ABC comemora 110 anos com lançamento de novo Centro de Memória

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Para dar início às comemorações dos seus 110 anos, a Academia Brasileira de Ciências (ABC) organizou, no dia 28 de abril, um seminário inaugural em sua sede, no Centro do Rio de Janeiro, reunindo Acadêmicos e entidades que ajudam a construir a ciência nacional. “É difícil não se emocionar vendo essa sala cheia de pessoas que amam a ciência, a tecnologia, a educação e o Brasil”, afirmou a presidente da ABC, Helena Bonciani Nader, abrindo a cerimônia.

O encontro marcou o lançamento oficial do Centro de Memória da ABC José Murilo de Carvalho, repositório virtual que conta a história da instituição e em breve dará acesso ao acervo completo, que está sob os cuidados do Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST), parceiro da ABC nesta empreitada.

Mesa de abertura

O projeto do Centro de Memória contou com o apoio crucial da Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro (Faperj), representada na cerimônia por sua diretora de Tecnologia, a Acadêmica Eliete Bouskela. Em sua fala, Bouskela lembrou do ex-presidente da Faperj e também Acadêmico Jerson Lima. “Ele foi responsável pelo edital voltado para academias, e agora planejamos uma nova edição, com ainda mais recursos”, anunciou.

Representando a Academia Nacional de Medicina (ANM), o Acadêmico Antonio Egidio Nardi ressaltou o papel convergente das duas instituições. “Em tempos em que o conhecimento é distorcido e questionado, o papel das Academias é essencial”. Já a presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Francilene Procópio Garcia, lembrou da influência da Academia na fundação de outras sociedades científicas no Brasil. “A ABC sempre esteve buscando melhorar o ambiente institucional do país”.

Completando a mesa de abertura, a Acadêmica Denise Pires de Carvalho, à frente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), comemorou a melhora nos programas de pós-graduação brasileiros apontada pela última avaliação quadrienal. “Onde existe pós-graduação existe ciência e é muito importante que a Academia e os Acadêmicos tenham conhecimento dos resultados do país”, afirmou.

Ao final da mesa, Helena Nader leu o Manifesto dos 110 Anos da Academia Brasileira de Ciências.

Antonio Nardi, Helena Nader, Francilene Garcia, Eliete Bouskela, Denise Carvalho e Ildeu Moreira

110 anos de muita história

Ildeu de Castro Moreira

Em 2016, quando a Academia chegava ao seu centenário, foi lançado o livro “Ciência no Brasil: 100 anos da ABC”, fruto de um trabalho coordenado por José Murilo de Carvalho, historiador e cientista político, e Ildeu de Castro Moreira, físico e historiador da ciência. José Murilo nos deixou em 2023, uma das vítimas da covid-19 no Brasil. Ildeu Moreira deu continuidade ao trabalho, mergulhando no acervo da Academia e desvendando suas muitas histórias. Ele foi convidado a ministrar a principal palestra do dia.

“A ideia da então Sociedade Brasileira de Ciências surgiu entre os engenheiros e geólogos da Escola Politécnica do Rio de Janeiro, que logo chamaram os médicos; os astrônomos do Observatório Nacional; os biólogos de Manguinhos e do Jardim Botânico; os engenheiros da Escola de Minas, e assim compuseram a primeira diretoria”, iniciou Moreira. “Muito do que está no primeiro discurso de posse, do engenheiro Henrique Morize, continua na pauta: valorizar a ciência e seu papel para o desenvolvimento do país; ser um local de apoio aos cientistas; e espalhar e divulgar a ciência para a sociedade”.

Entre os primeiros marcos históricos da Academia está a expedição para observação de um eclipse solar em Sobral liderada por Morize em 1919. As observações daquele evento mostraram, pela primeira vez, a deflexão da luz das estrelas ao passarem rente ao Sol confirmando a Teoria da Relatividade Geral de Albert Einstein. “O problema concebido pela minha mente foi respondido pelo luminoso céu do Brasil”, escreveria o célebre físico alemão anos mais tarde.

A primeira década também veria a criação da revista da Sociedade Brasileira de Ciências, que se tornaria os Anais da ABC; e da Rádio Sociedade, primeira emissora radiofônica do país. Visitas de cientistas estrangeiros também contribuíram para estabelecer a nova instituição. Dois dos mais renomados cientistas à época, Albert Einstein e Marie Curie estiveram por aqui. Era costume que esses visitantes se tornassem membros correspondentes da ABC, portanto, Marie Curie é oficialmente a primeira mulher a se tornar membra. “Até hoje Marie Curie não é membra da academia da França, portanto, esse mérito a ABC possui, provocou Moreira.

