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Paixão por peixes da infância à docência

É bastante comum que jovens escolham cursar biologia pela paixão por animais e plantas. Mas há aqueles que nutrem esse gosto por um grupo específico. Esses casos são ótimos, pois o jovem já começa sua caminhada sabendo não só qual graduação fazer, como até mestrado e doutorado. É o caso do biólogo Valter Monteiro de Azevedo Santos, membro afiliado da Academia Brasileira de Ciências eleito para o período 2023-2027, que desde cedo sonhava em ser ictiólogo. 

O pesquisador nasceu e cresceu em Carmo do Rio Claro, em Minas Gerais, cidade que tem tudo a ver com sua paixão por peixes. O município é cortado pela represa de Furnas, onde desde criança Valter pescava acompanhando a mãe, Isabel Cristina, e os tios Manoel e Luis Fernando. “Aos nove anos de idade descobri que adorava pescar, é daí que vem minha escolha de carreira”, conta. 

Outra grande influência foi o pai, de quem carrega o nome e o gosto pelo saber. Professor de física e matemática, ele incutia no filho o desejo de aprender cada vez mais e estar sempre acumulando conhecimento. “Meu pai é a pessoa mais genial e inspiradora que eu conheço”, resume Valter. 

Mas mesmo com pai matemático, as matérias que o jovem Valter preferia na escola eram história, geografia e biologia. Esta última ele escolheu seguir aprendendo pela vida inteira. No ensino médio, Valter descobriu que uma grande referência da área também é natural de Carmo do Rio Claro. Falecido em 1994, o ex-membro associado da ABC José Cândido de Mello Carvalho foi um grande nome da zoologia brasileira e um pioneiro nas lutas pela conservação, atuando por décadas junto ao Museu Nacional. “Quando descobri que um conterrâneo meu tinha sido um grande biólogo, me inspirei e quis ser também, mas para trabalhar com peixes ao invés de insetos”, conta. 

Para seguir o sonho, Valter ingressou no curso de biologia da Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG) do campus de Passos. Logo cedo já procurou estágios com peixes, mas por falta de professores disponíveis, sua primeira experiência de pesquisa foi com outro grupo de animais aquáticos: os crustáceos. Após essa primeira etapa, ele conheceu o professor Ricardo Benine e, finalmente, pôde mergulhar de cabeça no tema que já amava.  

Ricardo foi orientador de Valter durante o mestrado, no qual fez uma revisão da taxonomia – ou seja, da forma como nomeamos as espécies de seres vivos – do gênero Moenkhausia, grupo de peixes Tetras endêmico da América do Sul. Já no doutorado, sob orientação dos professores Raoul Henry e Fernando Mayer Pelicice, Valter desenvolveu um trabalho de ecologia focado na conservação da fauna ictiológica da bacia do Rio Guareí, em São Paulo. 

“Todos os professores e colaboradores que eu tive foram muito importantes, então tenho até receio de esquecer alguém. Mas não posso deixar de agradecer aos grandes mestres Fernando Pelicice, com cujo exemplo aprendi muito; e Raoul Henry, que me ensinou muito sobre ciência e tolerância. Devo muito da minha formação aos dois colegas e, agora, amigos”, homenageia Valter. 

Em 2021, o pesquisador ingressou como docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade, Ecologia e Conservação da Universidade Federal do Tocantins (UFT), onde orienta alunos de mestrado. Durante toda sua trajetória, se envolveu não apenas com trabalhos de zoologia e taxonomia como também com projetos em ecologia. Valter mantém um olhar sempre atento à preservação de peixes e todo o ecossistema aquático. “Falar sobre conservação é o que mais me interessa. Por exemplo, estudo taxonomia pensando em como posso fornecer informações para estratégias de conservação desses grupos”, explica.   

O Acadêmico avalia o ingresso na ABC como a realização de um sonho e se compromete a atuar, sobretudo, na divulgação científica. “Vejo o conhecimento sobre ciência ainda distante da sociedade brasileira, quero participar ativamente desse debate”, diz. 

Nas horas de lazer, Valter ama voltar às raízes em Carmo do Rio Claro, onde continua pescando com a mãe e visitando amigos e familiares. Apaixonado por música, ele gosta de estar sempre próximo de seu violão. “Ouço especialmente heavy metal e músicas antigas do Brasil, como, por exemplo, as do Alvarenga & Ranchinho e Alcides Gerardi. Outra de minhas paixões é ler filosofia”, finaliza. 

Ciência endêmica da Amazônia

Lar da maior floresta tropical do mundo, a região Norte do Brasil ainda é a que menos gera pesquisadores no país. Entre 1996 e 2017, a região formou apenas 1,5% dos doutores nacionais (Dados: CGEE). O Norte também foi onde ocorreu a maior queda em titulações na pandemia, em 2020, concedendo 23% menos títulos do que em 2019. Esses números refletem um ecossistema científico regional ainda pouco consolidado e que sofre com um grave subfinanciamento, mesmo estando integrado a um tesouro ambiental inestimável para o Brasil e para o mundo. 

A importância de se desenvolver a comunidade científica da Amazônia é tema central nas discussões sobre o bioma. Pesquisadores locais tem mais facilidade de fixação e contribuem para um acompanhamento contínuo da floresta. Além disso, é impossível pensar num novo modelo de desenvolvimento para a Amazônia sem levar em conta sua população. É por isso que precisamos de mais pesquisadores como Patrik Ferreira Viana, membro afiliado da Academia Brasileira de Ciências (ABC) eleito para o período 2023-2027. 

