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Análise do passado para pensar as tecnologias do futuro

Nascido em 1981, na cidade de Campinas (SP), Carlos Eduardo Ganade de Araujo passou a juventude entre a cidade natal e Niteroi (RJ), onde viveu cercado da natureza e de lugares abertos e fazia muitas trilhas de bicicleta. Ele pensa que entre os motivos para escolher a carreira está a curiosidade por entender os processos da natureza. Isso, combinado com a vontade de trabalhar a céu aberto, foram essenciais para a escolha da geologia.

Antes de escolher o curso pelo qual se apaixonou, Ganade conta chegou a cursar economia por alguns meses –  mas acabou abandonando por falta de identificação. Quando foi aprovado para geologia na Unicamp, em 2006, seguir a carreira acadêmica não estava nos planos de Ganade. O interesse surgiu gradativamente e seus professores foram os maiores influenciadores. “A graduação na Unicamp foi o melhor período para o meu desenvolvimento intelectual e profissional”, conta o cientista.

Ao concluir o curso, foi trabalhar com mapeamento geológico no Serviço Geológico do Brasil (SGB-CPRM) na região Nordeste. “Neste período, a cartografia de rochas ajudou a desenvolver o conceito multidisciplinar necessário para entender a formação e evolução dos continentes. Logo percebi que seria necessário um maior aprofundamento e então decidi fazer o doutorado direto na USP [Universidade de São Paulo]”, relatou.

Entre 2010 e 2014, Ganade cursou o doutorado em geociências pela USP. Cinco anos depois, viajou para Suíça, onde fez estágio de pós-doutorado na Universidade de Bern. Durante seus tempos de estudo, o cientista teve a oportunidade estudar e morar em outros países, como EUA, França e Austrália. Essa vivência internacional o aproximou de instituições e pesquisadores de ponta, com os quais colabora até hoje.

Para Ganade, a ciência é uma área fascinante – e o que mais o encanta é a relação de ação e reação. “Na geologia, as relações de causa e efeito são complexas e interligadas em diferentes escalas. Por exemplo, uma simples observação sobre um mineral visto ao microscópio pode ter efeito na velocidade de uma placa tectônica.” Atualmente, sua pesquisa é direcionada para a evolução geológica dos continentes. Ele “lê” nas rochas o registro da evolução da Terra desde sua origem, há quase de quatro bilhões de anos atrás, até os dias de hoje. Sobre a importância de sua pesquisa para a sociedade, Ganade explica: “O conhecimento geológico e a organização de seus eventos ao longo do tempo têm implicação direta no avanço tecnológico da sociedade, pois é das rochas e dos processos geológicos que tiramos todos os recursos necessários para viver.” Atuando como pesquisador na SGB desde 2007, o cientista já ocupou o cargo de chefe da Divisão de Geodinâmica (2015-2017) e atualmente é pesquisador do Centro de Desenvolvimento (Cedes).

“É uma honra fazer parte da ABC, fiquei muito feliz com o título. Primeiramente, tenho que me aproximar mais e entender o papel da Academia na ciência brasileira”, comenta Ganade. Durante os quatro anos como afiliado, ele demonstra entusiasmo com a possibilidade de contribuir trazendo a geologia para dentro da ABC de uma forma interligada com as outras ciências.

Fora dos laboratórios, Carlos Ganade vive um dia de cada vez, ao lado de sua família. Tem paixão por música e diz que dificilmente escuta algo que não tenha pelo menos 30 anos. No tempo livre, gosta de explorar lugares abertos, como o campo e as montanhas.

A ciência e a paixão pela sala de aula

“Na universidade se ensina porque se pesquisa”. A famosa frase de Carlos Chagas Filho reúne as duas vocações de Gabriela Ribeiro Pereira, que fizeram dela membra afiliada da Academia Brasileira de Ciências (ABC). Formada em física pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a pesquisadora atua principalmente na área de engenharia de materiais, avaliando a qualidade e integridade de produtos através de ensaios não-destrutivos.

Filha de um engenheiro civil e uma dona de casa, Gabriela nasceu em São Paulo, mas seus pais se mudaram para o Rio de Janeiro quando ela tinha apenas seis meses. Durante a infância, a nova Acadêmica já havia despertado para a vontade de dar aula e brincar de professora era uma de suas atividades preferidas. A facilidade com as ciências exatas indicava o caminho, mas foi só na hora do vestibular que finalmente decidiu. “Por pressão social eu dizia que queria ser médica, mas no terceiro ano tive um professor de física que me incentivou a seguir meu sonho”, conta.

Gabriela prestou vestibular para física e engenharia química e foi aprovada nos dois. Optou pela física, sua grande paixão acadêmica, e planejava ser professora de ensino médio. Mas durante o curso, Gabriela entrou em contato com o trabalho do professor Ricardo Tadeu Lopes, a quem considera sua maior inspiração na carreira. “Ficava fascinada em como ele transitava por diferentes áreas dentro da engenharia. Sob sua orientação fiz meu mestrado e doutorado em engenharia nuclear na UFRJ”.

Ao término do doutorado, em 2010, prestou concurso para o Programa de Pós-Graduação em Engenharia Metalúrgica e de Materiais (PEMM) da Coppe/UFRJ. “Fiz o concurso muito incentivada pelo professor Ricardo e fui aprovada”, conta Gabriela. “A partir daí conheci a segunda pessoa mais importante na minha carreira, o professor João Marcos Alcoforado Rebello, que me ajudou muito e se tornou um grande amigo, por quem eu tenho muita admiração”.

Sobre o trabalho como professora e pesquisadora, Gabriela o descreve como “um sonho que realizo todos os dias”. A capacidade da ciência de transformar a sociedade e a vida dos próprios pesquisadores é um ponto que destaca. “Precisamos cada vez mais investir em uma ciência inclusiva. A engenharia aplicada aos problemas da nossa sociedade pode transformar o mundo”.

Na ABC, a nova Acadêmica promete ser presente na defesa da ciência brasileira e quer atuar para que cada vez mais mulheres escolham a engenharia como carreira. “Quero que esta seja minha principal contribuição”, afirmou.

Mas nem só de ciência vive a cientista. No tempo livre, Gabriela se aventura na culinária e adora descobrir novas receitas veganas, hábito que adotou em 2019. Apaixonada por conhecer novas culturas, a Acadêmica quer viajar pelo mundo e aprender novos idiomas. “Herdei da minha mãe também o gosto pelo crochê e pelo tricô, ela que me ensinou”, finaliza.

Classificar para conhecer, conhecer para preservar

Dar um nome é o primeiro passo para compreender. Na biologia, a taxonomia é o campo que se especializa em descrever espécies, delimitando o que identifica os organismos entre si e o que os diferencia do resto dos seres vivos. Entretanto, como diz a frase do célebre biólogo russo Theodosius Dobzhansky, “nada faz sentido exceto à luz da evolução”, e é só a partir dela que conseguimos traçar a relação de parentesco entre as espécies e entender como os organismos mudaram ao longo das eras.

Juntando essas duas áreas, a taxonomia e a biologia evolutiva, temos a sistemática, foco de pesquisas do novo membro afiliado da ABC, Marcelo Trovó. O paulistano de 40 anos é professor do departamento de Botânica da UFRJ e especializado em sistemática vegetal. “Busco conhecer, delimitar, descrever e mapear a biodiversidade brasileira”, explica, lembrando a importância deste trabalho para a conservação. “É sempre mais efetivo traçar estratégias para aquilo que já conhecemos”.

Mas nem sempre o novo Acadêmico pensou em trabalhar com plantas. Antes de optar pela biologia, cogitou cursar oceanografia ou engenharia da pesca. O interesse pelos ecossistemas aquáticos vem desde pequeno, estimulado por programas que assistia no National Geographic e Discovery Channel. Além da televisão, bons professores na escola e no cursinho o colocaram no caminho da ciência. “De alguma maneira eu sempre me interessei por entender como funcionavam as coisas ao meu redor, em especial relacionadas ao mar”, contou.

Mais velho de seis irmãos, Marcelo lembra com carinho da infância em São Paulo. Seus pais sempre o apoiaram, mesmo após a separação, e foram importantes para que ele confiasse em suas próprias escolhas. Foi durante uma conversa com o pai que ouviu o que mais precisava: “Faça algo que goste, independente de promessa de retorno financeiro”. E foi então que ingressou em biologia na Universidade de São Paulo (USP).

“Fiz um curso com professores e recursos excelentes, além de memoráveis trabalhos de campo e atividades em laboratório. Foi um privilégio”, descreve Trovó, que logo no primeiro semestre se encontrou na disciplina Princípios de Sistemática e Biogeografia. “Eu tinha certeza de que gostaria de sistemática zoológica, então resolvi dar uma chance para a vegetal e nunca mais saí”, comentou, ao falar sobre a escolha de estágio.

Seu projeto de iniciação científica foi focado em relacionar padrões morfológicos à distribuição geográfica da sempre-viva-de-mil-flores (Actinocephalus polyanthus), sob orientação do professor Paulo Takeo Sano. O resultado foi tão satisfatório que o novo Acadêmico ingressou direto no doutorado, que completou em 2010, com o mesmo orientador. Além de Sano, Trovó lembra com admiração de Cássio van den Berg e Thomas Stützel, que também o orientaram no doutorado e pós-doutorado. “Foram fases de muito aprendizado, nas quais estive em contato com abordagens científicas diferentes das que eu estava habituado”.

Sobre o título de membro afiliado da ABC, Trovó considera uma grande honra ter sido indicado, em meio a tantos cientistas talentosos. Para ele, representar a botânica, em particular a sistemática vegetal, é uma responsabilidade nos tempos em que vivemos. “Neste momento de crise da biodiversidade e do meio ambiente, além dos seguidos ataques à ciência, refletir e agir para mudar os rumos das políticas ambientais tem se tornado cada vez mais urgente”, avaliou.

No tempo livre, Marcelo passa boa parte das horas ensinando e brincando com os filhos. Gosta de viagens ligadas à natureza – mas sem o trabalho das coletas de campo – e surfa regularmente nas praias do Rio de Janeiro. Em casa, gosta de escutar rock e MPB, acompanha os noticiários para se manter atualizado e é um ávido leitor de biografias e história da ciência.

A importância de ser curioso

Quando alunos da PUC-Rio convidaram o professor Simon Griffiths para dar uma palestra num evento da graduação, ele pensou sobre qual seria a mensagem mais importante a ser passada para os jovens estudantes de matemática e decidiu: “Ser curioso”.

O novo membro afiliado da ABC, nascido no ano de 1983 na cidade portuária de Poole, na Inglaterra, a 182km de Londres, passou a usar esse texto para incentivar os alunos: “Já temos muito conhecimento sim. Mas nem na ciência, nem na vida, temos todas as respostas. Por isso, precisamos continuar curiosos!”

Simon começou a se interessar pela matemática muito cedo. Sua habilidade para decorar números chamava atenção dos familiares mais próximos. “Minha mãe conta que eu já queria aprender todos os números aos três anos”, relembra. Morando em Wimborne, uma cidade mercantil a 8km de sua cidade natal, ele teve uma infância tranquila, jogando futebol e frequentando a praia de Sandbanks no verão. Nos anos seguintes, o jovem se tornou um dedicado estudante da matemática, além de ter interesse pelo Universo e pelos planetas. No ensino médio, era também um apaixonado pela física e pela economia.

Nessa fase da infância, ele conta que não tinha muito orgulho “em ser o cara bom em matemática, mas acho que sempre foi uma parte da minha identidade”, avalia Griffiths. Seus pais sempre o incentivaram, chegando, inclusive, a levá-lo para visitar o planetário em Londres quando ele tinha cinco anos. Seu pai tinha experiência com computadores e explicou a ele sobre outros sistemas numéricos, como o binário e hexadecimal. Filho mais velho, Simon tem um irmão formado em direito. E acha que foi só na faculdade que começou a entender o que a matemática realmente é.

