Realizado na Universidade de Brasília, o Simpósio e Diplomação dos Membros Afiliados da Academia Brasileira de Ciências eleitos para o período 2026-2030 da Região Minas Gerais e Centro-Oeste foi realizado na tarde do dia 14 de setembro. O evento foi coordenado pela vice-presidente da ABC Regional Minas Gerais e Centro-Oeste, Mercedes Bustamante (UnB).
Foram diplomados e apresentaram seus resultados de pesquisa os cientistas Danilo Iglesias Brandão (UFMG, ciências da engenharia), Jenaina Ribeiro Soares (UFLA, ciências físicas), João Paulo dos Santos (UnB, ciências matemáticas), Luana Rossato (UFGD, ciências biológicas) e Raquel Zanatta Coutinho (UFMG, ciências sociais).
Além de Bustamante, compuseram a mesa de abertura a reitora da Universidade de Brasília (UnB), Rozana Reigota Naves, e o vice-reitor, Marcio Muniz. A presidente da ABC, Helena B. Nader, participou por vídeo.

Abrindo a sessão, Mercedes Bustamante explicou que a categoria de membros afiliados da ABC foi criada em 2007 para incluir jovens pesquisadores promissores das seis regiões do país definidas pela Academia: Norte, Nordeste e Espírito Santo, Minas Gerais e Centro-Oeste, Rio de Janeiro, São Paulo e Sul. “Esses jovens são indicados e eleitos por membros titulares da ABC com atuação nas respectivas regiões. Anualmente são eleitos cinco jovens cientistas de cada região com mandato de cinco anos não renováveis e as eleições são conduzidas pelos vice-presidente da ABC para cada região”, explicou a vice-presidente regional.
“Hoje a Academia se renova. Ao receber vocês, jovens cientistas, estamos reafirmando nosso compromisso mais fundamental: o de garantir o progresso científico em nosso país. Grandes descobertas nascem do diálogo, da colaboração e muitas vezes da coragem de desafiar paradigmas estabelecidos. Esperamos de vocês a ousadia da juventude combinada com o rigor da ciência. Vocês são a ponte entre o legado dos que vieram antes e as descobertas que ainda estão por vir. Que a nossa ABC seja um solo fértil onde suas ideias possam germinar e florescer.”
Em vídeo, a presidente Helena Nader deu as boas-vindas aos cinco jovens cientistas eleitos e destacou o momento especial da comemoração dos 110 anos da Academia Brasileira de Ciências. “Uma instituição centenária permanece viva quando é capaz de preservar sua memória e, ao mesmo tempo, renovar suas perguntas, seus compromissos e suas lideranças. É justamente isso que celebramos hoje.”
Nader apontou que ciência e educação são fundamentos de uma sociedade democrática e condições fundamentais para a construção de um futuro digno. E, também, dimensões essenciais da soberania nacional. “Uma nação verdadeiramente soberana não é apenas aquela que protege suas fronteiras. É aquela que possui capacidade própria para conhecer seu território, compreender seus biomas, proteger sua população, produzir vacinas e medicamentos, desenvolver tecnologias, garantir segurança hídrica e alimentar e energética, governar seus dados e formar as pessoas de que necessita para decidir o seu futuro. Assim, defender a ciência brasileira é defender a autonomia do Brasil para reconhecer seus próprios desafios e construir suas próprias respostas”, afirmou a cientista.
A presidente da ABC ressaltou que os membros afiliados da ABC representam a futura liderança científica do Brasil. “Sejam todos muito bem-vindos. Cinco nomes, cinco campos de conhecimento e um compromisso comum com o futuro do país.”
Assista à fala de Helena Nader, presidente da ABC, na íntegra:

A Palestra Magna foi proferida pela professora da UnB Keti Tenemblat, titular da ABC, com o tema “Geometria, equações diferenciais e fenômenos físicos”. Ela abordou temas como superfícies mínimas, formas que minimizam a área local de uma determinada estrutura. Na natureza, são exemplos de superfícies mínimas as películas de sabão.
A seguir, os novos afiliados apresentaram suas pesquisas. Saiba mais sobre eles nos perfis abaixo:
Compreender a população para transformar vidas
Ao investigar temas como fecundidade e saúde sexual e reprodutiva, a demógrafa Raquel Zanatta Coutinho, da UFMG, produz evidências que contribuem para a redução das desigualdades.
Estudando micologia médica dentro do conceito de Saúde Única
Professora da UFGD, no Mato Grosso do Sul, a farmacêutica Luana Rossato estuda o impacto das infecções fúngicas na saúde pública, especialmente em pacientes vulneráveis.
Especialista em Geometria Diferencial e professor da UnB, o novo membro afiliado da ABC João Paulo dos Santos descobriu no curso de computação a sua vocação para a matemática pura.
Ciência para a transição energética
Professor da UFMG e novo afiliado da ABC, o engenheiro Danilo Iglesias Brandão desenvolve inovações para melhorar a qualidade das redes elétricas e permitir mais conexão com fontes renováveis.
Materiais avançados, minerais estratégicos e óptica
A física Jenaina Ribeiro Soares desenvolve pesquisas na UFLA sobre biocarvões, nanomateriais, minerais estratégicos e óptica, com aplicações que vão da agricultura sustentável às tecnologias avançadas.
Cerimônia de diplomação

