O DNA é a molécula-base da nossa vida. Ele contém as informações necessárias para construirmos as proteínas que nos moldam, bem como a capacidade de replicação que nos permite crescer e reproduzir. É dessa forma que envelhecemos, mas também é dessa forma que, através da replicação descontrolada de células, tumores se formam. Entender a fundo como a síntese de novas moléculas de DNA funciona é, portanto, uma forma de entender esses processos e criar alternativas terapêuticas.

Em 1976, quando o conhecimento humano sobre o DNA tinha pouco mais de duas décadas, um químico brasileiro primeiro descreveu um processo importante da replicação. O membro titular da Academia Brasileira de Ciências (ABC) Rogério Meneghini, através de experimentos relativamente simples com células humanas, mostrou que lesões na molécula original geravam lacunas no DNA em replicação. “Por isso eu proponho batizar as estruturas que formam essas lacunas como ‘estruturas Meneghini’”, sugeriu o biólogo Carlos Menck, Acadêmico e discípulo do professor Meneghini, em palestra magna durante o Simpósio e Diplomação dos Novos Afiliados ABC para a Região Norte.
A orientação de Meneghini foi a introdução de Menck à bioquímica e à genética, e ele logo se apaixonou. Hoje, meio século depois, o professor segue trabalhando com reparo de DNA. Entre seus focos estão as lesões causadas no DNA pela radiação ultravioleta, que podem levar ao câncer. “Em 2010, nosso grupo identificou, com uma nova tecnologia adaptada daquela usada pelo Meneghini, que o ultravioleta gerava as mesmas lacunas que ele havia identificado. Escrevi para ele, 40 anos depois, ‘acho que finalmente concluí minha tese!’”, lembra.

Sob a liderança de Menck, a nova tecnologia demonstrou que as “estruturas Meneghini” estão relacionadas à causa, e também ao tratamento, do câncer mama. A ideia central é inibir os mecanismos naturais das células tumorais de corrigir essas lacunas, levando à morte celular. Técnicas assim já foram usadas, com sucesso, em pacientes com predisposição herdada para esse tipo de câncer. “Hoje já estamos trabalhando em novas adaptações técnicas do trabalho realizado por Meneghini, de forma mais sensível e que poderão nos ajudar a entender esses processos e servir para diagnóstico, através da coleta de sangue, da presença de tumores nessas pacientes”, conjecturou Menck.
Em suma, uma tecnologia brasileira desenvolvida há 50 anos permitiu identificar as lacunas no DNA em replicação e trabalhar possíveis aplicações concretas para o tratamento médico. “A descoberta das ‘estruturas Meneghini’ é produto da ciência básica brasileira, com importante impacto na saúde humana”, finalizou o Acadêmico.
Assista à palestra entre 5h55m e 6h16m do vídeo abaixo: