Os participantes da Sessão Temática “Planeta Frágil – Biodiversidade e Meio Ambiente”: Lúcia Lohmann, Mercedes Bustamante, Rafael Loyola e Beatrice Padovani.

Após um hiato de quase três anos sem encontros presenciais, a edição de 2022 da Reunião Magna da Academia Brasileira de Ciências ocorreu entre os dias 3 e 5 de maio, em formato híbrido, com sessões presenciais realizadas no Museu do Amanhã (Rio de Janeiro/RJ).

A primeira Sessão Temática, intitulada “Planeta Frágil – Biodiversidade e Meio Ambiente”, foi mediada pela vice-presidente para a Região de Minas Gerais e Centro-Oeste da ABC Mercedes Bustamante e contou com apresentações dos cientistas Lúcia Lohmann (USP), Beatrice Padovani (UFPE) e Rafael Dias Loyola (UFG), que refletiram acerca de questões relacionadas à biodiversidade brasileira e perspectivas de conservação para o futuro.

O futuro da biodiversidade

A biomédica Lúcia Lohmann, diretora do Departamento de Botânica da USP, fez uma síntese de dados sobre botânica, zoologia, geologia e climatologia – tópicos indispensáveis da pesquisa sobre biodiversidade – e como a integração das pesquisas nessas áreas podem auxiliar na preservação dos ecossistemas brasileiros.

Em um aspecto global, as florestas que sucederam a extinção dos dinossauros tornaram-se muito mais ricas do que eram nos períodos anteriores. Lohmann estima que, no Brasil, haja 50 mil espécies de plantas; no entanto, a grande maioria delas ainda não foi catalogada. Um estudo sobre as lacunas de conhecimento na biodiversidade brasileira identificou que, apesar de haver ausência de amostragem em diversos biomas, os maiores números estão, de fato, na Amazônia – uma das áreas mais biodiversas do mundo, mas que atualmente conta com apenas 12 mil espécies catalogadas.

Na fauna brasileira, por exemplo, temos 26.800 espécies de besouro, 700 espécies de mamíferos, 2.000 espécies de anfíbios e répteis, 2.000 de aves e 3.500 de peixes descritas. Embora os números pareçam grandes, os cientistas da área avaliam que apenas 10% da biodiversidade nativa tenha sido documentada até hoje. Segundo Lohmann, o processo de pesquisa é trabalhoso e dividido em múltiplas etapas, como estudos genéticos, trabalho de campo, extração e sequenciamento de DNA, necessitando da colaboração de diversos especialistas. “O problema do nosso setor é que o conhecimento ainda é muito fragmentado. Em média, descrevemos cerca de 285 novas espécies de plantas por ano – um número muito pequeno”, explica a professora, que defende a colaboração como chave para o sucesso da pesquisa na área.

Enquanto o Brasil fica para trás na catalogação de suas espécies, outro fenômeno está tomando proporções avassaladoras: a extinção das espécies. De acordo com os estudos realizados pelo Centro Nacional de Conservação da Flora (CNCFlora/RJ), pelo menos metade das espécies já catalogadas correm risco de extinção, sendo 43% de plantas nativas da Mata Atlântica, 30% do Cerrado e 13% da Amazônia. Entre elas estão espécies de alto valor econômico, como café e cacau. “Basicamente, estamos perdendo as espécies antes mesmo de conhecê-las e descobrir seu uso potencial”, alerta a cientista. “E quanto maior o número de espécies no planeta, maior é a probabilidade de serem encontrados novos organismos tolerantes a mudanças climáticas e outras ações do tempo”, apontou Lohmann.

Quando pensa num futuro otimista para a humanidade, ela diz que pensa em uma série de mudanças que precisam ocorrer. “Uma delas é o incentivo a pesquisas multidisciplinares em biodiversidade”, comenta a pesquisadora. “Além disso, falta investimento em ciência e tecnologia para que possamos descobrir essas novas espécies antes de elas se tornarem extintas.”

As soluções apontadas pela pesquisadora começam ainda na educação básica, incluindo a biodiversidade nos currículos escolares. Lohmann cita o conceito de big history, um conjunto de práticas de pesquisa acadêmica, de abordagens e de princípios epistemológicos voltados para o estudo da variação e da transformação no tempo, como um conteúdo fundamental que deve ser adaptado para crianças e jovens estudantes. “Apenas através desse tipo de ação será possível formar jovens engajados, conscientes e dispostos a lutar por um planeta sustentável”.

Diversidade da paisagem marinha tropical       

Na Década Oceânica, é impossível falar sobre biodiversidade sem abordar a preservação e a conservação dos oceanos e dos biomas marinhos. A professora titular de oceanografia da UFPE Beatrice Padovani foi convidada para apresentar questões recentes sobre o tema e como o Brasil pode colaborar para a preservação e sustentabilidade dos oceanos – que ocupam cerca de 75% da superfície terrestre.

