Compreender a população para transformar vidas

Para Raquel Zanatta Coutinho, a ciência não surgiu como uma descoberta repentina: ela sempre esteve presente, pois cresceu em uma família em que pesquisa, saúde pública e políticas sociais eram assuntos habituais nos almoços de domingo.

Nascida em Belo Horizonte, em 1985, passou parte da infância em Passos, no sul de Minas Gerais, e em Niterói, onde o pai, Marcelo, cursou uma especialização em Saúde Pública na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). De volta à capital mineira, estabeleceu-se com a família na região da Pampulha, próxima à Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ambiente que acabaria moldando toda a sua trajetória.

As lembranças da infância incluem férias nas praias brasileiras, tardes na casa dos avós em Belo Horizonte e Poços de Caldas com brincadeiras com os primos, e uma curiosidade permanente pelo mundo ao redor. Mas, mais marcante do que qualquer brincadeira, foi o ambiente em que cresceu.

Seu pai, engenheiro civil e sanitarista da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), trabalhava com saneamento básico e saúde pública. A mãe, Maria Teresa, bióloga e pesquisadora     , dedicava-se ao estudo de doenças transmitidas por vetores. O irmão, Estevão, um menino curioso, inteligente e “fuçador”. Em casa, conversas sobre epidemias, campanhas de vacinação, desigualdades sociais, justiça social, pesquisas de campo e políticas públicas faziam parte da rotina familiar.

Ainda menina, Raquel acompanhava a mãe aos laboratórios do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG. Enquanto a pesquisadora examinava carrapatos, gambás ou mosquitos Aedes aegypti, a filha desenhava nas bancadas, caminhava pelos corredores do instituto e observava, sem perceber, o cotidiano da produção científica.

Mais tarde compreenderia que aquelas visitas eram uma forma silenciosa de formação.

Via a mãe montar armadilhas para capturar animais, improvisar equipamentos diante da falta de recursos e transformar dificuldades em soluções criativas. Também acompanhava o entusiasmo a cada novo experimento, aprendendo que a ciência se constrói com perguntas, observação, método e persistência.

O pai, por sua vez, despertou seu interesse pelos grandes números da população ao apresentar-lhe, ainda criança, os resultados do Censo Demográfico. Sem imaginar, ela dava os primeiros passos rumo à Demografia.

Hoje, ao olhar para trás, percebe que aqueles dois universos — as pesquisas da mãe e a saúde pública vivenciada pelo pai — nunca estiveram separados. “Quando passei no concurso para professora da UFMG, minha mãe me disse: ‘Você está realizando o meu sonho’. Foi naquele momento que percebi que ela havia me preparado para isso desde criança. Mamãe foi minha orientadora desde os seis anos.”

Da comunicação à demografia

Embora crescendo cercada por ciência, Raquel não imaginava seguir a área dos  pais. Ao ingressar na UFMG, escolheu a comunicação social, formando-se em jornalismo e em relações públicas.

Seu interesse inicial estava voltado para o jornalismo político e para a comunicação pública. Durante a graduação, trabalhou com assessoria de imprensa e começou a compreender o papel estratégico da comunicação nos governos. Aos poucos, porém, percebeu que sua curiosidade ia além da divulgação de informações.

Queria entender como os problemas sociais surgiam, por que determinadas populações eram mais vulneráveis do que outras e de que maneira o conhecimento científico poderia orientar decisões capazes de melhorar a vida das pessoas.

A oportunidade de responder a essas perguntas apareceu durante a iniciação científica, quando passou a estudar campanhas de prevenção ao HIV/Aids sob orientação da professora Paula Miranda-Ribeiro, do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar/UFMG). Ao analisar a comunicação em saúde, percebeu que seu verdadeiro interesse não estava em elaborar campanhas, mas em produzir o conhecimento que lhes dava fundamento. Foi ali que encontrou sua vocação. “Eu não queria ficar do lado de quem fazia a campanha de comunicação em saúde. Queria estar do lado de quem pesquisava o que precisava ser feito e para quem”, refletiu Raquel. Essa mudança de perspectiva redefiniu sua trajetória profissional.

