Pequenos organismos, grandes problemas

“O animal mais letal do mundo não é a cobra, nem o tubarão, mas o pequenino mosquito”. É com esse lembrete que o biomédico Bruno Tardelli Diniz Nunes, novo membro afiliado da Academia Brasileira de Ciências (ABC), qualifica a importância da sua pesquisa. Mas Bruno não é entomólogo, como chamamos os cientistas que estudam insetos, seu foco é um organismo ainda menor, que de tão pequeno alguns nem consideram ser vivo. Estamos falando dos vírus, em especial aqueles transmitidos por insetos, os arbovírus.

O interesse pelos seres vivos se manifestou desde cedo. Criança introvertida e observadora, Bruno sempre gostou de animais. A infância não teve lugar fixo, por conta do emprego do pai, o que complicava a construção de laços. Bruno viveu em Salvador, Manaus, João Pessoa, Aracaju, Fortaleza, Recife e Goiânia antes de chegar à adolescência. No meio de tantas mudanças, uma coisa permanecia, as férias se passavam no interior do Rio Grande do Norte, na casa dos avós. “Eu passava a maior parte do tempo no quintal com as galinhas”, conta o Acadêmico.

Fascinado pelas aves, Bruno convenceu os pais a criar periquitos-australianos. Entre galinhas e periquitos, o jovem ia desenvolvendo um olhar apurado, reparando nos detalhes, como as cristas e as cores das penas, e como diferentes cruzamentos refletiam nas características dos filhotes. Nessa época ele ainda não havia ouvido falar de Gregor Mendel, conhecido como o “Pai da Genética” por seus experimentos com ervilhas, que permitiram à humanidade desvendar os segredos da hereditariedade. “Quando comecei a estudar genética, fiquei apaixonado por como Mendel conseguiu obter conclusões através da simples observação”.

Essa introdução se deu no ensino médio, que Bruno cursou no atual Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN). Empolgado com a biologia, o jovem aprendeu a velha fórmula de classificação dos seres vivos nos cinco reinos biológicos. Mas alguns organismos não se encaixavam em nenhum reino, e isso era fascinante. “Eram os vírus, seres que existiam no limite da vida, que dependiam de outros para sobreviver e reproduzir, que eram basicamente informações genéticas embrulhadas num pacote de proteínas. Infelizmente eu perdi a melhor aula sobre vírus porque peguei catapora, uma doença viral”, lembra.

Essa ironia não o impediu de aprender mais sobre eles. Autodidata, corria atrás de tudo que podia ler sobre os vírus, devorando as reportagens que encontrava nas bancas. Certa vez, lendo a Scientific American, descobriu a existência de um vírus capaz de reativar a maquinaria de uma célula morta, ressuscitando-a em seu favor. “Um vírus zumbi!”, pensou Bruno, deixando sua veia nerd falar mais alto. “Aquilo me fez decidir ser cientista e pesquisar os vírus”.

A opção óbvia para graduação era o curso de biologia, mas a decisão não agradou aos pais, preocupados com o futuro financeiro do filho. Sua mãe relutava, queria que o filho fizesse medicina, mas Bruno não se via como médico. A timidez atrapalharia no trato com os pacientes, seu lugar era no laboratório. Tentou o vestibular para Biologia por duas vezes, mas sem sucesso. Foi então que descobriu o recém-criado curso de Biomedicina da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). “Quando li a descrição, parecia ter sido feito sob medida para mim, um profissional especializado em laboratório que poderia atuar na pesquisa acadêmica em microbiologia. A escolha estava feita”.

Bruno passou no vestibular e ingressou na quarta turma da história do curso. Logo no primeiro semestre procurou um laboratório de microbiologia, chegando até o professor José Veríssimo, que estudava o vírus do HPV. Mas este lhe sugeriu que focasse nas disciplinas primeiro, até porque não havia bolsas disponíveis. “Eu não me importo com bolsa, poderia ficar como voluntário, observando e ajudando no que for necessário”, respondeu o jovem, insistente, que acabou causando uma impressão no professor.

