No dia 22 de setembro, a sede da ABC recebeu os novos membros afiliados da Regional RJ para apresentações de suas pesquisas e o recebimento dos diplomas. Foram eles Ariane de Jesus Sousa Batista (UFRJ), Daniel Sedorko (UFRJ), Fernanda Ferreira Cruz (UFRJ) e Luana da Silva Magalhães Forezi (UFF). João Pedro Gonçalves Ramos (IMPA) foi impedido de comparecer por questões de saúde.

Na abertura do evento, a presidente da Academia Brasileira de Ciências, Helena Bonciani Nader, ressaltou que a participação dos jovens cientistas não deve se limitar à pesquisa desenvolvida dentro das universidades e laboratórios. Para ela, é fundamental que os novos afiliados acompanhem e participem das discussões sobre os rumos da ciência, da educação e das políticas públicas do país.
“Não é fazer política, mas se envolver com a política. Há necessidade. Não podemos dizer: ‘Para mim, o mais importante é o que estou fazendo hoje no meu laboratório’. O seu laboratório existe hoje, mas o Brasil existe há mais tempo. Então, temos que dar um retorno para a sociedade”, ressaltou.

Nader convidou os novos afiliados a participarem ativamente dos grupos de trabalho e das demais atividades da ABC e a acompanharem de perto os debates que afetam o sistema nacional de ciência, tecnologia e educação. Isso significa, segundo ela, compreender também como são tomadas decisões que determinam os recursos disponíveis para essas áreas, ler sobre o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, saber como são definidos os orçamentos.
A presidente apontou que decisões fundamentais para a ciência passam por diferentes instâncias do Estado e pelo Congresso Nacional, onde o orçamento é discutido e votado por deputados e senadores. Por isso, defendeu que pesquisadores ocupem os espaços de discussão pública levando a experiência de quem produz conhecimento, forma estudantes e conhece o cotidiano das instituições científicas. “A gente tem que se envolver como cidadão, nem é mais como pesquisador. Essa interlocução faz parte da missão da ABC.”
Ao relacionar ciência e soberania, Nader chamou a atenção para as escolhas que determinarão o lugar do país no cenário internacional. “O Brasil está fazendo uma escolha: se quer ser quintal ou se quer ser nação. Temos de decidir, como sociedade, que capacidades científicas e tecnológicas o Brasil pretende desenvolver, que dependências considera legítimas e como deseja participar da cooperação internacional. Hoje, a ciência não tem fronteiras, mas estão colocando fronteiras para a ciência.”
Para a presidente da ABC, investir na formação de pesquisadores e na produção de conhecimento significa ampliar as possibilidades de desenvolvimento do país. “Quando formamos um estudante, quando uma pesquisa abre uma possibilidade que antes desconhecíamos, ampliamos os caminhos para o futuro.”
Ao final, Nader reforçou o convite para que os novos afiliados assumam um papel ativo na Academia. “Tragam suas perguntas, suas experiências e sua disposição para o diálogo. Proponham atividades, aproximem suas áreas de pesquisa e ajudem a formular perguntas que nós — eu, bem mais velha que a maioria aqui — não estamos fazendo.”
“É com essa esperança, acompanhada de muito trabalho e responsabilidade, que temos a alegria de receber cada uma e cada um de vocês hoje na nossa casa. Ao completar 110 anos, a ABC renova com vocês seu compromisso com o conhecimento e com a sociedade brasileira”, afirmou, felicitando Ariane, Daniel, Fernanda, João Pedro e Luana. “Que a alegria desta diplomação acompanhe vocês no trabalho de descobrir, ensinar e participar. Sejam muito bem-vindos.”
Conheça os novos afiliados nos perfis a seguir:

