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Da cristalografia à educação básica

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Publicado em 8/03/2012

Desde o início dos anos 2000, a Acadêmica Yvonne Primerano Mascarenhas , a homenageada da Academia Brasileira de Ciências (ABC) pelo oito de março, Dia Internacional da Mulher, se dedica ao ensino de ciências em escolas públicas para alunos de ensino médio e à difusão e popularização da ciência, tecnologia e inovação através de uma Agência de Notícias, que deu origem ao portal CiênciaWeb.

Em entrevista exclusiva para as Notícias da ABC, que contou com a participação do Prof. Dr. Roberto Mendonça Faria , coordenador do Pólo do Instituto de Estudos Avançados de São Carlos da Universidade de São Paulo (IEA/USP-SC), a PhD em Cristalografia conta que o envolvimento com uma nova área nasceu de sua preocupação com o ensino no Brasil e seu anseio por trazer melhorias. Veja também a matéria que traz o perfil científico da Acadêmica.

Hoje com 80 anos e aposentada em exercício da USP, Yvonne diz que ao completar 70 resolveu iniciar um novo projeto: embora tenha continuado trabalhando no Instituto de Física de São Carlos, decidiu ingressar nas atividades do IEA, em parceria com o Acadêmico Sérgio Mascarenhas, seu ex-marido. "Eu tinha, e ainda tenho, uma preocupação de mãe com a educação. Eu só enxergava um sistema cada vez mais precário", relata. Para ela, os principais problemas a serem solucionados são as más condições de trabalho dos professores, pois muitos exercem a função em mais de um colégio e ficam sobrecarregados; os sérios problemas internos de infraestrutura, administração e recursos financeiros das escolas e a falta de colaboração por parte das famílias dos alunos, que muitas vezes delegam a educação dos filhos à escola. "E não é só isso. Devido a certos resíduos da ditadura, ficamos permissivos perante essas situações. Os valores mudaram muito e pouco se faz para exigir melhorias".

Por conta disso, a Acadêmica se debruçou sobre um trabalho de complementação de atividades em escolas públicas, que batizou de Aperfeiçoamento das Condições de Ensino Médio. Sua vontade, segundo ela, era ajudar os alunos a obterem sucesso no vestibular. "Nessa iniciativa, vinculada ao IEA, eu e alguns professores ministrávamos aulas de física, química, matemática, biologia e português para alunos de 2º grau", explica. "Íamos a uma escola quatro vezes por semana, o que no começo foi muito bem sucedido".

Durante as aulas de reforço, Yvonne diz que muitos alunos conseguiram excelentes resultados. No entanto, as dificuldades surgiram quando a equipe da escola começou a perder o entusiasmo, o que resultou em corte de almoço e lanche para os estudantes, tornando as atividades inviáveis, já que os alunos permaneciam em tempo integral no colégio. "Depois surgiu o Programa Universidade para Todos (Prouni), levando os estudantes a pensar que eles fariam o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) e passariam com bolsa de estudo para qualquer instituição privada", acrescenta. Com isso, as turmas, antes lotadas, passaram a receber menos de dez pessoas. "Essa concepção está muito errada, pois não há como uma pessoa ser boa em qualquer coisa sem muito esforço e dedicação. Dá a impressão de que cada vez que ocorre uma modificação no ensino brasileiro o intuito é desqualificar, nunca exigir mais do candidato, encorajá-lo a buscar conhecimento".

Para o Prof. Roberto Faria, o problema da escola pública vem, em grande parte, da família. "Uma cena muito típica do que acontece hoje é a seguinte: em 1960, um aluno com o boletim em mãos repleto de notas baixas seria questionado pelos pais, professores, e talvez até diretor, sobre aquela situação". Hoje em dia, segundo ele, é o aluno quem pergunta ao professor o porquê de tantas "notas vermelhas". "O fracasso escolar virou culpa do professor, não mais do estudante que não quer saber de estudar por conta dessa falta de acompanhamento dos pais em relação à vida escolar".

A importância da internet como ferramenta escolar

Mais adiante, em 2007, Yvonne começou a se dedicar à Agência de Notícias, cujo trabalho envolve ações voltadas para a internet e engloba duas iniciativas. A primeira foi a criação de uma rede integrada de produção e veiculação de conteúdo jornalístico de divulgação científica, por meio de parcerias formais com jornais, revistas e emissoras abertas de rádio e TV da região de São Carlos e Ribeirão Preto. A segunda visa integrar à agência o apoio ao ensino informal de ciências em escolas públicas da região, por meio de visitas, debates, palestras e exposições de cunho científico e tecnológico. Por conta disso, os professores dos colégios passaram a receber orientação em um laboratório de informática, nas escolas, com o intuito de transmitirem aos alunos o conhecimento adquirido em meios multimídia, internet, divulgação científica e demais atividades empreendidas pela agência jornalística.

A Acadêmica conta como tudo começou. "Primeiramente, fui à Diretoria Regional de Ensino de São Carlos, onde, na época, conversei com o responsável e recebi apoio e aconselhamento sobre quais unidades escolares seriam as primeiras a receber o projeto". De acordo com Yvonne, o empreendimento não possui convênio com a USP, contando, atualmente, com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). "Além de outras entidades e pessoas que tornaram tudo possível, a minha grande colaboradora é a Neucidéia Colnago, Doutora em Educação Especial, psicóloga e coordenadora do Programa de Inclusão Digital de Professores de Escolas Públicas", explica.

A Agência de Notícias deu origem ao site CiênciaWeb, que atua como um portal de veiculação de informação científica, orientação profissional para jovens e pesquisas em diferentes áreas do conhecimento, além de transmitir depoimentos de cientistas e alunos. Segundo Yvonne, as visitas à escola contam com a presença de graduandos de informática ou bolsistas de iniciação científica. "Geralmente, esses alunos das áreas de licenciatura de ciências exatas, matemática ou ciência da computação nos ajudam nos cursos de capacitação de professores, nos laboratórios de informática e demais atividades".

A pesquisadora afirma que seu maior sonho é que os professores sejam capazes de utilizar meios multimídia para a educação, ajudando os estudantes a enxergar o valor do uso da internet em sala de aula. "Acompanhamos turmas do ensino fundamental ao ensino médio no intuito de mostrar às crianças que elas podem complementar o que estudam em classe consultando sites, redigindo trabalhos, acessando outros recursos. Uma das metas principais do projeto, portanto, é auxiliar o professor a navegar neste universo, tornando-o capacitado a orientar seus alunos".

Para a Acadêmica, o trabalho só é válido até o momento em que as escolas devolvem bons resultados e demonstram interesse. "Se não der retorno, o projeto não vai pra frente, pois não temos recursos financeiros e humanos suficientes. Por isso, vamos somente aos lugares interessados", diz. "Cada vez mais acredito que este é o caminho certo". Como incentivo, a FAPESP começou a repassar ao projeto bolsas de Educação Pública (EP) que são distribuídas entre os professores mais engajados com as atividades.

Os principais desafios

Durante a entrevista, a homenageada destacou alguns dos problemas que encontrou pelo caminho, muitos deles relacionados à falta de interesse de alunos e professores. "Hoje em dia, não ministro mais aulas na universidade, mas ouço muitos colegas dizendo que os estudantes chegam à instituição sem saber conceitos básicos de física, química e matemática", lamenta. O maior objetivo de muitos alunos, ressalta, é passar no vestibular, decorar fórmulas e saber macetes. "Não importa mais se o aluno realmente entendeu. Onde foi parar a busca pelo conteúdo? Assim, os alunos perdem a capacidade crítica e não são capazes de encontrar soluções sozinhos".

Já o Prof. Faria acredita que a única saída está na melhoria dos ensinos fundamental e médio. "O aluno universitário com dificuldade de aprendizado é o menos culpado. Como um país com uma educação deste nível resolve que, a partir de agora, tem que ter inovação?", indaga. Para ele, um cientista só é capaz de inovar se for estimulado desde pequeno a pensar, ser criativo e a lidar com iniciativas. "A educação precisa ter esta função de competitividade. E não digo competitividade entre pares, mas sim o questionamento do próprio aluno sobre suas perspectivas, seus objetivos de vida".

Outro fator desestimulante, aponta Yvonne, é a perda de interesse por parte dos professores. De acordo com ela, além das condições de trabalho não serem boas, aqueles que estão na beira da aposentadoria argumentam que não querem se envolver, pois já fizeram muita coisa pela educação. "O interesse deles é juntar carga horária suficiente de aulas a fim de garantir um salário razoável no final do mês. Se o professor trabalhasse tempo integral em uma única escola, ele se envolveria muito mais com aquela comunidade e orientaria melhor seus alunos", observa a pesquisadora.

Por fim, a homenageada acentua que um bom preparo para a carreira científica só se obtém com talento, criatividade, inquietação e curiosidade. "A habilidade para a matemática e o gosto por temas científicos tem que ser plantados desde cedo", comenta. Para o coordenador do IEA, é de extrema importância cultivar tais valores. "O pesquisador tem que se mostrar empolgado, com capacidade de liderança, como se a arte de descobrir algo novo fosse uma grande aventura".


(Renata Fontanetto e Elisa Oswaldo-Cruz para as Notícias da ABC)



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