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Uma voz em defesa da biodiversidade

Jadson José Souza de Oliveira nasceu em 1986, em Natal, no estado do Rio Grande do Norte (RN). É filho do meio de servidores públicos: José Belarmino de Oliveira, funcionário da Governadoria do Estado do RN, e Rosângela Américo Souza de Oliveira, funcionária da secretaria do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

Jadson conta que sua infância foi uma fase excelente da vida, mas não foi fácil. A família de classe média baixa teve momentos de escassez financeira, mas seus pais nunca deixaram faltar nada em casa. A educação dos três filhos sempre foi prioridade para José e Rosângela, que investiam com dificuldade em escolas particulares. Entretanto, o investimento deu resultados positivos: os três irmãos ingressaram na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Jefferson, dois anos mais velho, graduou-se em economia; Jadson graduou-se em ciências biológicas e a irmã mais nova, Julyane, cursou farmácia.

Quando menino, Jadson gostava de jogar futebol na rua com amigos, andar de bicicleta, jogar vídeo game, bola de gude, polícia e ladrão, pega-esconde, jogos de tabuleiro, entre outros. Também foi escoteiro dos sete aos 15 anos de idade, onde teve grande contato com a natureza e aprendeu a respeitá-la. Foi nesse cenário que também aprendeu valores como o respeito ao próximo, honra à pátria, cidadania e o serviço ao próximo, além da justiça, verdade e cordialidade. Ele relata que sempre foi observador, além de ter sido uma criança que gostava realmente de estudar e que tinha facilidade em aprender. Essas questões foram determinantes para seu desenvolvimento na área científica: “À medida que crescia, me tornava sistemático e metódico em muitas coisas. A busca da evidência e da verdade se tornou algo natural”, afirma.

Na escola, gostava mais de ciências no ensino fundamental e no ensino médio, preferia biologia, química e física. Tinha vontade de seguir carreira na medicina e esteve convicto disso por bastante tempo. No entanto, ao assistir um documentário sobre uma cirurgia muito delicada, percebeu que ter nas mãos a saúde e bem-estar de vidas humanas era uma responsabilidade com que não saberia lidar. Tentou um meio termo, a biomedicina, mas não foi aprovado no vestibular. “Depois desse baque, tive a oportunidade de repensar minha escolha e tentar abrir um leque maior de possibilidades, num curso mais abrangente como o de Ciências Biológicas”, rememorou. 

Durante a graduação, iniciada em 2005, Oliveira conciliou o bacharelado na UFRN com o curso técnico de Controle Ambiental pelo atual Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte (IFRN), na época (CEFET-RN). “Foi uma realização maravilhosa, porém muito intensa, com estudo de manhã e à tarde. Não foi fácil, muitas vezes indo direto de uma instituição para a outra. Mas o esforço valeu a pena e sou muito grato por tudo”, diz.  

Foi bolsista de iniciação científica (IC) PIBIC de 2006 a 2009 no Laboratório de Fungos do Centro de Biociências (UFRN), onde desenvolveu pesquisa com taxonomia – atividade científica de descrever e dar nome aos seres – de Marasmius, um gênero de cogumelos, na Mata Atlântica em Natal (RN). Seu orientador foi o professor Iuri Baseia e o trabalho resultou na sua monografia. Publicou seu primeiro artigo científico em 2008. Em 2009, Oliveira recebeu uma proposta irrecusável: fazer o mestrado no Instituto de Botânica (IBt), São Paulo, com a Dra. Marina Capelari, uma das maiores especialistas brasileiras em taxonomia e sistemática de Agaricales, um grupo de cogumelos. O curso era no programa de pós-graduação em Biodiversidade Vegetal e Meio Ambiente, na área de concentração de plantas avasculares e fungos. O projeto de mestrado teve bolsa concedida pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). E lá se foi o rapaz nordestino para a maior cidade do país.  

Daí em diante, Jadson Oliveira foi em frente. Em 2011, teve a oportunidade de transformar seu mestrado em doutorado direto, expandindo as áreas de coleta. Em 2013, realizou um estágio com o Dr. Jean-Marc Moncalvo no Royal Ontario Museum (ROM), em Toronto, Canadá, com bolsa da Fapesp para doutorado sanduíche no exterior e duração de cinco meses, para ampliação e aprimoramento de análises filogenéticas moleculares de Marasmius com sequenciamento de quatro regiões gênicas. Recebeu em 2014 o diploma de doutor do Instituto de Botânica com registro na Universidade de São Paulo (USP), com a tese “Morfologia e relações filogenéticas de Marasmius (Marasmiaceae) de áreas de Mata Atlântica do estado de São Paulo, Brasil”. Em 2015, foi bolsista de pós-doutorado no exterior (PDE) pelo CNPq por um ano, novamente no ROM, na área de filogenômica com uso de Exome Target Sequencing em Agaricales sob a supervisão do Moncalvo. Retornou ao Brasil em 2016, iniciando outro pós-doutorado no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), onde atua até hoje como docente colaborador no programa de pós-graduação em Ciências Biológicas (Botânica) como bolsista do Programa Nacional de Pós-Doutorado da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (PNPD/Capes), desenvolvendo pesquisa em taxonomia, sistemática e filogenia de macrofungos da Amazônia, orientando ICs e alunos de pós-graduação.

