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Zika vírus: biologia estrutural e desenvolvimento de novos antivirais

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Publicado em 2/08/2017

Inédito no Brasil, o vírus zika levou a recorde de casos no país entre os anos de 2015 e 2016 e mobilizou pesquisadores e equipes médicas para entender do que se tratava a doença. O grupo do Acadêmico Glaucius Oliva , da Universidade de São Paulo, conseguiu desvendar a estrutura da proteína básica para a replicação do vírus, passo importante para a produção de medicamentos para combater a doença.

Doutor em cristalografia de proteínas pela Universidade de Londres, Glaucius Oliva é Professor Titular do Instituto de Física de São Carlos (IFSC-USP) e coordena um grupo de pesquisa com composição multidisciplinar, reunindo físicos, biólogos e químicos. A equipe publicou na revista Nature o estudo que descreve a estrutura da proteína essencial do vírus zika.

O vírus, que teve sua primeira detecção feita na floresta de Zika, em Uganda, no ano de 1947, já causou epidemias em outras partes do mundo antes de chegar ao Brasil. Oliva comentou que após primeiros estudos que mostraram os efeitos leves da doença, o vírus ainda apareceu outras vezes no Paquistão, Malásia e Indonésia, entre 1977 e 1978; depois na Micronésia, em uma epidemia em 2007 e na Polinésia Francesa, que inclui o Taiti, em 2013. É suposto que foi em 2015 que o vírus chegou ao Brasil, durante a Copa das Confederações, possivelmente com a ida da delegação taitiana para Pernambuco, primeira região brasileira afetada.

Oliva explicou que os sintomas da zika e da dengue, ambas transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti, tinham grande semelhança, sendo a zika considerada uma versão mais branda da dengue. No entanto, os pesquisadores notaram diferença crucial na manifestação da zika, uma vez que nunca antes havia sido registrado um flavovírus capaz de atravessar a placenta ou de ser transmitido também pela relação sexual. Neste momento, o vírus zika se tornou um grande perigo para mulheres grávidas, principalmente mais adiante, quando se passou a relacionar casos de microcefalia com a infecção por zika.

O interesse do grupo de Oliva pelo estudo deste vírus, que se comportava de forma tão diferente de outros da mesma espécie, cresceu. Eles então passaram a integrar, junto com outros pesquisadores de São Paulo, a que foi informalmente chamada de Rede Zika. Foi a primeira vez que a equipe se dedicava ao estudo de um vírus.

Os pesquisadores escolheram o caminho da definição da proteína NS5, enzima polimerase responsável por copiar o RNA do vírus e assim replicar o vírus no organismo. Para isso, previram a estrutura das proteínas usando modelos digitais, totalizando 16 construções. Em seguida, clonaram os genes do vírus e os inseriram em bactérias para que estas produzissem as proteínas virais e assim eles pudessem separá-las e analisá-las. Utilizando cristalografia de raio –X, chegaram a menor escala possível, tendo, enfim, a localização dos átomos que formam a molécula de proteína.

A partir daí o trabalho do grupo é encontrar uma substância que consiga interromper o funcionamento dessa polimerase, impedindo a replicação do vírus e servindo de base para a produção de fármacos que combatam a zika.

Oliva também comparou a estruturas entre os vírus da zika e da dengue emparelhando suas sequências de RNA. A conclusão foi de uma grande diferença entre os dois. “O grande desafio é descobrir porque os dois vírus têm comportamentos tão diferentes, sendo tão parecidos. O vírus de Uganda também é um pouco diferente do vírus do Brasil e da Polinésia Francesa”, explicou o Acadêmico.

O estudo do grupo publicado na revista Nature foi o segundo citado na listagem de final de ano feita pela revista Science, que dedicou longo espaço ao tema da zika. Oliva lembrou que o Brasil saiu na frente nos estudos do caso e foi exemplo de pesquisa: “80% dos trabalhos sobre o assunto eram do Brasil”, mensurou o Acadêmico.


(Thaís Soares para NABC)


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