O pioneirismo de Patrik na ciência começou cedo. Ele foi o primeiro da família a obter um diploma de ensino superior e sua escolha pela biologia foi algo natural para o jovem nascido e criado em Manaus. “Passei a infância inteira às margens dos rios Amazônicos, em contato com a natureza. Na escola, minhas matérias preferidas eram geografia, ciências e matemática. Então acho que o interesse veio naturalmente”, conta. 

Logo que ingressou no curso de biologia do Centro Universitário do Norte (Uninorte), Patrik já começou a procurar estágio de iniciação científica. Foi quando ele conheceu a professora Eliana Feldberg, do Instituto Nacional de Pesquisas Amazônicas (Inpa), dando início a uma parceria que duraria mais de dez anos. “Foram muitas barreiras ultrapassadas durante essa jornada e muitas pessoas estiveram comigo. Mas minha orientadora foi sem dúvidas uma das mais importante no meu crescimento enquanto pesquisador”, avalia. 

Sob orientação de Eliana, Patrik fez mestrado e doutorado no Inpa, estudando a diversidade genética amazônica. Seu principal foco são os cromossomos sexuais, onde desenvolveu boa parte de sua tese no Institute for Applied Ecology da University of Canberra (IAE/UC), universidade referência nesse tópico da Biologia Evolutiva. “Os mecanismos de determinação sexual são muito mais dinâmicos do que a maior parte das pessoas imagina, com variações significativas entre espécies e grupos relacionados. Tento entender como as mudanças no planeta afetam a determinação do sexo e como os diferentes animais lidam com as adversidades do mundo atual”, explica Patrik. 

Com esse objetivo, o Acadêmico passou a ter como principal objeto de pesquisa um animal símbolo da Amazônia: a jibóia. Essas serpentes, da família Boidae, podem chegar a seis metros de comprimento e são um dos mais poderosos predadores da floresta. Sua tese de doutorado, uma análise comparativa da evolução do cariótipo – conjunto de todos os cromossomos de um organismo – para várias espécies de jibóias, foi escolhida pela Capes como a melhor tese de 2021 na área Biologia 1. Patrik foi apenas o segundo cidadão amazonense a receber o prêmio. 

Mas além das jibóias, o pesquisador também participou de projetos para o estudo genético em outros animais, como tartarugas, jacarés, anfíbios e diversos grupos de peixes. “Algo que me encanta na área é perceber a resiliência dos animais. A vida sempre encontra um jeito, um meio de se adaptar”, diz. 

A biodiversidade amazônica ainda é gravemente subrepresentada na taxonomia brasileira e esforços para conhecer essa floresta de genomas diferentes é um dos desafios da ciência nacional. É por isso que o Brasil precisa formar mais cientistas amazônicos. “Ser escolhido como membro afiliado da ABC e ter a oportunidade de continuar atuando com divulgação científica é, sem dúvida, um marco na minha carreira”, finaliza Patrik. 

Entendendo como funciona a floresta

“Fui infectado pela Amazônia e vivo plenamente esse vício até hoje.” É assim que o membro afiliado da Academia Brasileira de Ciências (ABC) Bruno Oliva Gimenez descreve sua relação com o tema de sua pesquisa. Hoje no Instituto Nacional de Pesquisas Amazônicas (Inpa), que ele considera a “Meca” das pesquisas sobre o bioma, ele atravessou grandes distâncias para trabalhar com o que ama. 

Nascido na cidade de São Paulo, Bruno sempre se sentiu à vontade na natureza. Mesmo na capital, seu lazer preferido era o Parque da Aclimatação, onde jogava bola e andava de skate em contato com as árvores e longe dos prédios. Sempre que podia, a família viajava à Peruíbe, no litoral sul do estado, onde o menino aprendeu a surfar e respeitar o oceano.  

O gosto pelo meio ambiente o acompanhava até dentro de casa. Bruno tinha um verdadeiro laboratório no quarto, com aranhas e escorpiões empalhados e até um microscópio. “Eu levava alguns amigos para casa, apagávamos as luzes e ficávamos projetando as imagens do microscópio na parede do quarto: fios de cabelo, pequenos bichos; até furávamos o dedo para poder enxergar como era o sangue”, relembra. 

Mesmo gostando mais das disciplinas de Humanidades na escola, seu interesse por tudo que envolvia natureza fez Bruno ter a certeza de que queria ser, nas suas próprias palavras, “algum tipo de biólogo diferentão”. Mas ele não fez biologia. Na hora de escolher o curso, optou por engenharia florestal na Universidade Federal de Viçosa (UFV), encarando o desafio de mudar de estado e morar sozinho aos 18 anos. “Foi uma escolha certeira. Na faculdade, descobri também as ciências agrárias, campo que hoje acho adoro”, diz. 

Na faculdade ele se envolveu no projeto MataGao, um bosque mantido por alunos e professores que serve como um grande laboratório à céu aberto para pesquisas com plantas, animais e ecologia. “Fazíamos experimentos maravilhosos nessa área, que existe até hoje no campus da UFV”, conta. 

