A filha do Acadêmico Leopoldo de Meis, Carla de Meis, enviou à ABC o texto que leu na ocasião da missa de sétimo dia de seu pai, ocorrida no domingo, 14 de dezembro. Leiam também o obituário publicado nas Notícias da ABC.

”Em nome do pai… do meu pai, que morreu há uma semana. Morreu em corpo, mas não em espírito. Meu pai que continua vivo em mim, nos meus irmãos, nos seus netos, na sua companheira, Vivian, e em tantos outros. Meu pai tinha muitos filhos… foi muito amado e tocou o coração de muitas pessoas.

Como explicar quem ele era? Dizem que somos de onde viemos. Meu pai é uma das primeiras gerações da globalização que ora vivemos. Leopoldo nasceu no Egito, enquanto seus pais, ambos italianos, por lá viajavam. Ele foi registrado na embaixada italiana. Com menos de um ano de vida, a família voltou para a Itália, onde ficou durante a 2ª Guerra. No pós-guerra, meu avô decidiu levantar âncoras novamente, mas dessa vez não para o Egito e sim para o Brasil. A família chegou ao Rio de Janeiro junto com muitos outros imigrantes, em um navio. Chegaram sem dinheiro. Foram morar em um pequeno apartamento de quarto e sala no centro do Rio, na Lapa, região de malandros e prostitutas. Meu pai e sua irmã, Ana, dormiam no sofá da sala.

Meu bisavô era barão na Itália. Fazia parte da nobreza italiana decadente e sem dinheiro. Por isso, vendeu o título de nobreza para a burguesia italiana ascendente e com o dinheiro partiu para o Egito, onde comprou o primeiro cinema do Cairo. Na época, o cinema era uma novidade. Eram os primeiros filmes do cinema mudo, cuja sonoplastia e fundo musical era feito por alguém tocando piano na sala de projeção. Tanto o meu bisavô, quanto meu avô e seus irmãos, eram músicos profissionais. Meu avô Ezio tocava piano, na sala de projeções do seu pai. Foi por causa deste cinema que Leopoldo nasceu no Egito. Para o meu bisavô e para o meu avô, Ezio, o mundo se dividia em dois tipos de pessoas: os músicos (e os artistas) e o resto…

Ezio, meu avô, trouxe a família para o Brasil, terra de oportunidades, para fazer fortuna. Estava sempre prestes a ficar rico, com diversos negócios mirabolantes, que invariavelmente não funcionavam, dando às vezes, inclusive, prejuízo. A família vivia, precariamente, com o dinheiro que meu avô ganhava como violoncelista da orquestra sinfônica do Teatro Municipal do Rio de Janeiro… Esse foi o pai do meu pai. Apesar de tocar muito bem a flauta, o sofrimento do que ele chamava – as ‘porralouquices’ do seu pai – tinham causado em sua mãe e na família o marcaram. Não queria ser músico. Queria ser um homem sério, queria poder cuidar da sua mãe, Maria, uma bela, boa e sábia mulher, loira, de olhos azuis cristalinos, cujos traços ele herdou. Meu pai decidiu que seria médico, mais especificamente, cirurgião, queria ser um homem respeitável. Estudou, passou para a Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil, na Praia Vermelha. Virou médico e depois pesquisador.

Mas, nós somos prisioneiros da nossa história. Um pouco depois do meu pai se formar em medicina, meu avô, com 46 anos de idade, morreu após o seu terceiro infarto, mesmo tipo de problema de saúde que levou meu pai há sete dias atrás.

Na última conversa que tive com meu pai, sentada na beira do seu leito, local onde ele passava a maior parte do tempo nestes dois últimos anos, ele me contou histórias do seu pai, Ezio. Falava com amor.

Leopoldo, no fundo, nunca aceitou ser a ovelha negra da família. Passou a vida querendo provar que ciência e arte eram a mesma coisa. Como dito anteriormente, seu pai só admirava os artistas. Meu pai queria ser admirado pois, para ele, ao fazer ciência ele estava, na verdade, fazendo música. Ciência e arte, para o meu pai, são iguais: são movidas pela intuição e inspiração. Ele tinha que provar isso para Ezio. Meu pai fez as pazes com o seu pai e hoje estão juntos, abraçados, no céu. Meu pai agora está junto também da minha avó, sua mãe, Maria, dos olhos azuis cristalinos. Está junto também da minha mãe, Maria Regina, sua primeira esposa, companheira de tantas lutas e mãe dos seus filhos: eu, Ernesto, Juliana e Daniel. Meu pai está feliz no céu, abraçado com os seus. Meu pai morreu em casa, nos braços de sua companheira, seus filhos e netos e partiu para os braços da família que lá está. Meu pai está rindo no céu.”