Para muitas crianças crescendo na zona norte do Rio de Janeiro, a ciência pode parecer um conceito abstrato, distante. É mais fácil sonhar com uma carreira quando os adultos ao seu redor já a trilharam. Mas mesmo sem referências científicas, a história da médica Fernanda Ferreira Cruz, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mostra que a curiosidade pela natureza, a imaginação fértil regada pela ficção científica, e o castelo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) sempre no horizonte, podem ser suficientes para fazer uma cientista.

Isso tudo e a profunda convicção de que a educação é o maior motor da ascensão social, a qual Fernanda internalizou desde cedo graças ao exemplo dos pais. “Minha rotina na infância era escola de manhã e atividades extraclasses à tarde. Fiz aulas de piano, inglês, espanhol, natação, dança e vôlei. Mas eles eram rigorosos com os estudos, eu e meus irmãos não podíamos fazer nada se não estivéssemos em dia com a escola, éramos sempre muito cobrados a dar nosso melhor”, conta com carinho e gratidão.
Desse estímulo cresceu uma menina aplicada, que colecionava prêmios escolares e tinha preferência pelas exatas e biológicas. O gosto pelo estudo a levava a passar horas na biblioteca do SESC, próxima ao apartamento onde morava no bairro de Ramos. Fernanda ainda arranjava tempo para reunir os amigos em casa e estudar, estava sempre disposta a ajudar quem precisasse. Aos colegas de escola se juntavam as crianças do prédio e os muitos e muitos primos, formando um vasto círculo de amizades. Nas férias, as famílias estendidas se juntavam para viajar pelo sudeste brasileiro, e a menina era apresentada a uma natureza mais exuberante do que a que vivia na cidade grande. “Minha mãe tinha o objetivo de conhecer todas as cidades do estado do Rio”, lembra
Na escola, as feiras de ciência e as excursões para visitar instituições científicas, sobretudo à Fiocruz, a apresentaram ao mundo da pesquisa. Quando chegou ao ensino médio, Fernanda já demonstrava interesse em seguir carreira na área biomédica. Foi então que começou a novela “O Clone”, onde o cientista Augusto Albieri clonava humanos e levantava debates então muito presentes sobre a ética na genética. “Num mundo pós-ovelha Dolly, em que a genética estava em alta, sendo pauta da mídia tradicional e alcançando pessoas simples como eu, aquilo tudo me deixou fascinada. Eu resolvi ali que seria cientista, queria participar daquilo, estar na fronteira do conhecimento”, conta.
Feita a escolha, Fernanda ingressou no curso de medicina em 2006. Logo no segundo período, começou a iniciação científica no Laboratório de investigação Pulmonar, sob orientação da Titular da ABC Patricia Rocco, onde trabalha até hoje. “A professora Rocco, médica e cientista brilhante, é uma pessoa muito importante para minha trajetória acadêmica. Foi quem abriu as portas do seu laboratório, me permitiu participar de projetos, me estimulou a ir a encontros científicos, confiou a mim a execução de tantos projetos. Ela confiou em mim antes que eu mesma confiasse”, resume Fernanda.
A precocidade na trajetória científica a permitiu aproveitar do programa oferecido pela universidade para alunos da medicina que desejassem iniciar doutorado concomitantemente ao final da graduação. A rotina era dura. Para não perder nenhuma aula e continuar se dedicando ao laboratório, Fernanda chegava muito cedo e saía muito tarde, dividindo o tempo entre aulas, seminários, rodas de discussão e eventos científicos. Foi assim que se formou em 2011, com distinção acadêmica, e, já em 2013, obteve o título de doutora. Sua tese testou em roedores terapias baseadas em células da medula óssea para o tratamento do enfisema pulmonar.
Para além do título, o trabalho lhe rendeu uma oportunidade, obtida enquanto apresentava em uma reunião de laboratório. O professor Daniel Weiss, da Universidade de Vermont, EUA, estava presente e a convidou para uma experiência de pós-doutorado na instituição. “Um mês depois de defender a tese embarquei para os EUA, e lá tive a certeza absoluta do que eu vim ao mundo para fazer: me dedicar à academia, à ciência, à educação e à multiplicação do conhecimento”, conta.
A experiência duraria pouco mais de um ano e, em 2014, Fernanda regressaria ao Brasil para um pós-doutorado na UFRJ, onde ela seguiria até ingressar como professora em 2018. Hoje ela dá aula de fisiologia respiratória para os cursos do Centro de Ciências da Saúde (CCS), e trabalha com doenças pulmonares, buscando estratégias que facilitem o diagnóstico e possibilitem maior qualidade de vida e sobrevida aos pacientes. Mais especificamente, Fernanda pesquisa as vesículas extracelulares, pequenos envelopes liberados por algumas células do nosso corpo com moléculas que influenciarão o comportamento de outras células. ‘As vesículas podem estar envolvidas tanto na doença quanto na cura. Sendo assim, o estudo de quais moléculas elas carregam pode nos ajudar a compreender o comportamento da doença e propor estratégias terapêuticas inovadoras”, explica.
De forma mais poética, Fernanda se vê trabalhando para devolver o ar para aqueles que mais precisam. Essa capacidade de fazer a diferença na vida de alguém é algo que a encanta no trabalho científico. Agora na ABC, a pesquisadora sente-se reconhecida em sua trajetória e diz que, com um mínimo de oportunidade, educação e dedicação são a chave para prosperar. Ela pretende atuar pela construção de uma ciência brasileira mais inovadora, ética e comprometida com a saúde do país. “Se eu puder dizer uma coisa para os mais jovens é que a motivação é uma condição contagiosa, cerquem-se de pessoas motivadas e sonhadoras!”, finaliza.