Ao se formar, Bruno não seguiu direto na carreira acadêmica, preferindo ingressar no mercado de trabalho. A experiência como engenheiro florestal durou apenas um ano e meio, pois não era o que ele queria. O apoio e exemplo da namorada Lorena, hoje sua esposa, também contou. “Ela trabalhava num laboratório cheio de reagentes e equipamentos. Sempre achei esse tipo de ambiente mágico, como a cozinha deve ser para um cozinheiro”, conta.  

Foi então que Bruno Gimenez tomou uma decisão radical: fazer mestrado no Inpa e se mudar para Manaus. “Fiz a prova e consegui ser aprovado, foi uma das melhores coisas que aconteceu na minha vida. O choque de estar na Amazônia e naquela instituição foi algo que me mudou para sempre. A ciência tinha voltado para mim e desde então nunca mais fiquei sem ela”. 

No Inpa, Gimenez teve a oportunidade de conviver e aprender com alguns dos maiores nomes da ciência amazônica. “Almoçávamos no Bosque da Ciência junto com pesquisadores de renome como Philip Fearnside, Willian Magnusson, Bruce Nelson, Thomas Lovejoy, Flávio Luizão, Valdely Kinupp, Isolde Kossman e meu orientador, Niro Higuchi”, lembra. 

A parceria com Higuchi se deu durante todo o mestrado e o doutorado, quando GImenez estudou a hidrologia da Amazônia, área que continua pesquisando até hoje. “De modo resumido, minha pesquisa se concentra tanto na ecologia quanto na fisiologia das árvores, e como esses fatores influenciam nos ciclos do carbono e da água, local e globalmente”. 

Entender as relações entre a floresta e o clima é fundamental num mundo em que destruição ambiental e mudanças climáticas andam lado a lado. Através do trabalho de Gimenez, conseguimos entender quanto uma árvore transpira por dia, quanto carbono ela estoca e de que forma isso ocorre. “Em outras palavras, são formas de quantificar a importância da floresta amazônica para o Brasil e para o mundo”, explica o pesquisador. 

Agora membro afiliado da ABC, Bruno Gimenez pretende representar, em particular, a ciência feita pela região Norte, que ainda sofre com a sub-representação e a falta de financiamento – algo que não condiz com a enorme riqueza de recursos que abriga. “A ciência é gigante, assim como a Amazônia. Em ambas, não há limites visíveis. Esse casamento, entre a ciência e a Amazônia, foi para mim uma grande descoberta e é hoje minha grande alegria de viver”.   

Nas horas vagas, o Acadêmico cultiva o gosto pela literatura e pela música, se aventurando no violão e na bateria quando quer relaxar. A vida na Amazônia reúne tudo que Bruno sempre quis e ele continua um apaixonado por atividades à céu aberto. “Gosto de nadar e qualquer tipo de esporte feito na água. O Rio Negro é o paraíso para a prática de canoagem, então, sempre que posso, pratico.” 

As várias gerações da botânica amazônica

“Se vi mais longe, foi por estar apoiado sobre os ombros de gigantes”. A célebre frase de Isaac Newton é um dos mantras da ciência, reconhecendo a produção de conhecimento como indissociável do trabalho feito pelas gerações anteriores. A trajetória de Allan Klynger da Silva Lobato, professor da Universidade Federal Rural do Amazonas (UFRA) e novo membro afiliado da Academia Brasileira de Ciências (ABC), traz exemplos concretos da importância dos mestres. 

Nascido em Belém do Pará, o novo Acadêmico passou a infância entre a capital do estado e o município de Peixe-Boi, onde a família tinha um sítio com matas preservadas. Foi lá que Allan teve seu primeiro contato com o mundo vegetal, aprendendo sobre tipos de folhas, flores e frutos, essências e suas possíveis utilidades. O primeiro professor foi seu avô materno, Milton Gonçalves da Silva, que atuava como técnico no Museu Paraense Emilio Goeldi (MPEG) e cujo conhecimento prático sobre a floresta fez com que participasse em inúmeras expedições científicas. 

“Meu avô nunca considerou sua função como trabalho. Era uma atividade prazerosa que o possibilitava ter contato com pessoas e culturas de todo o mundo. Ele compreendia a relevância da pesquisa para o país e as infinitas formas como um cientista pode contribuir para a sociedade. Por isso, sempre incentivou todos os filhos, amigos e familiares a alcançarem seus doutorados, independentemente da área”, conta. 

Já na adolescência, Allan teve a influência de outro Milton, dessa vez seu tio, Milton Hélio da Silva, pesquisador ainda atuante no MPEG. Milton trabalha com fitoquímica, estudando as potencialidades de extratos e óleos das plantas amazônicas. Allan se tornou frequentador assíduo de seu laboratório e das estações de pesquisa em campo. “Eu ficava fascinado com os equipamentos funcionando, os ruídos eram como música para mim, as vidrarias e suas funções, além das diversas cores geradas. Achava os estudantes e profissionais tão elegantes de jaleco branco”, rememora. 

E foi assim, a partir de diversas experiencias de campo e laboratório, que Allan Lobato teve a convicção de que se tornaria pesquisador. Em 2003, ingressou no curso de agronomia da UFRA já sabendo qual caminho seguir e aproveitou as muitas experiências da universidade para consolidar essa ideia. Foi quando conheceu o professor Roberto Cesar Lobo da Costa, da área de fisiologia vegetal, que se tornaria seu primeiro orientador. 