Ele cursou a graduação, mestrado e doutorado em matemática na Universidade de Cambridge, no Reino Unido. As aulas com o prestigiado matemático Imre Leader o impressionaram, porque ele se esforçava muito para encontrar a melhor maneira de explicar suas ideias nas aulas. Griffiths trabalhou com Leader no doutorado, tendo vislumbrado um outro lado do renomado professor: “Ele fez o máximo para encorajar minha independência como pesquisador.  Aproveitei de discussões com ele e mini-seminários que ele promovia, com outros alunos.”

Em 2010, Griffths veio pela primeira vez para o Brasil, onde permaneceu por três anos para um estágio de pós-doutorado no Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (Impa). A experiência, segundo ele, foi ótima: “Parecia um sonho”, comenta o Acadêmico. “O clima morno, tropical, era muito mais agradável que o clima do meu país natal, Inglaterra, ou Canadá, onde passei dois anos e cursei meu primeiro pós-doutorado.” Após concluir o período no Impa, o Acadêmico foi para a Universidade de Oxford, onde fez um terceiro estágio de pós-doutorado. Durante esse tempo, sentiu saudades do Brasil e passou a visitar o país com frequência, todos os anos.

Dividido entre o Reino Unido e o Brasil, Griffiths refletia muito sobre seus próximos passos na carreira. Em 2015, uma vaga na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro chamou sua atenção e ele decidiu: era o momento de voltar para o Brasil. Aprovado no processo seletivo, teve que enfrentar seus primeiros desafios como professor – e não mais como pós-doutorando – e também as diferenças linguísticas. Seis anos após ter sua primeira turma na PUC-Rio, o matemático coleciona feitos de destaque em sua carreira, como a co-autoria do artigo The chromatic thresholds of graphs, pelo qual recebeu o prêmio Fulkerson, patrocinado pela Mathematical Programming Society (MPS) e pela American Mathematical Society (AMS), em 2018.

“Redes exercem um papel fundamental no mundo atual, incluindo a internet, as redes sociais, as redes de comunicação, as redes neurais artificiais e até o cérebro humano. Na matemática, a teoria de grafos é o estudo abstrato de tais redes”, explicou Griffiths. Esta teoria, segundo ele, estuda as relações entre os objetos de um determinado conjunto, que inclui também o estudo de outras estruturas discretas, como hipergrafos e soluções de sistemas de equações lineares.

Sua pesquisa está focada principalmente nas áreas de combinatória e probabilidade, em particular, os problemas em que é necessário entender a evolução de processos aleatórios no contexto de grafos. “Na área de combinatória, em particular, existem muitos problemas que são elementares e ao mesmo tempo profundamente difíceis.  São problemas que podem ser descritos para crianças, mas que nenhum matemático do mundo sabe resolver.” Segundo ele, a possibilidade de descobrir algo completamente novo e aprofundar o conhecimento é um ponto de atração importante da ciência.

O novo membro afiliado da ABC afirma estar muito honrado com o título e demonstrou interesse em se aprofundar na área de popularização da ciência, na qual ainda não tem experiência. “Como muitos professores, criei vídeos durante a pandemia e espero que seja possível usar essa experiência para desenvolver mais conteúdo relacionado à popularização”, relata o pesquisador.

Para Simon Griffiths, uma das grandes vantagens da vida acadêmica é ter oportunidade de viajar bastante e, com isso, fazer novos amigos e estabelecer colaborações em projetos. Pessoalmente, ele gosta mesmo é de música. Um carioca de coração, ele afirma que o melhor gênero musical ao vivo no Rio é o samba. “Eventos como a roda de samba da Pedra do Sal são incríveis”, comenta o novo Acadêmico, reafirmando a ideia de que matemática e música – ciência e arte -, andam juntas.

