Nanotecnologia para enfrentar doenças negligenciadas

O maior encantamento de Ariane de Jesus Sousa Batista com a ciência é a possibilidade de fazer perguntas e buscar, com método científico, muito esforço e criatividade, os conhecimentos necessários para respondê-las. Hoje, como mãe de uma menina de cinco anos, ela diz perceber diariamente como as crianças são naturalmente curiosas, observadoras e questionadoras. “Isso me faz pensar que, talvez os cientistas sejam apenas crianças que nunca deixaram de fazer perguntas sobre o mundo ao seu redor.”

Nascida em 1987, no Rio de Janeiro, Ariane passou a infância em Bangu, na zona oeste da cidade. Desde pequena, gostava de “fazer experimentos”, mesmo sem saber exatamente o que isso significava: misturava o que encontrava no banheiro ou na cozinha para desenvolver “novos produtos”. Na escola, demonstrava especial interesse por biologia e matemática.

O pai de Ariane morreu quando ela tinha quatro anos. O padrasto era bancário e a mãe cuidava da casa e da família, dedicando atenção especial à formação das duas filhas. “Eles colocaram nossos estudos como prioridade e foram nossos maiores incentivadores”, conta a cientista. A irmã mais velha foi uma de suas inspirações: tornou-se a primeira da família a ingressar no ensino superior, no curso de engenharia de produção. Outra referência foi o atual marido de Ariane, seu namorado desde a oitava série, cuja trajetória na engenharia civil ela acompanhou de perto. “Assim como minha irmã, ele precisou se esforçar muito para romper padrões e concluir o ensino superior, fazendo parte da primeira geração de sua família a alcançar essa conquista. Essas trajetórias foram exemplares para mim e reforçaram, desde cedo, o valor transformador da educação.”

Os professores também tiveram papel decisivo em sua trajetória. Ariane destaca especialmente a professora de ciências da oitava série, responsável por despertar seu interesse pela área. Com esse estímulo e o apoio da família, foi aprovada para cursar o ensino médio técnico em biotecnologia no Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ), campus Maracanã. “Foi ali que me apaixonei pela pesquisa científica”. Ao final do curso técnico, estagiou em um laboratório de pesquisa do Instituto Nacional do Câncer (INCA). Quando ingressou em farmácia na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), já tinha certeza de que queria seguir carreira na pesquisa.

No segundo período da graduação, começou a fazer iniciação científica. Passou por diferentes laboratórios, sempre buscando se aproximar do desenvolvimento de novos medicamentos, até se encantar pela química medicinal. Permaneceu boa parte da graduação no Laboratório de Avaliação e Síntese de Substâncias Bioativas (LASSBio), pesquisando modelos in silico para a predição de novos fármacos, sob orientação direta da professora Nelilma Correia Romeiro e supervisão dos professores Carlos Alberto Mansur Fraga e Eliezer Barreiro. “Foi uma experiência muito enriquecedora, pois aprendi ferramentas computacionais importantes para o planejamento de moléculas com potencial terapêutico. Ao mesmo tempo, percebi que sentia falta da pesquisa experimental e do trabalho em bancada.”

Graduada em farmácia com honras, Ariane seguiu para o mestrado e o doutorado em ciências biológicas no Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho (IBCCF-UFRJ). Já interessada por tecnologia farmacêutica e nanotecnologia, buscava um grupo capaz de desenvolver projetos que avançassem além dos estudos iniciais, chegando aos modelos in vivo e aproximando a pesquisa básica da aplicação clínica. Foi com esse propósito que, no mestrado, iniciado em 2011, escolheu como orientadora a professora Bartira Rossi Bergmann — uma decisão que definiria os rumos de sua carreira científica. “A professora Bartira foi fundamental na minha formação científica, é com quem continuo trabalhando e aprendendo até hoje”, ressaltou a Acadêmica.

Nesse período, começou a desenvolver novas formulações para tratamento e prevenção da leishmaniose. Em 2013, defendeu a dissertação “Sistemas poliméricos nano e microestruturados para veiculação de derivados flavonoídicos e terapêutica da leishmaniose cutânea” e seguiu para o doutorado com a mesma orientadora. Teve então a oportunidade de fazer um estágio sanduíche na França com a professora Maria Inês Ré, na Escola Nacional de Minas de Albi-Carmaux, na cidade de Albi. Especialista na técnica de spray drying, Ré trabalhava com uma metodologia essencial ao projeto da pesquisadora brasileira. “Além de aprender diretamente com uma pesquisadora de referência internacional, tive acesso a um equipamento que permitia processar formulações utilizando exclusivamente solventes orgânicos, algo essencial para uma etapa específica do meu trabalho”, explicou.

A experiência foi marcante também no plano pessoal. Era sua primeira viagem à Europa e a oportunidade de viver em outro país ampliou sua visão sobre diferentes formas de fazer ciência e sobre a importância da colaboração internacional. A passagem pela França também reforçou sua percepção positiva sobre a pesquisa brasileira. Ariane constatou que, em termos de infraestrutura, laboratórios como os da UFRJ não ficavam atrás de muitos centros internacionais. A diferença mais significativa estava na rapidez de acesso a reagentes e insumos, capaz de acelerar consideravelmente os projetos.