As pesquisas de Oliveira se dão na área da biodiversidade que, na sua opinião, deveria ser uma área de pesquisa prioritária num país como o Brasil, “devido à rica diversidade biológica, com grande riqueza ecológica, genética, cultural e econômica”. O cientista explica que trabalha com o levantamento ou coleta, identificação e classificação de macrofungos, os populares cogumelos, e preservação das coleções em herbário. “É um estudo descritivo e investigativo, que tem interface com várias linhas de pesquisa”, explicou. Deu exemplos de interação com ecologia de ambientes naturais, biotecnologia com bioprospecção de compostos com propriedade antibiótica, antifúngica e antitumoral, além de outras propriedades úteis para a medicina, farmacologia, agronomia, biorremediação (tratamento de problemas ambientais com uso de organismos vivos), culinária e gastronomia (com os cogumelos comestíveis), e a comunicação com povos tradicionais promovendo o conhecimento atribuído e creditado ao seu povo de origem. 

Em 2021, Oliveira atua no grupo de pesquisa Cogumelos da Amazônia, coordenado pela professora  Noemia Kazue Ishikawa (ex-afiliada da ABC no período de 2010 a 2014) e equipe que, além da pesquisa, busca estimular a popularização da ciência com os fungos para o público em geral.  

Ele revela que é fascinado pela carreira acadêmica e pelo método científico. “A ciência é um instrumento de apropriação de conhecimento ao desvendar o mundo que vivemos. Ela se fundamenta na verdade por trás dos fenômenos, a descrição do que existe, a explicação das funções e dos mecanismos da vida, das engrenagens dimensionais entre energia, matéria e espaço”, afirma.  

Oliveira confessa que se tornar membro afiliado da ABC é um dos marcos mais importantes da sua vida profissional, pois é um sinal de confirmação de seu trabalho e realização profissional nas ciências biológicas e na atuação na Amazônia. “Minha pretensão é contribuir com ciência de qualidade e defender a pesquisa científica no Brasil no contexto social e político. Ser uma voz da biodiversidade, servindo às populações e às comunidades de todos os ecossistemas, sejam eles naturais ou urbanos. Uma voz em defesa da conservação e preservação de ambientes, equilibrados por práticas mais eficientes e sustentáveis, com vistas à perpetuação e ao progresso sadio”, expressa. 

Para além da ciência, seus hobbies são muitos, como correr, andar de skate, tocar guitarra e violão, compor. Gosta muito de ler e tem descoberto seu interesse por escrever também. É cristão e gosta muito de ler sobre o assunto. “Deus é meu maior suporte. Em segundo lugar minha família, amigos e igreja”, conta. 

Ciência e sabedoria popular

O despertar do interesse pela ciência e as lembranças da infância se misturam na vida do catarinense Juliano Ferreira. Nascido em Blumenau, cresceu na pequena cidade de São João Batista, no interior de Santa Catarina, onde predominava o ambiente rural. Suas diversões eram o futebol, o jogo de queimado, corrida a pé ou de bicicleta e a “construção” de brincadeiras com os amigos, como pernas de pau, rampas para saltar de bicicleta ou skate, carrinho de rolimã, casa em árvores… longe de videogames. Numa casas com muitos livros, onde a mãe lia para ele todas as noites, Juliano se interessava muito pela leitura. “As palavras escritas no papel se transformavam em imagens e modelos na minha cabeça. Além disto, sempre queria saber como as coisas funcionam, não somente aparelhos, mas também fenômenos da natureza”, conta, atribuindo a esta combinação de curiosidade e imaginação seu interesse científico.

E Juliano expressava de formas curiosas esse interesse: o que aprendia na escola, experimentava em casa. “Um dia, invadi um dos banheiros de casa e montei meu primeiro laboratório”, conta. Na cidade pequena, era fácil comprar material químico (ácidos, bases, sais, metais, etc) em lojas agropecuárias, de material de construção, supermercados e farmácias. Depois, era só chegar em casa e aplicar os conceitos. “Nem sempre meus objetivos eram pacíficos. Um dos projetos foi produzir pólvora de boa qualidade para fazer rojões… Hoje eu chamaria de ciência aplicada, mas na época…”, brinca Juliano.