“O professor Roberto sempre foi conhecido pelas aulas práticas, e isso era fantástico numa área que engloba tantos conceitos e é vista como difícil pelos alunos”, comenta Allan. “Com ele tive minhas primeiras lições sobre escrita científica, aprendi a planejar um estudo, preparar as planilhas com os dados, escrever os primeiros manuscritos científicos. Assim, fui melhorando a partir de seus conselhos”.   

Após se formar, em 2008, Lobato embarcou em um novo desafio: a pós-graduação pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), no Paraná. Sob orientação da professora Maria Celeste Gonçalves-Vidigal, o pesquisador se aprofundou no campo da genética vegetal, concluindo mestrado e doutorado com melhoramento convencional e molecular de feijoeiro, onde buscava formas de oferecer resistência a antracnose (mestrado) e maior tolerância a seca (doutorado), sendo os principais estresses na cultura do feijão.. 

Mas mesmo antes de se tornar doutor, Allan Klynger já havia conseguido uma vaga de professor efetivo na sua Alma mater, a UFRA, onde atualmente lidera seu próprio grupo de pesquisa. “Nossa principal linha de pesquisa são os brassinosteróides, esteroides naturais ou sintéticos com significantes propriedades promotoras de crescimento e desenvolvimento nas plantas. Essas moléculas aceleram o metabolismo, potencializam o sistema de defesa e estimulam estruturas anatômicas essenciais para a tolerância à seca, à deficiência de nutrientes e à contaminantes presentes no solo”, explica.  

Lobato destaca ainda uma molécula específica, o 24-epibrassinolídeo, um tipo de brassinosteróide considerado eficiente regulador do crescimento vegetal. “Dentre suas características mais importantes estão ser natural, biodegradável e não agredir o meio ambiente”. 

Essa busca por uma agronomia mais produtiva e adaptada aos desafios do século XXI é o que move o pesquisador, e uma das características que exalta em seu trabalho. “A ciência tem a possibilidade de resolver problemas que afetam a sociedade e, dessa forma, transformar a realidade. Estudar o metabolismo vegetal e entender as respostas das plantas pode melhorar a performance das plantas, reduzindo custos e gerando soluções cada vez mais sustentáveis”.  

Para ele, a eleição para a ABC é uma porta para novas possibilidades, além de um importante reconhecimento. “É um momento único na minha carreira, de valorização das diversas etapas pelas quais passei, seja como pesquisador, docente ou orientador. É resultado da dedicação de vários anos à ciência brasileira e mundial”. 

O estudo do coração

Conhecer as vias que levam a problemas de saúde é fundamental para desenvolver tratamentos. O coração, por exemplo, é um órgão no qual alterações no tamanho e estrutura podem desencadear complicações graves e levar à morte. Uma das principais vias de mudanças no coração ocorre pela ativação de metaloproteinases da matriz extracelular (MMPs), enzimas cuja desregulação pode causar situações como crescimento ou falência do órgão. Entender melhor o papel das MMPs no sistema cardiovascular é o objeto de pesquisa de Alejandro Ferraz do Prado, eleito membro afiliado da Academia Brasileira de Ciências (ABC) para o período 2023-2027. 

Alejandro nasceu e cresceu em Belém do Pará. É o caçula dos irmãos Andrea, Adriana e José Roberto. Viu todos eles entrarem na faculdade, então sempre imaginou que sua vez chegaria também. Mas antes de ser cientista, Alejandro foi atleta, um excelente nadador que se destacava no cenário juvenil regional do Norte e Nordeste. “Cheguei a ganhar quatro troféus e mais de 100 medalhas. Fiz muitos amigos na natação e conheci vários lugares por conta das competições. Minha mãe, Maria Lina, era minha maior torcedora, incentivadora e companheira de viagens”, relembra. 

A natação lhe rendeu uma bolsa de estudos no Centro de Serviços Educacionais (CESEP) em Belém. Lá ele conheceu seus grandes amigos Carmina, Caio, Wagner e Lígia, de quem permanece próximo até hoje. A preferência por ciências e matemática já dava pistas da carreira que seguiria no futuro, a farmácia, mas o jovem também era um apaixonado pelas aulas de história. 

A escolha de curso se deu na última hora. Em 2005, quando prestou vestibular, Alejandro ainda não sabia o que queria fazer. Os testes vocacionais com a psicóloga do CESEP já apontavam para a área acadêmica, então percebeu que a farmácia poderia proporcionar isso. “Eu nunca tinha ouvido falar do curso. Mas comecei a pesquisar e estudar mais sobre as possibilidades e o que poderia fazer ao me formar, e acabei escolhendo o curso de farmácia”. 

E assim ele ingressou no Centro Universitário do Pará (CESUPA) e iniciou sua caminhada. Logo nos primeiros anos da faculdade conheceu sua primeira orientadora, Maria Fâni Dolabela, professora de sua disciplina preferida, a farmacologia. De forma voluntária, Alejandro passou a ajudar o grupo de Dolabela em pesquisas para isolar um composto anti-malárico a partir das plantas da família Aspidospermas, grupo de árvores ao qual pertencem as perobas. Outra experiência foi no Instituto Evandro Chagas, sob orientação de Karla Valéria Lima, onde se aprofundou em microbiologia e biologia molecular. 

Alejandro participou também de projetos sob orientação da pesquisadora Cristine Bastos do Amarante, do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG). O primeiro plano de trabalho foi investigar a análise da composição química e propriedades farmacológica da Aninga, planta aquática encontradas em rios amazônicos. Já no segundo plano de trabalho, ele teve sua primeira experiência com estágio remunerado, estudando o perfil fitoquímico de extratos de Aninga. Seu projeto acabou premiado como destaque de melhor trabalho de iniciação científica no MPEG. 

