Os presentes na reinauguração da fachada histórica do Museu Nacional (Foto: Tânia Rego/Agência Brasil)

Exatamente quatro anos atrás, no dia 2 de setembro de 2018, um gigantesco incêndio consumia o Museu Nacional, sediado no Paço de São Cristóvão, na Quinta da Boa Vista, Rio de Janeiro. O fogo destruiu 85% dos mais de 20 milhões de itens – fósseis, documentos, mobílias, objetos, obras de arte, estudos científicos – que estavam no acervo do museu, e representou uma perda inestimável e irrecuperável para o país.

O museu em chamas se tornou retrato do descaso e da asfixia orçamentária que sofre a ciência brasileira. Em abril deste ano, um processo analisado pelo Tribunal de Contas da União (TCU) constatou que a sucessão de falhas que levaram ao incêndio se deram pela falta de recursos para manutenção. O TCU concluiu que os gestores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), instituição responsável pelo Museu, alertaram sobre o problema, mas não receberam a atenção devida.

Hoje, quatro anos depois da tragédia, a fachada do prédio histórico foi reinaugurada em uma cerimônia nos jardins. O evento faz parte das comemorações do Bicentenário da Independência, e a Academia Brasileira de Ciências (ABC) esteve representada por sua diretora Maria Domingues Vargas. A nova fachada recupera o tom amarelado do prédio original e conta com 31 réplicas das estátuas de mármore do topo, que foram danificadas pelo fogo (as peças originais estão sendo restauradas para serem exibidas no novo acervo). Além de representar o primeiro passo rumo ao renascimento do museu, a cerimônia também marcou a abertura de exposições fotográficas, contando um pouco da história dos patrimônios perdidos.

Até o momento, o projeto Museu Nacional Vive já arrecadou R$ 254 milhões dos R$ 380 milhões estimados para a conclusão das obras, previstas para 2027. Paralelamente, também estão sendo feitos esforços para a recomposição do acervo através da campanha Recompõe, que está captando doações de coleções históricas, arqueológicas, paleontológicas, biológicas e culturais.

Alexander Kellner durante a reinauguração (Foto: Maria Vargas)

O Acadêmico Diogenes de Almeida Campos, que dirige o Museu de Ciências da Terra, esteve na cerimônia e parabenizou a equipe do Museu Nacional pelos esforços de reconstrução. “O sentimento é a esperança de que em breve poderemos ter de novo essa instituição de ponta realizando pesquisas em história natural e antropologia”, destacou.

Museu Nacional

Fundado em 1818 ainda como Museu Real, o Museu Nacional é a mais antiga instituição científica do Brasil. Sediado inicialmente no Campo de Santana, no Centro do Rio, a instituição foi movida para a Quinta da Boa Vista em 1892, como parte de um esforço da República para ressignificar o Paço para uma nova nação pós-Império. Até o incêndio em 2018, o Museu possuía um dos maiores acervos de história natual e antropologia do continente americano.

O atual diretor do Museu Nacional é o Acadêmico Alexander Kellner, editor-chefe dos Anais da Academia Brasileira de Ciências (AABC). Para comemorar este importante marco, o paleontólogo escreveu um emocionante texto destacando a força da ciência brasileira e o trabalho de todos os envolvidos na recuperação do Museu. Confira:

 

 

O MUSEU NACIONAL INAUGURA FACHADA HISTÓRICA PARA O BICENTENÁRIO!

Alexander W. A. Kellner

Museu Nacional/UFRJ

Quem diria que, quatro anos após a maior tragédia do cenário científico e cultural brasileiro, e alguns dias antes das comemorações do bicentenário da independência, o Museu Nacional/UFRJ cumpriria com o compromisso de devolver uma pequena parte do palácio para a visitação pública! Foi exatamente isso que aconteceu, no dia 2 de setembro de 2022, com a apresentação da fachada restaurada do Palácio de São Cristóvão para a população!

A dúvida tinha razão de ser: nada tem sido fácil para a ciência e para a cultura nesses últimos anos! Pandemia, guerra, além de outros desafios, como os cortes orçamentários e as recentes limitações draconianas da lei Rouanet, que desvirtuaram totalmente o seu propósito original.

Porém, o Projeto Museu Nacional Vive conseguiu finalizar parte do que havia proposto em grande estilo. Nunca é demais relembrar que a denominação do projeto é derivada de um mote que surgiu exatamente 10 dias depois do incêndio de 2 de setembro de 2018. Aliás, acredito que essa data deveria entrar para o calendário oficial do país para refletirmos sobre a necessidade de preservação do patrimônio científico e cultural.

O evento do último dia 2 foi dividido em duas partes: uma coletiva de imprensa do Comitê Executivo do Projeto Museu Nacional Vive; e outra para convidados. Ao total, fora os profissionais da imprensa, aproximadamente 550 pessoas compareceram! Diretores de outros museus, pesquisadores, membros do corpo diplomático, artistas, dirigentes de instituições, alunos e muitos representantes da sociedade civil. Naturalmente, também, dezenas de servidores da instituição. A Academia Brasileira de Ciências estava presente com alguns membros titulares como Maria Domingues Vargas e Diogenes de Almeida Campos.

Todos ficaram impressionados com o trabalho realizado. As cores que agora destacam a bela fachada, amarelo ocre nas paredes e verde nas portas, são as mesmas do período imperial, ressaltando o compromisso em preservar a identidade e a trajetória arquitetônica do palácio. Se for levada em conta apenas a mão de obra direta, foram 150 os profissionais que atuaram para que se chegasse a esse dia tão importante em grande estilo.

Mas não apenas a fachada faz parte das comemorações. No Jardim Terraço, totalmente reformado devido à ação da Prefeitura do Rio, foram expostos oito das mais de 30 estátuas confeccionadas em mármore de Carrara, que antes adornavam o telhado do palácio. Devido a sua fragilidade, elas foram todas removidas e substituídas por réplicas, ficando as originais, devidamente restauradas, para as futuras exposições.

Também é importante destacar que serão realizadas diversas ações nos próximos dias, como apresentações da Orquestra Sinfônica Brasileira, atividades circenses e muitas outras. Fundamental não deixar de destacar as ações que serão realizadas para o público escolar.

A importância de o Museu Nacional/UFRJ entregar parte de sua reconstrução no ano do bicentenário da independência do Brasil está no fato de que houve um outro 2 de setembro muito importante. Foi nesse dia, em 1822, que uma mulher presidiu a reunião do Conselho de Estado onde foi discutida, de forma definitiva, a independência do Brasil. Tratava-se daquela que viria ser a nossa primeira imperatriz, Maria Leopoldina, uma austríaca de nascimento e brasileira de coração, que foi fundamental para o país.

Para coroar a grande festa, ao final do dia, tivemos a primeira visita de uma escola: o Centro Educacional Santa Thereza de São João de Meriti!

Termino por salientar que o projeto de reconstrução do primeiro museu brasileiro é um projeto vencedor! Isto devido à ação de dezenas de anônimos que nos inspiram e incentivam todos os dias para atuar nessa difícil, complexa, mas absolutamente necessária, tarefa de devolver o primeiro museu de história natural e antropologia do país o quanto antes para a sociedade!

O Museu Nacional Vive!”