
“Um país que silencia seus cientistas renuncia à capacidade de compreender seus próprios problemas, proteger sua população, desenvolver soluções e decidir de maneira autônoma os rumos de seu futuro.” A afirmação da presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC), Helena Bonciani Nader, marcou a cerimônia em que a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) concedeu, postumamente, o título de pesquisador emérito a dez cientistas da instituição atingidos pela ditadura militar: Augusto Cid de Mello Perissé, Domingos Arthur Machado Filho, Masao Goto, Moacyr Vaz de Andrade, Sebastião José de Oliveira e os Acadêmicos Fernando Braga Ubatuba, Haity Moussatché, Herman Lent, Hugo de Souza Lopes e Tito Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti.

Realizada em 5 de agosto, Dia Nacional da Saúde, a solenidade celebrou os 40 anos da reintegração dos pesquisadores cassados pelo AI-5 — episódio conhecido como Massacre de Manguinhos — e reuniu pesquisadores, familiares e representantes da comunidade científica nas escadarias do Castelo Mourisco, na sede da Fiocruz, no Rio de Janeiro. Helena Nader participou da cerimônia de forma virtual.
Reparação histórica
Em sua mensagem, a presidente da ABC ressaltou que a homenagem representa um gesto de reparação indispensável à história da ciência brasileira. “Estamos aqui para reparar uma ferida, que por muito tempo cicatrizou mal na história da ciência brasileira. A outorga dos títulos de pesquisador emérito aos cientistas cassados pelo regime militar não é apenas um gesto formal. É um ato de desagravo e de reconhecimento, tardio, porém muito necessário, de que a truculência e a arbitrariedade não podem apagar a contribuição intelectual, nem a dignidade daqueles que dedicaram suas vidas ao conhecimento e à saúde pública.”

A data da cerimônia coincide com o nascimento do médico e sanitarista Oswaldo Cruz, patrono da Fiocruz e seu segundo presidente. Foi também nas escadarias do Castelo Mourisco que, há 40 anos, durante a gestão de Sérgio Arouca, os cientistas cassados foram oficialmente reintegrados à instituição.
Durante a solenidade, pesquisadores e professores eméritos da Fiocruz divulgaram uma carta em comemoração aos 40 anos da reintegração dos cientistas cassados, reafirmando o compromisso da comunidade científica com a defesa da ciência, da democracia e da vida.
Filho de Oswaldo Cruz recebe reconhecimento póstumo

Além dos dez pesquisadores atingidos diretamente pelas cassações de 1970, a Fiocruz concedeu o título póstumo de pesquisador emérito a Walter Oswaldo Cruz, filho de Oswaldo Cruz e um dos mais importantes cientistas da história da instituição.
O historiador Gilberto Hochman, responsável pela elaboração do memorial submetido ao Conselho Deliberativo da Fiocruz, destacou que a homenagem corrige uma injustiça histórica. “É um ato muito tardio, porém fundamental, de reparação histórica a um importante cientista que teve contribuições significativas não apenas para os seus campos de estudo e para essa instituição, mas também para as lutas pelo desenvolvimento pleno de uma ciência nacional. Não há dúvidas de que, como já apontara Herman Lent em seu livro de 1978 [O Massacre de Manguinhos, se não tivesse falecido precoce e abruptamente, aos 56 anos, em 3 de janeiro de 1967, o nome de Walter Oswaldo Cruz estaria na infame lista de 1º de abril de 1970.”
O legado do Massacre de Manguinhos
A perseguição aos pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz começou logo após o golpe civil-militar de 1964. Embora um inquérito administrativo não tenha encontrado qualquer irregularidade, cientistas como Haity Moussatché, Herman Lent e Walter Oswaldo Cruz, críticos da intervenção política sobre a ciência, passaram a ser monitorados pelos órgãos de segurança do regime.
Em um informe secreto de 1965, eles foram classificados como “mentores da agitação e subversão” e acusados de tentar influenciar os rumos da política científica brasileira. Nos anos seguintes, diversos pesquisadores foram interrogados, afastados de seus laboratórios e privados de condições para desenvolver suas pesquisas. Walter Oswaldo Cruz perdeu a chefia da seção que havia criado, teve recursos de pesquisa retirados e permaneceu sob vigilância até sua morte, em 3 de janeiro de 1967, aos 56 anos.
Segundo Hochman, o apagamento de sua memória tornou a homenagem ainda mais necessária. “Poucos artigos e textos o homenageiam, alguns sequer mencionam a perseguição. Walter desapareceu inclusive como vítima. Portanto, que o Conselho Deliberativo da Fiocruz conceda o título póstumo de Pesquisador Emérito como um ato de memória, verdade e justiça.”
Das mãos do presidente da Fiocruz, Mário Moreira, receberam a homenagem em nome da família as netas Elisa, Inês e Helcia, o neto Ugo com a esposa Clara, os bisnetos Bento e João Paulo, além da sobrinha-neta Stella Penido. Os familiares decidiram doar o diploma de pesquisador emérito atribuído a Walter Oswaldo Cruz ao Centro de Memória da Academia Brasileira de Ciências José Murilo de Carvalho.

O Acadêmico Roberto Lent também recebeu o diploma atribuído a seu pai. “O significado da homenagem é mais para o futuro do que pelo passado. Os jovens que não viveram aqueles tempos da arbítrio, talvez fiquem mais atentos para evitar pelo voto que a ditadura não volte mais.”

Um compromisso com o futuro
Ao encerrar sua participação, Helena Nader afirmou que o reconhecimento aos cientistas perseguidos deve servir de inspiração para as novas gerações. “Que este ato inspire as novas gerações de cientistas a lutar por suas descobertas, pela democracia que garante a liberdade de pesquisar e pela soberania que permite ao Brasil transformar conhecimento em saúde, desenvolvimento e bem-estar para sua população.”