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Data: 7 de abril de 2020

Local: http://transmissao.abc.org.br

O MUNDO A PARTIR DO CORONAVÍRUS, ED.1: ASPECTOS ECONÔMICOS, SOCIAIS E DA SAÚDE

A Academia Brasileira de Ciências (ABC) realizou seu primeiro webinário transdisciplinar, no qual o médico imunologista Mauro Teixeira abordou evidências médicas relativas à pandemia da covid-19, desmistificando expectativas errôneas por uma solução de cura imediata e destacando o tratamento existente; o economista Naercio Menezes focou nos efeitos econômicos, como a recessão e o aumento do desemprego; e o antropólogo Ruben Oliven tratou dos impactos sociais, como a reformulação do papel do Estado e do mercado.

O debate foi mediado pelo presidente da ABC, Luiz Davidovich.

 


SERVIÇO:
Evento: Webinário ABC | O mundo a partir do coronavírus: aspectos econômicos, sociais e da  saúde
Data: 3ª feira, 07/04/2020
Hora: 16h às 18h

Assista os destaques do primeiro webinário aqui!

Assista o webinário na íntegra aqui!

 

  • Mauro Martins Teixeira

    Vice-presidente Regional da ABC para MG&CO. Membro da Academia Mundial de Ciências (TWAS). Médico imunologista, professor titular da UFMG. Membro da comissão científica da Anvisa e presidente da Sociedade Brasileira de Inflamação (SBIn). Pesquisa as respostas inflamatórias em doenças infecciosas e autoimunes.

 

 

  • Naercio Menezes Filho

    Membro titular da ABC. Economista, professor titular do Insper e professor associado da USP. Membro do Comitê Científico do Núcleo Ciência pela Infância. Desenvolve pesquisas em educação, desigualdade, mercado de trabalho, produtividade e tecnologia.

 

 

  • Ruben George Oliven

    Diretor da Academia Brasileira de Ciências. Professor titular do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFRGS. Estuda antropologia urbana, identidades nacionais e regionais, consumo e significado simbólico do dinheiro e é editor-chefe da revista Horizontes Antropológicos.

 

 

  • Mediador | Luiz Davidovich

    Presidente da Academia Brasileira de Ciências, secretário geral da Academia Mundial de Ciências (TWAS) e membro da National Academy of Sciences (NAS/EUA). Professor titular da UFRJ, desenvolve pesquisas em óptica quântica e informação quântica.

 

 

 

Durante o encontro virtual vários internautas fizeram perguntas e não houve tempo para todas as respostas. Confira aqui as perguntas registradas e as respostas enviadas pelos webinaristas!


1) Lenício Dutra Marinho: De que maneira a experiência com a pandemia pode afetar a relação da sociedade com o Estado? Especialmente considerando o caráter patrimonialista?

Ruben Oliven: O Brasil tem uma longa tradição patrimonialista que vem desde os tempos das Capitanias Hereditárias. Precisamos repensar nosso país, procurando criar uma sociedade mais justa na qual a riqueza e a renda sejam melhor distribuídas. Uma sociedade civil organizada pode pressionar o Estado a pensar em todos.


2) Maria Aparecida Medeiros Maciel: Como será possível diagnosticar quem foi positivo para o Covid 19 após recuperação a longo prazo? Em casos, por exemplo, que não tenha tido sintomas e, portanto, diagnóstico? E também, como saber se a pessoa está imunizada?

Mauro Teixeira: A pessoa precisa ser diagnosticada com testes em que se avalia os anticorpos contra o virus SARS-Cov2. Existem vários testes disponíveis, mas cuja performance ainda não é boa. Acredito que em breve teremos algo em mãos e isto será muito útil no entendimento do grau de infecção da população.


3) AnnaCarolina Ramos: Olá, gostaria de perguntar ao prof. Mauro, principalmente, quais os melhores argumentos para se usar com o público leigo contra o uso da cloroquina, uma vez que não há evidência científica suficiente que comprove sua eficácia contra a covid-19?

Mauro Teixeira: Principalmente, que os estudos não mostram eficácia clara. Mesmo com o uso já disseminado, ainda vemos muitas pessoas morrendo da doença. Eventualmente, poderia ser útil em quem tem doença mais leve (a maioria das pessoas) e que vão se curar sozinhas. Então, antes de haver uma recomendação ampla, precisamos entender se há real benefício, quem vai se beneficiar e quanto vai se beneficiar. E todo medicamento tem que ser tomado com supervisão médica próxima, especialmente aqueles em que há risco real de efeitos colaterais.


4) Marc Salgado: Há a possibilidade da pesquisa dos anticorpos de pessoas que já conseguiram a cura? não seria o melhor caminho?

Mauro Teixeira: Isto eventualmente será conseguido quando os testes estiverem disponíveis e tenhamos mais conhecimento sobre a doença. ainda não há testes confiáveis que marcam cura de forma inequívoca. mas este será um caminho importante.


5) Andrea Marques Dal Grande: Como buscar o caminho do meio entre o isolamento social e a produção econômica sem que haja perdas muito severas?

Naercio Menezes: A prioridade é o isolamento social, para que possamos salvar vidas. Estudos mostram que em epidemias anteriores os lugares que relaxaram o isolamento antes tiveram crescimento menor depois, pois perderam mais vidas e ficaram com a doença por mais tempo.


6) Guilherme Menezes: Como o vasto Brasil, com uma qualidade de internet baixa em geral, sobrevive e sobreviverá a este cenário virtual inerente ao novo momento de pandemia com relação ao mundo desenvolvido, e ainda por cima com o boicote não assumido do Trump sobre o Brasil em todos os âmbitos, acatado pelo desastroso governo Bolsonaro?