A iniciação científica permitiu que o jovem pesquisador apresentasse seus trabalhos em congressos e eventos, o que o deixava ainda mais motivado. “É muito interessante participar de congressos de pesquisa durante a graduação, pois o encontro com alunos de outras instituições não é algo rotineiro na faculdade. Agradeço muito aos meus pais por me ajudarem financeiramente na época”, recorda. 

Após acumular experiências em Belém, surgiu uma oportunidade que marcaria sua carreira. Por indicação da professora Maria Fâni, ele se inscreveu para participar do XV Curso de Inverno de Farmacologia da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto. O renome da pós-graduação em farmacologia da USP de Ribeirão Preto a precedia, então Alejandro já viajou planejando retornar para fazer mestrado. “Gostei dos professores, a maioria foi muito receptiva e aberta para conversar com os alunos. Durante o curso, me interessei pela área de farmacologia cardiovascular, particularmente pelas linhas dos professores José Eduardo Tanus dos Santos e Raquel Fernanda Gerlach, que estudavam o papel das MMPs em doenças cardiovasculares”, diz. 

Conversando com a Profa. Raquel, ele descobriu que ela havia acabado de clonar e purificar a Metaloproteinase da Matriz 2 (MMP-2) e que agora planejava acoplar uma proteína fluorescente ao composto para melhor acompanhar sua atuação no organismo. “Gostei do projeto na mesma hora”, conta. “Achei muito interessante e inovador e, assim, decidi que prestaria a prova de mestrado para ser seu orientando”. 

A parceria com Raquel abarcou seu mestrado e doutorado. No mestrado, o pesquisador investigou os efeitos da MMP-2 na aorta de coelhos. Já no doutorado, utilizando da MMP-2 fluorescente, analisou a fundo a localização e a atuação do composto em camundongos. “Foi uma oportunidade única estar na Universidade de São Paulo durante a pós-graduação. Além da Raquel, os professores José Eduardo Tanus e Lusiane Bendhack foram grandes mestres. Também contei com a ajuda de muitas pessoas que acabaram se tornado amigos queridos, como a Aline Azevedo e a Elen Rizzi”, recorda. 

Para Alejandro, os anos de pós-graduação são os mais importantes na formação científica de um professor-pesquisador. “Acredito que, especialmente no Brasil, a graduação acontece muito cedo e, muitas vezes, a carga horária sobrecarrega o aluno com aulas. Assim, o interesse científico floresce mesmo na pós-graduação”, avalia. 

Após o doutorado, o pesquisador retornou à sua cidade natal para realizar pós-doutorado no MPEG. Desde 2017 ele é professor do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal do Pará (UFPA), onde continua estudando os mecanismos das MMPs nos problemas cardiovasculares com vista a um tratamento farmacológico. “O que me encanta na ciência é investigar o desconhecido, tentando sempre fazer as perguntas “como?” e “por que?”. Dessa forma, tentamos elucidar vias bioquímicas, indicar alvos terapêuticos e diminuir as mortes por doenças cardiovasculares”, explica. 

Agora na ABC, Alejandro pretende atuar para aumentar o incentivo e o financiamento aos pesquisadores da região Norte do país. Nas horas vagas, gosta de estar sempre rodeado pelos amigos queridos, sempre presentes em sua vida, não posso deixar de agradecer a Keuri, amiga que tenho prazer em trabalhar junto e dar boas risadas nas horas vagas. “Tenho paixão por viajar e conhecer lugares novos”, finaliza o Acadêmico.  

Conhecimento e memória

A memória é a parte mais importante da formação de um indivíduo. Nossas experiências acumuladas moldam quem somos para nós e para aqueles ao nosso redor. Quando ela começa a falhar, é como se partes da história da pessoa se perdessem ainda em vida — e só quem já conviveu com essa realidade sabe o quanto ela é cruel.  

A memória é o campo de estudos de Cristiane Regina Guerino Furini, membra afiliada da Academia Brasileira de Ciências (ABC). Ela coordena o Laboratório de Cognição e Neurobiologia da Memória do Instituto do Cérebro da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, onde também é professora da Escola de Medicina e pesquisadora do Instituto de Geriatria e Gerontologia. “Coordeno pesquisas para desvendar e entender os mecanismos moleculares e celulares envolvidos na formação, armazenamento e recuperação de memórias, algo fundamental para a nossa existência e identidade”, explicou. 

Cristiane nasceu no município de Tenente Portela, quase na fronteira do Rio Grande do Sul com a Argentina. O convívio próximo com os avós, que ficavam muito com ela quando não estava na escola, foi marcante. A infância tranquila em cidade pequena foi recheada de brincadeiras na rua, andando de bicicleta e jogando vôlei com os amigos. Ela conta que sempre foi estudiosa e que, na escola, a preferência por biologia já aparecia.  

A escolha de faculdade foi difícil. Cristiane ficou em dúvida entre dois cursos completamente distintos: farmácia ou arquitetura. A escolha pela primeira se deu quase por acaso, mas acabou sendo acertada. “Me interessei logo de cara pelo curso, o que foi aumentando conforme fui tomando conhecimento da possibilidade de ser uma pesquisadora”, contou.  