Os desafios da mudança do clima: o papel da educação
A palestra magna foi proferida pela vice-presidente regional da ABC para MG e CO, a ecóloga da UnB Mercedes Bustamante. Ela partiu da gravidade da emergência climática para discutir como escolas, universidades, professores e estudantes podem contribuir para a construção de sociedades mais preparadas para um futuro marcado por riscos e incertezas.
A cientista lembrou que, apesar de três décadas de alertas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e de iniciativas internacionais como o Acordo de Paris, as ações adotadas até agora têm sido insuficientes diante da velocidade do aquecimento global. Os riscos estão se tornando mais severos e próximos, enquanto cresce a possibilidade de ultrapassagem temporária dos limites de temperatura estabelecidos internacionalmente — o chamado overshoot. Mesmo que a temperatura possa ser reduzida posteriormente, alguns dos impactos desse período podem ser irreversíveis.
Nesse cenário, Bustamante destacou que não basta reduzir as emissões de gases de efeito estufa. É preciso também preparar sociedades e territórios para os impactos que já estão ocorrendo ou que não poderão mais ser evitados. E é justamente aí que a educação assume papel estratégico. “Educação e ciência são motores de transformação da sociedade, fundamentais tanto para formar cidadãos capazes de compreender a complexidade da crise quanto para produzir conhecimento e inovação para enfrentá-la”, ressaltou a ecóloga.
Ao mesmo tempo, o próprio sistema educacional já sente os efeitos das mudanças climáticas. Temperaturas elevadas e eventos extremos podem comprometer o aprendizado, a frequência às aulas e o desempenho dos estudantes. Estudos apresentados por Bustamante mostram, por exemplo, queda no rendimento em exames realizados em dias de calor intenso. As crianças estão ainda entre os grupos particularmente vulneráveis aos eventos climáticos extremos.
Para a pesquisadora, porém, a educação climática deve ir muito além da transmissão de informações sobre aquecimento global. A mudança do clima é uma questão sociocientífica complexa, que envolve ciências naturais, sociais e humanas e exige abordagens interdisciplinares, participativas e conectadas à realidade dos estudantes. Crianças e jovens precisam aprender a compreender riscos, lidar com incertezas, formular perguntas críticas e participar da busca por soluções. Isso significa também reconhecer os jovens como protagonistas, e não apenas como a geração que herdará as consequências das decisões tomadas no presente. Bustamante destacou a importância de ouvir suas vozes e envolvê-los na investigação dos problemas de seus próprios territórios, na identificação de riscos e no diálogo com as comunidades. A educação climática pode, assim, contribuir não apenas para transmitir conhecimento, mas para desenvolver autonomia, capacidade de ação e resiliência.
As escolas, nesse contexto, também precisam se transformar. Além de garantir o direito à educação durante eventos extremos, devem incorporar a questão climática aos currículos, investir em infraestrutura sustentável e funcionar como espaços de resiliência para as comunidades. Já os professores precisam de formação continuada para trabalhar de maneira interdisciplinar, aproximando o conhecimento científico da realidade dos alunos e incorporando as dimensões sociais e de justiça climática.
Bustamante ressaltou ainda que a formação para o século 21 não pode se limitar às competências exigidas atualmente. “Muitos estudantes exercerão profissões que ainda não existem e precisarão estar preparados para novos paradigmas. Pensamento crítico, capacidade de adaptação, colaboração e compromisso social serão tão importantes quanto conhecimentos específicos. E enfrentar a mudança do clima exigirá a participação de todas as áreas do conhecimento”. A divulgação científica completa esse esforço. Museus, centros de ciência, projetos comunitários e iniciativas de ciência cidadã podem aproximar o conhecimento da população, enquanto a alfabetização científica amplia a capacidade das pessoas de reconhecer informações confiáveis e enfrentar a desinformação.
Bustamante reforçou a relação indissociável entre ciência e educação diante da emergência climática. “Enquanto a ciência produz evidências, ferramentas e soluções, a educação democratiza esse conhecimento e prepara a sociedade para utilizá-lo. A combinação das duas será fundamental para ampliar a capacidade de adaptação e construir sociedades mais resilientes e inclusivas diante das transformações que já estão em curso.”
Cerimônia de diplomação

