O Acadêmico José Murilo de Carvalho, o presidente da ABC, Luiz Davidovich, Argelina Cheibub e Antonio Lavareda durante a Sessão I: Análise Eleitoral

No dia 14 de novembro, a Academia Brasileira de Ciências (ABC) organizou a mesa-redonda “Eleições Presidenciais: Análise e Prospectivas”, em sua sede no Rio de Janeiro. A programação contou com apresentações dos cientistas políticos Antonio Lavareda, Jairo Nicolau, Argelina Maria Cheibub, Wanderley Guilherme dos Santos, Sergio Abranches e do economista Edmar Bacha. A abertura foi conduzida pelo presidente da ABC, Luiz Davidovich, e o Acadêmico José Murilo de Carvalho, coordenador do evento.

A proposta do encontro foi mobilizar os especialistas a fazerem uma análise dos resultados das eleições de 2018 e delinearem o cenário político para os próximos anos. Neste contexto, o presidente da ABC salientou a importância dos cientistas sociais na Academia, que contribuem para o debate nacional pensando os aspectos sociais do desenvolvimento científico. Para esses especialistas, a eleição presidencial de 2018 se destacou por sua peculiaridade, tendo sido classificada como uma “eleição crítica”.

O professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Antonio Lavareda explicou que as eleições críticas são caracterizadas por uma grave crise econômica, forte polarização ideológica e emergência de terceiras forças. No caso brasileiro, ele observou ainda os impactos da Operação Lava Jato, do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e do insucesso do governo de Michel Temer.

Diretor do Conselho Científico do Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe), Lavareda relatou que, segundo pesquisa realizada pelo instituto, a campanha eleitoral em 2018 teve basicamente cunho emocional, com a preocupação e a indignação/raiva como os sentimentos mais populares entre os eleitores brasileiros.

O professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Jairo Nicolau, declarou: “A forma de organizar a política brasileira entre 94 e 2014, baseada na centralidade que tinha o PSDB e o PT na disputa nacional, e o PMDB como um partido pivô na atividade congressual, parece que está enterrada.”

A partir de gráficos, o doutor em ciência política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IESP) concebeu algumas comparações entre as eleições presidenciais de 2014 e 2018. Ele observou que entre as candidaturas à Presidência de Dilma Rousseff e Fernando Haddad, a quantidade de votos no PT diminuiu, mas a distribuição regional desses votos se manteve a mesma. Ele ressaltou também as candidaturas de Aécio Neves e Jair Bolsonaro, destacando o bom desempenho que ambos tiveram no sul do país, especialmente na região Sudeste.

“Apesar do fenômeno Bolsonaro ter todas essas características de novidade que vários estão apontando, ele tem alguma coisa de permanência estrutural com o voto mais conservador que ia para o Aécio. Bolsonaro não surgiu e teve uma votação que quebra o padrão completamente, ele reforça os padrões já vistos”, completou Nicolau.

Em sua análise,  destacou as vitórias de Jair Bolsonaro e de seu partido, o Partido Social Liberal (PSL), no processo eleitoral. Ele afirmou que Bolsonaro é um “fenômeno urbano, metropolitano” e que o PSL, apesar do pouco tempo que teve para se organizar, teve um ótimo resultado nas eleições de 2018. O professor comentou ainda a mudança nas regras para a eleição de deputados e vereadores em 2018, tema do artigo “As eleições de 2018 e a reforma eleitoral que ninguém viu” que publicou pelo jornal digital NEXO.

Doutora em ciência política pela Universidade de Chicago, Argelina Cheibub indicou algumas características dos eleitores em 2018, utilizando-se de recortes políticos, econômicos e sociais. Ela explicou que, em um cenário político de bipartidarismo, como tem se caracterizado o do Brasil desde as eleições de 2014, é comum que os resultados apontem para o centro. No entanto, este não foi o caso para as eleições de 2018.

Sergio Abranches, os Acadêmicos José Murilo de Carvalho, Wanderley dos Santos e Edmar Bacha durante a Sessão II: Prospectiva

Inaugurando a segunda sessão da mesa-redonda “Prospectiva”, o Acadêmico Wanderley Guilherme dos Santos alertou para a crise da democracia representativa que ocorre no mundo inteiro. “A democracia representativa está atravessando um período em que não há consenso entre os analistas se já existem sugestões de como revigorá-la. Ela, que nunca foi realmente representativa na prática, está cada vez mais longe do ideal.”, apontou o cientista político.

“Não se discutiu política nessas eleições”, afirmou o cientista político Sergio Abranches durante sua fala. Doutor em ciência política pela Universidade de Cornell, Abranches explicou que o fenômeno mundial da polarização política tem ficado cada vez mais afastado do conteúdo político tradicional e cada vez mais emocionalizado. “Isso despolitiza as eleições. Essa foi a primeira eleição no Brasil inteiramente despolitizada, ela não foi focada em agenda”, completou o palestrante.

Segundo Abranches, a chance de qualquer vitorioso nas eleições frustrar seus eleitores é grande. Isto porque as demandas e as agendas não estão claras e são amplamente difusas. “Tem a probabilidade de haver um conflito e um descontentamento num governo num contexto que seguirá polarizado por algum tempo.”, afirmou o analista político.

Encerrando a segunda sessão, o Acadêmico Edmar Bacha relatou que o Brasil vive numa economia semi-estagnada. Doutor em economia pela Universidade de Yale, ele explicou: “Desde 2014 temos uma economia que nos três primeiros anos teve a recessão mais profunda da sua história, depois, surpreendentemente, perdemos 10% do PIB em três anos e depois ganhamos 1% em 2017 e 2018.”

Após a apresentação de todos os especialistas, houve discussão dos temas levantados com a participação do público. Perguntado sobre a ascensão do presidente eleito Jair Bolsonaro, Abranches explicou que seu êxito segue a tendência global de se eleger candidatos de direita, potencializada por características locais. No caso brasileiro, o analista político esclareceu: “O Brasil teve um movimento duplo. A gente abriu as liberdades, conquistou novos espaços, criou novas identidades, incluímos negros, mulheres. Fomos fazendo esse processo de abertura e, ao mesmo tempo, foi se formando um contingente evangélico neo pentecostal, extraordinariamente conservador e avesso a tudo isso. Esse movimento provocou aqui uma onda emocionalizada e muito radical. A campanha exacerba esses sentimentos e começa a filtrar os mais violentos, que são exacerbados pela rede social.”

abordando a governabilidade de Bolsonaro, o Acadêmico Wanderley dos Santos acrescentou: “Eu tenho a impressão que o clã Bolsonaro e o seu principal líder têm consciência de que eles não têm capacidade de governar, por isso estão terceirizando o poder. Essa nomeação de super ministros é uma forma de abrir mão da responsabilidade de tomar decisões que são incapazes de tomar. Porém isso não dá para continuar, em algum momento vai haver choque.”

Para assistir na íntegra as palestras e o debate realizados, confira a transmissão realizada na página da ABC no Facebook:

Eleições Presidenciais: Análise e Prospectivas – Parte I

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Publicado por Academia Brasileira de Ciências em Quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Eleições Presidenciais: Análise e Prospectivas Parte II

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Publicado por Academia Brasileira de Ciências em Quarta-feira, 14 de novembro de 2018