A primeira comunicóloga da ABC

Quando pensamos em ciência, nossa associação mais imediata – e estereotipada – é com jalecos, laboratórios e experimentos complexos. Mesmo se focarmos nas Humanidades, a imagem mais comum é a do sociólogo, do historiador ou do economista, que se debruçam sobre diferentes aspectos da sociedade para entender de que forma a interação humana transforma o mundo e o coletivo. Mas e se o foco do cientista for a própria interação? E se o cientista for um jornalista?

É o caso de Thaiane Moreira de Oliveira, nova membra afiliada da Academia Brasileira de Ciências. Carioca, mãe de três filhas e apaixonada por viagens e natureza, Thaiane é a primeira pessoa da Comunicação a ingressar na Academia, o que considera um reconhecimento não apenas para si, mas para toda sua área de conhecimento. Ela acredita que o grande desafio dos comunicólogos na atualidade é lidar com a desinformação e quer engajar a ABC nesse debate.

Preocupada desde cedo com as mazelas sociais do Brasil, Thaiane lembra que a experiência de trocar uma escola católica por um colégio público foi um divisor de águas em sua vida. Nesse novo ambiente, teve a chance de presenciar a realidade brasileira para além do Méier e Ipanema, onde passou a infância.

Filha de pai engenheiro e mãe jornalista, Thaiane é a segunda de seis irmãos. A irmã mais velha também se formou em jornalismo e essa influência familiar fez com que a nova Acadêmica escolhesse o caminho a seguir. “Eu era uma adolescente curiosa sobre a sociedade e sempre soube que escolheria alguma das ciências humanas. Mas houve uma época em que eu não sabia qual delas”, contou.

Durante o período de incerteza, ela aproveitou para tentar diferentes cursos e aulas e avalia que essa experiência foi crucial para se tornar uma profissional interdisciplinar, algo fundamental tanto na ciência quanto no jornalismo. “Admiro a capacidade que o conhecimento especializado tem de se complementar quando entra em contato com outras áreas”, refletiu.

Na graduação, realizada na Universidade Estácio de Sá, ela conta que não teve muitos incentivos para seguir a carreira acadêmica, mas que ouviu o “chamado da ciência” através da professora Rejane Matos, durante o curso de Teoria da Comunicação. “Logo na primeira aula, conheci diferentes perspectivas teóricas que marcaram o campo da Comunicação e foi aí que explodiu em mim a vontade de fazer pesquisa”.

Já na pós-graduação, realizada na Universidade Federal Fluminense, com um período na Universidade de Uppsala, na Suécia, Thaiane se envolveu com editoração de periódicos científicos, onde começou a fazer perguntas sobre métricas de avaliação e políticas científicas. “Trabalhar num periódico científico, para mim, era uma forma de fazer com que mais pessoas tivessem acesso ao conhecimento”, explicou, lembrando também da experiência que teve com eventos científicos e as trocas que estes possibilitam.

O conhecimento multidisciplinar, tão marcante em sua trajetória, é indispensável para compreender o fenômeno contemporâneo das fake news. Para combatê-lo é necessário incluir cada vez mais atores nas discussões públicas – e a ciência precisa entender que este também é seu papel. Para Thaiane, não é uma iniciativa sozinha que resolverá este problema. “É preciso entender as dinâmicas sociais, culturais, políticas e econômicas por trás e elaborar estratégias comunicacionais e educacionais com base em evidências científicas”.

Mas a paixão pela sua ciência não ofusca uma consciência crítica do papel que esta exerce na sociedade. Enquanto muitos enxergam o caráter fragmentado da Comunicação como um problema, Thaiane o vê como uma oportunidade de dialogar com diferentes saberes. “Ciência sozinha não soluciona nada, mas oferece subsídios para o processo de decisão política. Para isso é necessário comunicar os resultados das pesquisas para a sociedade. É isso que me encanta na minha área, a Comunicação.”

