Principal agência de fomento à ciência brasileira, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) completou 75 anos em 2026. Fundado em 1951, impulsionado pela noção de desenvolvimento e soberania do Almirante Álvaro Alberto da Motta e Silva, então presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC), o CNPq é um marco na estruturação do sistema nacional de ciência, tecnologia e inovação, tendo sido o motor para a expansão do ensino superior, da pós-graduação e da produção científica brasileira. A efeméride foi comemorada em cerimônia no Teatro Nacional, em Brasília, no dia 23 de março, e contou com a presença de grandes nomes da comunidade científica.
Abrindo o encontro, o atual presidente do CNPq, Olival Freire Júnior, elogiou a liberação do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) no início do atual governo, mas lamentou a falta de outras fontes de financiamento. “Se uma ação do CNPq é apoiada pelo FNDCT nós temos tido um cenário de estabilidade, mas quanto ao orçamento nós temos oscilações problemáticas”, afirmou.
A ABC foi representada na celebração por sua presidente, a biomédica Helena Bonciani Nader, que classificou como “visionária” a atuação de Álvaro Alberto. No período pós-guerra, observando como novas tecnologias moldariam o desenvolvimento dos países, o Almirante compreendeu que não haveria projeto de nação sem ciência. “O CNPq não é apenas uma agência de fomento, mas uma instituição que moldou o país que temos hoje, que construiu uma comunidade científica diversa e comprometida com o país”, afirmou Nader.
Nader destacou as bolsas de produtividade em pesquisa, criadas na década de 70 no contexto da expansão da pós-graduação. “São muito mais que apoio financeiro, são reconhecimento do mérito científico, da liderança acadêmica e da contribuição continuada ao avanço do conhecimento. As bolsas garantem continuidade, fortalecem grupos consolidados e estimulam a excelência, mais do que isso, desempenham papel essencial na formação de novas gerações ao permitir que pesquisadores experientes continuem orientando estudantes e multiplicando capacidades”, completou.
Celebrar os 75 anos do CNPq é, nas palavras de Nader, também reafirmar um compromisso com o futuro. “É importante dizer com clareza: não há sistema de ciência forte sem financiamento estável, previsível e compatível com a ambição de desenvolvimento da nação. O fortalecimento do CNPq exige compromisso contínuo do Estado brasileiro para que a ciência, tecnologia e inovação sejam cada vez mais presentes no enfrentamento dos desafios do presente. Vida longa ao CNPq”.

Símbolo dessa visão de país, o Almirante Álvaro Alberto emprestou seu nome a um dos maiores prêmios da ciência brasileira. Vencedor do Prêmio Álvaro Alberto em 2023, o médico e Acadêmico Cesar Victora foi convidado a falar na cerimônia. Nascido em 1952, portanto um ano mais novo que o próprio CNPq, Victora é exemplo da continuidade e estabilidade que a instituição permite. O cientista conta com o apoio do CNPq há quase cinco décadas, período no qual revolucionou a compreensão global sobre a importância da amamentação na primeira infância.
Antes de suas contribuições, o estado-da-arte no cuidado com a primeira infância defendia a suplementação da alimentação para além do leite materno. A introdução de chás, sucos ou ultraprocessados como o leite em pó era comum, baseado em observações feitas nos Estados Unidos onde a ocorrência de obesidade infantil já era comum. A partir da pesquisa nas coortes de nascimentos de Pelotas, o então pesquisador da UFPel demonstrou a importância da amamentação exclusiva. “Nós mostramos, por exemplo, que crianças que recebiam apenas o leite materno morriam 14 vezes menos do que as que recebiam outros alimentos”, informou Victora.
Físico e ex-presidente do CNPq, o qual recentemente deixou para assumir mandato de deputado federal, o Acadêmico Ricardo Galvão homenageou diretores, funcionários e ex-presidentes da instituição, com destaque ao falecido Acadêmico Erney Plessmann de Camargo. Ele também elogiou o recente Programa de Mestrado e Doutorado Acadêmico para a Inovação (MAI/DAI). “Muita gente diz que a ciência é uma ‘torre de marfim’ que não dialoga com o setor produtivo, mas esse é um programa espetacular e altamente exitoso”, defendeu.
A médica e Acadêmica Denise Pires de Carvalho é atual presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), instituição que também completa 75 anos em 2021. Enquanto o CNPq está subordinado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), a Capes integra o Ministério da Educação (MEC), e juntas as duas instituições respondem pela quase totalidade do financiamento federal de bolsas. Em sua fala, Carvalho comemorou a aprovação do projeto de lei que estendeu os direitos previdenciários aos pós-graduandos. “Só através da ciência, tecnologia e inovação deixaremos para trás o modelo colônia de exploração, não há desenvolvimento apenas com commodities”, afirmou.
Por fim, discursou a ministra da CT&I, Luciana Santos. “Celebrar o CNPq é celebrar o caminho de um Brasil que resolveu celebrar sua inteligência, transformar talento e esforço individual em política pública e fazer do conhecimento um pilar do desenvolvimento nacional. Vivemos um momento geopolítico internacional complexo e nessas horas precisamos nos agigantar, queremos soberania nacional e isso quer dizer ciência e tecnologia”, enalteceu a mandatária.
Assista à cerimônia completa: