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Data: 14 de abril de 2020

Local: http://transmissao.abc.org.br

O MUNDO A PARTIR DO CORONAVÍRUS | Ed. 02

A Academia Brasileira de Ciências (ABC) convidou para seu segundo webinário transdisciplinar, o médico Pedro Vasconcelos, que tratou dos arbovírus (biologicamente transmitidos por insetos [artrópodes] hematófagos), especialmente os amazônicos. Traçou perspectivas para mitigar os riscos de introdução e disseminação epidêmica de arbovírus exóticos no Brasil e, na eventual introdução e circulação autóctones, avaliar as possíveis consequências das epidemias no Brasil; a ecóloga Mercedes Bustamante, que focou em políticas de desenvolvimento regional que serão necessárias para enfrentar a exposição de pessoas a novos agentes infecciosos da fauna e da flora selvagens, disseminados a partir do desmatamento e possíveis causadores de novas pandemias; e a socióloga Elisa Reis, que abordou o horizonte pós-crise, no qual prevê mais conflito entre alternativas nacionalistas, como neopopulismos e xenofobia, versus cosmopolitismo e solidariedade ampliada.

O debate foiá mediado pelo presidente da ABC, Luiz Davidovich.

 

SERVIÇO:
Evento: Webinários da ABC | O mundo a partir do Coronavírus | Ed.02
Data: 3ª feira, 14/04/2020
Hora: 16h às 18h
Evento no Facebook: FanPage
Local: http://transmissao.abc.org.br

 


Assista a gravação completa do 1º Webinário aqui.


 

  • Pedro Vasconcelos

    Médico pesquisador do Instituto Evandro Chagas (IEC), no Pará, que dirigiu entre 2014 e 2019. Professor da Universidade Estadual do Pará (Uepa). Membro do Comitê de Emergência da Organização Mundial de Saúde (OMS) para Zika e Microcefalia. Membro Titular da ABC. No webinário, Vasconcelos vai tratar dos arbovírus (biologicamente transmitidos por insetos [artrópodes] hematófagos), especialmente os amazônicos. Pretende traçar perspectivas para mitigar os riscos de introdução e disseminação epidêmica de arbovírus exóticos no Brasil e, na eventual introdução e circulação autóctones, avaliar as possíveis consequências das epidemias no Brasil.

 

  • Mercedes Bustamante

    Professora titular da Universidade de Brasília (UnB), com experiência na área de ecologia de ecossistemas. Integrou o grupo de trabalho do Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC). Membro titular da ABC. Bustamante pretende, no webinário, focar em políticas de desenvolvimento regional que serão necessárias para enfrentar a exposição de pessoas a novos agentes infecciosos da fauna e da flora selvagens, disseminados a partir do desmatamento e possíveis causadores de novas pandemias. Suas pesquisas são focadas nos temas: cerrado, mudanças no uso da terra, biogeoquímica, mudanças ambientais globais.

 

  • Elisa Reis

    Professora titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Membro titular da ABC e membro da Academia Mundial de Ciências (TWAS). Vice Presidente da área de Ciências Sociais do International Science Council. Suas pesquisas envolvem estados nacionais, cidadania, elites e desigualdade social, políticas públicas. No webinário, Reis pretende abordar o horizonte pós-crise, no qual prevê mais conflito entre alternativas nacionalistas, como neo populismos e xenofobia, versus cosmopolitismo e solidariedade ampliada.

 

  • Mediador | Luiz Davidovich

    Presidente da Academia Brasileira de Ciências, secretário geral da Academia Mundial de Ciências (TWAS) e membro da National Academy of Sciences (NAS/EUA). Professor titular da UFRJ, desenvolve pesquisas em óptica quântica e informação quântica.

 

 

Durante o encontro virtual vários internautas fizeram perguntas e não houve tempo para todas as respostas. Confira aqui as perguntas registradas e as respostas enviadas pelos webinaristas!


1) Uirandi Faria Artioli: Vocês já sabem se quem pegou o coronavírus se fica imunizado?

Prof. Pedro Vasconcelos: Obrigado pela pergunta Uirandi. Normalmente as doenças virais agudas, como é o caso da COVID-19, induzem uma proteção duradora que é realizada pelo sistema imune mediante anticorpos e células especializadas que ficam vigilantes (sensibilizadas) com “memória imune” ao vírus. Assim, essas células da defesa (células da memória imunológica) agem induzindo a produção de anticorpos protetores (neutralizantes) que neutralizam o coronavírus, assim impedindo que novas infecções ocorram na mesma pessoa. Portanto, as respostas individuais imunes com elevada produção de anticorpos protegem a pessoa que foi infectada, impedindo novas infecções.


2) Santos Santos Marcelo: O problema de cadeia de suprimentos tanto pode gerar uma resposta xenófoba quanto pode, também, representar oportunidade de distribuição de riqueza. O problema principal é concentração da produção em poucos lugares. Tanto pode significar uma tentativa de produção local quanto pode significar um espalhamento da produção por diferentes locais, incluindo países em desenvolvimento. O que acha?