Negacionismo estrutural

Confira trechos do artigo escrito pelo alumni da ABC Marcus Lacerda para a sessão Opinião do Jornal O Globo, publicado em 20 de janeiro. Lacerda foi coordenador do estudo que comprovou a ineficácia da cloroquina para o tratamento da Covid-19.

Cresci numa família que sempre dizia, em tom de brincadeira: “Vê se faz um serviço de branco desta vez”. Décadas depois, descobri que éramos racistas. O racismo estrutural se esconde nas pequenas piadas, que obviamente ofendem os negros, muitos deles até acostumados ao linguajar. Isso institucionaliza uma violência difícil de combater, porque sutilmente se mesclou à cultura do país.

Percebi, nos últimos dois anos, que o negacionismo seguiu um padrão semelhante. Existe o negacionista raiz, que sempre diminuiu os problemas da pandemia por convicções políticas. Mas muitos de nós somos estruturalmente negacionistas, sem perceber. Explico-me.

Quando a Itália nos disse que os cemitérios estavam superlotados, preferimos dizer que a pandemia lá era mais grave por causa da idade avançada dos italianos e porque estavam no inverno europeu. Na sequência, todos conhecemos o triste resultado da Covid-19 tropical.

Quando Manaus colapsou em março de 2020, nova onda negacionista acreditou que o problema se restringiria à misteriosa e distante Paris dos Trópicos. Quando a mesma cidade regurgitou casos, quase um ano depois, mais negacionismo estrutural, mesmo entre os experts. Resultado: seguiram-se mais de 4 mil mortos num único dia, por todo o país.

(…)

Então surgiu a nova variante Ômicron, que se espalhou de forma imprevisível pelo globo terrestre. Países inteligentes já haviam vacinado quase 70% de sua população com pelo menos duas doses. Naturalmente, a maior parte dos casos foi mais branda, e a percepção subjetiva dos médicos, agora, era que a variante sul-africana era menos agressiva. Ora, só se pode concluir sobre a agressividade do novo vírus se estudarmos a infecção exclusivamente entre os não vacinados.

Perguntem a qualquer médico intensivista se a infecção por Ômicron, entre os pacientes não vacinados internados nas UTIs, é menos grave. A resposta será um redondo “não”. Queremos muito que novas variantes do novo coronavírus sejam mais brandas, mas a verdade é que tudo o que estamos vendo só tem uma explicação razoável: a vacinação, especialmente após um reforço. É ela, sozinha, que está salvando milhões de pessoas mundo afora, porque já não conseguem ficar presas em casa ou usar máscaras.

Enquanto nós, os especialistas em doenças infecciosas, não afirmarmos isso, alto e bom som, em uníssono, estaremos contribuindo para um negacionismo estrutural que permite a desinformação do movimento antivacina. A verdade mesmo é que está cada dia mais complicado para os negacionistas convictos se explicar e defender suas ideias, baseadas numa suposta liberdade de expressão. Até porque vários deles estão morrendo, e, como diz um amigo, “a morte é um argumento muito convincente”.

Leia o artigo completo no Jornal O Globo.

Ex-afiliado da ABC recebe prêmio nacional de química por fertilizante do futuro

O ex-membro afiliado da ABC Brenno Amaro (2014-2018) foi condecorado pela Sociedade Brasileira de Química (SBQ) com o Prêmio SBQ de Inovação Fernando Galembeck 2021. A honraria reconhece o trabalho do pesquisador no desenvolvimento de bioestimulantes e biofertilizantes para a agricultura brasileira.

Brenno Amaro é professor do Instituto de Química da Universidade de Brasília (IQ/UnB) e um dos fundadores da Krilltech, start-up de nanotecnologia focada em soluções para o agronegócio. A empresa aposta na arbolina como um biofertilizante do futuro, um fitorregulador atóxico, não bioacumulável e luminescente, com potencial de aumentar a produção e a qualidade nutricional do alimento.

A arbolina vem sendo avaliada por especialistas da área como um produto revolucionário. Segundo a Ordem dos Economistas do Brasil (OEB), a implementação dessa nova tecnologia pode ter impacto de até 2% no PIB brasileiro, e 10% no PIB da agricultura, na ordem de R$ 150 bilhões.