Durante a graduação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ela conheceu a professora Grace Moraes, que a apresentou ao Centro de Memória, então coordenado pelo professor Iván Izquierdo, membro titular da ABC falecido em 2021. “O professor Izquierdo teve um papel extremamente importante na minha carreira científica e é um grande exemplo até hoje. Desde a iniciação científica tive a honra trabalhar em seu grupo de pesquisa e segui trabalhando ao seu lado quando já era professora”, lembra, com carinho pelo mestre. 

Cristiane fez mestrado e doutorado no Centro de Memória, no mestrado, ela estudou vias de sinalização da memória no reconhecimento de objetos, e depois passou a atuar com a farmacologia da memória espacial. “Me pareceu natural o caminho até o doutorado, pois meu interesse pela pesquisa era cada vez maior. Assim, o estudo da memória me acompanha desde a minha primeira experiência na área científica”. 

Encantada por ciência, a professora se vê num mar de possibilidades no campo das neurociências, sempre fascinada pelas múltiplas funções cruciais que o cérebro desempenha. Animada por fazer parte da ABC, ela espera construir contatos e redes com pesquisadores de outras partes do país, tanto na sua área como na defesa mais ampla da ciência no país.  

Mas nem só de ciência vive o cientista. Nas horas vagas, Cristiane é uma apaixonada por histórias de suspense, seja na literatura ou no cinema, e também gosta de caminhadas. Como todos nós, ela está sempre em busca de construir novas memórias. “Amo viajar para conhecer novos lugares e novas histórias”, finalizou. 

Cobrindo a distância entre nós e os astros

A curiosidade sobre o céu noturno acompanha o ser humano desde a pré-história, o que faz a astronomia ser considerada a primeira ciência do mundo. A ciência moderna se propõe a raciocinar sobre os astros despida de misticismos e crenças, mas nem por isso eles se tornam menos misteriosos. No fim das contas, talvez o fascínio que a astrofísica Cristina Furlanetto sente quando olha para cima seja o mesmo que os antigos sentiam e, por causa dele, todos foram impelidos a buscar respostas sobre o espaço sideral. 

Mas essa realidade parecia distante na infância de Cristina. A membra afiliada da Academia Brasileira de Ciências cresceu em Garibaldi, na Serra Gaúcha, onde teve uma infância tranquila rodeada de amigos. Filha de comerciantes e neta de agricultores, ela sempre admirou os saberes práticos da família e, em troca, sempre foi estimulada a querer conhecer mais sobre tudo. “Eu tinha o sonho de ser cientista. Na minha imaginação de criança, eu queria usar jaleco e ser astronauta. Eu queria ter uma casa na árvore e fazer um laboratório dentro dela”, relembrou.  

Outro estímulo para o interesse em ciências foi a participação no Movimento Bandeirante, dos 10 aos 18 anos. As atividades de bandeirantismo eram realizadas em meio à natureza, o que aguçava a curiosidade da jovem. Na escola, suas matérias preferidas eram matemática e física e ela lembra até hoje do professor Leandro, que durante o ensino médio a estimulava a sempre questionar e pesquisar por conta própria. 

Foi nessa época, com 13 anos, que Cristina fez uma viagem de escola para Porto Alegre, onde visitou o Planetário da UFRGS e o Museu de Ciência e Tecnologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS). Essa viagem foi muito importante para mostrar à afiliada que seu sonho era possível, o que comprova a importância que esses espaços de divulgação científica têm na formação das novas gerações. “Foi uma referência fundamental no meu processo de escolha, pois eu vi naquela universidade que existia um caminho para o meu sonho se tornar real. Mas isso não quer dizer que o processo não foi cheio de receio e de incertezas”, contou Furlanetto. 

E as incertezas eram muitas. 1500 quilômetros a separavam do único curso de astronomia do Brasil existente na época, na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mudar-se sozinha para a cidade grande e distante era inviável, então ela optou por cursar física na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mesmo sem muitas informações sobre o curso e a carreira. “Meus pais me diziam ‘será que vais conseguir se sustentar sendo física?’”, ela contou. “Mas conforme eu fui ganhando segurança sobre a minha escolha, eles passaram a me dar total apoio”. 

Na UFRGS, Cristina cumpria com a carga horária do curso, mas sempre com um olhar atento para a sua área dos sonhos. Ela puxava todas as atividades e matérias optativas em astronomia e cosmologia que a universidade oferecia. No terceiro período, conheceu o professor Leonardo Brunnet, da disciplina de Métodos Computacionais, com quem começou a fazer iniciação científica. “Mesmo não sendo na área de astrofísica, esse estágio foi fundamental para eu pegar o gosto pela pesquisa. Além disso, despertou em mim o interesse por programação e métodos numéricos, algo que perpassa minha carreira até hoje”, explicou. 

Mas foi só no fim da graduação que o caminho da Acadêmica e da astrofísica finalmente se entrelaçaram. No seu último semestre, físicos do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) estiveram na UFRGS para ministrar um minicurso. Conversando com eles, Cristina foi convencida a prestar a prova de mestrado pro CBPF, na qual foi aprovada. “Dessa vez, o Rio de Janeiro pareceu pertinho”, relembrou. 

