Helena Nader destaca defesa da ciência e da democracia em homenagem da Fiocruz aos cientistas cassados pela ditadura

Helena Bonciani Nader em telão na cerimônia da Fiocruz | Foto: GCOM ABC

“Um país que silencia seus cientistas renuncia à capacidade de compreender seus próprios problemas, proteger sua população, desenvolver soluções e decidir de maneira autônoma os rumos de seu futuro.” A afirmação da presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC), Helena Bonciani Nader, marcou a cerimônia em que a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) concedeu, postumamente, o título de pesquisador emérito a dez cientistas da instituição atingidos pela ditadura militar: Augusto Cid de Mello Perissé, Domingos Arthur Machado Filho, Masao Goto, Moacyr Vaz de Andrade, Sebastião José de Oliveira e os Acadêmicos Fernando Braga Ubatuba, Haity Moussatché, Herman Lent, Hugo de Souza Lopes e Tito Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti.

Os pesquisadores da Fiocruz cassados em 1970 na ocasião da sua reintegração, em 1986 | Foto: Arquivo Fiocruz

Realizada em 5 de agosto, Dia Nacional da Saúde, a solenidade celebrou os 40 anos da reintegração dos pesquisadores cassados pelo AI-5 — episódio conhecido como Massacre de Manguinhos — e reuniu pesquisadores, familiares e representantes da comunidade científica nas escadarias do Castelo Mourisco, na sede da Fiocruz, no Rio de Janeiro. Helena Nader participou da cerimônia de forma virtual.

Reparação histórica

Em sua mensagem, a presidente da ABC ressaltou que a homenagem representa um gesto de reparação indispensável à história da ciência brasileira. “Estamos aqui para reparar uma ferida, que por muito tempo cicatrizou mal na história da ciência brasileira. A outorga dos títulos de pesquisador emérito aos cientistas cassados pelo regime militar não é apenas um gesto formal. É um ato de desagravo e de reconhecimento, tardio, porém muito necessário, de que a truculência e a arbitrariedade não podem apagar a contribuição intelectual, nem a dignidade daqueles que dedicaram suas vidas ao conhecimento e à saúde pública.”

Familiares dos pesquisadores diplomados, junto com pesquisadores eméritos da Fiocruz e seu presidente | Foto: Comunicação Fiocruz

A data da cerimônia coincide com o nascimento do médico e sanitarista Oswaldo Cruz, patrono da Fiocruz e seu segundo presidente. Foi também nas escadarias do Castelo Mourisco que, há 40 anos, durante a gestão de Sérgio Arouca, os cientistas cassados foram oficialmente reintegrados à instituição.

Durante a solenidade, pesquisadores e professores eméritos da Fiocruz divulgaram uma carta em comemoração aos 40 anos da reintegração dos cientistas cassados, reafirmando o compromisso da comunidade científica com a defesa da ciência, da democracia e da vida.

Filho de Oswaldo Cruz recebe reconhecimento póstumo

Walter Oswaldo Cruz | Foto: Acervo COC/Fiocruz

Além dos dez pesquisadores atingidos diretamente pelas cassações de 1970, a Fiocruz concedeu o título póstumo de pesquisador emérito a Walter Oswaldo Cruz, filho de Oswaldo Cruz e um dos mais importantes cientistas da história da instituição.

O historiador Gilberto Hochman, responsável pela elaboração do memorial submetido ao Conselho Deliberativo da Fiocruz, destacou que a homenagem corrige uma injustiça histórica. “É um ato muito tardio, porém fundamental, de reparação histórica a um importante cientista que teve contribuições significativas não apenas para os seus campos de estudo e para essa instituição, mas também para as lutas pelo desenvolvimento pleno de uma ciência nacional. Não há dúvidas de que, como já apontara Herman Lent em seu livro de 1978 [O Massacre de Manguinhos, se não tivesse falecido precoce e abruptamente, aos 56 anos, em 3 de janeiro de 1967, o nome de Walter Oswaldo Cruz estaria na infame lista de 1º de abril de 1970.”

O legado do Massacre de Manguinhos

A perseguição aos pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz começou logo após o golpe civil-militar de 1964. Embora um inquérito administrativo não tenha encontrado qualquer irregularidade, cientistas como Haity Moussatché, Herman Lent e Walter Oswaldo Cruz, críticos da intervenção política sobre a ciência, passaram a ser monitorados pelos órgãos de segurança do regime.

Em um informe secreto de 1965, eles foram classificados como “mentores da agitação e subversão” e acusados de tentar influenciar os rumos da política científica brasileira. Nos anos seguintes, diversos pesquisadores foram interrogados, afastados de seus laboratórios e privados de condições para desenvolver suas pesquisas. Walter Oswaldo Cruz perdeu a chefia da seção que havia criado, teve recursos de pesquisa retirados e permaneceu sob vigilância até sua morte, em 3 de janeiro de 1967, aos 56 anos.

Segundo Hochman, o apagamento de sua memória tornou a homenagem ainda mais necessária. “Poucos artigos e textos o homenageiam, alguns sequer mencionam a perseguição. Walter desapareceu inclusive como vítima. Portanto, que o Conselho Deliberativo da Fiocruz conceda o título póstumo de Pesquisador Emérito como um ato de memória, verdade e justiça.”

Das mãos do presidente da Fiocruz, Mário Moreira, receberam a homenagem em nome da família as netas Elisa, Inês e Helcia, o neto Ugo com a esposa Clara, os bisnetos Bento e João Paulo, além da sobrinha-neta Stella Penido. Os familiares decidiram doar o diploma de pesquisador emérito atribuído a Walter Oswaldo Cruz ao Centro de Memória da Academia Brasileira de Ciências José Murilo de Carvalho.

Mario Moreira, Stella Penido, Bento Marinho, Inês Oswaldo Cruz, Helcia Oswaldo Cruz, Ugo Oswaldo Cruz, Ana Clara de Azevedo Teixeira Barbosa e João Paulo de Azevedo Oswaldo Cruz. Elisa Oswaldo Cruz, com o diploma | Foto: Comunicação Fiocruz

O Acadêmico Roberto Lent também recebeu o diploma atribuído a seu pai. “O significado da homenagem é mais para o futuro do que pelo passado. Os jovens que não viveram aqueles tempos da arbítrio, talvez fiquem mais atentos para evitar pelo voto que a ditadura não volte mais.”

Roberto Lent segura o diploma, tendo a seu lado a irmã, Susana Lent, o presidente da FIocruz, Mário Moreira, e seu filho, Pedro Lent | Foto: Comunicação Fiocruz

Um compromisso com o futuro

Ao encerrar sua participação, Helena Nader afirmou que o reconhecimento aos cientistas perseguidos deve servir de inspiração para as novas gerações. “Que este ato inspire as novas gerações de cientistas a lutar por suas descobertas, pela democracia que garante a liberdade de pesquisar e pela soberania que permite ao Brasil transformar conhecimento em saúde, desenvolvimento e bem-estar para sua população.”

(Elisa Oswaldo-Cruz para ABC, com informações de GIlberto Hockman | Fotos: Comunicação ABC e Comunicação Fiocruz)