Jenaina Ribeiro Soares é cientista – o que já diz que ela é curiosa sobre como a natureza funciona. E é mãe, o que sugere que ela valorize passar para a filha seus interesses principais. De fato, a Acadêmica conta que o que mais gosta de fazer, além da ciência, é viajar, especialmente para as praias da costa brasileira, “para mostrar tudo” à sua filha. “Também gosto de conhecer museus e ver objetos históricos que conhecia apenas por livros. Gosto de ler, eu e meu marido temos nos esforçado para passar isso para nossa filha.” Em música, seu gosto é especialmente pelo rock, metal sinfônico e gótico, e aprecia vocais femininos. No mais, tem um estilo de vida tranquilo, com foco em alimentação saudável, mas sem sacrificar um bom churrasco.
Infância marcada pela curiosidade
Jenaina nasceu em 1987, em Trindade, no estado de Goiás. Cresceu em uma chácara, onde teve uma infância tranquila. Gostava muito de brincar fazendo (ou desfazendo) coisas. Desenhava, planejava e montava carrinhos de rolimã, pipas, casinhas para pets. Desmontava eletrônicos para tentar entender como funcionavam e lia muito, tanto literatura universal como sobre ciência. No colégio ela tinha curiosidade sobre todas as disciplinas, mas, por preferência, gastava mais tempo com matemática, física e química.
Seu pai trabalhava no transporte de leite, desde as fazendas produtoras até laticínios coletores da região. “Numa época, ele montou um ponto de coleta na nossa chácara, onde ajudávamos na recepção e armazenamento do leite em refrigeradores”, contou Jenaina. Depois ele migrou para o setor de transporte de madeira para os produtores locais de cerâmicas, como tijolos e telhas.
Já a mãe era professora do ensino fundamental em um povoado localizado a 2 Km da chácara em que moravam. Anos depois, ela migrou para uma escola em Trindade. “Lembro que minha mãe, sempre que saia para resolver coisas na cidade, coletava revistas, jornais etc. e levava para nossa casa. Ela colocava os materiais em cima da mesa e observava o que me chamava atenção e ao meu irmão”, relatou a cientista. Logo ela identificou que Jenaina gostava mais de materiais relacionados à ciência e tecnologia, e literatura. Esse interesse também seguiu na escola. O irmão, dois anos mais novo, fez faculdade de Letras.
“Minha mãe sempre dizia que, se a pessoa trabalhar e tiver foco, ela é capaz de ter bom desempenho no que for necessário. E que temos que enfrentar as coisas de cabeça erguida, fazer o melhor que dá e ver o que é possível, mesmo que haja resistência”, contou a pesquisadora. Comentou que naquela época, no interior de Goiás, não era comum ver mulheres interessadas em ciência. “Essa atitude diante da vida que minha mãe me passou ajudou para que eu tivesse ‘coragem’ de seguir para uma ciência mais dura”, declarou Jenaina.

A descoberta da física
No ensino médio, a menina tinha bom desempenho em todas as disciplinas, justamente por querer ter opções e escolher a carreira com mais tranquilidade. “Lembro dos professores sugerindo que eu fizesse medicina ou direito, que eram tradicionalmente vistos em Goiás, na época, como cursos que garantiam sucesso”, recordou Jenaina. No entanto, ela considera que teve professores muito estimulantes de matemática, física e química. Chegou a cogitar seguir pela matemática, porém o caráter tecnológico e dos desafios da vida real envolvidos na física a capturaram.
Entrou para o bacharelado em física na Universidade Federal de Goiás (UFG) em 2005, sem entender muito das possibilidades da profissão. Inicialmente, era obscuro como ela desenvolveria a carreira, o mais provável é que se tornasse professora. No começo do segundo ano foi fazer iniciação científica. “Neste ponto, o professor Fernando Pelegrini foi muito importante, ele era um forte ponto atrator de alunos para fazer ciência e tinha muito conhecimento histórico na área”, disse Jenaina. Ela logo se interessou ao ver o que é que se fazia dentro de um laboratório, os equipamentos existentes, no que os professores conceituados do departamento trabalhavam. A bolsa também teve papel importante, pois possibilitou que ela se dedicasse integralmente à formação científica durante a graduação.
A Acadêmica contou que o Instituto de Física da Universidade Federal de Goiás (UFG) foi um ótimo ambiente para o seu desenvolvimento, com professores solícitos e foco na carreira. Havia uma cobrança forte, o padrão de qualidade era alto, o que ela considera determinante para ter conseguido avançar tanto. Já na graduação identificou, em aulas de física do estado sólido com o professor Tertius Lima da Fonseca e de nanociência e nanotecnologia com o professor Andris Bakuzis que gostava muito da área de matéria condensada e materiais avançados. Seu trabalho de conclusão de curso (TCC) foi sobre ressonância ferromagnética de filmes finos de ferro e efeitos magnetostrictivos.
