Susana Braz Mota nasceu em 1991, em Manaus (AM), no coração da Amazônia, cercada pela riqueza dos ambientes naturais da região. Ela e a irmã eram inseparáveis e passavam horas correndo, jogando bola e inventando formas de explorar o mundo ao redor.
Na escola, suas matérias preferidas eram biologia, geografia e história. Era nessas aulas que ela encontrava sentido para muitas das perguntas que já a acompanhavam desde cedo, satisfazendo sua curiosidade genuína pela vida e pela natureza.
Susana foi criada pela mãe, que foi seu grande exemplo de determinação e responsabilidade. “Ela veio de uma família humilde, e desde os oito anos já sabia que queria tocar violão. Tornou-se professora de música, formada em educação artística pela Universidade Federal do Amazonas”, contou Susana. Conciliar a maternidade com a construção de uma carreira foi um tremendo desafio, mas a mãe enfrentou tudo com coragem e dedicação admirável, de acordo com a filha. “Ela foi meu principal exemplo de força e resiliência. Com ela aprendi que sonhar exige coragem, mas realizar exige persistência.”
Ainda na infância, visitava o Bosque da Ciência, dentro do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), em atividades escolares e passeios com a família. Susana tem uma lembrança muito viva de ter menos de oito anos e, ao passar de carro em frente ao INPA, dizia que um dia ainda iria trabalhar lá – mesmo sem saber exatamente o que era a instituição. “Esses momentos despertavam em mim curiosidade e encantamento pela natureza amazônica”, conta a Acadêmica.
No ensino fundamental, Susana participou do projeto de extensão “Clube de Ciências”, da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). A iniciativa levava estudantes para dentro da universidade, onde tinham contato com experimentos, microscópios e diferentes formas de investigação científica. “Lembro com muita clareza da primeira vez que observei uma célula ao microscópio, foi uma experiência marcante. Foi ali que me apaixonei pela ciência e pela possibilidade de fazer pesquisa. Mas tarde, já na graduação, fui professora nesse mesmo projeto.”
Ao concluir o ensino médio, Susana Braz foi aprovada nos vestibulares para engenharia química e para ciências naturais, na UFAM. “Optei por ciências naturais, por ser a área com a qual eu tinha maior afinidade e curiosidade. Eu queria experimentar, investigar, entender como as coisas funcionavam”. Desde o início da graduação, Susana Braz já tinha clareza de que queria seguir a carreira acadêmica. A possibilidade de fazer pesquisa, construir conhecimento e contribuir para a ciência sempre foi o que mais a motivou – e continua sendo. “Quero produzir conhecimento que ajude a enfrentar alguns dos grandes desafios ambientais da Amazônia e contribua para transformações concretas na sociedade”, apontou a cientista.
Depois de concluir o curso, em 2014, fez outra graduação, em ciências biológicas, que concluiu em 2018. Ainda no primeiro ano da faculdade, iniciou um estágio de iniciação científica no Laboratório de Ecofisiologia e Evolução Molecular do INPA, sob orientação da professora Vera Maria Fonseca de Almeida-Val. Essa experiência, segundo ela, foi decisiva para consolidar sua vocação científica. O contato direto com a rotina de laboratório, o desenvolvimento de projetos, as coletas de campo e a participação em eventos científicos consolidaram seu interesse pela pesquisa e pela carreira acadêmica. “Foi nesse momento que compreendi, de forma concreta, o que significa produzir conhecimento científico, e tive certeza de que era esse o caminho que eu queria seguir”, reiterou Braz.
Assim, fez o mestrado e o doutorado em ciências biológicas pelo Programa de Pós-Graduação em Biologia de Água Doce e Pesca Interior (PPG-BADPI) do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA). “O que mais me marcou nessa fase foi o amadurecimento científico construído de forma contínua, a partir das experiências que vivi integrando experimentos de laboratório e estudos de campo”, destacou Braz. Ela ressaltou que teve a oportunidade de conviver com diferentes pesquisadores, laboratórios e linhas de investigação, o que ampliou seu olhar sobre a ciência e fortaleceu sua formação. “As experiências de campo na Amazônia, em particular, foram fundamentais para compreender a complexidade dos sistemas naturais e a importância de integrar teoria e prática. Nesse percurso, a orientação de pesquisadores experientes teve um papel essencial, especialmente no início, quando aprendi não apenas técnicas e conceitos, mas também o rigor, a ética e a responsabilidade envolvidos em fazer ciência”, declarou Susana Braz.
Hoje, Susana atua como pesquisadora de pós-doutorado no INPA, onde também é docente credenciada do Programa de Pós-Graduação em Biologia de Água Doce e Pesca Interior (PPG-BADPI), formando novos pesquisadores e desenvolvendo estudos sobre a vulnerabilidade da biodiversidade amazônica às mudanças ambientais. É membra da Sociedade Brasileira de Ictiologia (SBI) e membra da Fisheries Society of the British Isles (FSBI).
Nos últimos anos, sua pesquisa ganhou destaque por contribuir para compreender como secas extremas, ondas de calor e outros eventos associados às mudanças climáticas podem comprometer a sobrevivência de espécies amazônicas. “Estudo até que ponto esses animais conseguem resistir, o que acontece no corpo deles quando essas condições se tornam extremas, desde alterações no metabolismo até danos em tecidos e órgãos”, explicou a Acadêmica.
Compreender os limites fisiológicos dos peixes amazônicos permite identificar quais espécies são mais vulneráveis às mudanças climáticas e à poluição, fornecendo informações importantes para conservação, manejo pesqueiro e segurança alimentar das populações que dependem desses recursos. Ao entender os limites de tolerância dos peixes e os impactos das mudanças climáticas e da poluição, é possível desenvolver estratégias para protegerE as espécies mais vulneráveis. Além disso, esse conhecimento também pode contribuir para a gestão dos recursos pesqueiros e para a segurança alimentar das populações que dependem desses peixes, aproximando a ciência das necessidades reais da sociedade.
Para Susana Braz, a ciência permite fazer perguntas sobre o mundo e, ao mesmo tempo, construir caminhos rigorosos para buscar respostas. “É um processo contínuo de descoberta, mas também de humildade – quanto mais aprendemos, mais percebemos o quanto ainda há para entender.”
Na sua área, o que mais a fascina é a complexidade das relações entre os organismos e o ambiente. Ao mesmo tempo, há um senso de urgência. A Amazônia está passando por transformações rápidas, e entender esses processos não é apenas uma questão científica, mas também uma responsabilidade. “É isso que me move: a possibilidade de produzir conhecimento que não apenas explica o mundo, mas que também contribui para preservá-lo e torná-lo um lugar melhor para os que nele habitam”, afirmou a pesquisadora.
Susana Braz recebeu o título membro afiliado da Academia Brasileira de Ciências com senso de responsabilidade e compromisso com a ciência brasileira. Ela ressaltou que mais do que um título, vê essa afiliação como uma oportunidade. “Vejo a Academia como um espaço fundamental de articulação entre ciência e sociedade, e pretendo contribuir para ampliar a visibilidade da ciência produzida na Amazônia, valorizando o papel de cientistas que vivem e trabalham na região”. Braz se interessa em fortalecer ações de divulgação científica, aproximando a ciência do público jovem e incentivando novas gerações a seguirem carreira científica. “É uma oportunidade de atuação coletiva, diálogo e construção de uma ciência mais representativa, conectada com os desafios do país e com a realidade das diferentes regiões do Brasil”, declarou Susana Braz.