Para Daniel Sedorko, ser escolhido como membro afiliado da Academia Brasileira de Ciências é motivo de orgulho e de gratidão às muitas pessoas que fizeram parte de sua trajetória acadêmica e pessoal. Hoje professor adjunto do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ele nasceu em 1990, em Ponta Grossa, no Paraná, em uma família pobre de imigrantes ucranianos.

Filho de um mecânico de caminhões e de uma empregada doméstica, Daniel cresceu com os dois irmãos em uma casa de madeira, na periferia da cidade. Sua infância foi marcada pelas brincadeiras de rua, pelo futebol, pique-esconde e bolinha de gude.
Na escola, gostava especialmente de matemática e ciências. No ensino médio, seu interesse se voltou principalmente para física e biologia. Aos 13 anos, precisou começar a trabalhar, mas não abandonou os estudos. O irmão, seis anos mais velho, ingressou no curso de educação física um ano antes de Daniel, enquanto a irmã, oito anos mais velha, entrou em pedagogia dois anos antes dele.
A escolha pela biologia foi, inicialmente, por exclusão. “Sempre tive curiosidade em descobrir como as coisas funcionam, e gostava de ler e estudar, muito estimulado por meu irmão mais velho”, conta. Como trabalhava durante o dia em uma serralheria e não poderia arcar com as despesas de um curso integral, precisava optar por uma graduação noturna. “Dos cursos noturnos, biologia e física eram aqueles pelos quais eu tinha maior afinidade, e acabei optando por biologia, influenciado por uma professora da escola.”
A graduação na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) ampliou a visão de mundo de Daniel. De origem ucraniana, cresceu em um núcleo familiar fortemente influenciado pela religião, no qual questões sobre a origem e a evolução da vida e do Universo eram tradicionalmente atribuídas a divindades. “As aulas de biologia celular da professora Carolina Galvão e as de astronomia, com o professor Marcelo Emílio, foram minha primeira ruptura com o misticismo religioso”, conta Daniel. Ele identifica esse momento como o despertar de seu interesse genuíno pela ciência.
Sua primeira iniciação científica (IC), em entomologia, com a professora Julianne Milléo, ajudou a desenvolver seu raciocínio científico. A motivação inicial, porém, também era bastante concreta: a bolsa permitiu que reduzisse a carga horária no trabalho de serralheiro. “Embora eu tenha decidido fazer IC motivado pela bolsa, amadureci muito minha compreensão do mundo baseado em ciência”, reconheceu o Acadêmico.
O encontro definitivo com a paleontologia aconteceu depois de cursar a disciplina ministrada pelo professor Elvio Bosetti. Daniel escolheu a área para sua segunda iniciação científica e passou a participar de numerosas atividades de campo vinculadas a um projeto financiado pelo CNPq para o Fortalecimento da Paleontologia Nacional, entre 2009 e 2011. Foi em uma dessas atividades que encontrou seu primeiro fóssil. Era um braquiópode marinho, localizado em um afloramento de Ponta Grossa, cidade situada atualmente a cerca de mil metros de altitude. “Minha primeira reação foi pensar no dilúvio bíblico, mas depois descobri que a rocha possui aproximadamente 400 milhões de anos, e que aquele fóssil esteve ali todo esse tempo, nos ‘barrancos’ em que passei a infância. Então percebi que existia todo um universo que me era totalmente desconhecido”, relatou.
Foi, em suas próprias palavras, a percepção da própria ignorância que o levou a mergulhar na paleontologia. Daniel fez outra iniciação científica na área e, em 2012, passou a lecionar em escolas públicas de Ponta Grossa. No ano seguinte, iniciou o mestrado em geografia na UEPG, orientado por Elvio Bosetti e com um tema paleontológico.
Durante o mestrado, Sedorko encontrou o tema que passaria a orientar sua carreira: a icnologia, área dedicada ao estudo dos vestígios deixados pelos organismos no passado, como pegadas, tocas, galerias e marcas de alimentação preservadas nos sedimentos que posteriormente se transformaram em rochas. Com coorientação da professora Renata Guimarães Netto, especialista em icnologia da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), desenvolveu uma pesquisa que integrou dados de fósseis e icnofósseis para reconstruir o paleoambiente do Devoniano, período compreendido aproximadamente entre 410 e 360 milhões de anos atrás.
Em 2015, mudou-se para o Rio Grande do Sul para fazer o doutorado em geologia na Unisinos, tendo Renata Netto como orientadora. O ambiente científico da instituição ampliou sua formação e possibilitou a incorporação de metodologias de outras áreas do conhecimento à sua pesquisa. O contato com a pesquisa internacional abriu a possibilidade de Daniel desenvolver parte do doutorado no exterior, com Charles Savrda, renomado pesquisador em icnologia da Universidade de Auburn, no Alabama, Estados Unidos. Sedorko considera essa oportunidade crucial para sua formação como cientista. “Foi quando aprendi a buscar respostas para problemas complexos na minha área e aprimorei a redação científica.”