Mais importante, porém, foi a convivência com pesquisadores de diferentes países, a possibilidade de aprender novas maneiras de pensar a ciência e a ampliação de sua rede internacional de colaborações. Em 2016, Ariane defendeu a tese “Desenvolvimento de micropartículas de PLGA com chalcona CH8 para o tratamento local e em dose única da leishmaniose cutânea”. Entre 2016 e 2018, Ariane realizou estágios de pós-doutorado no Laboratório de Imunofarmacologia do IBCCF/UFRJ.

Em 2018, Batista prestou concurso para a UFRJ e foi alocada no Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe/UFRJ). Antes mesmo da contratação, já estava envolvida no grupo de pesquisa do Acadêmico José Carlos Pinto, que posteriormente a integrou como professora colaboradora do Laboratório de Engenharia de Polimerização (Engepol). “Ele teve um papel transformador na minha trajetória. O professor José se tornou minha grande referência na engenharia, mostrando, em cada projeto que desenvolvemos juntos, a importância da multidisciplinaridade, do pensamento crítico e de uma visão positiva e propositiva da ciência”, declarou Batista.

A engenharia abriu novas possibilidades para transformar resultados científicos em soluções concretas, escalonáveis e com maior potencial de chegar à sociedade. Ao longo da formação, Ariane transitou pela biotecnologia, química medicinal e tecnologia farmacêutica, mas encontrou na nanotecnologia seu principal campo de atuação. “A nanotecnologia tem potencial para melhorar o tratamento de praticamente qualquer doença, pois permite desenvolver sistemas capazes de transportar medicamentos de forma mais eficiente, aumentando sua eficácia e reduzindo efeitos adversos”, afirmou a afiliada da ABC.

Embora a nanotecnologia tenha aplicações muito amplas, Batista direcionou sua pesquisa principalmente às doenças negligenciadas, em especial a leishmaniose. Endêmica no Brasil, a doença representa um importante problema de saúde pública: ainda não possui vacina aprovada e seu tratamento é baseado em medicamentos administrados por vias invasivas, em múltiplas doses e frequentemente associados a efeitos adversos.

“Desde o mestrado, com a professora Bartira, venho trabalhando no desenvolvimento de novas formulações para o tratamento e a prevenção da leishmaniose. Entre os principais produtos desenvolvidos pelo nosso grupo estão uma vacina intranasal para prevenção da leishmaniose visceral canina e um medicamento de aplicação local e em dose única para o tratamento da leishmaniose cutânea em humanos. Ambos os produtos se encontram atualmente em fase de testes clínicos exploratórios e temos observado resultados bastante promissores”, relatou a afiliada da ABC.

Hoje, Ariane Batista coordena o Laboratório de Materiais Nanoestruturados e Sistemas Suaves, vinculado ao Programa de Engenharia da Nanotecnologia da Coppe/UFRJ. Atua ainda como professora colaboradora no Laboratório de Engenharia de Polimerização e no Laboratório de Imunofarmacologia do IBCCF-UFRJ, articulando desenvolvimento tecnológico, avaliação biológica e escalonamento de processos.

Seu trabalho está na interface entre nanotecnologia, engenharia de processos, ciências farmacêuticas e biomateriais, com foco no desenvolvimento, caracterização e escalonamento de nanossistemas poliméricos e lipídicos para liberação controlada de fármacos, vacinas e ativos biomédicos, especialmente voltados às doenças infecciosas e negligenciadas. Ariane também é sócia-fundadora da start-up LeishNano.

Mais do que os resultados obtidos no laboratório, o que a motiva é a possibilidade de transformar conhecimento científico em benefícios concretos. Depois de mais de 15 anos trabalhando com leishmaniose, uma visita a um centro de atendimento e o contato direto com pacientes deram uma nova dimensão a esse propósito. “Perceber que o que desenvolvemos no laboratório pode contribuir para melhorar a qualidade de vida dessas pessoas trouxe ainda mais sentido e propósito para a minha trajetória científica”, contou. “Tenho o desejo de que minha pesquisa gere impacto real e possa, de alguma forma, beneficiar a sociedade”, acrescentou Batista.

O ingresso como membro afiliado da Academia Brasileira de Ciências representa para ela tanto o reconhecimento de uma trajetória construída com dedicação quanto uma nova responsabilidade. “Espero poder representar bem a Academia, contribuir para a valorização da ciência brasileira e ajudar a divulgar sua importância para a sociedade.”

Ao olhar para a própria trajetória, Ariane faz questão de dividir os méritos. Família, professores, orientadores, colegas, alunos e colaboradores foram fundamentais para que aquela menina que fazia “experimentos” em casa pudesse construir uma carreira voltada à busca de novos tratamentos. “Sou muito grata por todas as oportunidades que tive de aprender, ensinar e contribuir para a formação de novas pessoas na pesquisa. Também espero que minha história possa inspirar meninas e jovens estudantes a acreditarem que a ciência é um caminho possível, transformador e necessário para o futuro do país.”

(Elisa Oswaldo-Cruz para ABC | Fotos: Arthur Santos)