Da UFG à UFMG: a pesquisa ganha dimensão
Ao final da graduação, Jenaina participou de alguns eventos fora do estado, com escolas de verão em faculdades de física no Rio de Janeiro, em São Paulo e Minas Gerais. Conhecendo estes ambientes e pesando o interesse em nanomateriais, escolheu a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) para o mestrado.
Não conhecia ninguém em Belo Horizonte, mas com a garantia da bolsa, Jenaina partiu. Procurou um orientador que estivesse bastante ativo na área e então chegou ao Acadêmico Ado Jorio de Vasconcelos. “Ele me mostrou um editorial da Nature sobre solos altamente produtivos na Amazônia, relacionados possivelmente ao conteúdo de carbono. A proposta seria utilizar óptica e espectroscopia Raman ao estudo de formas carbonáceas presentes em solos antropogênicos de notória fertilidade da Amazônia. A ideia era entender sua estrutura e, quem sabe, achar informações para fazer engenharia reversa deles nos tempos recentes. “Achei impossível não enxergar a amplitude e importância do tema, além do desafio de pesquisa e perspectivas de inovação”, contou Jenaina. Convidaram o professor Luiz Gustavo Cançado como coorientador e seguiram juntos até o final do doutorado.
Seguiu na UFMG no doutorado em física, com sanduíche no Instituto Massachusetts de Tecnologia (MIT), estudando novos nanomateriais lamelares além-grafeno com a colaboradora de longa data de seu orientador, a professora Mildred Dresselhaus. A experiência de trabalhar com um dos maiores nomes da área de nanomateriais, espectroscopia e carbono no mundo foi excelente, tanto pela qualidade da ciência que estava sendo tratada, quanto pelas vivências que foram passadas. “A atuação da professora ‘Millie’ expandindo as fronteiras ainda existentes para mulheres na ciência, tanto em termos de MIT quanto mundialmente, foi muito inspiradora”, destacou Soares.
Construindo uma carreira na UFLA
Retornando ao Brasil em 2014, o foco de Jenaina Soares foi em finalizar artigos e iniciar a preparação da tese. Nesse período, prestou um concurso na Universidade Federal de Lavras (UFLA), em Minas Gerais, e foi aprovada – mas ainda tinha quase um ano de doutorado pela frente. “O apoio dos meus orientadores para adiantar a defesa foi essencial para o sucesso em assumir a nova posição na UFLA ainda em 2014”, relatou a pesquisadora.
De lá para cá, Jenaina Soares tem se dedicado à construção de infraestrutura científica previamente inexistente na sua instituição, tendo atuado diretamente na redação de projetos, aquisição e manutenção de infraestruturas de grupo de pesquisa e multiusuárias. Dedica-se ainda à formação de ambientes de pesquisa multidisciplinares capazes de conectar ciência básica, inovação e desafios estratégicos para o Brasil. Ao longo desse percurso, destaca ter aprendido que a ciência é construída coletivamente. “Orientadores, colaboradores, estudantes e equipes técnicas tiveram papel fundamental em cada etapa dessa trajetória”, reconheceu.
Pesquisa em materiais avançados e óptica para desafios estratégicos
Atualmente, Soares é professora no Departamento de Física e professora permanente no programa de Pós-Graduação em Física e em Engenharia de Biomateriais da UFLA, assim como colaboradora da Pós-Graduação em Física da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Ela trabalha com análise estrutural, óptica e eletrônica de nanomateriais (teoria e experimentos), com materiais carbonáceos de solos antropogênicos, biocarvões, fertilizantes nanoestruturados, materiais lamelares como grafeno e “além-grafeno”. “Sigo com duas linhas fundamentais de atuação: uma que se dedica a estudar a síntese e caracterização de materiais carbonáceos que possam ser empregados em aplicações sustentáveis, e a outra em materiais muito pequenos, em escala nanoscópica, aproximadamente 1000 vezes menores que o diâmetro de um fio de cabelo, que também podem ser aplicados em diferentes situações e ser estudados com óptica e outras estratégias”, explicou Soares.
Na parte de materiais carbonáceos, seu grupo desenvolve tratamentos térmicos em resíduos agroindustriais – como casca de café, por exemplo -, para então usar o que chamam de “biocarvões” para melhorar o solo na forma de fertilizantes e descontaminante ambiental. “Estes materiais são inspirados nas informações que obtivemos dos solos amazônicos, as chamadas ‘terras pretas de índio’, e tem movimentado investimentos estratégicos de diversos países para seu desenvolvimento e uso”, explicou.