Ao concluir o doutorado, em 2018, foi aprovado em concurso para professor de paleontologia na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), em Minas Gerais. Entre 2019 e 2022, atuou no campus de Monte Carmelo, lecionando diversas disciplinas no curso de geologia e, paralelamente, concluindo um pós-doutorado no Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP). “Na USP lidei com técnicas analíticas, como Raman, XRF e síncrotron, para refinar interpretações paleoecológicas. Nesse período, ampliei minha atuação em estudos sobre relações organismo-substrato, consolidando colaborações com diferentes grupos de pesquisa nacionais”, contou.
No final de 2019, Sedorko se candidatou a uma vaga de professor de paleoinvertebrados no Museu Nacional/UFRJ. Em razão da pandemia, o concurso só foi realizado no final de 2021, quando ele foi aprovado. “O acaso fez com que minha convocação acontecesse após três anos de atuação na UFU, o que possibilitou o aproveitamento do estágio probatório na UFRJ”, relatou.
Essa circunstância foi importante para que, em 2023, pudesse concorrer a uma bolsa de pós-doutorado na Alemanha, concedida pela Fundação Alexander von Humboldt em parceria com a Capes. Já estável na carreira e ainda sem espaço físico definitivo no Museu Nacional, em consequência do incêndio de 2018, Sedorko foi selecionado para passar um ano na cidade de Tübingen. Na Alemanha, desenvolveu pesquisas sobre bioerosões e sua aplicabilidade na prospecção de recursos minerais. A experiência fortaleceu parcerias científicas e possibilitou novos estudos envolvendo icnofósseis, paleoambientes costeiros e eventos deposicionais, além de abrir uma frente de atuação em paleobiologia da conservação.
No Museu Nacional/UFRJ, Daniel Sedorko desenvolve pesquisas em paleontologia de invertebrados e icnologia, com foco em depósitos sedimentares brasileiros de diferentes idades geológicas. Atua também na curadoria e no estudo da coleção de paleoinvertebrados, na formação de pesquisadores em dois programas de pós-graduação e em iniciativas de divulgação científica e preservação do patrimônio fossilífero nacional. Sua atuação ultrapassa as fronteiras brasileiras. Sedorko participa de projetos envolvendo diferentes períodos geológicos e regiões do planeta, com expedições à Antártica, Peru, Bolívia, Argentina, Uruguai e Alemanha, além de atividades de campo em praticamente todos os estados brasileiros.
Mas a icnologia continua no centro de suas pesquisas. Enquanto a paleontologia tradicional pode estudar partes preservadas do corpo dos organismos, Sedorko investiga principalmente evidências de comportamento. “Os vestígios deixados em vida por animais do passado ajudam a entender como eles interagiam com o ambiente há milhões de anos, permitindo reconstruir antigos ecossistemas, identificar mudanças climáticas e compreender a evolução da vida na Terra”, explicou.
“É quase como se fosse possível observar o organismo produtor se deslocando, se alimentando, predando e vivendo. Muitas vezes, uma simples estrutura preservada no sedimento pode revelar como determinados grupos responderam às adversidades do ambiente e ampliar o conhecimento sobre toda uma profusão de organismos extintos”, completou. Além de ajudar a compreender a história da vida, a icnologia tem aplicações práticas. Segundo Sedorko, a área é utilizada, por exemplo, na exploração de petróleo e gás, uma vez que determinados traços fósseis contribuem para a identificação de ambientes sedimentares favoráveis à ocorrência de reservatórios naturais.
A profissão também proporciona ao pesquisador contato frequente com lugares exuberantes da natureza, que aprecia, além do trabalho, assim como a leitura faz parte de seu cotidiano. Esse hábito ele procura transmitir à filha de seis anos, que começa a descobrir as primeiras palavras escritas.
A própria trajetória faz com que Sedorko atribua à educação pública e à ciência um papel decisivo na transformação social. “Venho de uma família pobre do sul do país, e tive na educação pública a principal oportunidade de crescimento pessoal e profissional. Por isso, acredito que precisamos mostrar às futuras gerações que a produção científica faz parte do nosso cotidiano”, afirma. Para isso, considera essencial estimular nas crianças e nos jovens a curiosidade e o pensamento crítico, facilitar o acesso ao conhecimento e aproximar cada vez mais a ciência da sociedade. “Compreender melhor o mundo em que vivemos é fundamental para a construção de uma sociedade mais justa e desenvolvida”, reiterou o Afiliado.