Em conversa com a Secretaria de Comunicação da UnB, o professor destacou que o reconhecimento só reforça a necessidade de que as ciências básicas e as aplicadas atuem em conjunto.

Confira a matéria feita pela UnB sobre a premiação.

Novos membros afiliados debatem doenças infecciosas e crônicas

 

Os participantes do 8º Simpósio Científico dos Membros Afiliados da ABC 2020-2021

Na tarde de 24 de agosto, foi realizado o 8º Simpósio Científico dos Membros Afiliados da ABC 2020-2021, que recepcionou cinco novos afiliados: Fernando Fonseca de Almeida e Val, Gisely Cardoso de Melo, Julio Cesar Batista Ferreira, Mychael Vinícius da Costa Lourenço e Renan Pedra de Souza.

Os palestrantes trabalham com doenças infecciosas e crônicas e apresentaram um pouco de suas pesquisas na área. Durante o evento foram discutidas diferentes enfermidades como Alzheimer, malária e, é claro, COVID-19.

A coordenação dos debates ficou por conta de João Batista Calixto, vice-presidente da ABC para a região Sul. Participaram também os afiliados Marco Aurélio Ramirez Vinolo e Angélica Thomaz Vieira como debatedores.


Conheça os novos membros afiliados da ABC que participaram do simpósio:

Fisioterapia e medicina tropical: uma combinação criativa
O fisioterapeuta Fernando Fonseca de Almeida e Val doutorou-se em doenças tropicais e infecciosas e se dedica hoje ao pós-doença em casos de malária, HIV/AIDS e COVID-19.

Parasitologia: paixão desde a iniciação científica
A professora da UEM Gisely Melo estuda a resistência do parasita Plasmodium vivax  à cloroquina e, recentemente, incluiu o Sars-Cov-2 à sua pesquisa.  

Ciência e esporte
Bacharel em esportes, Julio Cesar Batista Ferreira  estuda  a descoberta de processos celulares que contribuem para a progressão de doenças. Ele é professor da USP, da Universidade de Stanford e fundador do programa SPARK-Brasil. 

Ciência para enfrentar as doenças neurodegenerativas
Professor da UFRJ, Mychael Vinícius da Costa Lourenço estuda a doença de Alzheimer e almeja encontrar tratamentos eficazes para tratar esta e outras doenças similares.

Desbravando o desconhecido: a ciência, o planeta e a COVID-19
O professor da UFMG Renan Pedra de Souza se dedica atualmente a compreender porque algumas pessoas apresentam mais complicações no quadro de COVID-19 do que outras. 


DISCUSSÃO

Iniciada a rodada de debate, o espaço foi aberto para questionamentos. Além do coordenador e dos debatedores, também fez perguntas para os participantes o novo vice-presidente da ABC para a Região São Paulo, Glaucius Oliva.

Malária

A pesquisa com drogas para o tratamento de malária foi o tema central das falas de Fernando Val e Gisely de Melo. Foram muito abordadas as drogas Tafenoquina – cujo uso já foi aprovado nos EUA e União Europeia e está em estado avançado no Brasil – e cloroquina.

Essa última teve uma repercussão gigantesca no Brasil, veiculada de forma enganosa como tratamento para o novo coronavírus. Essa droga, originalmente utilizada para o enfrentamento da malária, é comprovadamente ineficaz contra a COVID-19, porém foi amplamente utilizada, muitas vezes como automedicação, durante a pandemia.

Com relação aos danos colaterais da utilização desse medicamento, foi ressaltado que ainda não existem análises padronizadas que quantifiquem esses casos, mas que o uso foi tão difundido que o aumento da incidência ficou evidente. “Nós observamos e listamos os efeitos adversos da cloroquina. Esses estudos foram conduzidos em hospitais públicos e com acompanhamento do Estado do Amazonas, então o poder público estava ciente desses efeitos”, lembrou Fernando Val.

