Estudando micologia médica dentro do conceito de Saúde Única

Luana Rossato nasceu em 1989 e cresceu na cidade de Nova Palma, no Rio Grande do Sul. Passou a infância inventando brincadeiras ao ar livre e em contato com a natureza, já que os pais eram agricultores. Uma de suas atividades favoritas era imaginar o desenvolvimento de novas fragrâncias, misturando pétalas de flores com água para “criar” perfumes. Na escola, suas disciplinas preferidas eram ciências, biologia e química.

Tinha três irmãos bem mais velhos, com mais de 13 anos de diferença entre eles. Dois cursavam Geografia na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). “Na comunidade em que eu vivia, no interior de Nova Palma, muitos vizinhos e primos saíam para estudar em Santa Maria, fazer faculdade e, posteriormente, muitos se tornaram doutores. Para mim, isso foi muito estimulante. Como eram mais velhos, eu já tinha, desde cedo, a certeza de que esse também seria o meu caminho”, contou Luana.

No ensino médio, apaixonou-se pelo estudo das células do sangue. Foi então que descobriu que o curso de Farmácia reunia suas duas grandes motivações: o desenvolvimento de novos produtos e as análises clínicas.

A descoberta da micologia médica

Luana ingressou no curso de Farmácia da UFSM e permaneceu, durante toda a graduação, no mesmo laboratório de pesquisa onde iniciou a iniciação científica logo no primeiro semestre. Seu plano inicial era trabalhar com hematologia, dando continuidade ao interesse despertado ainda no ensino médio. No entanto, o professor da área faria uma pausa em suas atividades e a encaminhou para um colega, o professor Sydney Hartz Alves, coordenador do Laboratório de Pesquisas Micológicas (Lapemi).

Foi ali que encontrou a linha de pesquisa à qual se dedica até hoje. “Os perfumes de outrora deram lugar a novas possibilidades terapêuticas para o tratamento de infecções fúngicas”, contou.

Prosseguiu no mestrado em Ciências Farmacêuticas, também na UFSM. Incentivada pelos professores Sydney Hartz Alves e Janio Moraes Santurio a ampliar sua formação, decidiu realizar o doutorado em Ciências Farmacêuticas gia na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP), sob orientação do professor Sandro Rogério de Almeida. Durante esse período, realizou estágio sanduíche no Westerdijk Fungal Biodiversity Institute, em Utrecht, na Holanda, onde contribuiu para o desenvolvimento e a aplicação de tecnologias em proteômica microbiana, sob orientação do professor Sybren de Hoog.

Após a defesa da tese, realizou estágio de pós-doutorado em Infectologia na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), participando de estudos pioneiros no Brasil sobre o patógeno emergente Candida auris. Nesse período, também atuou na formação de recursos humanos, ministrando cursos especializados para médicos residentes e profissionais de microbiologia clínica.

Ao longo dessa trajetória, Luana afirma ter convivido com professores extremamente generosos, capacitados, humanos e gentis, que continuam sendo fonte de inspiração. “Pude vivenciar experiências raras e conhecer pessoas que me levaram a lugares a que eu jamais teria acesso. Me sinto grata por ter tido tantas vivências positivas”, afirmou.

Fungos, saúde pública e Saúde Única

Atualmente professora adjunta da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) e orientadora do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde, Luana Rossato dedica-se ao estudo da micologia médica, área que investiga as infecções fúngicas que acometem seres humanos e apresentam elevados índices de mortalidade.

“Estudo desde a distribuição desses microrganismos em diferentes ambientes, como o Pantanal, até o ambiente hospitalar e pacientes internados. Também estudamos todos os aspectos relacionados à interação desses microrganismos com o hospedeiro, incluindo resistência antifúngica e fatores de virulência”, explicou a Acadêmica.

Além disso, Rossato coordena pesquisas com patógenos emergentes, prospecção e reposicionamento de fármacos, e desenvolvimento de modelos experimentais invertebrados, sempre com abordagem integrada dentro do conceito de Saúde Única.

Pesquisa de impacto e reconhecimento

Embora as infecções fúngicas tenham enorme impacto na saúde pública, especialmente entre pacientes vulneráveis, elas ainda recebem pouca visibilidade quando comparadas a outras doenças infecciosas. É justamente nesse cenário que se insere a pesquisa desenvolvida por Luana Rossato.

“Na minha área, me fascina o fato de ainda existirem inúmeras possibilidades a serem exploradas, especialmente por se tratar de um tema sobre o qual ainda há pouca visibilidade. Apesar do enorme impacto das infecções fúngicas na saúde pública, especialmente em pacientes vulneráveis, essa ainda é uma área muito negligenciada”, observou.

Em reconhecimento por sua contribuição científica, inovação e impacto na interface entre microbiologia, saúde pública e tecnologia, Luana Rossato recebeu, em 2025, o Prêmio L’Oréal-Unesco-ABC Para Mulheres na Ciência e o 2º lugar no Prêmio Pesquisador Inovador Fundect.

Ciência produzida além dos grandes centros

Receber o título de membro afiliado da Academia Brasileira de Ciências foi, para Luana Rossato, motivo de honra e privilégio por integrar uma instituição que reúne alguns dos maiores pesquisadores do país. Para ela, entretanto, a distinção representa também uma responsabilidade: dar visibilidade à ciência produzida fora dos grandes centros tradicionais e mostrar a relevância das pesquisas desenvolvidas no Centro-Oeste para enfrentar desafios globais.

“Pretendo atuar junto à Academia Brasileira de Ciências contribuindo para o fortalecimento da ciência brasileira, especialmente na valorização da pesquisa interdisciplinar, da inovação e da formação de jovens cientistas”, comprometeu-se.

(Elisa Oswaldo Cruz para ABC | Foto: Gabriel Andrade)