Padovani explica que há cerca de 200.000 espécies marinhas identificadas, mas os números reais podem estar na casa dos milhões. “Sabemos pouco e exploramos menos ainda esses tópicos”, comenta a especialista. Já na rede global, a perda tem sido imensa e a principal mudança a ser feita é a diminuição do desmatamento (que acarreta na erosão do solo) e da emissão de carbono, que tem crescido exponencialmente nos últimos anos.

O Brasil se recupera de uma série de eventos oceânicos que deixaram graves sequelas nos ecossistemas, como o branqueamento geral da costa brasileira, com a mortalidade massiva dos recifes de coral, e a taxa mais alta de elevação de temperatura oceânica desde o início das medições, em 1998. Com um intervalo cada vez menor entre esses ocorridos, torna-se difícil a recuperação total dos biomas marinhos, que ainda lidam com as grandes ondas de calor. Além disso, no Brasil há tambémforte presença da atividade pesqueira – principalmente a de subsistência – que precisa ser regularizada. A oceanógrafa defende que é preciso levar informações para essas pessoas, para que a atividade seja mais bem regulada.

Padovani defende que há muita coisa a ser feita, inclusive expandir a ciência cidadã para além da coleção de dados. Para ela, há a necessidade sempre de haver alguém que possa influenciar positivamente sua comunidade local, levando informação de qualidade. “Informação é tudo. E é de divulgação a informação cientifica que a gente precisa”, afirmou a pesquisadora. 

A última chance de viver um futuro com diversidade

Com o avanço da pandemia, as consequências das mudanças climáticas cada vez mais notórias e a emergência de novas doenças, questões que já preocupavam os cientistas ganharam um destaque ainda maior, tornando-se emergenciais não apenas para a ciência, mas também para o setor privado e seguradores. “Chegamos a um ponto em que não há mais como fingir que não é com a gente, que não é algo global”, disse Rafael Loyola, professor da Universidade Federal de Goiás (UFG) e membro afiliado da ABC entre 2017 e 2021.

Diariamente, o planeta perde parte da sua biodiversidade e da sociobiodiversidade associadas à perda da vegetação nativa, além de fatores indiretos, como alterações nos padrões de consumo, mudança climáticas, crescimento demográfico. Um exemplo apresentado por Loyola é o da Reserva da Cantareira (SP) que, quando em nível baixo, gera falta de água para a população urbana, que representa 85% da população total no país e 93% no Sudeste. Essa grande concentração de pessoas nos espaços urbanos acentua também outros problemas, como a desigualdade social.

Os dados apresentados por Loyola são preocupantes: cerca de 47% dos ecossistemas naturais da Terra já desapareceram; 1/4 das espécies conhecidas hoje – um número que ainda é muito pequeno, considerando a diversidade existente no planeta – está ameaçado de extinção.   

Um espaço importante de debate sobre a diversidade biológica hoje está sendo a COP15, iniciativa da Organização das Nações Unidas (ONU). Sediado em Kunming, China, o evento foi dividido em duas partes, tendo a primeira delas ocorrido em outubro de 2021, para debater o objetivos e metas de conscientização e preservação para o futuro. O objetivo é criar um Marco Global Pós-2020, ou seja, estabelecer um conjunto de metas de conservação e uso sustentável dos recursos naturais para ser atingido até 2030. A consolidação do projeto – uma espécie de “Acordo de Paris” do meio ambiente – ocorrerá no segundo semestre de 2022. De acordo com Loyola, “precisamos de metas ambiciosas, holísticas e, claro, suporte às negociações.”

Para enfrentar um problema tão complexo, é necessário pensar com “cabeças diferentes”. Loyola defende o trabalho interdisciplinar, que envolva  profissionais de economia, saúde e ciência de dados. Juntos, serão capazes de selecionar as melhores práticas e os avaliar os riscos das ações. O pesquisador espera que o Brasil proponha e participe ativamente dos debates sobre mudanças climáticas e preservação da biodiversidade, estabelecendo metas reais e incentivando a interdisciplinaridade. “Cada meta discutida tem implicações para as espécies, para os ecossistemas e para as genéticas. Como o uso vai ser regulado, como as populações tradicionais locais vão receber direitos de uso daquilo? Há coisas ramificadas que precisam ser entendidas.”

Para o diretor-executivo do Instituto Internacional para Sustentabilidade, é preciso entender que a biodiversidade faz parte de um sistema natural. “Embora na academia consigamos colocar cada coisa na sua caixinha, não é possível fazer isso na prática. Na natureza, é tudo uma coisa só e isso precisa ser percebido”.

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Assista à transmissão completa do primeiro dia de Reunião Magna.