Sobre os outros materiais em escala nanoscópica, são folhas muito finas de diferentes geometrias e composições, cada uma com propriedades distintas dos materiais de origem, que se apresentam na forma macroscópica como minerais ou materiais sintetizados em laboratório. Quando reduzidos à espessura de poucos átomos, esses materiais passam a exibir características únicas, tornando-se promissores para uma ampla variedade de aplicações tecnológicas.
Entre essas aplicações estão o desenvolvimento de dispositivos cada vez menores e mais eficientes para armazenamento de informações, além de telas finas, transparentes e flexíveis. Esses materiais também podem aumentar a resistência mecânica de outros compostos e contribuir para tecnologias voltadas à produção e ao armazenamento de energia, como baterias de nova geração e células fotovoltaicas, entre outras.
Estrutura científica e liderança de laboratórios
Fundou o Laboratório de Óptica do Departamento de Física da UFLA e o coordenou entre 2017 e 2021, além de ter também fundado e atualmente coordenar o Laboratório de Materiais Avançados e Minerais Estratégicos (LMM/UFLA) e o Laboratório Multiusuário de Nanoespectroscopia (LMN/UFLA).
Jenaina Soares integra diferentes sociedades científicas, como a Sociedade Brasileira de Física (SBF), a Sociedade Brasileira de Pesquisa em Materiais (SBPMat), a Sociedade Brasileira de Ótica e Fotônica (SBFóton), e da Optica, anteriormente conhecida como Optical Society of America ou OSA. Em 2017 ganhou o prêmio L’OréaL-Unesco-ABC Para Mulheres na Ciência na área de física. Ganhou também o prêmio “Outstanding Reviewer Award Winner of 2016” pelos trabalhos como árbitro de artigos científicos para a revista “2D Materials”, da IOP Publishing, a Medalha de Honra da UFG 2017, dentre outros reconhecimentos. Mantém colaborações ativas com pesquisadores de diferentes estados do Brasil e colaborações internacionais com pesquisadores dos Estados Unidos, Índia, República Tcheca e Austrália.
Ciência para transformar a sociedade
Jenaina diz que seu encantamento com a ciência ocorre por reconhecê-la como transformadora da condição da sociedade. “Você pode trabalhar estudando desde fenômenos muito básicos, que hoje parecem não ter aplicação além da expansão da capacidade humana de raciocínio e criação. Daqui a algum tempo, esses conhecimentos são base para inovações transformadoras, mesmo para gerações que ainda virão”, avalia.
Ela considera que a ciência torna possível que pessoas de diferentes origens sociais construam conhecimento e tecnologias reconhecidos mundialmente. “É um investimento seguro, que não se tira da pessoa, pois só ela muitas vezes teve aquelas determinadas vivências e vai aplicar as ferramentas que aprendeu fazendo conexões entre informações e contextos que outros indivíduos não fariam. Por isso é importante lutar por uma ciência plural, diversa e acolhedora, com liberdade de raciocínio”, ressaltou a pesquisadora.
Na sua área, especificamente, ela identifica o poder da física. “A física nos possibilita olhar para o átomo e, com flexibilidade e criatividade, pensar em soluções para a sociedade, até em temáticas como segurança alimentar”, afirmou. Em sua percepção, o Brasil pode gerar conhecimento que poderá ser utilizado estrategicamente na agricultura, no combate a emissões de carbono, descontaminação ambiental e outros aspectos importantes nas condições de sobrevivência para quem virá depois. Por outro lado, também se pode atuar em tecnologia de semicondutores, em celulares e outros dispositivos que têm evoluído em velocidade estarrecedora. “Em suma, a física é movimento e estratégia, com impacto que mesmo quem a cria acaba não tendo como ponderar”, considerou a Acadêmica.
O compromisso com as novas gerações
Receber o título de membro afiliado da ABC foi uma honra enorme para Jenaina Soares, pois significa um reconhecimento de diferentes dimensões sobre o caminho que vem trilhando. Na Academia, ela pretende contribuir para aproximar jovens da carreira científica, especialmente estudantes oriundos de regiões e contextos em que a ciência ainda parece distante. Também tem foco no estímulo a inserção de mais mulheres na ciência, pois considera necessário apresentar mais exemplos femininos para que outras jovens enxerguem que seu lugar também pode ser na ciência e tecnologia.
“Mais do que tudo, o título da ABC é uma oportunidade de potencializar esforços com outras pessoas, aumentar corpo e voz para fazer mais e melhor pela ciência e o desenvolvimento humano. Minha própria trajetória mostra que talento científico pode surgir em qualquer lugar quando existem oportunidades adequadas. Gostaria de promover ações que se tornem modelo para outras pessoas que se interessem por esse caminho da ciência básica para resultados aplicáveis nos desafios que temos no país e no mundo hoje.”