Durante um intercâmbio na Universidade do Texas, em Austin, embora estivesse vinculada ao curso de Jornalismo, escolheu principalmente disciplinas de Sociologia. A experiência ampliou seu interesse pelas relações entre comportamento humano, desigualdades sociais e dinâmica populacional.

De volta ao Brasil, ingressou no mestrado em Demografia no Cedeplar/UFMG. A partir dali, passou a construir uma trajetória interdisciplinar que aproximava sociologia e demografia, sempre orientada pela mesma pergunta: como produzir conhecimento capaz de melhorar a vida das pessoas?

Ao longo desse percurso, encontrou pesquisadores que marcaram diferentes etapas de sua formação. A professora Paula Miranda-Ribeiro apresentou-lhe o universo da Demografia e a aproximou do professor Joe Potter e da pesquisadora Kristine Hopkins, da Universidade do Texas. Mais tarde, o professor Alisson Barbieri a incentivou a realizar o doutorado nos Estados Unidos, onde aprofundou os estudos sobre curso de vida (life course) e comportamento na Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill,com a supervisão dos professores Victor Marshall, Philip Morgan e Lisa Pearce.

Mais do que transmitir conhecimentos, esses professores lhe mostraram que a ciência é construída coletivamente, por meio do diálogo, da colaboração e da troca permanente de ideias — princípio que ela levaria para toda a sua carreira.

Compreender a população para transformar vidas

Ao retornar ao Brasil, Raquel passou a integrar o corpo docente do Departamento de Demografia da UFMG e do Programa de Pós-Graduação em Demografia do Cedeplar. Sua produção científica consolidou-se na interface entre Demografia, Sociologia e Saúde     , investigando como diferentes dimensões da vida social influenciam a saúde e o bem-estar da população.

Mais do que medir fenômenos demográficos, seu trabalho procura compreender as histórias que existem por trás dos números. Para isso, investiga como fatores sociais, econômicos, ambientais e de gênero influenciam as oportunidades, as escolhas e a saúde das pessoas ao longo da vida. Seus estudos abrangem temas como saúde sexual e reprodutiva, fecundidade, maternidade, violência de gênero, mortalidade materna, desenvolvimento infantil, envelhecimento e desigualdades em saúde, sempre com o objetivo de produzir evidências capazes de orientar políticas públicas.

Entre as questões que mais a mobilizam está a profunda transformação demográfica vivida pelo Brasil. Se, durante décadas, o desafio era reduzir o número de gestações não planejadas, hoje o país convive com um fenômeno diferente: muitas pessoas acabam tendo menos filhos do que desejavam. “Por muitos anos, nossa preocupação era com os filhos não planejados. Hoje, nossa preocupação é com os filhos que estamos deixando de ter por     que desistimos ou adiamos a decisão devido à carreira, instabilidades econômicas, crises sanitárias ou aos objetivos pessoais ou às contingências da vida.”

Compreender essas mudanças significa antecipar desafios que afetarão o país nas próximas décadas, desde a organização dos serviços de saúde até o planejamento da educação, da assistência social e da previdência. Ao mesmo tempo, suas pesquisas mostram que as desigualdades continuam determinando experiências muito diferentes de maternidade e de acesso aos serviços de saúde.

Essa perspectiva também orientou seus estudos sobre os impactos da epidemia de zika na fecundidade brasileira e, posteriormente, sobre os efeitos da pandemia de covid-19 no comportamento reprodutivo das famílias, pesquisas que tem realizado em parceria com a professora Letícia Marteleto, da Universidade da Pensilvania. Em todas essas pesquisas, a preocupação permanece a mesma: compreender como grandes transformações sociais afetam a vida cotidiana das pessoas.

Pesquisa que dialoga com a sociedade

Para Raquel, a produção científica não termina quando um artigo é publicado. Ela acredita que o conhecimento só alcança plenamente seu propósito quando retorna à sociedade na forma de informação qualificada, políticas públicas ou melhoria dos serviços.