Após a entrega dos diplomas, a afiliada da ABC eleita para o período 2022-2026, Tais Gratieri, doutora em Fármacos e Medicamentos e atual diretora de Pós-Graduação da UnB, onde é professora da Faculdade de Ciências da Saúde, saudou os novos membros afiliados.
Ela afirmou seu sentimento de pertencimento a uma comunidade que acredita profundamente no papel da ciência para o Brasil e fez questão de e remeter aos anos recentes, ainda mais difíceis para a ciência brasileira, de desvalorização, de cortes, de incerteza sobre o futuro da pesquisa e da carreira científica no país. “Foi um período em que muitos de nós, jovens pesquisadores, nos perguntamos se valia a pena insistir, se haveria espaço para continuar produzindo conhecimento com dignidade”, relembrou a afiliada da ABC.
“Mas esse período também nos ensinou a nos organizar. Os jovens pesquisadores brasileiros não ficaram passivos diante das dificuldades”, apontou Gratieri. “Lembro, por exemplo, da carta que nós, membros afiliados, enviamos ao então presidente do CNPq, o professor Ricardo Galvão, em 2023, quando corria o risco de as bolsas de produtividade em pesquisa serem substituídas por um modelo insuficiente de taxa de bancada. Foi um movimento coletivo, articulado, que reuniu centenas de assinaturas de pesquisadoras e pesquisadores de todo o país, defendendo não um privilégio, mas o reconhecimento de que a pesquisa exige tempo, dedicação e compensação justa. Foi um movimento que começou entre os afiliados ABC e, ainda que não tenhamos conseguido ampliação de orçamento, pelo seu poder de mobilização conseguiu manter a bolsa com caráter de bolsa”, relatou.
Esse tipo de mobilização, de acordo com Tais Gratieri, não foi isolado. Reflete algo maior: o reconhecimento crescente da figura do jovem pesquisador, seja no sistema avaliativo da Capes, seja em inúmeras linhas de fomento que hoje existem justamente para dar espaço a quem está começando ou está no meio da carreira. “Isso não veio de graça. Veio de muita luta, de muita organização, de muita gente disposta a escrever cartas, participar de comissões, ocupar espaços de decisão. É nesses espaços que nos organizamos e é aqui, em reuniões e eventos como esse que nos conhecemos, trocamos contatos e nos fazemos representados”, completou.
O Brasil vive o desafio de uma grande renovação dos seus quadros científicos, precisa das novas lideranças. “Nos reconhecermos nesses papéis nos traz a responsabilidade de refletir. Vocês chegam num momento de reconstrução. Usem esse espaço para se organizar, para dialogar, para continuar a tradição de luta coletiva que tanto nos fortaleceu. A ciência brasileira precisa de vocês, da energia, da coragem e da capacidade de renovação que vocês trazem. Sejam muito bem-vindos e bem-vindas à ABC.”

Em nome dos novos membros, falou João Paulo dos Santos. Ele agradeceu à Academia Brasileira de Ciências pelo reconhecimento, às respectivas equipes, familiares e todas e todos que os apoiaram no percurso da ciência.
João Paulo destacou que essa geração de cientistas está sentindo diretamente as consequências de muitos dos fenômenos que pesquisa, como as mudanças climáticas, a perda de biodiversidade, as transformações nas relações de gênero, entre tantos outros. “Essa proximidade nos convida a pensar sobre a nossa responsabilidade como pesquisadores e sobre a maneira como nosso trabalho pode contribuir para as decisões que afetam nossas vidas”, apontou o membro afiliado da ABC.
Por isso, a seu ver, é fundamental promover a valorização da ciência e da profissão de pesquisador. “Basta pensar em todos os obstáculos que enfrentamos para fazer pesquisa no Brasil: poucos insumos, baixa remuneração, dificuldades de financiamento, burocracia por vezes excessiva, infraestrutura e condições de trabalho limitadas. As pesquisadoras-mães equilibram múltiplas responsabilidades e, ainda assim, contribuem de forma decisiva para o avanço da ciência no país. O tempo e a energia dedicados a superar tais obstáculos poderiam ser empregados na investigação, na reflexão e na produção de conhecimento. Nossas expectativas para o futuro acadêmico passam, portanto, por condições que nos permitam pesquisar com continuidade e oferecer perspectivas aos jovens que estamos formando”, afirmou.
Nos próximos cinco anos, o representante do grupo ressaltou que o objetivo de todos é participar das iniciativas da ABC, aproximar pesquisadores de diferentes áreas e instituições, compartilhar as experiências que trazem dos seus grupos de pesquisa e contribuir para aproximar a ciência da sociedade. “Em nome das novas afiliadas e dos novos afiliados, agradeço à Academia pela confiança. Estamos muito felizes por iniciar essa caminhada com vocês.”
O evento foi encerrado com uma recepção para convidados.

Pela manhã, ocorreu no mesmo local o evento “Biodiversidade, bioeconomia e soluções climáticas: evidências, limites e perspectivas pós-COP30”, que integra a série de debates “COP30: balanço crítico e lições para a ciência brasileira rumo à COP31” promovida pela ABC. A iniciativa busca promover uma reflexão sobre os resultados alcançados, os desafios remanescentes e as contribuições que a ciência brasileira pode oferecer para a agenda climática internacional rumo à COP31.
