicas estão inseridos em áreas consideradas prioritárias para conservação. Segundo os dados apresentados, seriam necessários cerca de US$ 226 milhões em três anos para destinar e proteger essas áreas.
A pesquisadora contrapôs uma visão de “mercados verdes”, baseada prioritariamente na captura de biorrecursos, mercados de carbono e tecnologias intensivas em capital, a uma perspectiva que reconheça os territórios como espaços de vida e produção de conhecimento.
Segundo Vieira, ao menos 35% das florestas intactas estão em territórios indígenas, onde as taxas de desmatamento são sistematicamente menores. São áreas sustentadas por milênios de coevolução entre povos e natureza, associadas a economias diversificadas e intensivas em trabalho.
O impacto das mudanças climáticas, ressaltou, chega primeiro justamente às populações que dependem diretamente dos rios. Níveis extremamente baixos isolam comunidades, interrompem o transporte de alimentos e combustíveis, provocam mortandade de peixes e podem deixar cidades cobertas por fumaça durante semanas.
“Temos 8.000 plantas endêmicas em risco e conhecimento tradicional ameaçado de silêncio irreversível”, alertou.
Ciência amazônica ainda é subfinanciada
Para Vieira, enfrentar essa realidade exige também corrigir a desigualdade na distribuição dos recursos científicos brasileiros. Entre 2016 e 2022, apenas 10% do orçamento federal destinado à pesquisa em biodiversidade foi direcionado a instituições amazônicas.
A região concentra somente 12% dos pesquisadores de pós-graduação em biodiversidade do país — 329 de um total de 2.744. Em 2022, foram titulados menos de cinco doutores para cada 100 mil habitantes na Amazônia, diante de uma média nacional de 8,7.
Para a Acadêmica, não é possível sustentar um mapa do caminho florestal global sobre uma estrutura científica regional subfinanciada. Os compromissos climáticos internacionais se traduzem em demandas concretas por monitoramento por satélite, verificação de emissões, modelagem de carbono e biomassa e conhecimento sobre biodiversidade.
“Tudo isso depende de gente formada e fixada na região”, ressaltou.
Cinco prioridades para uma agenda amazônica
Ao concluir a palestra, Ima Vieira apresentou cinco prioridades para estruturar uma agenda para a Amazônia.
A primeira é “descrever antes de perder”, direcionando inventários científicos especialmente para regiões onde as lacunas de conhecimento florístico coincidem com as maiores pressões de desmatamento. Isso exige novas ferramentas, mas também a formação de novos taxonomistas.
A segunda é zerar o desmatamento e considerar onde ele ocorre. Segundo Vieira, a perda de floresta no leste amazônico produz efeitos desproporcionais, inclusive por atingir uma região estratégica para o transporte de umidade.
A terceira prioridade é restaurar em escala e com base científica, adotando uma abordagem de restauração biocultural na recuperação de 12 milhões de hectares de vegetação nativa e 15 milhões de hectares de pastagens degradadas.
A quarta é integrar o manejo do fogo à manutenção dos sistemas de monitoramento, especialmente nos municípios mais críticos. Séries históricas e instrumentos como Prodes, Deter, torres de fluxo e alertas hidrológicos são fundamentais para compreender as transformações em curso e orientar políticas públicas.
Por fim, Vieira defendeu “fazer ciência com os territórios”, reconhecendo o conhecimento tradicional como dado estratégico e assegurando aos seus detentores o direito à coautoria, em vez de tratá-lo apenas como uma contribuição metodológica.
Diante de uma região em rápida transformação e de uma janela de ação cada vez mais estreita, a cientista encerrou retomando a urgência que atravessou toda a conferência:
“A floresta não pode esperar. E a ciência feita na Amazônia tampouco.”