E assim, com 22 anos Cristina mudou de estado para estudar o que sempre quis. Sob orientação do professor Martín Makler, ela mergulhou na astrofísica e defendeu sua tese intitulada “Implicações cosmológicas de um campo escalar com ação de Born-Infeld estendida”. Ao final desse período, Makler passou a estudar o fenômeno das lentes gravitacionais, que ocorre quando a luz de um objeto distante é desviada por um corpo massivo, como uma galáxia, tal qual uma lente de um telescópio. A Acadêmica logo se interessou pelo assunto. 

Mas a vida pessoal às vezes pede passagem e Cristina precisava voltar para o Sul. Nessa época, o grupo do laboratório de Makler fazia parte do projeto internacional Dark Energy Survey (DES), um esforço de colaboração entre centenas de cientistas para mapear o cosmos e encontrar padrões que pudessem revelar pistas sobre a tão misteriosa matéria escura. Outro grupo que fazia parte do DES era o do professor Basílio Santiago, da UFRGS, com quem a Acadêmica decidiu fazer doutorado. 

Assim, nesse período ela estudou os fenômenos de lentes gravitacionais que identificava nas imagens do DES, desenvolvendo métodos para aprimorar esse processo e descobrindo muito sobre galáxias e aglomerados de galáxias que ia encontrando pelo caminho. Em 2012, ela defendeu sua tese “Arcos gravitacionais em aglomerados de galáxias: detecção, caracterização e modelamento”, tornando-se doutora em Astrofísica. “Em toda minha trajetória acadêmica, meus orientadores foram referências muito importantes, pela maneira como transmitiram o conhecimento e pela dedicação à ciência. Eles me deram todo o suporte necessário”, agradeceu. 

Cristina lembrou também das mulheres cientistas com quem teve contato ao longo do caminho. “Tive oportunidade de conviver com mulheres incríveis no Instituto de Física da UFRGS, que me inspiram até hoje por sua paixão pela ciência. Destaco as professoras [e Acadêmicas] Miriani Pastoriza, Thaisa Storchi Bergmann e Marcia Barbosa.  A amizade com colegas também foi muito importante nesse período”. 

A Acadêmica fez quatro anos de pós-doutorado, no Observatório Nacional, na UFRGS e na Universidade de Nottingham, da Inglaterra, antes de ingressar como professora na UFRGS. Agora uma cientista profissional, ela mantém o entusiasmo de jovem ao falar de sua área, buscando entender como as grandes estruturas do universo se formam. Os fenômenos gravitacionais que ela estuda permitiram a ciência entender que existe algo além do que os nossos olhos conseguem ver no espaço sideral, a matéria escura, mistério que busca desvendar todos os dias. 

“Faz algumas décadas que a ciência descobriu que as galáxias parecem conter muito mais matéria do que seria explicado pelo material visível, estrelas, planetas, gás e poeira. Acredita-se que essa matéria invisível ou faltante represente mais de um quarto da massa total e da energia no Universo. Não sabemos ainda o que a matéria escura é, apenas identificamos seus efeitos. Minha pesquisa busca investigar como a matéria escura e a matéria luminosa estão distribuídas em diferentes escalas pelo Universo”, explicou a cientista. 

Agora na ABC, Cristina se diz honrada e espera representar as jovens cientistas do país na luta por mais valorização à pesquisa nacional. “Fazer ciência para mim é uma maneira de contemplar, de forma muito profunda, a beleza da natureza. Lidar com o desconhecido, olhar para algo que ninguém olhou antes, estar na fronteira do conhecimento são coisas que me fascinam e me movem”, descreveu. 

Mas a vida é muito mais do que apenas ciência. Cristina é apaixonada por música e diz que um dia sem música é um dia sem graça. O estilo contemplativo a acompanha também nas práticas de caminhada, trilhas e yoga, mas ela também curte estar rodeada pela família e pelos amigos que ama. “Ao contrário do estereótipo, não gosto muito de ficção científica, prefiro obras que retratam a complexidade e as ambiguidades do ser humano”. 

Mulheres que inspiram mulheres

A sala de aula é um dos habitats naturais do cientista. Para além de pesquisador, esses profissionais precisam também ser bons professores para cumprir com tudo que a carreira exige. Afinal, não basta apenas gerar conhecimento, é preciso passá-lo adiante. Esse ambiente de aprendizado sempre foi algo muito natural na vida da bioquímica Ethel Antunes Wilhelm, membra afiliada da Academia Brasileira de Ciências (ABC). 

A mãe foi a primeira das várias mulheres que a inspiraram a seguir o magistério. Professora do ensino fundamental, chegou a dar aulas para a filha na quarta série. Ao lado do marido, agricultor e caminhoneiro, ela criou Ethel e a irmã em Serrinha do Rosário, distrito do pequeno município de Rolador, RS, cuja população não chega a cinco mil habitantes.  

A vocação da pequena Ethel já se manifestava quando aos sete anos ela decidiu criar uma salinha de aula no galpão de casa, onde convidava os amigos para assistir suas aulas. Já na escola de verdade, era uma excelente aluna e suas matérias preferidas eram português e, é claro, ciências. “Minha mãe sempre foi uma das minhas principais influências e desde pequena eu sempre fui muito curiosa e estudiosa”, conta. 

Esse estímulo fez com que escolhesse cursar química na modalidade licenciatura, sempre atenta à possibilidade de dar aulas. Em 2004, Ethel ingressou na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), a 300 quilômetros de casa, onde seria apresentada ao segundo pilar da carreira científica: a pesquisa. “O meu interesse em ciência foi surgindo ao longo da minha formação, mas foi no período do estágio de iniciação científica que ele se potencializou”. 

