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Desigualdade social e carência de conhecimento: os principais desafios em países de renda média

Na China, quase 700 milhões de pessoas saíram da pobreza extrema - definida pelo Banco Mundial como ter uma renda inferior a 1,25 dólar por dia, ou menos de cem reais por mês - desde o início dos anos 80. Em 1991, com um PIB per capita de pouco mais de mil dólares (em paridade do poder de compra), 23% de seus cidadãos estavam subnutridos e 33% não possuíam acesso a água encanada. Treze anos depois, eram 11 e 8% respectivamente, com um PIB per capital de mais de 11 mil dólares.

Descontada a desigualdade social, que sobe em ritmo acelerado (de acordo com o índice GINI, a desigualdade no país cresceu 83% desde 1980), a China é um exemplo global na erradicação da pobreza e da fome e, por isso, ganhou destaque na conferência "Ciência para a Erradicação da Pobreza e o Desenvolvimento Sustentável: uma Chamada para Ação", realizada pela Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Rede Global de Academias de Ciência (IAP) entre os dias 3 e 5 de dezembro.

Representando a Academia Chinesa de Ciências (CAS), a vice-diretora do Centro para Políticas Agrícolas da Academia (CCAP), Linxiu Zhang, falou sobre as principais conquistas do país, apresentou seus possíveis obstáculos para os próximos anos e, em entrevista à ABC, explicou que tanto o crescimento econômico bruto quanto uma abordagem multidimensional e de longo prazo na política são decisivas para o fim da pobreza.

ABC | A China é amplamente reconhecida como o país que mais contribuiu para a redução global da pobreza nas últimas três décadas. De que modo ela planeja manter esse desempenho? E quais os novos desafios?

LINXIU | No passado, a redução da pobreza estava atrelada, em geral, ao crescimento da economia. Assim, quando uma economia cresce, todos crescem junto. Agora, o desafio para o fim da pobreza é ajudar aqueles que não acompanharam este crescimento, pois eles podem estar enfrentando um ambiente mais frágil ou carecendo de sistemas de apoio sólidos.

A China desenvolveu políticas específicas para os indivíduos vivendo em pobreza extrema, favorecendo investimentos em bens e serviços públicos e transferências financeiras e ajudando essas pessoas a ter um senso de planejamento integrado. No passado, contávamos com o crescimento econômico para tirar as pessoas da pobreza; para o futuro, queremos um conjunto de políticas ativamente voltadas para este fim.

No momento, para combater a transmissão da pobreza de geração para geração, começamos no nível da criança. Essa é a primeira parte, e a mais básica: ajudar os cidadãos desde muito cedo. A segunda parte é o desenvolvimento de uma abordagem integrada do problema. A pobreza não se mede apenas por dinheiro ou renda, mas também por conhecimento, pelo acesso à informação e às novas tecnologias e pela capacidade de adaptação. Essa é uma visão multidimensional que precisa ser incorporada às políticas.

ABC | A China provou que pode construir políticas domésticas sólidas para a erradicação da pobreza, mas por acaso ela possui políticas especificamente voltadas para a redução global da pobreza, ou para a cooperação com a comunidade internacional a fim de conquistar este objetivo?

LINXIU | Como a China representa uma boa parte da população mundial, se ela resolve sua pobreza doméstica, ela contribui para a redução global da pobreza. Além disso, estamos contribuindo e tentando compartilhar nossas experiências com outros países em desenvolvimento.

Por exemplo, trabalhamos com países africanos para ver se nossas práticas "anti-pobreza", nas quais temos mais de 30 anos de experiência, podem ser adaptadas para o continente. Também estamos considerando os impactos ambientais do desenvolvimento e nos esforçando para adicionar este fator às nossas estratégias. Outro exemplo está na criação do Novo Banco de Desenvolvimento dos Brics, que será sediado na China.

ABC | Em sua apresentação, você descreveu dois tipos de transições rumo ao desenvolvimento: a dos países de renda baixa que ascendem à renda média e a dos de renda média à alta. Quais os desafios específicos de cada transição?

LINXIU | Em países em transição de rendas baixa para média, o principal desafio jaz no aumento da produtividade e do tamanho da economia como um todo. Nessas condições, o desenvolvimento é pouco e os bens materiais usufruídos pela população pecam em quantidade e qualidade.

Embora a quantidade continue sendo um problema quando um país chega à renda média, a qualidade dos bens e serviços é que vira o principal obstáculo. Em países com renda média, enfrenta-se também uma imensa diversidade na economia, onde a desigualdade pode se tornar um problema, não só em termos de quanto uma pessoa ganha, mas também no acesso a bens e serviços.

Um governo ou comitê científico deve focar, na primeira fase, na produtividade e no crescimento bruto; na segunda, em como reduzir a desigualdade. São dois tipos muito distintos de políticas que precisamos conciliar para uma abordagem compreensiva da pobreza.

ABC | Você também mencionou que os países na primeira transição têm que enfrentar a subnutrição, ou seja, a deficiência em macronutrientes, enquanto o problema alimentar na segunda transição é o da deficiência em micronutrientes. O que isso significa?

LINXIU | A deficiência em micronutrientes não é necessariamente uma consequência da falta de dinheiro. Muitas vezes, o problema maior é a falta de conhecimento.

As famílias podem ter dinheiro, mas elas não investem nas coisas que oferecem grandes retornos no futuro, pois o futuro é abstrato. Elas preferem construir uma casa ou comprar utensílios novos, pois é possível usufruir destes bens rapidamente. Já investir na alimentação de seus filhos, por exemplo, não dá retornos visíveis antes de 20 anos ou mais, e elas não percebem isso.

Por isso, a deficiência em micronutrientes é muito mais difícil de solucionar, pois não é algo que ocorre instintivamente às pessoas. Quando você sente fome, você sabe que há algo de errado. Neste tipo de deficiência, as pessoas não sentem as consequências físicas na hora; quando os problemas emergem, entretanto, os danos podem ser mais graves do que os da subnutrição.

ABC | Então é correto dizer que o contraste básico entre a primeira e a segunda transição é o de uma visão de curto prazo e uma de longo?

LINXIU | No mínimo, trata-se de lembrar às pessoas que, se elas investirem agora, os retornos virão em muitos anos; ensinar que elas não devem esperar por resultados logo no próximo dia. Todo mundo, hoje em dia, é impaciente na hora de obter recompensas. O povo tem que compreender que, às vezes, quando maior a espera, maior o ganho.

É claro que, para que isso aconteça, devemos garantir que a economia continue se expandindo. Não importa se o crescimento é de 10% ou 5%, mas que, no mínimo, ele seja grande o bastante para permitir a acumulação de capital e, assim, fazer com que as pessoas tenham dinheiro suficiente para comprar os itens básicos do dia-a-dia.


(Diogo Cysne para NABC)



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