Quanto ao uso indiscriminado da cloroquina contribuir para um aumento de resistência da malária, Gisely Melo afirmou que pesquisas nesse sentido ainda precisam ser feitas, mas que esse é um fenômeno conhecido e que não pode ser descartado. A pesquisadora também acrescentou que o composto da cloroquina usado para a malária é diferente, o que pode influenciar nesse aspecto.

Alzheimer e doenças neurodegenerativas

Mychael Lourenço abordou os mecanismos que levam aos problemas neurológicos e possíveis estratégias terapêuticas. Em específico foi citada a expressão da irisina, que tem atuação neuroprotetora. Entretanto, ainda existem barreiras para a transformação dessa molécula em droga comercial.

Quanto à prevenção da Alzheimer, foi destacado o papel fundamental dos exercícios físicos regulares. “No caso particular da irisina os dados apontam para uma maior eficácia de práticas aeróbicas, porém a literatura indica que qualquer tipo de exercício físico tem função neuroprotetora”, afirmou Mychael.

Outro ponto abordado foi a relação entre a microbiota humana e o sistema neurológico. O pesquisador lembrou que ainda existem poucos dados que indiquem essa relação especificamente com o Alzheimer, mas que para outras doenças neurológicas isso já é estabelecido. Nesse sentido, existe um risco na utilização frequente de antibióticos, que pode alterar a microbiota, e também há um papel importante da alimentação na prevenção desses problemas.

COVID-19

A participação de Renan de Souza foi centrada no novo coronavírus e suas variantes. As pesquisas apresentadas focaram no monitoramento genômico das diferentes cepas e sua difusão pelo Brasil.

Com relação a variante Delta, foco das preocupações mundiais atualmente, o pesquisador destacou que esta é mais transmissível e propensa a infectar mesmo indivíduos totalmente vacinados. “Em países com cobertura vacinal maior do que a nossa, o que se tem visto é uma prevalência da variante Delta na infecção de pessoas imunizadas. Em países não vacinados também se observa um aumento da frequência dessa cepa, causada pela sua maior capacidade transmissão”, explicou Renan.

Devido a essa capacidade da variante de escapar das vacinas, o pesquisador salientou a importância de que se mantenham as medidas não farmacológicas até que se desenvolvam imunizantes mais capazes de controlar efetivamente a pandemia.

Ciência translacional

O pesquisador Julio Cesar Ferreira focou sua fala nos desafios para o desenvolvimento de novos fármacos, destacando a necessidade de uma colaboração mais próxima desde a ciência de base até os testes clínicos aplicados. “O ponto crítico é a educação, devemos educar todas as partes sobre como funciona a criação de novas drogas. Precisamos criar referências que possam vir a ser utilizadas futuramente em cada etapa desse processo”, salientou.

Ferreira trouxe o exemplo do programa SPARK, do qual participa e que visa integrar as várias etapas de desenvolvimento farmacológico. Destacou a importância de coordenação e orientação junto aos pesquisadores, e também do diálogo internacional.

O coordenador João Batista Calixto trouxe uma reflexão importante: o Brasil é o sétimo maior consumidor de remédios no mundo, porém depende quase inteiramente de importações. Todos os participantes destacaram que são dois os problemas principais para ampliar a produção local: falta de investimento e entraves burocráticos.

Nesse sentido, Julio lembrou da importância de termos casos de sucesso que sirvam para alavancar o interesse público por ciência e fornecer referências a serem seguidas. Para isso, ressaltou a importância de colaborações internacionais.

Calixto encerrou o evento com uma sugestão a todos os cientistas que trabalhem com desenvolvimento de fármacos. “Quem pensa em fazer pesquisa translacional tem que estudar aspectos regulatórios, não podemos depender de terceiros. Precisamos ser mais que cientistas. O motivo pelo qual muitos projetos não vão para frente é a falta de compreensão da legislação, e a área da saúde é a mais regulada no mundo inteiro”.

Assista ao simpósio na íntegra pelo canal da ABC no YouTube.

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