Foi assim que Bruno passou a frequentar um laboratório, seu sonho de criança, e se apaixonou pela microbiologia. Também se apaixonou por Jannyce, estagiária do laboratório de bactérias, logo ao lado, e com ela viria a se casar. No início, sem bolsa para ajudar, o jovem precisou se desdobrar como monitor de Biologia Celular, se dividindo no papel de aluno, estagiário e orientador de seus colegas. “Chegava à faculdade de manhã cedo e só saía à noite”, lembra.

Mais adiante na graduação a possibilidade de uma bolsa de iniciação científica deixou tudo mais fácil. Mais ou menos nessa época, Bruno conheceu a professora Helena Nader, biomédica e hoje presidente da ABC. Foi assistindo uma palestra de Nader que o jovem redobrou sua convicção no caminho escolhido. De volta ao laboratório, o vírus do HPV foi o tema de seu trabalho de conclusão de curso, mas outro interesse já se formava no horizonte: o vírus da dengue.

Bruno contou seu interesse ao professor Veríssimo, que logo o apresentou ao professor Josélio Galvão, recém-chegado à UFRN e especialista em arboviroses. Antes mesmo de se formar, Bruno já mergulhou de cabeça no tema. Dentre os muitos artigos que leu, um autor ficou gravado em sua mente, Vasconcelos PFC, como assina o pesquisador Pedro Fernando da Costa Vasconcelos, titular da ABC. O que ele não sabia é que seus caminhos iriam se cruzar em breve.

A ansiedade com o mercado de trabalho fez com que Bruno procurasse opções de concurso para trabalhar com vírus. De início passou para o Hemocentro, em Brasília, onde morou por alguns meses antes de ser chamado para o Instituto Evandro Chagas (IEC), em Belém do Pará. Na instituição, foi recebido justamente pelo professor Vasconcelos, chefe da Seção de Arbovirologia e Febres Hemorrágicas. O momento era fortuito, o IEC acabava de inaugurar seu programa de pós-graduação em Virologia, o único do país na época. Foi lá que Bruno cursou mestrado e depois doutorado. “Eu não conseguia acreditar na minha sorte!”.

No mestrado, sob orientação dos professores Daniele Medeiros e Pedro Vasconcelos, o Acadêmico desenvolveu uma nova ferramenta para diagnóstico do Hantavírus. Titulou-se em 2015, mesmo ano em que o Brasil enfrentou a epidemia do Zika vírus. Durante a crise, Bruno foi convidado por Vasconcelos a participar de uma missão do IEC, em parceria com o Ministério da Saúde e a Universidade do Texas, para o desenvolvimento de uma vacina contra a doença. O trabalho se tornou sua tese de doutorado. “Tive a experiência de fazer pesquisa fora do país, no Texas, onde trabalhei com um grupo de pesquisadores chineses liderados pelo professor Pei-Yong Chi. Trabalhávamos 13 horas por dia de domingo a domingo, pois o Zika estava se espalhando pelas Américas. Foi uma das melhores experiências da minha vida, mas também a mais desafiadora”.

A vacina proposta por Bruno utilizava um vírus vivo atenuado e o Acadêmico defendeu sua tese em 2021, obtendo o título de doutor. A epidemia ficou para trás, mas a vigilância permaneceu. O pesquisador segue trabalhando no IEC, desenvolvendo novos diagnósticos, vacinas e tratamentos para arboviroses, sobretudo dengue, Zika e Chikungunya. “O mundo dos arbovírus é terra fértil para pesquisas. Existem centenas de arbovírus conhecidos e uma quantidade muito maior a ser descoberta. Eles evoluem junto aos vetores insetos através dos quais infectam os humanos. Animais pequenos, que passam despercebidos, mas que podem causar grandes problemas”.

Fora da ciência, Bruno se descreve como nerd e metaleiro, adorando filmes e séries de fantasia e ficção científica e passando horas ouvindo metal sinfônico, seu estilo preferido. Nessa pegada, descreve sua escolha para a ABC da forma mais nerd possível. “É como ter ganhado o título de Mestre Jedi e me juntar ao Conselho”. Que a Força esteja com você, professor!

(Marcos Torres para ABC, 13/08/2026 | Fotos: Anderson Ferreira / Anderson Ferreira/Águia Drone Fotografia e imagens Aéreas)