Essa convicção tornou-se ainda mais forte quando assumiu, em 2022, a coordenação de um projeto de extensão da UFMG, Sentidos do Nascer, criado pela pesquisadora Sônia Lansky, que promove o debate sobre gestação, parto e nascimento por meio de uma exposição interativa e de ações educativas desenvolvidas em diferentes cidades brasileiras. A iniciativa aproxima universidade e população, traduzindo resultados de pesquisa para uma linguagem acessível e estimulando escolhas informadas sobre saúde materna e neonatal.

É exatamente esse tipo de conexão que mais a entusiasma. “O que me encanta é que fazer ciência é buscar estar próximo da verdade, imparcialmente. Ter uma pergunta, usar as técnicas apropriadas para coletar dados que reflitam o mundo e fazer análises cuidadosas”. Mas ela acrescenta que esse processo não se encerra na produção do conhecimento. “Também gosto quando a ciência é usada para a sociedade. Fazer perguntas sobre o mundo, investigar e, a partir disso, propor soluções eficazes”.

Talvez seja por isso que Zanatta encontre na demografia um campo tão estimulante. Os fenômenos que estuda — nascimento, envelhecimento, fecundidade, mortalidade e migração — fazem parte da experiência de todas as pessoas e permitem que a sala de aula se torne um espaço permanente de diálogo entre teoria e realidade. “Não tem nenhuma aula em que eu não consiga exemplos do próprio cotidiano dos alunos. A demografia fala da vida de todos nós.

Ciência, colaboração e futuro

Ao receber o título de membro afiliado da Academia Brasileira de Ciências, Raquel viu na homenagem muito mais do que um reconhecimento individual. Para ela, a distinção simboliza uma trajetória construída coletivamente por orientadores, colegas, estudantes, orientandos e colaboradores que contribuíram para sua formação desde os tempos da graduação.

Também representa o reconhecimento de uma geração de pesquisadoras que vem ampliando sua participação na ciência brasileira, muitas vezes conciliando a carreira acadêmica com a maternidade e outras responsabilidades que ainda recaem de forma desigual sobre as mulheres.

Nos próximos anos, pretende contribuir para a Academia fortalecendo o diálogo entre ciência e sociedade, incentivando a formação de jovens pesquisadores e ampliando as discussões sobre desigualdades de gênero na produção científica.

Essa visão dialoga com sua própria história. Casada com o também demógrafo e professor da UFMG André, é mãe de Theodor e Catarina. A maternidade, longe de afastá-la da pesquisa, aprofundou seu interesse pelas questões que investiga e reforçou sua convicção sobre a importância de políticas públicas que permitam às mulheres desenvolver plenamente suas carreiras científicas e profissionais.

Quando olha para trás, Raquel Zanatta percebe que existe um fio condutor ligando todas as etapas de sua trajetória: a menina que acompanhava a mãe nos laboratórios da UFMG, a estudante que trocou a comunicação pela demografia, a pesquisadora que investiga saúde reprodutiva e a professora que forma novas gerações de cientistas compartilham a mesma inquietação.

Conhecimento para transformar a sociedade

Ela costuma dizer que a ciência é construída coletivamente. Talvez por isso veja a pesquisa não apenas como uma profissão, mas como uma forma de estar no mundo — baseada na colaboração, no diálogo e no compromisso permanente com a produção de conhecimento capaz de melhorar a vida das pessoas. “Nada me deixa mais orgulhosa que os trabalhos dos meus próprios orientados. São sempre trabalhos instigantes e necessários”.

É essa mesma convicção que orienta sua atuação na pesquisa, no ensino e na extensão. Em um país marcado por profundas desigualdades e rápidas transformações demográficas, Raquel Zanatta Coutinho acredita que compreender a população é um passo essencial para construir políticas públicas mais justas, eficazes e humanas. Afinal, por trás de cada indicador demográfico existem pessoas, histórias e escolhas. É para elas que sua ciência se dirige.

(Elisa Oswaldo Cruz para ABC | Foto: Cedeplar)