Além da vocação científica, o fato de seu pai trabalhar em uma farmácia deve ter influenciado sua escolha pelo curso na área. Prova disso é que um dos seus seis irmãos também cursou farmácia. “Meu irmão que cursou faculdade antes de mim foi muito importante na minha formação. Como ele tinha estudado em colégios públicos estaduais, teve muita dificuldade em disciplinas básicas da universidade federal. Então, quando vinha visitar a família, ele me ensinava e me avaliava em várias matérias, especialmente em química e biologia”, recorda Juliano.

Ingressando na graduação em farmácia da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), Juliano Ferreira foi monitor da disciplina Química Geral e, em seguida, ingressou na iniciação científica (IC). Ele se interessou por farmacologia e farmacognosia – área que estuda princípios ativos naturais, sejam animais ou vegetais – e começou a pesquisar no laboratório do professor Adair R.S. Santos, analisando o conhecimento popular dobre o uso de plantas medicinais e comparando com o conhecimento científico da farmacologia, para comprovar a eficácia das espécies selecionadas. “No verão, quando a maioria dos meus colegas de turma estava de férias, ficávamos no laboratório fazendo experimentos, discutindo artigos e fazendo seminários. Adorava esta rotina, o que era difícil de explicar para os amigos. A partir daí, não parei mais e sou colaborador e amigo do meu primeiro orientador em pesquisa até hoje”, complementa.

Juliano Ferreira desenvolve pesquisas voltadas para a prevenção e redução do sofrimento de pacientes com diferentes tipos de dor, através do uso de medicamentos de origem natural, ou seja, utilizando substâncias de plantas medicinais ou animais venenosos. Dentro do ramo de farmacologia bioquímica, ele atua principalmente no desenvolvimento de analgésicos, anti-inflamatórios e na observação de toxinas e plantas medicinais. “Em relação às plantas, exploramos o conhecimento popular que indica diferentes espécies para o tratamento da dor. Em um primeiro momento, coletamos e identificamos a planta a ser estudada, preparamos extratos da mesma e verificamos cientificamente se esta planta possui efeitos analgésicos ou tóxicos em ensaios controlados em animais de laboratório”, explica o pesquisador, complementando: “Buscamos responder às perguntas: Funciona mesmo?, É seguro usar?”.

O estudo etnofarmacológico, segundo Ferreira, utiliza o saber científico para comprovar o uso medicinal empírico da população, além de alertar sobre possíveis efeitos tóxicos. “Em um segundo momento, identificamos os princípios ativos responsáveis pelo efeito analgésico e tentamos explicar seu exato mecanismo de ação. Na linha de princípios ativos de animais peçonhentos a lógica é inversa e usamos conhecimento da própria natureza”, discorre. Venenos de animais peçonhentos são uma mistura de substâncias químicas que, por diferentes mecanismos de ação bem específicos, têm a função de facilitar a obtenção da presa. “Em um primeiro momento fazemos a obtenção de substâncias químicas e mostramos como ela funciona. Posteriormente, investigamos se funciona no tratamento da dor e se é seguro. Em ambos os casos, o objetivo é desenvolver novos analgésicos que sejam mais eficazes e seguros do que os atualmente usados”.

A trajetória para desenvolver estes estudos incluiu o mestrado e o doutorado em farmacologia na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Seu orientador foi João Batista Calixto, membro titular da Academia Brasileira de Ciências e, para Ferreira, um grande exemplo de dedicação à causa científica e à formação de recursos humanos. “Ele nos dava uns merecidos puxões de orelha, mas incentivava a boa formação de seus alunos sempre baseada no estudo aprofundado dos temas de pesquisa”. A maturidade científica veio com a rotina de pesquisas e, ao conquistá-la, foi incentivado por seu orientador a desenvolver projetos próprios, embora com acompanhamento próximo. Para Ferreira, esta liberdade para conduzir os próprios projetos foi essencial para o seu desenvolvimento. “Talvez esta seja a diferença na formação de um cientista e não de um técnico de laboratório”, observa.

Atualmente, Juliano Ferreira é professor adjunto do Departamento de Química da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Também é integrante do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Medicina Molecular (INCT-MM), uma colaboração de grupos de cientistas e médicos experientes dedicados a integrar a ciência básica e tecnológica à prática clínica. Ferreira diz que sua motivação maior na ciência é a busca pelo desconhecido, motivo pelo qual sua atividade nunca é monótona. Ele acredita que as características fundamentais de um bom cientista são a curiosidade, a persistência e o uso ético do método científico. Membro afiliado da ABC eleito para o período 2012 -2016, Juliano Ferreira considera o título como “um passo para outro patamar de discussão científica, saindo da base individual e partindo para a discussão coletiva sobre ciência”. E pretende contribuir para que a ciência possa entrar também com força no interior do país, “onde muito ainda pode ser feito”, conclui.

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