Da prática à teoria

Na ciência, muito se fala do caminho que leva da pesquisa pura à aplicada, da ciência básica à inovação. Essa é uma estrada que muitos pesquisadores percorrem, mas poucos se lembram que ela é de mão-dupla. O interesse pela aplicação pode despertar a paixão pela teoria, foi o que aconteceu com o matemático João Paulo dos Santos, novo membro afiliado da Academia Brasileira de Ciências (ABC).

Nascido na periferia de Goiânia, onde viveu na mesma casa até os 21 anos, João Paulo é uma daquelas vidas transformadas pela ciência. O dom para a matemática já se manifestava desde cedo, na escola e nas lições de casa que fazia acompanhado da mãe. “A facilidade para os números me fazia sempre querer aprender algo a mais, e resolver problemas era algo que eu gostava”, conta.

Quando chegou ao ensino médio, o interesse por matemática chegou a uma bifurcação. Por um lado, se transformou facilmente no gosto pela Física; por outro, o ajudou na computação. Entusiasta dessa jovem área do conhecimento, João conciliou o ensino médio com cursos profissionalizantes e passou a mirar o mercado de trabalho em tecnologia. Essa trajetória o fez escolher a graduação em Sistemas da Informação, mas a decisão durou pouco. “Ao entrar em contato com a matemática do ensino superior, em especial com a Álgebra Linear e o Cálculo, tive certeza de que queria mesmo cursar Matemática”.

Foi assim que, em 2003, João Paulo ingressou no curso de Matemática da Universidade Federal de Goiás (UFG). Nesse primeiro momento, ainda pensava em conciliar o curso com uma carreira em tecnologia, mas, conforme mergulhava a fundo na teoria, João foi descobrindo que seu futuro estava mesmo na matemática pura. A iniciação científica teve um papel central nessa decisão. “Fiz iniciação durante três dos quatro anos de curso. Logo no primeiro, meu orientador me incentivou a participar da Escola de Geometria Diferencial da Universidade de São Paulo (USP). Foi a primeira vez que saí de Goiás e confesso que não entendi muito do que foi discutido, mas estar naquele ambiente de intercâmbio científico foi transformador. Hoje a Geometria Diferencial é a minha área de pesquisa”, conta com orgulho.

O orientador em questão foi o professor Marcelo Almeida de Souza, primeiro grande mestre e incentivador de João na pesquisa. Mesmo trabalhando com um tema bastante avançado para a graduação, Marcelo fazia questão de acompanhar o aluno e transmitir seu entusiasmo contagiante. No último ano de curso, João apresentou seu trabalho na Escola de Geometria Diferencial da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e percebeu que estava pronto para buscar novos horizontes. Incentivado por Marcelo, decidiu tentar mestrado na Universidade de Brasília (UnB), sob a tutela da ex-orientadora de seu professor, a membra da ABC Keti Tenenblat, uma das principais lideranças em Geometria Diferencial no país.

De início, o Acadêmico pensou que trabalhar com a professora Tenenblat era um sonho distante, quase impossível. Mas como nas boas histórias os sonhos costumam se tornar realidade, João embarcou para Brasília, pela primeira vez morando longe de casa, e lá fez pós-graduação com a nova mestre. “Trabalhar sob Tenenblat foi uma oportunidade espetacular, sua inteligência, dinamismo, conhecimento e trabalho duro moldaram a minha carreira e me deram a base sólida que tenho hoje como pesquisador, orientador e professor. Hoje somos colegas de docência, mas ainda sigo aprendendo muito com ela”.

Na UnB, o pesquisador cursou mestrado e doutorado, este último com período sanduíche na Universidade de Granada, na Espanha. “Fiquei lá durante um ano e foi uma experiência bastante enriquecedora. O grupo de pesquisa do qual fiz parte é um dos principais da Europa e entrei em contato com vários pesquisadores de ponta. Meu orientador à época, o professor Antonio Martinez, é outra pessoa que foi fundamental na minha carreira e continuamos com a nossa colaboração científica até hoje”.

A Geometria Diferencial é a área da matemática que se dedica a estudar geometria utilizando as ferramentas do Cálculo. Em seu trabalho, João Paulo se dedica especificamente às curvaturas e às equações diferenciais que as descrevem. Com isso, ele torna possível prever características das formas geométricas resultantes, com aplicações que vão desde a fenômenos naturais até a engenharia e a arquitetura.

Logo após obter o título de doutor em 2012, João ingressou como docente na UnB, onde trabalha até hoje. Com o passar dos anos, uma coisa não mudou: a inquietação em buscar soluções matemáticas. “Por vezes, a solução nem é a maior das contribuições, mas sim a maneira como ela foi obtida”. Além disso, segue admirado pelo intercâmbio entre a matemática e as outras áreas do conhecimento. “Por exemplo, é fascinante ver como a Geometria Diferencial abstrata desenvolvida por Bernhard Riemann no século XIX foi fundamental para a Relatividade Geral de Einstein no século XX”.

Agora na ABC, o Acadêmico se diz honrado de ocupar um espaço em que sua mestra Keti Tenenblat também ocupa, pois a considera sua principal referência em pesquisa. “Os membros da ABC são fundamentais para os seus alunos e orientandos. Por isso, esse título de afiliado significa o reconhecimento da minha caminhada e um incentivo para continuar trabalhando e formando novos pesquisadores”, conclui.

(Marcos Torres para ABC | Foto: Gabriel Andrade)