A saudação aos novos Membros Afiliados foi feita pelo físico Clécio de Bom (CBPF), Afiliado eleito para o período 2023-2028. De bom destacou a capacidade dos pesquisadores brasileiros, que “aprenderam” a desenvolver projetos de longo prazo em um ambiente marcado pela descontinuidade do financiamento, por limitações de infraestrutura e pela dificuldade de manter equipes de pesquisa. Além disso, apontou o momento histórico de negação sistemática da ciência, de negação da emergência climática, da relativização dos impactos da Inteligência artificial na ciência e na sociedade. “Ainda assim, formamos cientistas, desenvolvemos tecnologias e produzimos resultados que contribuem para o conhecimento científico internacional”, ressaltou.
A seu ver, a excelência da ciência brasileira é, em grande medida, resultado dessa capacidade de construir e preservar instituições, formar novas gerações e dar continuidade à pesquisa, mesmo diante das dificuldades. “Mas a resiliência dos nossos cientistas não deve ser confundida com a obrigação de trabalhar permanentemente em condições adversas. O Brasil precisa oferecer à sua comunidade científica as condições necessárias para realizar todo o seu potencial”, afirmou Clécio.
“Ao completar 110 anos, a Academia Brasileira de Ciências nos lembra que a construção de uma comunidade científica exige continuidade, compromisso e participação de diferentes gerações. A ABC esteve presente na formação dessa história e segue desempenhando seu papel na defesa da ciência e na discussão dos caminhos do desenvolvimento nacional”, apontou o Afiliado da ABC.
Dirigindo-se aos novos membros afiliados, afirmou que a escolha deles representa o reconhecimento do trabalho que já realizaram e a confiança na contribuição que poderão oferecer à ciência brasileira. “Aproveitem essa oportunidade para estabelecer colaborações, participar das discussões sobre o futuro da pesquisa e contribuir para que a próxima geração encontre condições ainda melhores para fazer ciência no Brasil”, finalizou de Bom. “Que possamos continuar construindo um país onde a ciência seja reconhecida como parte de nossa identidade, de nossa capacidade de compreender o mundo e de construir nosso próprio futuro.”

Em nome dos novos Membros Afiliados, o agradecimento foi feito por Fernanda Ferreira Cruz (UFRJ, ciências da saúde). Ela afirmou que ser escolhido membro da Academia Brasileira de Ciências é um reconhecimento de uma trajetória construída ao longo de muitos anos, mas que não é uma trajetória individual. Citou alunos, colegas, familiares, as agências de fomento e tantas outras pessoas e instituições lhes deram suporte nesse percurso, agradecendo a essa rede que contribuiu para que a realização profissional de cada um daquele grupo fosse possível.
“Nossas áreas de pesquisa e nossas trajetórias são diversas. Mas há algo que nos une: a curiosidade diante do desconhecido, a disposição para fazer perguntas difíceis e desejo de transformar perguntas em conhecimento”, ressaltou. Disse que também aprenderam que fazer ciência não significa apenas produzir resultados. “Significa também aceitar que muitas vezes estamos errados. Significa aprender cm aquilo que não funcionou. Significa reconhecer os limites do nosso conhecimento e ter humildade para continuar perguntando. E significa, sobretudo, compreender que o conhecimento científico ganha seu verdadeiro sentido quando pode contribuir para a sociedade.”
Fernanda avalia que uma das maiores responsabilidade que os cinco novos membros estavam assumindo naquele momento era justamente essa: não apenas continuar produzindo ciência de excelência, mas ajudar a construir o futuro da ciência brasileira. “E isso passa necessariamente ela formação das novas gerações. Cabe a nós agora formar jovens pesquisadores capazes não apenas de reproduzir conhecimento, mas de questioná-lo, ampliá-lo e transformá-lo”, apontou.
“Queremos que a ciência brasileira seja cada vez mais internacional, colaborativa e competitiva, sem perder sua conexão com as necessidades da nossa sociedade. Que seja uma ciência de fronteira, mas também uma ciência com propósito. Que produz conhecimento, mas também ajude a transformar realidades”. Assim, declarou que essa distinção não está sendo recebida por eles como um ponto de chegada, mas como a renovação de um compromisso. “O compromisso de continuar fazendo perguntas. De buscar respostas com rigor. De trabalhar de forma colaborativa. De formar pessoas. De abrir caminho para aqueles que virão depois de nós. E de defender a ciência como instrumento de desenvolvimento, transformação e construção de um futuro melhor. Em nome dos cinco noves membros afiliados, agradecemos à ABC pela confiança.”
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Assista a sessão na íntegra!