Ruben Oliven: O Brasil passou por outras crises, como epidemias de varíola, febre amarela, Influenza, e a depressão de 1929. Somos um país com grande capacidade de resiliência e, se conseguirmos nos organizar, também sairemos desta crise com as dificuldades que ela envolve.


7) Ephim Shluger: Boa tarde. Excelentes apresentações, cobrindo os vários domínios de ciências. A minha inquietude é relativa a falta de uma estrutura cívica que pudesse mobilizar melhor os recursos humanos e técnicos disponíveis a nível local e comunitário. Após seis semanas de pandemia, verificamos que a população está esperando a transferência de fundos e equipamentos. As ONGs tem atuado na microescala, cada uma na sua especialidade. Ha muitos debates via zoom e webinar, mas poucos discutem como convergir com uma governança mais robusta que convoque os profissionais disponíveis…

Naercio Menezes: Acredito que estamos usando bem a rede de solidariedade com base em ONGs que atuam no microcosmo e também nos municípios, que têm uma forte rede de assistência social local. Mas, é preciso também uma ação liderada pelo governo federal, que está demorando para agir.


8) Carolina Morgante: Como podemos dimensionar as testagens, considerando o número de testes disponíveis e o poder de detecção dos tipos disponíveis nos estágios iniciais da doença? Como manejar isso para a saída da quarentena?

Mauro Teixeira: Esta é uma pergunta extremamente difícil de responder. Mas só poderemos modelar e planejar a saída com conhecimento do número de infecções atuais (PCR), do grau de ocupação dos hospitais, número de pessoas infectadas (sorologia, quando houver) e com conhecimento das curvas de crescimento ou queda dos casos. Etiqueta respiratória (uso disseminado de máscara) será muito importante no médio/longo prazo.


9) Rutyele Moreira: Achei brilhante a ideia da democratização do ensino pela disponibilização de aulas gratuitamente para todos que não teriam acesso. Podem discorrer um pouco mais sobre o tema?

Naercio Menezes: A pandemia está nos mostrando que alunos de todo o Brasil podem ter acesso aos melhores pesquisadores e professores do Brasil através de plataformas como o zoom, google meets ou microsoft teams, desde que tenham acesso à internet de qualidade e softwares. Isso tende a diminuir a distância educacional entre as regiões mais pobres e mais ricas. Não é um substituto perfeito para o ensino presencial, mas pode ajudar a reduzir as desigualdades.


10) Denise Jardim: A EAD é um método que requer monitores, atividades planejadas e etc. O risco é associar com um autodidatismo bem fundamentado, mas sem debates ou orientação de uma interlocução constante. O que acha?

Naercio Menezes: Acredito que o EAD não é um substituto perfeito para o ensino presencial, mas pode ajudar bastante a reduzir as desigualdades de ensino regional. Podemos aliar aulas dadas pelos melhores professores do Brasil para centenas de alunos ao mesmo tempo, espalhados pelo Brasil, com professores locais que podem organizar debates e outras atividades. Não podemos ter preconceito.


11) Renato Rodrigues: O governo do estado de São Paulo entendeu a quarentena até fins de abril. O retorno de todos ao trabalho próximo do inverno, não poderá elevar os casos de infecção? Se for necessário prorrogar está quarentena, como resgatar a economia?

Naercio Menezes: Quanto mais tempo durar a quarentena, mais difícil será recuperar a economia. Mas, se liberarmos a quarentena cedo demais, as pessoas vão ficar reticentes em ir trabalhar, pode haver uma segunda onda da doença, os hospitais podem ficar lotados novamente e a economia não vai se recuperar. Acredito que temos que ir liberando aos poucos, primeiro as regiões com maior disponibilidade de leitos, com menos casos, etc..


12) Gerhard Ett: O que aprendemos e utilizamos hoje de como o mundo reagiu às pandemias e epidemias que vitimaram milhões de pessoas no passado? as pessoas mudaram? os costumes mudaram?

Ruben Oliven: Durante momentos difíceis, como crises econômicas, guerras e epidemias emerge o que há de melhor e pior nas pessoas. Há solidariedade e ajuda, mas também ocorrem saques, ação de aproveitadores e especuladores. Uma sociedade civil organizada e um Estado que representa a todos pode ajudar a maximizar as ações altruístas e minimizar as ações egoístas.


13) Julie Lopes: O que vocês acham sobre a redução da mensalidade de universidades privadas nesta época de pandemia já que os valores nos cursos presenciais são diferentes dos EAD?

Naercio Menezes: As faculdades gastaram muito para adaptar todo o seu sistema de ensino para EAD e muitos custos são fixos, com pesquisa por exemplo. Mas, se a pandemia durar muito tempo, acredito que será inevitável haver uma queda no preço das mensalidades.


14) Luis Cesar M Menezes: É possível ter uma “nova ética” para aplicar técnicas e medicamentos ainda não aprovados para salvar vidas?

Mauro Teixeira: Luis, não acredito que precisemos de uma “nova ética”. Temos que garantir a segurança das pessoas. Sempre!! O que está havendo é uma progressão incrível na velocidade dos estudos, nas avaliações éticas (sempre rigorosas), nas avaliações pelas agências regulatórias. A ciência está se mexendo de forma muito intensa, de forma muito integrada e muito rápida. Uma nova ética poderia trazer malefícios e isto não é aceitável. Teremos que avaliar depois de tudo isto se outras coisas poderiam ter sido feitos e aprimorar o processo. Modificar agora poderia causar estragos irreparáveis ao desenvolvimento de novos fármacos. Tem sido assim durante toda a história de desenvolvimento de medicamentos e vacinas. Vamos aprendendo com os acertos e com os erros, mas sempre nos preocupando ao máximo com a segurança das pessoas.