Recém-chegada à faculdade, a jovem ainda não entendia bem o que exatamente era uma iniciação científica, mas sentiu-se motivada a tentar, já que era isso que todos os outros colegas estavam fazendo. Como costuma ocorrer, ela foi de porta em porta nos laboratórios procurando por uma oportunidade e a porta que se abriu foi justamente a da professora Cristina Wayne Nogueira, do Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular. “Eu não tinha um objetivo definido, apenas sabia que queria fazer iniciação científica. Sou muito grata à Cristina, pois com ela aprendi que dedicação, comprometimento, ética e profissionalismo são fundamentais para qualquer pesquisador”, lembrou. 

Foi nessa época que Ethel foi apresentada à área onde seguiria carreira, a bioquímica, que gera conhecimento e inovações para melhorar a vida daqueles que mais precisam. Acompanhando os testes farmacológicos, in vitro e em animais, a Acadêmica foi entendendo melhor como a ciência funciona e decidiu que ali seguiria carreira. Ao se formar em 2008, não teve dúvidas e logo ingressou no mestrado em bioquímica toxicológica da UFSM. 

Essa nova fase começou de maneira difícil, pois foi quando Ethel perdeu o pai e a avó materna. O suporte que recebeu da mãe, da irmã e do namorado – com quem hoje é casada – fez com que ela conseguisse focar nos estudos. Sob orientação da professora Lucielli Savegnago e co-orientação de Cristina Nogueira, defendeu sua tese sobre os efeitos protetores da molécula 3-alquinil selenofeno contra danos oxidativos no fígado de ratos de laboratório. Além das orientadoras, ela faz questão de agradecer também o apoio que recebeu do colega de laboratório Cristiano Jesse, cujo entusiasmo pela ciência a marcou muito. 

Ao concluir o mestrado, em março de 2009, logo ingressou no doutorado sob orientação de Cristina, renovando a parceria que vinha desde a graduação. Sua pesquisa no doutorado se aprofundava no tema de seu mestrado, estudando os efeitos da mesma molécula, só que então também no tratamento de convulsões. Foram três anos de muito trabalho e dedicação, que culminaram na sua titulação como doutora, em março de 2012, na mesma universidade onde, quase uma década antes, havia ingressado sem muita ideia do que fazia um cientista. 

Logo após o doutorado, Ethel já começou a atuar como professora, seu sonho de infância, na UFSM e na Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI). Em 2013, foi aprovada em concurso para professora na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), onde atua até hoje. Na UFPel, Ethel lidera o Laboratório de Pesquisa em Farmacologia Bioquímica (LaFarBio). Desde que completou a pós-graduação, investigando farmacologia e doenças neurológicas, ela aumentou o escopo de suas pesquisas e enveredou cada vez mais na compreensão dos mecanismos de dor, sobretudo em pacientes com câncer. 

“Apesar dos avanços no tratamento quimioterápico, o câncer ainda é a segunda principal causa de morte no mundo. A dor é o sintoma mais comum e compreendê-la é essencial para enfrentar uma doença na qual o diagnóstico precoce faz toda a diferença”, explicou. “À medida em que o câncer avança, a dor geralmente aumenta e pode ser causada pela compressão do tumor nos ossos, nervos ou outros órgãos, bem como pelo próprio tratamento quimioterápico”. 

Para enfrentar a dor, a Acadêmica avalia a utilização de compostos orgânicos de selênio como possíveis agentes terapêuticos. A eficácia desses compostos já foi verificada em testes animais, então existe a expectativa de que possam cumprir todas as etapas até chegar ao uso medicinal. “Esperamos que essas substâncias possam trazer alívio não apenas para pessoas com câncer, mas também para pacientes com outras condições dolorosas”, ressaltou. 

A cientista também estuda como outras condições, como estresse, envelhecimento e obesidade, interagem e contribuem para o agravamento de dores. Em particular, tem focado na neuropatia periférica, doença que causa fortes dores nas extremidades do corpo. Para ela, essa capacidade da ciência de promover bem-estar e qualidade de vida é o que mais a encanta na profissão e a motiva a acordar cedo todos os dias.  

Agora na ABC, ela se diz honrada de poder representar a ciência e, sobretudo, as mulheres cientistas. Vencedora do prêmio “Para Mulheres na Ciência 2018”, oferecido pela L’Oréal em parceria com a ABC e com a Unesco, a pesquisadora quer incentivar mais meninas a seguirem a carreira. “A ciência precisa de mulheres em posições de liderança e que sirvam de inspiração. A diversidade de pensamentos propicia crescimento, inovação e o avanço na pesquisa. Por isso, precisamos continuar buscando a equidade de gênero”, destacou. 

“Agradeço a todas as mulheres cientistas que me inspiraram e que me motivam a cada dia. Ter amigas que te impulsionam, que te puxam para crescer junto, que acreditam em ti, isso faz toda a diferença.  Muitas das oportunidades que tive foram propiciadas por outras mulheres. Eu almejo ser como elas e contribuir para que outras cresçam junto.” 

Nas horas vagas – que são raras numa carreira tão exigente -, Ethel gosta de aproveitar em família. Em 2022, ela tornou-se mãe e hoje acompanha de perto cada fase da vida de seu filho Otávio. “Como gaúcha nata, adoro tomar um chimarrão com os pés na grama, junto àqueles que amo”. 

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