Leia artigo de opinião de Helena Bonciani Nader, presidente da Academia Brasileira de Ciências e professora emérita da Escola Paulista de Medicina da Unifesp, publicado no Estadaão no dia 3 de maio:
A Academia Brasileira de Ciências (ABC) completa 110 anos reafirmando seu compromisso com um Brasil mais justo, democrático, sustentável e baseado na ciência. Ao longo de mais de um século, a instituição soube ser mais do que uma entidade científica: tornou-se um espaço de reflexão, de proposição e de defesa do interesse público.
A ABC nasceu da convicção de que o conhecimento científico é um dos pilares do progresso das nações e do bem-estar da humanidade. Foi justamente essa convicção que ajudou a sustentar a construção do sistema científico brasileiro.
A história da ABC se confunde com a própria história da difusão científica no País. Em 1925, Albert Einstein visitou a academia e participou de atividades na Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, criada por Edgard Roquette-Pinto e Henrique Morize, figuras fundamentais da ABC. O episódio simbolizava um projeto de país: aproximar ciência, comunicação e educação, fazendo do conhecimento uma força pública. Outro momento marcante foi a eleição de Marie Curie, ganhadora de dois prêmios Nobel, como a primeira mulher membro correspondente da ABC, durante sua histórica visita ao Brasil em 1926. É esse espírito de pioneirismo que atravessa a trajetória da ABC.
A instituição esteve presente na fundação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), participou da estruturação de políticas científicas e educacionais e ajudou a consolidar a visão de que ciência precisa de continuidade, não de improviso.
Os resultados desse percurso estão por toda parte. Sem a ciência brasileira, a Petrobras não teria se tornado referência mundial em exploração de petróleo em águas profundas; a Embraer não teria alcançado o patamar de competitividade internacional que hoje sustenta; a Embrapa não seria o esteio da transformação do Brasil em potência agrícola; a Fiocruz e o Butantan não seriam capazes de produzir vacinas que salvam vidas. A ciência não aparece apenas em laboratórios; ela está na comida mais farta, na energia mais segura, no avião que exportamos, na doença que conseguimos conter.
Não é papel de uma academia viver do passado, mas ajudar o País a construir o futuro. Diante de um momento de transformações tecnológicas aceleradas, desafios sanitários, emergências climáticas e aumento da desigualdade social, torna-se urgente investir em educação, ciência e inovação.
A China já ultrapassou os Estados Unidos em volume de investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D) — e não deve parar por aí. O desmonte que o governo americano vem causando em sua própria estrutura científica, com cortes de recursos e ameaças a universidades e instituições de pesquisa, tende a ampliar a distância entre as potências.
Num mundo em que países disputam competitividade econômica, soberania e desenvolvimento com base no conhecimento, o Brasil ainda precisa assumir a ciência como prioridade de Estado.
O País tem um imenso potencial científico, ambiental e humano. A fórmula para transformar esse potencial em desenvolvimento não é mágica: passa por políticas públicas estáveis, investimento contínuo em educação e pesquisa, valorização dos cientistas e fortalecimento das instituições científicas. É urgente colocar a ciência no centro das estratégias nacionais, orientando decisões públicas e contribuindo para soluções baseadas em evidências.
A defesa da ciência e da democracia são pilares do Manifesto dos 110 anos da Academia Brasileira de Ciências, lançado em comemoração à data. No documento, a ABC reafirma seu compromisso, como academia nacional independente, de atuar como voz qualificada da ciência brasileira, promovendo o diálogo entre conhecimento científico, Estado e sociedade.
A ciência só se desenvolve plenamente onde a democracia é preservada — defendê-la é assegurar não apenas o avanço do conhecimento, mas também um futuro mais justo, ético e inclusivo para toda a sociedade.
A ciência só se desenvolve plenamente onde a democracia é preservada — defendê-la é assegurar não apenas o avanço do conhecimento, mas também um futuro mais justo, ético e inclusivo para toda a sociedade.