Em 1928, uma tragédia: o hidroavião Santos Dumond, batizado em homenagem ao ilustre Acadêmico, caiu durante um sobrevoo à Baía de Guanabara organizado justamente para homenagear sua volta ao Brasil. À bordo estavam os membros Manuel Amoroso Costa, Ferdinando Labouriau e Tobias Moscoso, além de outros 11 tripulantes, que morreram no local. No mesmo ano a Academia perderia sua sede, até então no Pavilhão Tchecoslovaco, no Centro do Rio de Janeiro, e permaneceria 32 anos sem casa fixa. “Essa foi uma das causas pelas quais o acervo inicial se dispersou e muito se perdeu”, explicou Moreira.

Durante a Era Vargas, pela primeira vez a Academia teve de navegar por um período de ditadura. Apesar da supressão das liberdades, muitos Acadêmicos ocuparam postos no Estado Novo e contribuíram para a criação de faculdades e universidades pelo país. Com o fim da Segunda Guerra e a volta da democracia, a Academia assumiu papel importante na estruturação do sistema científico brasileiro, com seu então presidente, o Almirante Álvaro Alberto, sendo fundamental para a fundação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Após o golpe militar de 64, mais de cinquenta membros da ABC são atingidos por cassações e perseguições, muitos optando pelo exílio. Foi um período em que a ABC submergiu, mas continuou atuando no assessoramento científico e contribuindo para os planos de ciência e tecnologia do regime. Com a redemocratização houve um novo impulso às atividades da ABC, que se diversificou e passou a atuar fortemente com questões ambientais, sobretudo após a Rio 92. A Academia também se internacionalizou, entrando para diversos organismos internacionais e ajudando a fundar alguns deles.

Mais recentemente, a ABC foi uma voz importante na defesa da ciência contra os ataques de um governo federal negacionista, obtendo vitórias na manutenção do CNPq e na liberação dos recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT). “Entregamos um milhão de assinaturas em Brasília para evitar que fechassem o CNPq”, lembrou Ildeu.

Atualmente, a ABC segue firme no assessoramento científico e representando a comunidade de pesquisadores brasileiros. Para Ildeu, os desafios do presente envolvem uma maior inserção regional, a contínua busca pela equidade de gênero – mulheres ainda são apenas um quarto do corpo acadêmico – e a busca incessante pelo desenvolvimento sustentável. “São desafios permanentes e a Academia ainda tem muito a colaborar”, finalizou.

Apresentação do Centro de Memoria José Murilo de Carvalho

O trabalho de construção do Centro de Memória começou em 2024, com a assinatura da colaboração entre ABC e MAST. De lá pra cá, historiadores e arquivistas, liderados pela Acadêmica Maria Domingues Vargas, trabalharam incansavelmente na organização, recuperação e digitalização do acervo. “Atas, correspondências, manuscritos, publicações, transcrições de entrevistas e palestras, registros de atividades em jornais, documentação financeira, tudo está lá”, resumiu Vargas.

Coube ao Acadêmico Diógenes Almeida Campos contar a história do patrono José Murilo de Carvalho. Nascido em Piedade do Rio Grande, à época ainda um distrito do município mineiro de Andrelândia, José Murilo cresceria para se tornar um dos maiores historiadores e cientistas políticos brasileiros, tendo publicado trabalhos sobre a história das instituições científicas nacionais. “José Murilo era um especialista na história da cidadania e defendia que aprendemos a ser cidadãos através do estudo, da leitura e do voto”, afirmou Diógenes.

Chefe de acervos do MAST, Everaldo Pereira Frade destacou a importância do acervo da ABC para o museu. “Ter a ABC conosco nos chancela na negociação para hospedar outros acervos”. Ele apresentou o recém criado inventário, que ajudará pesquisadores a navegarem pelas mais de 90 mil peças do acervo. O documento já está disponível no site do Memória.

Diógenes Campos, Maria Vargas e Everaldo Frade

Por fim, foi dada a palavra aos profissionais e alunos que trabalharam de perto na execução do projeto. A historiadora Dayane Ponciano mostrou por vídeo um passo-a-passo do trabalho de recuperação, catalogação e digitalização dos documentos. O Acadêmico e historiador Paulo Terra liderou um projeto com alunos de graduação da Universidade Federal Fluminense (UFF) focado especificamente nos arquivos financeiros, e contou um pouco mais do que os documentos revelam.

Por fim, foram convidados representantes das empresas que ajudaram a ABC no desenvolvimento do site. Raphael Novaes (Grifo Produções) e Dmitry Bayakhchev (Sintrópika) contaram um pouco do processo e do trabalho conjunto com as equipes da ABC. “Além da integração do acervo, existe a questão da produção de divulgação cientifica, de conteúdos novos. Essas releituras serão muito importantes para que esta seja uma plataforma viva”, afirmou Dmitry.

Assista à cerimônia completa:

(Marcos Torres para ABC | Fotos: Mário Marques, 29/04/2026)