Profa. Mercedes Bustamante: O novo coronavírus está expondo a vulnerabilidade à ruptura das cadeias de suprimento internacionais. Tais cadeias de suprimentos internacionais definem a era atual da globalização. E os processos de fabricação que envolvem várias fábricas e, muitas vezes, de vários países, utilizados por empresas em todo o mundo estão se mostrando mais frágeis do que o previsto. A redundância, mais do que deslocamento, parece ser a chave para a segurança da cadeia de suprimento. Iniciativas que envolvam o uso de tecnologias também poderão trazer mais transparência e visibilidade às cadeias permitindo alternativas de fornecedores e provedores. Na atual crise, as empresas que investiram no mapeamento de suas redes de abastecimento antes do surgimento da pandemia parecem estar mais bem preparadas. Elas têm melhor visibilidade da estrutura de suas cadeias de suprimentos. Com muita informação prontamente disponível, elas sabem exatamente quais fornecedores, locais, peças e produtos estão em risco, o que lhes permite colocar-se em primeiro lugar na linha para garantir estoque e capacidade limitados em locais alternativos.


3) Andrea Toledo: O Covid-19, até agora, mostra-se afetando mais o hemisfério norte, diferente do mostrado pela Mercedes onde as maiores epidemias históricas aparecem no sul. Por que isso? será que ainda vamos passar a ter mais casos no hemisfério sul? ou estamos subnotificados?

Profa. Mercedes Bustamante: O estudo apresentado refere-se à modelagem de potenciais
surgimentos de novas zoonoses em função da uma série de vetores sendo que alguns deles são particularmente importantes em regiões tropicais como extensão áreas de florestas sempre-verdes e alta diversidade de mamíferos. O avanço inicial de pandemia pelo hemisfério norte seguiu a maior intensidade de mobilidade de pessoas e as condições de inverno que favorecem a propagação de infecções respiratórias. Infelizmente já estamos vendo o aumento de casos no hemisfério sul e dada a dificuldade de testes em larga escala, há também subnotificação de casos.


4) Bitiz Afflalo: Para os três: Todos os assuntos foram muito bem, mas nos três eu senti a falta da inclusão do ritmo dos eventos sob a perspectiva histórica. Esse ritmo não nos levaria a pensar melhor nas nossas urgências?

Profa. Elisa Reis: Bitiz, se você se refere à aceleração do tempo histórico, fator observado por diversos analistas, é necessário levar em conta que o ritmo que se acelera para os eventos igualmente se acelera para a eclosão das emergências que clamam por solução.


5) Rubens Macedo: esta experiência com o COVID 19 poderá servir de modelo para outros casos de epidemias locais (Brasil)?

Prof. Pedro Vasconcelos: Sim, certamente, Rubens. Há mais de 100 anos que não temos uma pandemia de doença respiratória com o impacto da COVID-19. A mais famosa epidemia ocorreu em 1917-18 e foi causada pelo vírus da Influenza H1N1. Portanto, hoje essa pandemia causada pelo SARS-CoV2 é uma experiência inédita para todos os habitantes do planeta. E, portanto, lições são esperadas para prepararmo-nos contra novas eventuais pandemias que possam ocorrer a curto e médio prazos.


6) Cristiane Kämpf: Como vcs acreditam que nossos hábitos diários terão que mudar depois de passado o pico da pandemia?

Profa. Elisa Reis: Cristiane, é provável que as pessoas venham a sentir algum estranhamento quando o isolamento social for flexibilizado. No caso da China, o receio do contágio depois do confinamento já vem sendo comentado. Mas, é bom ter em mente também que tal receio pode vir a se manifestar no esteio de velhos preconceitos sociais. Quanto aos hábitos de consumo interrompidos pelo isolamento social, não há como ir além do mapeamento das possibilidades. É fácil concordar, por exemplo, que seria altamente desejável que as pessoas se sensibilizassem com as claras evidências que temos tido quanto ao impacto de nossas ações e decisões sobre a saúde do planeta e que daí decorressem mudanças de comportamento. Mas, não há como calcular a probabilidade dessa possibilidade. Essas duas coisas, possibilidade e probabilidade são bastante diferentes, embora com frequência confundidas.


7) Dani Chagas: Sou doutoranda em Química pela UNESP. Tendo esse panorama sobre o aumento de zoonoses e a questão da grande quantidade de vulneráveis, pode-se acreditar que em relação a covid-19 aqui no Brasil, se tenha um período de permanência do vírus seja maior?

Prof. Pedro Vasconcelos: Não, Dani Chagas. Não se tem informações científicas que apontem nessa direção. Há correntes que sugerem que o clima mais quente e úmido da região tropical poderá diminuir os impactos da pandemia, enquanto outros levantam hipótese ao contrário. Somente o tempo nos mostrará o que de fato ocorrerá em nosso país, embora os dados atuais indiquem que a diferença de clima e temperatura não esteja influenciando na transmissão e dispersão do SARS-CoV2.


8) Guilherme Rocha: Sou aluno de engenharia química da UERJ. Pergunto qual o impacto da agricultura animal e da alimentação em desenvolvimentos de zoonoses?

Prof. Pedro Vasconcelos: Não vejo muita conexão Guilherme, salvo o fato de eventualmente ocorrer diminuição das atividades produtivas na agricultura. E obviamente na produção de alimentos, se os setores rurais paralisarem suas atividades.


9) Carolina Lorieri Vanin: Apesar da China não estar localizada nesse cinturão tropical, foi lá onde surgiu a pandemia enfrentada. Acredito que deve ser levantada também a questão da criação e manutenção de animais silvestres em cativeiro, como possíveis e prováveis hotspot de novas doenças. Precisamos olhar para esses empreendimentos na vigilância epidemiológica e COM URGÊNCIA, o que acha?

Prof. Pedro Vasconcelos: Concordo plenamente com você, Carolina. Deve ser banida do planeta a comercialização de animais silvestres. Senão, o que pode ocorrer novamente é a emergência de vírus letais, seja em casos localizados, surtos limitados, epidemias mais intensas até pandemias como a que vivenciamos hoje, com a COVID-19.